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29/02/2024

Evangeline

Pirraça

E o blogue é meu. E  eu é que sei.


Faço o que bem entendo por mais palerma e infantil possa parecer. E se me der para ser chata como a potassa e voltar à carga com conversa sobre maridos e gatos, volto. O Ritz anda a correr feito maluco pela casa fora, a fazer travagens no tapete turco, como quem faz surf. Enrodilha-me o tapete várias vezes por noite. E lá terei de pôr tento no Nuno que com a aproximação dos 60 - vá, primeiro ainda vai fazer os 59, mas anda desde Julho meio macambúzio com conversa deprimente do "estou velho", meio extra-enérgico com propostas como a de fazer caminhadas todas as noites. Sucede que está um frio de rachar e já enregelo quanto baste de manhã, à hora de almoço e ao início da noite ao ir e vir do trabalho. Só me faltava agora estes sprints nocturnos.


E pronto, depois deste apontamento dignificante, vou fazer o café - ai credo, ele diz que ainda não, vai comer um gelado antes, com este friiio? E em seguida pedir-lhe que passe o reumon gel no pescoço, ombro e na omoplata direita. Raio de jeito que arranjei esta tarde.


E pronto, agora que já estive uns minutos debaixo da manta a aquecer e estou o tomar o cafezito quente já estou mais recomposta e já reconsiderei e vou publicar esta palermice que há meia-hora tencionava apagar para não fazer figuras tristes.


E até pus bonequinhos e tudo. Ou a neura de meio da manhã ou o bom espírito do fim da noite. Cada dia é uma aventura.

Coisinhas boas: pedras

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Philip Glass


Depois de uma manhã com apontamento ácido, preparo a banda sonora para a tarde de trabalho. Quanto à manhã, que dizer? Assim nunca vais ser considerada, menina. Assim ninguém te respeita. Ora vai lá buscar os ensinamentos lifestyle (para serem lidos em tom de educadora de infância): tens de ser empática, fofinha, não te podes mover por rancores, deves aderir às mudanças, que é como quem diz às modas debilóides. Ora vai lá buscar os ensinamentos intelectualóides: tens de decalcar e elogiar os argumentos e ironias vip. Vá lá, faz um esforço para viver em sociedade. Quem sabe daqui a duas ou três encarnações não te dá para ser cobarde, falsa e mentirosa? Até lá vais vivendo na sombra.


E no postal seguinte as pedras. Sim, se é para ser tida por tonta e não gozar de qualquer crédito neste mundo de sumidades - de gente tão sábia, recta e bem comportada, investida no papel de orientadora de opinião -, há que demonstrá-lo.

Bons conselhos para vencer como verme

Queres destaque e sucesso? Sê cobarde, dissimulado, ofende à traição e pela calada aparentando uma atitude educada, cordial e amiga, papagueia os lugares-comuns disseminados como ditos inteligentes e diferenciadores da elite fajuta enfeitando-os de erudição postiça, acusa o comum mortal de ignorante, elogia e faz-te íntimo de quem está na mó de cima e pisa os que não têm voz, com oportunismo fareja todos o nichos onde possas pilhar valor alheio e usa tudo quanto possas em proveito próprio. E sobretudo surfa todas as ondas fáceis de cavalgar, faz por agradar a quem está a ganhar mentindo e enganando se preciso for. Elogia e junta-te sempre aos (previsíveis) vencedores e desdenha dos (previsíveis) vencidos - não interessa se os que elogiaste há cinco ou há dois anos sejam os que desdenhas hoje e vive-versa, tens é de estar na crista da onda da "análise". É tiro e queda. A receita certa para o êxito no mundo viciado da aparência.

Devaneios e outras considerações

Há poucos segundos devaneava com possível obra para conseguir uma sala minimamente aceitável na modesta casa de bairro económico que ontem vi na Internet. Nem entro em detalhes de como fazer conjugar todos os factores que a fariam nossa: ter a sorte de não haver logo uma oferta de outro potencial comprador, conseguir vender o nosso apartamento a tempo de com o produto da venda comprar a pequena moradia, etc. Mas isso também agora não interessa nada, há tanto que está na cabeça nos últimos dias. O de hoje excepcionalmente trabalhoso. Sempre a dar-lhe, perdi a conta aos emails, às chamadas.


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O jantar com malagueta para espevitar o dia. À hora de almoço aquela indisposição mais psicológica do que física - será?, ou haverá causa física para estas revoadas de má onda que passam? Já as encaro com o espírito de “sei que logo passa”, mas não as consigo contornar. O que me haveria de dar na meia-idade. Manias que quando mais nova não me autorizava e bem via serem muito comuns nas congéneres: os vaipes, os humores variáveis. Enfim, dizem que isso é ser gente, é o que nos dá humanidade.


Mais? Assim à rédea-solta. Pensei no conto do patinho feio e numa divagação que escrevi há talvez dez anos inspirada nele. Não sei onde pára nem é importante. Hoje no meio da má disposição pensava apenas como alguns são atirados para vidas acanhadas e incompreendidas por simples estupidez de uma maioria audível leviana, irreflectida, ignorante e egoísta. A preguiça de compreender o que possui mais profundidade caso não venha nos catálogos do visto e referenciado; tudo quanto não tenha os pozinhos intelectalóides insuportáveis de tão forjados e pretensiosos. O desdém pelo que é autêntico por medo, por cobardia de assumir o gosto pela beleza do que é simples, e a adesão ao simplismo e ao redutor, ao maniqueísmo, de modo a ser alçado a previsível destaque da inanidade por agradar a uma facção – o que é preciso é que haja audiência, é que venda. O tédio face ao que não comporta intriga ou gargalhada, o enjoo pela reflexão, substituída pelo desporto do argumento e contra-argumento. A arrogância que assenta na preguiça de perceber a profundidade para lá da sofisticação forjada, na cobardia em aceitar o simples e no tédio pelo que não tem maledicência, cria vidas artificiais. Irmanadas artificialmente na vacuidade. Vidas solitárias entre a multidão apostada na mimetização. Manadas de informados, manadas de consumidores de entretenimento cultural, manadas de eruditos. Todos a repetirem inanidades em troca directa de louvores e favores. Vidas solitárias, vãs. Vazias de sentido e camufladas debaixo de risinhos, de ditos espirituosos, de sarcasmo fácil e cobarde, decalcados dos cânones do socialmente recomendável – longe vão os tempos em que era arriscado ou um acto de audácia contar uma piada. Hoje na opinião e no humor vinga a futilidade da afirmação do ego à custa de o ter bem enquadrado no que é dado pela intelligentsia, cada vez mais pífia, cada vez artificial. Cada vez menos criadora, menos corajosa, menos independente.


Mais? Acerca das eleições, ainda sem dizer o que penso (nem sei se o vou dizer), adianto que me custa cada vez mais ler ou ouvir argumentos a preto e branco. É evidente que há lados, há perspectivas, mas cada vez me cansam mais os incapazes de se mostrarem flexíveis a justos na avaliação dos factos - ou sendo capazes, por tacticismo fazem tábua rasa da verdade distorcendo a realidade para defenderem o indefensável. Voltamos acima: aos argumentos simplistas e redutores dos comentadores e dos políticos para vender opinião ou caçar votos, julgando imbecis os leitores e os eleitores. Tenho cada vez menos paciência para quem desconsidera a verdade e os outros, tratando-os como se fossem burros aptos a serem objecto de lavagem cerebral.


E isto já vai longo e já me esqueci do que mais pensei hoje. Vou dar uns minutos para tentar lembrar. Hum, não foram precisos minutos, bastaram segundos. Tomara eu adoptar em definitivo a atitude correcta e justa face aos que desconsideram os outros (ainda que nem sequer se apercebam disso por pura displicência) simplesmente ignorando-os em absoluto. Isso seria o mais avisado, o mais justo. Toda a vida dei o benefício da dúvida, sendo condescendente com atitudes abusivas ou desrespeitadoras de quem num despropósito ridículo se acha superior e capaz de iluminar e destratar quem o rodeia, quando quase tudo quanto faz é destruir o que tem valor para fazer vingar interesses e modos próprios (ou alheios pilhados) por egoísmo, mesquinhez e caça ao lucro. Não valem um chavo.

28/02/2024

Sigur Rós


Pena não poder ver as paisagens por estar a trabalhar, mas oiço-as.

Sonho

Sonhei com bichos. Cães gatos e a questão da alimentação. O contraste de dar de comer uma só vez ao dia ou repartir a comida por duas ou três vezes. Vi a cozinha da minha infância e gente que já cá não está e me é importante, com quem debatia essas questões. E vi uma estranha caravana que à noite subia a rampa para o terreiro de casa: uma fila de veículos, entre eles um autocarro 22 (número estranho às minhas andanças reais, mas muito significativo do ponto de vista do sonho) e parelhas de bois grandes e brancos a puxar carro.


Já vi as interpretações. Não são nada más. O dia começa bem.

27/02/2024

Para registo: sondagens

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Debates

Continuo na saga da audição dos debates. Com sorte termino amanhã. Há instantes pus a hipótese de começar um parágrafo breve com impressões sobre a situação política e económica do país, mas contive-me mais uma vez. Limito-me de novo a ouvir devagar e em diferido como o caracol. Falta apenas escutar três debates. Nos últimos dias ouvi os seguintes:


Panca das Casas

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Ups, as ampolas de ferro já devem estar a fazer efeito. Já me sinto capaz de fazer mais uma mudança de casa. E esta apesar do defeito dos alumínios e de pequenina tem a vantagem de ser térrea. Ai, ai... (adoro suspirar e ter razões para suspirar). 


Mais uma entrada para a série a Panca das Casas. Coisas que me alegram.


(sei que o telhado é novo, mas isto vai meter água por todos os lados, não vai?)

26/02/2024

Diário

As últimas 24 horas neste blogue deram para tudo. Para o alerta de perigosas tolices da “ciência” médica no mundo online com que ninguém se parece preocupar, para devaneios sobre sentimentos, para a diatribe contra a vacuidade e a ofensa gratuita com que também quase ninguém se parece importar, para leitura de reflexão de uma cabeça estudada e avisada. E agora?, para terminar o dia, acrescentar o quê?


Três patetices. A primeira para dizer que um dos momentos altos do dia de ontem foi voltar a apanhar o vento gélido enquanto fazia o percurso da piscina municipal para casa de casaco aberto para não perder pitada do que melhor a Natureza pode oferecer: contraste. O frio voltou em força. A segunda para registar que voltei ao gabinete base: já não estou só durante o dia de trabalho. A terceira e última para recordar que há uns dias abri uma daquelas páginas muito inteligentes do mundo lifestyle. Ensinava o que não possuir no quarto para um sono de qualidade segundo as regras de Feng Shui. Lembro de três erros crassos: móveis grandes, livros não lidos e arrumação debaixo da cama. Escolhi-as por cometer todas estas heresias contra a arte chinesa. Não sei se me culpabilize - será que os juízos inteligentes contra a culpa judaica-cristã colhem aqui?, ou não valem se tiverem o cheirinho exótico da aculturação? -, por ter uma cama com medidas além standard e um roupeiro igualmente grande num quarto pequeno, por manter livros que ainda não li na mesinha de cabeceira, porque enquanto há vida há esperança, e a cama ter gavetas de arrumação em baixo. Não sei se adira à moda do colchão no chão e me livre de todos os móveis vivendo de ar e vento - ups, essa já passou; já não vou a tempo - para dar um ar minimalista. Esta vida moderna é uma canseira. Não sei para onde me vire para agradar ao lifestyle. Para bem, para viver verdadeiramente integrada, deveria obedecer à correria desenfreada do parecer bem, satisfazendo cada capricho das modas. Não compreendo como me consigo sentir bem sem isso - deve ser coisa de gente pelintra, sem bom gosto, desfasada da realidade, chata, enfim, não percam tempo. Isto não tem interesse nenhum.

Lido

António Damásio: “Há a substituição da educação, do tempo pessoal e de reflexão, pela diversão e entretenimento”, entrevista de Jorge Andrade ao neurobiólogo António Damásio, no Diário de Notícias, no passado dia 23 de Fevereiro.


Para quem defende a necessidade do auto-conhecimento, de consciência de si próprio na plenitude, ao invés de embarcar na auto-justificação, na auto-promoção e na aparência de erudição, para quem defende há muito a falta de real no espaço público (no qual os lúcidos são enxovalhados e acusados de alheamento) esta entrevista, que li agora à hora de almoço, veio mesmo a calhar. Deixo a reflexão mais ampla do que o que acabo de dizer para quem a quiser ler.

A vitória da inanidade e do atrito: quác-quác

Nada como denegrir ainda que dissimuladamente o que tem valor para dar espaço e realce ao medíocre. São escolhas. O que é preciso é que o mau e o sofrível sejam elogiados pelos apaniguados. O que é preciso é fazer cair em descrédito o bom, o que tem qualidade. O subterfúgio dos incapazes, dos oportunistas, dos que vivem encostados nas redes de relações interesseiras. Todos muito bem sucedidos ou em vias disso. 


As grandes audiências, que fizeram das Casas dos Segredos grandes sucessos, continuam a vingar na televisão e no mundo online, agora noutros formatos disfarçados de produto informativo-entretém. Viva a porcaria. Sempre muito destacada, sempre muito falada. Viva o saltitar adolescente entre o querer agradar com inanidades e o criar atrito gratuito à força toda. Viva o vazio de ideias próprias e a ausência de defesa daquilo em que se acredita. Há gente que não vive sem intriga, sem maledicência com alvos determinados - todos quantos possam fazer sombra e pôr a nu a vulgaridade que domina o espaço público. Há gente para quem tudo o não seja aparência e rasca é aborrecido. Os mesmos que têm a lata em perorar sobre mediocridade ou estupidez alheia. Os mesmos que gostam  de fazer aconselhamento à moda dos livros de auto-ajuda - é o patamar dos holofotes dos patinhos, a que está destinado quem cai no logro de querer vender-se à força toda. Só rindo. Quác-quác.

E foi isto que escapou

Serei capaz do nada criar linhas com sumo e beleza? Do vazio total de ideia, fugindo ao comezinho do dia, gerar coisa que não me envergonhe? Saída de espicho, sem premeditação de espécie alguma porque a verdade é que neste instante não existe nada na intenção.


O bom dos contrastes. O calor quando o corpo está frio e pede, o frio quando o corpo está quente e agradece. Se vivêssemos da temperatura amena dos ambientes artificialmente climatizados não teríamos como pedir nem agradecer. Seríamos assim uma moleza de gente satisfeita com não sei quê a que não conheceríamos os contrastes nem por isso mesmo as qualidades.


Seria demasiado fácil partir daqui para os toques do amor. A sensação boa do morno gostoso das mãos dele nas zonas frias da pele. Macia como a descobriu lá tão longe no tempo, e ainda hoje. Temo as pequenas e múltiplas rugas do pescoço de vi há semanas à luz de um sol fulgurante no retrovisor do carro, mas ainda não confirmadas nos espelhos que vingam em casa à meia-luz. Pescoço a envelhecer nestas preocupações fúteis de quem se envaidece do eterno elogio ao veludo de pele branquinha. E quanto gostava em mais nova de a dourar ao sol na praia no Verão, achando-me mais sadia e bonita. Contrastes.


A felicidade está na intimidade e anda longe do afogadilho da paixão. Não é que não haja contentamento no entusiasmo, na excitação. Mas saborear a felicidade implica familiaridade com o tempo que empresta a extensão da alegria à alma, não a prendendo apenas ao corpo. E não só, não a asfixiando às mãos dos instintos. Paixões há muitas, algumas transformadas em amor de tão fortes sentidas por algum tempo, mas a alegria perene na alma trazida por um amor compreendido é toda uma outra conversa.


O entusiasmo da Primavera foi distraído, não se demorou para reparar nas pernas elegantes dele lá atrás no tempo longínquo. Ficou por uma visão genérica e inspiradora de mouro esguio, que diz mais do preenchimento das fantasias próprias do que cada traço do corpo e carácter do amado.


No Outono o amor compreende os traços e pede tempo e cumplicidade para ser feliz. Para deixar de ser excite e confusão. Para deixar de ser obsessão passageira. O amor pede dedicação ao que o amado é e não às fantasias do que supomos ser. Deixá-lo ser, deixá-lo respirar, preocupar, falar, mimar, zangar, entristecer, silenciar, alegrar. Deixá-lo ser e gostar de acordar contente, sentindo-o.


E foi isto que escapou.

25/02/2024

Alerta

Observando as páginas online de destaque palerma diria que não tarda nada chegaremos à conclusão que há oito mil milhões de distúrbios ou transtornos psicológicos - um por cada ser humano. Avançámos do patamar das pessoas tóxicas – como se sabe vão desde gente chata aos que nos contrariam, o que é muito irritante – para os mais variados transtornos mentais que se traduzem em características ou defeitos de personalidade ou carácter. Um absurdo que induz gente menos avisada a acusações patetas de diagnósticos da treta.


Não percebo nada disto, mas diria que seria do mais elementar bom senso aconselhar os especialistas na área – médicos psiquiatras e não artistas de variedades que pululam a comunicação social e as redes sociais – a alertar publicamente para o logro destes “conteúdos” e esclarecer os consumidores de "informação" online da diferença entre doença mental (e transtorno de personalidade) e traços de personalidade ou carácter.


É só mais um alerta para a insanidade que começa a vingar por não haver critério no que se publica nem no que se destaca na Internet.

Kham Meslien

Quadriário

Na quarta-feira repeti a burricada que tinha feito no ano passado. Distraí-me e tomei em jejum o comprimido de zinco, um manipulado da farmácia que me receitaram novamente por causa da queda de cabelo. A dificuldade é conjugar a medicação com as refeições atenta a profusão de químicos que ingiro diariamente. Resultado: fiquei retida em casa de manhã em mau estado. Li mais tarde páginas da Internet que o aconselham em programas de dieta. Não haja dúvida que a imbecilidade é livre. Emagrece com toda a certeza e em poucos minutos/horas. Se experimentarem várias vezes pode ser até que desapareçam de tão magros.


Na quinta-feira fomos à consulta do Nuno que trouxe o diagnóstico (provisório) de uma nova doença para a nossa casa – para completar o catálogo. Na maioria dos lares seria tida por péssima notícia, tal como teria sido para mim há vinte e cinco anos. Porém o tempo e as vidas mudam tudo: fiquei genuinamente contente. Foi como se fosse ao médico temendo uma pleurisia e saísse de lá com o diagnóstico de constipação. O Nuno ficou um pouco abalado, mas teve muito mimo e telefonemas demorados de todos e logo se recompôs, que remédio.  A perspectiva é tudo na vida, pelo que fomos jantar à tasquinha daqui da rua para festejar. Ele comeu uma espetada, eu salmão. À chegada a casa caí na cama redonda de tão cansada.20240222_202424.jpg


Entre quinta e sexta-feira apresentou-se uma questão profissional que ainda não deslindei. Começa a aproximar-se a circunstância esperada mas sem prazo certo que há-de definir o meu futuro nessa matéria. E continuo sem saber qual vai ser esse futuro. Para meu desagrado compete-me – já dei o passo antes sem que pudesse ver resultados atentas circunstâncias objectivas que ultrapassam a vontade de quem pode decidir - voltar a chegar-me à frente para uma conversa sobre a definição da minha situação. Ainda não o fiz outra vez, talvez mais por temer resposta positiva de que negativa. A negativa significa apenas a manutenção da vida tal como está, com diminuição de benesses, nada a que não esteja habituada e viva bem. A positiva ou a abertura à possibilidade implicaria da minha parte voltar a impor condições a que não estão habituados e agora em contextos que me são desconhecidos. Mais do que tudo implicaria um passo fora da concha, que por mais áspera e limitante possa ser, confere sempre a sensação de protecção. Claro que o conselho sábio que dou a mim mesma é o de não perder nada em propor os meus termos e ouvir a resposta, apesar de saber que o mais provável seja um não. Simplesmente adiei.


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Este Sábado, depois do acordar, do café bem-disposto e da mimalhice do gato, saímos apenas de manhã para fazer uma digitalização de documentos na loja do indiano na rua e ir à padaria. Viemos para casa e almoçámos filetes de dourada, que não me souberam particularmente bem. Passámos a tarde inteira na lazeira, na melhor das sornices, ou nem tanto na inércia assim. Deu direito à bebida de fim-de-semana – desta vez vodka limão - para molhar a garganta seca. Portei-me bem, bebi apenas um quarto da garrafita, assim sobra para a próxima vez. Quem sabe amanhã? Só faltou o cigarrinho a meias. Hoje senti a falta deste remate.


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No fim do dia ouvi dois debates e conversei ao telefone. E esta noite como é muito costume cada um no seu estaminé. Com visitas regulares para partilha de leituras e audições. O Nuno veio mostrar-me David Holland e daí parti através das sugestões do YouTube para Kham Meslien, que oiço enquanto escrevo. Amanhã prevejo um dia bom, apesar de não ter nada como certo. Se tudo correr bem, tomaremos café bem-disposto a meias com a mimalhice do gato, sairei para ir nadar, lerei as notícias, almoçaremos quiçá uns simples ovos mexidos, tomate, azeitonas e pão, veremos o jornal das duas, faremos mais sorna ou nem tanto, ouvirei mais um ou dois debates, voltarei a entrar no mundo de ficção de um amigo e ao fim do dia ouvirei a minha bruxa de Domingo - agora tem dia certo.


Mais? Seria escusado perder tempo com estas coisas que desgastam e estragam o lado bom da vida, mas conto que por estes dias tropecei novamente na intrujice barata de quem continua a tentar inventar enredos de heteronímia auto-justificativos por divertimento e masturbação narcisa em vez de pura e simplesmente assumir sem historietas falsas próprias de romance de cordel as borradas que fez na vida e desaparecer de vez, tal como tropeço por burrice (devia simplesmente ignorar) em mais do mesmo vindo de outra banda: na leviandade e no gosto pela ofensa. Podiam juntar-se os dois à esquina a tocar a concertina e dançar o solidó. Perfeitos paspalhos ao triste fim dos quais terei todo o gosto de assistir a distância cautelar para não sentir o cheiro nauseabundo a que fedem.


A próxima semana fechará o mês e com ele espero ter encerrado a audição dos debates e conseguir organizar algumas ideias acerca do que cada um defende. Nada que julgue vá alterar a minha decisão de voto nulo, mas por mero interesse e curiosidade pelo que se passa na cabeça dos meus compatriotas votantes. Sempre quero tentar compreender como observam e decidem os portugueses depois de tudo quanto se tem passado nos últimos anos e quão condicionados estão pelas lavagens cerebrais.

Dave Holland

24/02/2024

Debates

Volto a deixar aqui a ligação aos debates para não perder a ponta da meada deste périplo pelas conversas entre os oito candidatos às legislativas de 10 de Março, que comecei a ouvir com atraso de sete dias sobre o início dos programas de meia-hora cada. Começaram a 5 de Fevereiro, deixei-os ganhar lanço, iniciando a audição dos podcasts a 12 de Fevereiro. 


Tentei e consegui até certo ponto (é impossível fugir totalmente) não ler nem ouvir opiniões acerca das contentas nos jornais, programas de informação e humor (vai dar ao mesmo: os filtros redutores de pensamento são os mesmos, apesar de conferirem a quem os consome a sensação de maior iluminação face aos ignorantes que não alinham na ladainha em voga), blogues e redes sociais. Prefiro manter a atenção nas intervenções dos protagonistas políticos e menos nos enredos e maledicências dos milhentos treinadores de bancada - dos de nomeada aos anónimos. Esse papel é o mais fácil, qualquer um de nós pode tê-lo. Atirar umas larachas acerca de deslizes, infelicidades ou contradições e caricaturá-los exaustivamente esvaziando o discurso político do que pode ter de melhor - a definição dos princípios e objectivos de cada opção de governação - pode entreter e ter muita audiência, mas não me parece tarefa muito desafiante nem proveitosa para o país. Enfim, concedo: diverte, tem a vantagem de alegrar os portugueses. Mas nada muito além disso e da ilusão de ficarem muito esclarecidos - o logro da lucidez. Bom seria partir do conhecimento do que os políticos dizem e defendem e não valorizar apenas as intrigas, caricaturas e piadas.


Hoje - dia seguinte ao último dos debates que estou a ouvir em diferido com atraso de uma semana - continuo sem dizer nada acerca da substância dos ditos, nem sei se vou ser capaz de escrever qualquer coisa consequente sobre o que interessa. Oiço os oito candidatos, tão só.


Nos últimos quatro dias ouvi os seguintes:



 


Entretanto é Sábado à noite, estou descansada e agora que já trarei da obrigação vou escrever por devoção na(s) próxima(s) hora(s).

Lido

Arnaut Moreira. "A guerra da Ucrânia vai sobrar para a Europa. Do ponto de vista físico, da confrontação", no Observador.


Excertos do balanço de dois anos da invasão da Ucrânia e das perspectivas de futuro na Europa, pela voz sensata do major-general Arnaut Moreira.



Putin age através de três grandes linhas de ação: os bloqueadores, os agitadores e os narradores.


[...]


Viktor Orban, por exemplo?
Sim, mas também Erdogan, Mike Johnson nos Estados Unidos. Estes são os bloqueadores. São pessoas que estão dentro do sistema e podem bloquear todos os avanços que permitam o auxílio à Ucrânia. Depois, existem aquilo que chamo os agitadores. Estes nem sempre sabem o que fazem, porque agem por motivos que não têm a ver com a guerra. Os agricultores polacos, que estão nas auto-estradas bloqueando o trânsito dos cereais ucranianos para a Europa e para outros lados, entram neste campo dos agitadores. São pessoas que têm coisas a defender e isso acaba por contribuir para que a Federação Russa tenha um acréscimo de superioridade em relação à Ucrânia. Eles agem por conta própria.


[...]


E temos ainda os narradores. São pessoas, que muitas vezes, sob um perfil de independência, e isso é importante para poder chegar ao público, não fazem mais do que transmitir a narrativa de Moscovo.



 


Dá-lhe credibilidade…
Sim. Tucker Carlson, o homem que entrevistou Putin, é um destes narradores. Sem ter uma uma posição crítica vai engolindo tudo o que ouve e depois, ainda se presta ao serviço de ir glorificando tudo aquilo que vê aqui e ali, procurando mostrar como a Federação Russa é que está no caminho certo. Mas há outros também importantes. Elon Musk foi o homem que providenciou e disponibilizou a rede Twitter, agora X, para a difusão da entrevista de Tucker Carlson a Putin. E basta ver os seus [Musk] comentários nas redes sociais, também ele está muito mais próximo do presidente russo do que da administração norte-americana. Estes três: os bloqueadores, os agitadores e os narradores têm permitido a Vladimir Putin somar algumas vitórias naquilo que diz respeito à coerência da atuação do mundo ocidental.


[...]


Estamos literalmente a gastar munições…
Estamos tão depauperados, que a certa altura não temos nem munições nem equipamentos para dar à Ucrânia, nem para nos defendermos. Porque não basta entregar. Apoiar foi o gesto mais útil que pudemos fazer, mas era o gesto imediato. Entretanto, em dois anos, produzimos o quê? O que é que produzimos que nos permitissem encarar, ao fim deste tempo todo, com segurança a nossa própria defesa? Porque, quem esteve atento à conferência de segurança de Munique ficou com esta ideia de que — é uma perspetiva praticamente unânime — isto [a guerra a Ucrânia] vai sobrar para a Europa. Vai sobrar, do ponto de vista físico, da confrontação, e a Europa continua a pensar que não, que isto vai ficar na Ucrânia e lá muito longe.


[...]


No arranque da guerra Putin conseguiu o contrário, unir o Ocidente. Agora, temos aqui um outro dado, Donald Trump pode ganhar as presidenciais nos Estados Unidos em novembro. O que poderá acontecer depois?
Trump já está a ganhar. Se o problema ocorresse só em janeiro, altura da tomada de posse, isso dava-nos um ano de preparação para pôr as máquinas de produção militar a funcionar. Só que já não temos esse ano. Trump parece que está na presidência desde meados de dezembro do ano passado, porque Joe Biden tem sido absolutamente incapaz de obter também os consensos entre os dois partidos para que o apoio norte-americano a Ucrânia seja efetivo. Há outro aspecto fundamental nisto (é a minha visão): há uma enorme coincidência na visão estratégica entre Donald Trump e Vladimir Putin, nenhum deles acredita nas instituições multilaterais. Estas instituições foram criadas para evitar a guerra ou diminuir as consequências dos conflitos e para proteger os mais pequenos. Proteger os mais pequenos no sistema internacional é conseguir um conjunto de garantias através das instituições multinacionais que impeçam que os pequeninos acabem por desaparecer no confronto com os grandes. Putin e Donald Trump têm exatamente a mesma visão do sistema internacional: é que não interessa para nada esta coisa das instituições multilaterais. Por exemplo, Trump pensa porque há-de negociar com a União Europeia (UE)? A UE são mais de quatrocentos milhões de pessoas, tem um PIB enormíssimo e tem peso. Se a UE não existisse, Trump iria negociar com cada um dos países individualmente. 


[...]


E, na prática, se Trump ganhar, o apoio norte-americano, que tem sido fundamental, pode ficar em causa?
Há um expressão que é, para mim, a mais definidora de Donald Trump feita em ambiente de campanha eleitoral — não acredito que ele também não esteja a pensar assim — se ele for eleito presidente dos EUA a guerra na Ucrânia acaba num dia. Isto só é possível de uma maneira: entregar a Ucrânia à Federação Russa, não há outra. Vejo aqui avolumar-se um conjunto de problemas que a Europa não vai conseguir resolver em tempo. A Europa não foi capaz, por culpa própria, de alimentar a própria NATO.


[...]


No entanto como, durante anos e anos, nunca investimos os 2% na defesa, as capacidades perderam-se. Agora, quando invisto 2%, o que estou a fazer é a manter as atuais capacidades, que não estão operacionais.


Ou seja, é pagar a água, a luz e o gás…
É exatamente isso e os ordenados. Não sobra nada para aquilo que é preciso, que é repor a capacidade operacional e os 2% são insuficientes para isso. Mas o problema não é só esse. Não temos apenas de recuperar as nossas capacidades operacionais, temos também de sustentar a guerra na Ucrânia. Para isso, é preciso um esforço suplementar do ponto de vista dos gastos com a defesa. Esta questão dos 2% é ridícula, de quem não faz contas sobre estas coisas e de quem não vê que este valor não é para esta situação. Para isto contribuiu o facto de a Alemanha nunca ter atingido os 2%.


Só agora atingiu essa percentagem.
Exatamente.


[...]


A de Serguei Lavrov [ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia] é: podemos chegar a um consenso para acabar com a guerra se reconhecerem que estes territórios, que agora foram ocupados, pertencem e integram a Federação Russa. Esta é a base negocial para tudo na visão de Lavrov. Depois há versão de Vladimir Putin, que defende que os territórios conquistados são russos, mas ainda “não procedemos à desnazificação” do regime, o que significa que a ambição não é apenas de natureza territorial, é também de natureza política. É preciso substituir o regime que está em Kiev por um que seja favorável a Moscovo. Seria uma espécie de Bielorrúsia 2.0. E ainda há o Dimitri Medvedev [vice-presidente do Conselho de Segurança Nacional russo], que é muito claro e sem rodeios: a Ucrânia nunca existiu, não existe e não vai existir. Mais claro do que isto não poderia ser. O propósito final da Federação Russa não é ficar com os territórios do Donbass e da Crimeia, é moldar um regime em Kiev que seja favorável a Moscovo. Isto é cada vez mais difícil do ponto de vista político porque, entretanto, todas aquelas regiões, que no passado costumavam votar a favor dos regimes russófonos, já não podem votar no regime em Kiev uma vez que já foram incorporadas na Federação Russa. Ou seja, cada vez mais o horizonte eleitoral disponível na Ucrânia, excluindo os territórios ocupados, não é pró-russo, é claramente anti-russo. Pela via eleitoral, muito dificilmente o Kremlin poderia atingir os seus objetivos. Precisa, portanto, de uma pressão militar sobre Kiev. A Federação Russa não desistiu de chegar à capital ucraniana. Todos os que acham que vamos tornar a Rússia dócil se lhes fornecermos a Ucrânia e o Donbass estão a fazer a mesma coisa que fizemos quando achamos que Putin ia ficar satisfeito, em 2008, com os territórios na Geórgia ou com as sublevações no Donbass e a anexação da Crimeia em 2014. De território em território, porque a Europa não está preparada para a guerra, vamos cedendo progressivamente à Federação Russa. Esse é o preço que se paga quando não estamos preparados para assumir uma coisa que temos que assumir: a guerra pode não ser da nossa escolha, pode nos ser imposta, podemos não a querer, mas podemos ter que fazer a guerra. E para isso, temos de estar preparados e é isso que ainda não se ouviu no Ocidente.


[...]


Mas antes de terminar e para não ficarmos com a ideia de que Putin ganhou com tudo isto, importa explicar, que a Federação Russa perdeu muita coisa e vai continuar a perder. Há agora uma aliança alargada, que vai ter a Suécia muito brevemente e já tem a Finlândia. O Mar Báltico transformou-se num mar da NATO. Há uma nova e longa fronteira de mais de 1400 km com a Finlândia e Aliança Atlântica. A Polónia, entretanto, ganhou confiança e está rearmada. 30% da frota do Mar Negro foi afundada. O risco da operação naval no Mar Negro ocidental é hoje em dia imenso e a Federação Russa já não arrisca ir para lá. Ganhou uma dependência estratégica da China, que não tinha anteriormente e tem 300 mil milhões de dólares em bens congelados no Ocidente. Este é o resultado da guerra e não é apenas a conquista de Adviivka.


23/02/2024

Ainda a admissão das fragilidades

Dizem: há que saber o que desejar. Ter definidos os objectivos. Como se fosse fácil. Sobra-me a impressão que meia vida ficaria resolvida se tivesse a certeza do que quero – confissão que nunca vejo feita por outros, neste mundo de gente tão afortunada e ciente das suas vontades. Em bom rigor resolveria muitas vidas. Há quem tenha dificuldade em concretizar. A mim custa mais decidir o que desejar - apesar disso a muito me atirei no percurso sem medir as consequências - do que fazer pela vida.


Ainda a admissão das fragilidades - isto tem pano para mangas; daria uma série. De onde virá a insistência tão fora de moda? Teria muito mais saída se me mostrasse muito segura, imune às dificuldades e impermeável à opinião alheia. Ainda que nada disso correspondesse à verdade. Assim sim, a aparência seria tida por coragem. 

Tamino


Tem 27 anos e uma bonita voz, este filho de mãe belga e pai egípcio. 

22/02/2024

Uma patetice por dia não sabe o bem que lhe faria

Há muito não me dedico aos mapas astrais. Mas recordo ter descoberto o quão enviusada (agora que pegou moda o enviesar já podem aprender outra variação do verbo e usar este adjectivo; eu deixo; sou magnânima) fica a interpretação do mapa por uma questão de horas. Sem saber a hora de nascimento é impossível extrair a informação desejada dos astros. A título de exemplo, descobri que quem nasça ao meio-dia terá o Sol na Casa 10 que é uma posição cobiçada por muitos.


À época em que me dedicava a estas coisas, às quais voltarei assim que me apetecer e tiver disponibilidade, ficava a congeminar a hora de nascimento de gente que circum-navegava o meu mundo. Na qualidade de pateta curiosa ficava/fico com pena do desconhecimento de pormenores tão relevantes.

Yann Tiersen

21/02/2024

Estado de espírito

Sem assunto. Mas não sem vontade de escrever. Dir-se-ia o cúmulo da lata e vacuidade. Seja. O preconceito não me aquece sem arrefece. Não vou contar mais uma ideia luminosa, das centenas que me surgem ao ano. Não tanto por me irritar não concretizar a maioria, até porque realizo algumas delas e isso já é muito bom, mas por serem de facto muitas. Até a mim me canso. Fico exausta comigo mesma. Então, perguntam, porque não abrandas?, não reduzes o que pensas, focando no essencial? Porque não escreves menos e mais consistente ou com objectivo mais definido? Resposta: não me apetece. E manda a evangelização da psicologia, da religião e da bruxaria: ah, mas temos de ser mais assertivos e resilientes (linguagem de psicólogo lifestyle), mais sacrificados (oração da religião), mais crentes em nós e na ajuda da espiritualidade (mezinhas das bruxas). Em suma: todos têm razão, devemos ser trabalhadores e disciplinados. Óptimo, mas não me apetece seguir o guião da disciplina convencional. Crio disciplina própria.


Também não vou cair hoje no diário. O que teria de mais relevante a contar seria um mal-estar passageiro de saúde e só a referência já me desgosta. Uma menoridade, se bem que saiba faça parte da vida e goste habitualmente de a espelhar tal qual é e não dar uma imagem ideal. Nem contar que ouvi dois debates. Amanhã logo os junto ao que se seguir para voltar a fazer o postal com o elenco das contendas ouvidas e uma ou duas linhas acerca de que me vier à telha. Nem vou projectar o dia de amanhã, como também é costume por aqui. Terei de me levantar mais cedo. É tudo. Nem vou pôr fotografias do jantar, que não foi nada de especial e serviu apenas para suprir as necessidades básicas como é comum em muitas circunstâncias apesar de hoje haver o gosto de fantasiar cada refeição como se de uma questão de arte se tratasse e não do mais básico instinto de sobrevivência. E não estou a tentar dar o ar de dificuldades económicas, quando muito o de frugalidade e de uma atitude comum face à realidade: gostar pouco de inventar no essencial. Igualmente não vou procurar música ou animações no YouTube, se bem que neste caso fique tentada. São formas passivas de viver o momento e de em simultâneo ser surpreendida. Não desgosto. Entre tudo o que não vou fazer esta noite, estas duas seriam a que mais me tentariam. Por fim, não vou esperar pela meia-noite para publicar este postal no intuito de fazê-lo concorrer nos mais comentados. Manias.


Como passa pouco das dez e meia ainda vou ter tempo para ler umas páginas do livro no activo, mas com esta preguiça boa que me assola não sei se chego ao fim da segunda página. Gosto da expressão livro no activo (não há nada como a vaidade), faz-me sentir cheia de energia. E batoteira também, convenhamos. Até porque um deles está pousado há uma semana. Lá está, não há nada como o discurso e a aparência para se construírem imagens falsas. A retórica é um mundo lindo de mentiras, isso sim. Umas com perna curta aos olhos de quem for observador.


Adormecerei rápido. Nem alegre nem triste, nem empolgada com grandes projectos nem desanimada. É muito provável que caia nos braços de Morfeu com a sensação de um dia cumprido e nos poucos minutos que levarei entre fechar a luz do candeeiro e a queda no sono talvez reveja as conquistas e alegrias dos últimos anos. Afinal é preciso lembrá-las, reparo ultimamente. Gozá-las e adormecer.

20/02/2024

Debates

Dando sequência à série de postais acerca das eleições de 10 de Março, deixo a última ronda de debates ouvidos:



Depois de 14 debates ouvidos - vou a metade da maratona de sacrifício - e partindo da dúvida entre votar Nulo e votar na AD não saio do que já havia previsto: confirmo não ter intenção de votar AD e muito provavelmente manterei o voto Nulo.


Veremos se sempre levarei avante a ideia peregrina de no fim da ronda dos debates fazer um apanhado geral tocando pontos (que recorde) defendidos pelos oito partidos/coligações. Por enquanto não fiz nada. Oiço, tão só.

Yann Tiersen


Banda sonora desta bonita manhã. A recomendação caseira foi que ouvisse a La Noyée e dela parti para pesquisas no YouTube até chegar a este concerto.


Este homem tem composições assombrosas de tão belas.

Manhã

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À semelhança dos anos de pandemia e agora por razões informáticas estou a trabalhar desde a semana passada sozinha num gabinete. Espero para a semana voltar à confraternização habitual apesar da mesa com espaço mais exíguo.

19/02/2024

Triário

Se tentar espremer os três últimos dias, o que sai? No Sábado acordei cedo como é habitual nos últimos anos. Mas de ressaca da boa-disposição da noite anterior. Como se tivesse de pagar o preço por ter estado alegre. Não bebi senão o meio copo ao jantar, gente má-língua. Refiro-me a ressaca em termos figurados. O maior à vontade e soltura comigo mesma da meia-idade trouxe também mais variações de humor. Ou menor tendência a reprimir os humores. Ou costumava ter tudo mais sob controlo ou de facto estou mais solta também nas más-disposições.


De modo que no Sábado de manhã escrevi o que me veio à cabeça. Implicações com os defeitos alheios. Afinal não convém focar apenas nas pechas próprias.


Depois do almoço recebi os meus pais para a leitura habitual e o cafezito. E tentei alterar a disposição dos quadros da sala e do segundo quarto. Simplesmente trocá-los de lugar. Não correu bem à primeira. Esburaquei mais a parede e acabaram por cair os de traços e cores fortes da sala. Só no Domingo assentaram no poiso desejado. Ainda no Sábado ficaram pregadas as flores em tons suaves no segundo quarto. Assim por lá ficam os últimos vestígios de suavidade que idealizei ao montar a casa de Bessa Leite. Já não tem lugar na cabeça e vida de hoje. Além de mais tirei também o relógio de pintura propositadamente desgastada para dar ar de velho e a inscrição “Imaginary” que está sem ponteiros há anos e resolvi livrar-me dele.


Saí a meio da tarde em busca de uma moldura, da casa de fotografias para imprimir duas imagens e de gesso para tapar os buracos. Comprei a moldura, as lojas de fotografia e a drogaria estavam fechadas. Pelo que vou ter de esperar para me estrear na arte de trolha. Ainda assim no Domingo pus molduras com três fotografias: uma do Nuno em adolescente no Brasil, outra da minha enteada trajando de enfermeira e a última nossa no almoço de casamento com os três amigos que o testemunharam. Esta está provisória por ser uma cópia mal-amanhada conseguida na loja do indiano aqui da rua. Usei pregos “amigos do senhorio”, dados pela minha mãe e assim denominados na loja do chinês. Têm uma mini chave de fendas de plástico azul apetitosa para segurar o prego e evitar martelar os dedos.


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Antes, no Domingo de manhã, li em voz alta três entradas dos Titãs e nadei 37 minutos. Ao almoço vi o jornal, depois o Nuno Rogeiro. E de tarde creio ter perdido tempo. Bem bom. Dormi também. Durante o fim-de-semana não ouvi debates.


Esta segunda-feira senti calor. De manhã vesti roupa a mais, não me apercebendo da subida da temperatura. Escrevi mais um post crítico. À tarde estive confortável. Há quem vá interpretar que o desconforto térmico provoca mau humor. Ao longo do dia ouvi dois debates sem grande atenção e dei os giros habituais pelas leituras online. Pareceu-me ter visto uma reacção desajustada a um post anterior meu, mas posso estar enganada. De qualquer modo, se era intenção reagir erraram completamente no alvo. Enfim, patetices. Sigo caminho indiferente ao que possam pensar e mesmo desinteressada do que eu posso julgar erroneamente que pensaram.


Cheguei a casa com a ideia de fazermos um cruzeiro de fim-de-semana no Douro, com regresso de comboio. A ver vamos se concretizamos. À noite vi o debate do dia. Tenho opinião bem definida sobre o dito, mas não vou dá-la, pelo menos hoje, depois logo vejo se me apetece. Mas o mais provável é que não dê. Afinal o dia 10 de Março serve para isso. Depois do debate demos uma volta pelas redondezas, rimos e o Nuno disse que estava farto de ser explorado, referindo-me ao quão chata sou pedindo que opine acerca do que escrevo e quão mal reajo quando diz coisas que acho não fazerem sentido. Disse-lhe que se está cansado, arranje outra. Ele retorquiu que eu tenho de mudar. Desenganei-o: não vou mudar. E rimos.


Ao sentar-me aqui na mesa do computador a ideia que voltou à mioleira a propósito de postais como os das compras do supermercado, das plantas, dos pássaros, diários comezinhos, voltinhas de fim-de-semana, planos vulgares, curtas leituras, jantares triviais, etc, foi a de dar-me como exemplo aqui no blogue numa tentativa de representar os pequenos (e grandes, quem sabe?) problemas e preocupações e as concretizações do dia-a-dia de um português comum, acabando por dizer bastante mais nas linhas e entrelinhas do que os quilómetros de opinião tida por muito séria e rigorosa debitada nos espaços informativos da televisão, dos blogues e outras redes sociais. Repito o que disse aqui num postal antigo com o título Alfarrabistas. Se não representar o português comum, representar-me-ei a mim e às minhas misérias. Nem tudo está perdido. Até porque ainda que tudo evapore nada foi em vão: valeu ter-me entretido a dizer o que sinto e penso de modo independente.

A força de assumir as fragilidades

Há quem julgue os outros pelas falhas para daí retirar a conclusão da fraqueza alheia. Mas nunca o faça em causa própria. É uma forma de afirmação por suposta comparação com um ideal ou modelo representado pelas qualidades do próprio crítico - considerar os outros menos capazes, menos inteligentes, mais ignorantes confere uma sensação de poder, de estatuto em que se auto-investe. Isto é uma menoridade aos olhos de gente consciente, isto é, de quem conhece não só as suas capacidades e qualidades como as suas deficiências. E sabe assumi-las.


Este é um mundo ao contrário para muitos habituados à mentira de egos insuflados pelas modas nas últimas décadas das esfregas bacocas da auto-estima, que afecta muitos dos oito aos oitenta. E é também a nossa ancestral chico-espertice. Ao lerem isto muitos considerarem nada existir aqui de novo. Aliás é bem provável que pensem: mas toda a gente sabe isso. Na verdade, não sabem. Se soubessem não insultavam os outros todos os dias insistindo em esconder os defeitos para aparentar uma imagem de logro de sofisticação, de perfeição ou quando muito pequenos pecadilhos que se apresentam de modo subtil e irónico para dar um ar ainda mais inteligente, elegante e superior. Todos tão tolerantes, tão trabalhadores, tão inteligentes, tão lidos, tão informados, tão cultos, tão democratas, tão injustiçados por não lhes ser reconhecido o génio, tão sérios, tão críticos da corrupção do vizinho e do político, tão respeitadores da lei, tão cumpridores e credores de respeito. Pena que depois o país feito de cada uma destas puras virgens seja outro. Não bate a bota com a perdigota por discrepância entre o discurso e a acção, por ausência de consciência no modo de agir de cada um no seu dia-a-dia, por falta de auto-critica. É a forma certa de nunca melhorarmos, de nunca evoluirmos.


Um povo que não conhece nem assume para si próprio as deficiências apontando-as sempre ao vizinho ou ao político não é capaz de usar as qualidades que podem ajudar a supri-las. Um povo mentiroso que vive da aparência não pode progredir de forma sustentada ou segura. É um logro.


É desagradável dizer isto. Pouco popular. Seja. Não escrevo para ser simpática ou conquistar palmadinhas nas costas, no objectivo de conquistar um lugar confortável, amigos ou relações interesseiras, nem para impressionar ou chocar na defesa de um mundo puro, nem para as audiências. Escrevo apenas o que sinto e penso - essa é a minha ambição e chega. Deixo-me ir sem medir vantagens. Arrisco ser desprezada. Arrisco a derrota que me é bem conhecida. Não a temo. Há coisas piores. Prefiro mil vezes a derrota à aparência e à mentira. Sou narcisa e convencida da minha razão. Basto-me.

18/02/2024

De castigo

Pára tudo. Reparei agora que deixei por aí um comentário no qual escrevi "há noite". Isto só pode ser praga, bruxaria, mau-olhado. Maldade que algum espírito ruim me desejou para me pôr a fazer figuras tristes. E o pior é que tenho a sensação que foi praga para a vida toda. Não me livro disto, apre.

Da água para o vinho

Corro o risco de considerarem que falo no ar sem concretizar, ou melhor, sem identificar as pessoas de quem falo. Tanto melhor, é mesmo essa a ideia. Não gosto de intriga. Há momentos ou assuntos em que é preferível o pensamento à personificação, que só introduziria excite e curiosidade. A propósito de cinema esta semana li por acaso duas pequenas passagens - de pessoas que não conheço e de quem foi a primeira vez que li textos - são da água para o vinho e exemplificam distinguindo aquilo que gosto daquilo que não gosto nem um pouco.


Num caso falava-se de um filme de época e admitia-se logo à entrada desconhecimento de factos históricos relevantes. É sabido que gosto de franqueza e mais ainda da admissão de ignorância, sobretudo quando vem acompanhada de curiosidade e vontade de aprender, que é o caso da autora que logo a seguir demonstrou ter suprido a lacuna no seu conhecimento procurando entender o que sucedeu no contexto histórico retratado pelo filme. O texto estava bem escrito, sem erros nem pretensões.


O segundo caso era uma tentativa de catalogação e julgamento de um filme a imitar os críticos de cinema. Mal escrito e com recurso a jargão técnico em inglês para impressionar quase nada se aproveitava. Meia dúzia de linhas de sentenças no vácuo. 


Nada melhor do que aprender. Nada pior do que achar que se nasceu ensinado e se dá lições. E a minha crítica não é em especial ao uso do inglês, até porque há quem seja muito patriota nisto da escrita e recorra sempre à exibição de sapiência, ao acinte e à sentença, nunca admitindo desconhecimento e defeitos próprios tal é o umbigo. Em suma, há quem minta bastante e viva da aparência. Preferirei sempre a lisura de quem não esconde as falhas. 

Sigur Rós

O diâmetro do folículo piloso

Ajudada pelo comentário da semana passada de uma pessoa muito mais nova, inteligente, sensível e que confia nos outros, de que tudo na vida tem uma explicação cognitiva vou tentar explicar a sensação que tenho ao ver postais antigos das Comezinhas abertos por outros “por associação” a pensamentos meus não revelados.


Hoje até nem é dos casos mais patentes. Há dois dias lembrei-me deste postal por ter visto noutro blogue uma imagem de letreiro. Foi uma associação simples. Mais uma vez não comentei com ninguém nem fiz visitas online alusivas. Lá foi aberto ontem por quem visitou as Comezinhas. Este em particular não espoletou em mim nenhum encadeamento de ideias e conexões. Ficou-se por aí mesmo.


Mas em muitos casos esta coisa das conexões e dos sub-entendidos próprios da vida em rede, onde ninguém conhece ninguém verdadeiramente, cria um montão de associações que podem gerar mal-entendidos e mal-estares. Primeiro pela dificuldade em confiar nas boas-intenções depois pela superficialidade das relações. Acresce que quando há fragilidades mentais e emocionais o sub-entendido pode descambar para o campo da insanidade. Noutra perspectiva, o que pode parecer falta de sensatez – mania da perseguição, falta de tino – ou noutros casos frieza, é antes: cautela. E distingue-se do cinismo de achar-se superior a estas questiúnculas e desconfiar de tudo e todos, dissimulando nos diálogos a verdadeira natureza.


Tudo isto só é ultrapassado pela confiança que só existe, para lá dos casos em que se é muito novo ou se arrisca muito por afinidade à primeira vista, quando há a segurança dada por um grau mínimo de intimidade, o que só acontece quando as pessoas se respeitam e tratam como iguais. Não havendo confiança nada de bom se cria. A sensação que sobra é: ah, se eu pudesse confiar.

17/02/2024

Debates

Continuando na saga dos debates e tentando orientar-me deixo aqui a ligação para o calendário dos frente-a-frente. Aproveito para ficar com este link que dá acesso aos ditos sem tralha de comentariado associada. Hoje não vi nenhum, ontem ouvi dois: 



Há 16 debates já passados para ver, fora os que ainda não aconteceram. A este ritmo corro o risco de chegar a 10 de Março sem os ter ouvido todos, quanto mais escrever o quer que seja acerca dos ditos, mas enfim: faz-se o que se pode (e apetece).


De qualquer modo, creio que faço bem. Ouvir os debates fora do burburinho opinativo do dia em que passaram nas televisões tem a vantagem do sossego dado pela distância. Não fico condicionada ou presa aos comentários e excitação da actualidade.


Aqui ficam as ligações para os postais anteriores relativos a estas eleições.


O que é que o postal anterior

O que é que o postal anterior - que parece pessoalíssimo, como quase tudo nas Comezinhas -, tem a ver com eleições? Tudo, além da carteira, o quadro mental e moral individual tem tudo a ver com a forma como cada um vota ou não vota.

Vinte e cinco coisas que detesto

Há dois anos fiz um post com cem coisas de que gosto: as cem razões para viver. É das entradas das Comezinhas que mais aprecio. Hoje sem aviso prévio nem sabendo porquê deu-me para escrever as vinte e cinco coisas que detesto. Tal como nas cem positivas, nas vinte e cinco negativas estarão em falta muitos itens. Quem sabe se não completo noutro dia?



  1. Gente presunçosa. Sim, todos nos achamos melhores em qualquer coisa, mas alguns exageram por falta de inteligência e sensatez.

  2. Gente mentirosa. Sim, todos mentimos, mas alguns exageram para obter vantagens indevidas.

  3. Gente que quer passar uma imagem de si mais inteligente do que é, i. é, gente que se revela estúpida. Complicando o discurso e raciocínio para dar o ar ou exibindo-se muito conhecedora, muito lida, muito estudada. Por exemplo, jamais escreveriam "coisas" no título, procurariam dizer comportamentos ou o que fosse por medo de dar a imagem de pouca-coisa.

  4. Gente que elogia demais e a eito por falsidade como forma de conseguir intimidade. Todos elogiamos, faz parte de viver em sociedade e é salutar quando genuíno; isto nada tem a ver com os/as profissionais do elogio interessado.

  5. Gente que repete frases supostamente “inteligentes” ouvidas aos gurus da televisão ou das redes sociais para aparentar sabedoria.

  6. Gente que usa com oportunismo os outros para singrar na vida. Todos estamos sujeitos a ser enganados por estes escroques uma vez na vida.

  7. Gente que se acha credora de deferência não tratando os outros como iguais.

  8. Gente que desconhece as regras da reciprocidade em sociedade substituindo-as por etiqueta fajuta.

  9. Gente que usa a condescendência como forma de se alçar a um hipotético patamar de hierarquia bacoca que só existe no mundo falso ou fictício dos círculos de relações interesseiras.

  10. Gente que se faz próxima ou amiga de pessoas destacadas em sociedade para fazer figura. Para quem toda a vida omitiu tais conhecimentos (refiro-me a conhecimentos reais e não virtuais) por pudor, essa exibição oportunista é medonha.

  11. Gente cobarde que se esconde atrás do anonimato, da pseudonímia e a pretexto da liberdade de expressão artística ludibria alvos escolhidos com premeditação para tirar vantagem.

  12. Gente que não confia em nada nem ninguém, achando sempre que está a ser enganada. Em regra, gente predisposta à má-língua.

  13. Gente que acusa os outros de falso moralismo ou puritanismo sendo mais falsa, mais má-língua e moralista. Vale aqui o quem diz é quem é. Trata-se de pessoas que dividem o mundo em dois campos: nós e os outros. Os que pensam nos nossos termos são lúcidos e respeitadores da liberdade de pensamento, os outros são moralistas, falsos e puritanos. Vingam sobretudo os que impõem a moralidade vigente ou mais na moda.

  14. Gente que trata com deferência e bajulação quem considera estar acima e com desprezo quem acha estar abaixo. Trata-se de gente verdadeiramente rasca seja qual for a sua ascendência.

  15. Gente que demonstra considerar ter mais a ensinar do que a aprender.

  16. Gente mal-agradecida. Ou agradecida de modo oportunista, isto é, os obrigados são sempre dirigidos a quem pode interessar. Não há genuínos obrigados a quem trabalha, ajuda, faz, ensina, cria valor. Havendo maneira de usar e desprezar estas pessoas, não se hesita tomando o aprendizado como resultado de iluminação própria.

  17. Gente que toma os outros pela aparência e confunde educação e conhecimento com formação académica, círculo de relações interesseiras, sucesso profissional, sofisticação da linguagem e rebusque das ideias.

  18. Gente que vive da auto-promoção e da promoção dos interesses da sua tribo em prejuízo da verdade e dos outros. Dizer que X é bom porque é meu ou é nosso é uma armadilha fácil de gente pouco honesta. Vale apenas para quem vê o mundo como um jogo de futebol, em que se é incapaz de reconhecer a superioridade do adversário quando ela se verifica.

  19. Gente incapaz de se mostrar como é nas suas fragilidades por vergonha da singeleza. Bom, aqui não detesto. Tenho pena. Acho apenas uma menoridade muito disseminada que enviesa a comunicação e uma vida saudável. Detesto sim, quando aliam a esta incapacidade o julgamento dos outros por se mostrarem como são.

  20. Gente insensível às necessidades dos outros. Todos somos um pouco, mas alguns exageram no egoísmo.

  21. Gente que não compreende que o mundo é injusto por natureza e nem todos tem as mesmas oportunidades. Gente que aposta tudo na capacidade de empenho e trabalho para que cada um seja o que quiser, só reparando no trabalho bem-sucedido (à conta também de outros factores escondidos) e não no trabalho árduo e sério sem sucesso, em rigor, sem aparência de sucesso. As diferenças não se limitam às condições económicas e sociais de nascimento (que podem ser superadas por inúmeros factores de sorte ao longo da vida), mas a outras condições, como a saúde, a química do cérebro de cada um, o país onde se nasce, a época do nascimento, as pessoas e circunstâncias que se encontram ao longo da vida, a educação, o quadro mental e moral e numerosos outros factores que nada dizem sobre a capacidade de empenho e trabalho, que é apenas um factor - importante, mas apenas um ao lado do enorme leque de circunstâncias que se prendem mais com a sorte.

  22. Gente que não muda ao longo da vida. Gente intransigente e obtusa que não aprende com a vida, com as pessoas e circunstâncias que surgem ao longo da vida, de tão presa fica nos preconceitos do que herdou e da educação. Isto é, gente que não evolui. Aqui como na questão do esconder das fragilidades não é uma questão de detestar. Acho uma menoridade. Um desperdício de vida ou ingratidão com as oportunidades dadas pelo Universo para evoluir.

  23. Gente que se acha muito independente, mas que é apenas egoísta e narcisa. A verdadeira independência não esquece nem prejudica os outros.

  24. Gente amarga a quem se conhecem mais ódios do que amores.

  25. Gente que critica demais, isto é, em muitos dias detesto-me.


Na verdade não será exacto dizer que muitas destas características me levam a detestar pessoas. Todos nós fechamos os olhos a defeitos graves (nossos e) dos outros caso sejam próximos ou possuam qualidades que superem ou diluam os defeitos. Tudo isto é muito nebuloso e possivelmente teria sido mais avisado ter descrito as imperfeições em si sem enfatizar o sujeito iniciando todas as frases com a palavra "Gente". Afinal não detesto gente, detesto os seus defeitos. De qualquer modo, não gosto mesmo da expressão "ninguém é perfeito" quando usada para desresponsabilizar comportamentos estúpidos que prejudicam outros ao abrigo do amparo fácil da acusação de falso puritanismo, muito conveniente a agressores que querem impôr a sua moralidade à lei da força.

Noitário

Desde sempre a minha mãe e eu fazemos serrote quando ouvimos auto-elogios à conta da culinária. Gente que diz de si própria que fez um prato delicioso, extraordinário, saborosíssimo ou o que seja, sempre nos mereceu zombaria. No meu caso faço ainda mais escárnio quando além de vaidosos desdenham da simplicidade ou falta de talento e rigor alheios – é ao que chamo presunção. Herdei da minha mãe natural tendência para auto-depreciar o que fazemos. E gosto de brincar com isso. Os meus irmãos estão habituados a gozar a situação piorando o cenário: está sempre tudo insosso, mal passado, frio, etc. O Nuno que, pelo contrário, é um elogiador nato já alinha e brinca dizendo que está a gostar muito do prato péssimo que a sogra cozinhou. Faz parte das gracinhas familiares.


Vem isto a propósito do jantar de hoje. Assei pargo e contra tudo quanto é hábito digo: ficou divinal. Há muito não me sabia tão bem um peixinho. Ainda desconfiei do ar um pouco amarelado à volta dos olhos. Não percebo nada disso, mas talvez signifique que não estivesse suficientemente fresco. Em todo o caso cozinhei-o de forma simples. Não gosto de frosquices na cozinha, como em quase nada na vida. Não está na minha natureza complicar. Por isso já aqui escrevi, suponho que o ano passado ou há dois anos: páginas de receitas com demasiados ingredientes e voltas nos tachos entediam-me. Além de mais costumo brincar em casa quando me pedem para juntar mais ingredientes ou molhos, perguntando que sabor querem disfarçar. É que a saturação de elementos faz perder a noção do paladar dos alimentos base, que me agradam. Por exemplo gosto do sabor do arroz branco, sem mais. Gosto do sabor a pão, sem mais. Cada um é como é.


Pus um pouquinho de cebola roxa congelada no fundo do pirex, dei três golpes de cada lado do pargo sobre o qual escorri pouco azeite misturado com massa de pimentão. Verti a mesma mistura sobre as batatas. Reguei com muito pouco vinho branco e salpiquei tudo com sal e bastantes ervas finas (mescla de salsa, cebolinho, estragão e cerefólio). Um quarto de hora antes de tirar virei as batatas. Assou tudo ao mesmo tempo durante cinquenta minutos a 180º. À parte cozi um punhado de couves-de-bruxelas que juntei ao prato antes de servir; o gosto amargo que adoro calhou muito bem com o peixe, no qual pinguei pouco sumo de lima.


Anteontem passaram-me ao lado as notícias do MP (houve arquivamento de inquéritos?). Ao longo do dia de hoje ouvi dois debates para as legislativas. De dia 8 e 9, creio. Não consegui estar totalmente concentrada. Amanhã deixo as ligações para continuar a não perder o fio da meada. Vi o Jornal da Noite distraída e com interrupções. Já tinha visto à hora de almoço a notícia do assassinato na prisão do opositor do facínora russo que nos calhou na rifa neste início de século. Depois do jantar, do Nuno lavar a loiça e de eu deitar o lixo fora (nada pior do que cheiro a restos de peixe) vimos as perguntas finais do Joker, jogo televisivo no qual hoje apareceram como concorrentes um simpático sogro e uma sábia (no bom sentido) nora. E antes de vir para aqui escrever o diário vi uns curtos minutos do debate entre Livre e Chega.  Pronto e foi isto. De resto, trabalhei.


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