Fará melhor escrever com a pica ou sem ela? Há sete horas estava cheia de ganas de contadora de histórias - nada criativas, com a graça do Universo. Agora que começo a dedilhar nem por isso. Irá notar-se nos parágrafos vindouros? § Findo o diário voltei cá acima para dizer que hoje fiz a coisa verdadeiramente comprida. Ainda bem. Fui-me espraiando e estendi o meu deleite, não o vosso. Desculpem qualquer coisinha, mas tenho prioridades.
Ontem foi um dia repleto. Do nada o Nuno acordou com vontade de fazer compras. Até de roupa para si próprio. Coisa nunca vista, jamais o vi tomar iniciativa de comprar trapos. Mas acordou-me a perguntar se queria ir ao centro comercial. Está avariado do juízo, pensei. Odeia esses antros de música barulhenta e zerechia. Mas lá fomos ao Norte Shopping.
![]()
![]()
A par do Cidade do Porto desde que vivemos juntos passou a destino de compras esse espaço herdado do tio Belmiro pelas gentes do Porto. Um senhor que em miúda me habituei a ver à distância respeitosa nos verões seguidos na praia de Porto de Mós, em Lagos, nas merecidas, pacatas e despretensiosas férias em família e de quem os intelectuais da treta gostavam de desdenhar do alto da sua imensa presunção e incapacidade de criar valor para o país. Hoje tirei fotografia à reprodução da máquina a vapor que ornamenta um dos corredores do espaço comercial para figurar nas Comezinhas. Porque parámos junto à peça mecânica para fotografar? Por o Nuno, desconhecendo que ali estava, me ter dito: trabalhar aqui a ouvir este barulho todo o dia deve ser pavoroso. Contei-lhe que estava ali uma máquina a vapor alusiva ao património industrial do Norte.
De modo que entrámos primeiro na H&M para o Nuno experimentar um par de calças que assentavam medonhamente em rodilho pernas abaixo. Íamos no encalço da Cortefiel, onde apesar de muitas peças de mau gosto sempre se encontram artigos compatíveis com o nosso e de alguma qualidade, mas parámos antes da Zara. Tal como na H&M havia apenas uma mesa com calças de homem de sarja e corte tradicional. Bom, tradicional é favor, são skinny, mas a essa modernice até já eu aderi - não gosto de ver o Nuno com calças largueironas. E lá ia como habitual escolher umas azul-escuro. Todavia desta vez contive-me. Evitei também as beges habituais, vendo que tinham umas cinza-esverdeado bonitas o bastante – a ideia de calças esverdeadas pode assustar, mas o meu olho vê cores diferentes dos outros, para os quais a cor das ditas é pura e simplesmente cinzento. E perguntei ao Nuno o que acharia de substituir as azuis por umas pretas, cor que nunca o vi vestir em calças. Não achou mal experimentar e trouxemo-las juntamente com as cinza-esverdeado do mesmo modelo, comigo ainda em dúvida do acerto e das camisas e polos que tem no armário para conjugar. Na segunda-feira ponho os dois pares na costureira para as bainhas. Nos provadores reparei num pai a ensinar o filho adolescente a escolher as medidas. A numeração de loja para loja também sempre me confundiu.
Das calças passamos para a lojas de lingerie em busca de soutiens para mim. Entrámos na Woman Secret onde há muitos anos compro pontualmente pijamas e roupa interior, mas saímos ao fim de cinco minutos dentro do espaço no qual fomos recebidos pela simpatia de uma menina que nos deu a inalar um perfume mal cheiroso para o dia dos namorados – maldade minha, que em parte substancial dos dias do ano detesto aroma de perfume, negando-me a acumular odores intensos sobre a profusão de cheiros que consumimos diariamente na pele: champô, sabonete, gel de banho e creme hidratante. Saímos ao fim de dez minutos repelidos pela agressividade e volume da música daquele antro. Seguimos para a Intimissimi. Mais uma vez atendimento cuidado. Atenção necessária por ainda andar às aranhas com as actuais medidas face à perda de peso, centímetros e elasticidade do corpo. Nada que duas meninas prestimosas não me ajudassem a resolver com fita métrica, da qual bem desconfiei. Quando vesti para experimentar o proposto, a realidade desmentiu a fita métrica. Depois de acertar nos tamanhos de dois modelos de que gostei bastante – terei de testar a durabilidade, essa é a questão actual que se põe na lingerie, porque de coisas bonitinhas estão as lojas cheias, agora que durem, nem por isso – paguei as compras um nada mais caras do que as calças do Nuno, que tem bastante mais pano e trouxe um cartãozinho escrito pela menina com os nomes dos modelos e o número para facilitar próximas compras. Assim com atenção e disponibilidade se ganha uma cliente. E assim se transforma um parágrafo que tinha tudo para ser apelativo num relatório do comezinho, aos olhos de muitos uma sensaboria sem interesse sobre compras pífias em lojas de pelintras. Uma maçada. Sofro tanto.
![]()
Faltava o último par de compras na Bertrand. Um livro para dar à S. de lembrança de aniversário e outro para a minha mãe, já que o Nuno no ímpeto com que acordou insistiu à exaustão que queria comprar sem pretexto um presente para a sogra. Destas aquisições falarei mais adiante. Conto apenas que pedi na caixa que me deixassem aberto um dos lados do embrulho para conseguir ler o livro antes de o dar à S. – o que não veio a acontecer -, conferenciando com a livreira que o faço sem sentimento de culpa já que presenteada procede do mesmo modo com os livros que oferece, por isso nos damos bem.
![]()
Da livraria saímos para almoçar no Pasta Caffé, onde somos repetentes. Almoçamos risoto de cogumelos, espargos verdes de bacon e ao sair para apanhar o Uber lá liguei como habitual no final das compras a máquina calculadora mental para fazer a soma de todos os gastos. Sim, faço isso, e também calculo o preço final de cada refeição num restaurante, prefiro não ser surpreendida, e gosto de acertar na conta – em miúdos fazíamos competição para ver quem ficava mais perto do valor cobrado no final. Junto às portas de saída do Centro Comercial, apurado o total gasto na manhã, comecei a embirrar com o Nuno e a demonstrar-lhe o que dão os ímpetos consumistas em que acabo por alinhar. Ele, naquela sensatez irritante de quem sabe saborear os prazeres da vida sem essa coisa chata e realista da contabilidade, ia sugerindo, o safardana, que estava feliz e que tudo o que queria era ver-me contente. Claro que tive que lembrar que se vivesse com duas pessoas que conheço bem, além do sermão ainda seria confrontado com a agendinha dos gastos discriminados ao cêntimo. Enfim, rabujei e ele aturou-me como é costume.
![]()
Já em casa ligou o meu pai a dizer que vinha trazer as botas. E também havia falado com a minha mãe: já estava combinado, viria continuar a ler as astronomias ao Nuno. Boa, apanhei-os juntos, gosto. Quando chegaram insisti num Vinho do Porto a quatro e tirei uma fotografia banal de mesa desarranjada e povoada de expressões autênticas para mandar para o grupo de WhatsApp que mantenho com os meus irmãos. Afinal as fotografias dos meus pais juntos cá em casa são uma espécie de troféu que gosto de exibir e partilhar com os meus irmãos. Enquanto bebíamos Vinho do Porto fui experimentando as botas que pedi ao meu pai levasse ao sapateiro para pôr novo fecho éclair – ainda não descobri sapateiro perto de cá de casa. Estão compostas e são muitíssimo confortáveis com a sola de borracha que parece espuma a elevar-me tipo trampolim – diz o meu pai ao ouvir-me descrevê-las: eh, podes ir trabalhar aos pulos, no primeiro impulso chegas daqui à Ramada Alta. Resumindo: gosto muito mais destas compradas o ano passado do que das duronas deste ano. Pode ser que durem anos. Não tantos como um certo par de sapatos do meu pai ao qual foi mudando ao longo de 17 anos as solas no sapateiro e se mantém impecável – compreendem agora a quem fui sair fonas de todo?
O momento alto da tarde aconteceu quando o Nuno deu o livro à minha mãe. A sogra não conseguiu disfarçar o olhar assustado pelo volume enorme do embrulho da Bertrand. Percebi de imediato o medo e descansei: não é um livro de divulgação de astrofísica. Goza o meu pai: ahh, a tua mãe já estava ali a penar o castigo. E nada custou à minha mãe confessar na franqueza que todos lhe conhecemos: sim, era assustadora uma leitura acerca de ciências daquele tamanho. E começaram os dois a falar da Pérsia e da sabedoria trazida pelos persas para a Península Ibérica em tempos remotos. Limitei-me a ouvi-los e a segurar no meu troféu invisível: continuam a entender-se bem depois de divorciados há mais de vinte anos. Há umas semanas participei aos dois que estavam proibidos de desaparecer antes dos cem, espero que acatem o pedido da filha, já que não faço a mais pequena ideia de como viver sem eles, e não me venham os sensatos falar do trabalho que os pais dão aos filhos e do dever que temos de os cuidar. Bem sei que tenho tido uma sorte desgraçada, mas faço sempre por ser eu a dar-lhes o maior trabalho possível e conto com eles para cuidarem de mim – esta é a minha estratégia para assegurar-lhes longevidade saudável e têm colaborado com galhardia.
![]()
Abre o papel de embrulho e vê O Mundo - Uma História da Humanidade, de Montefiore, e o sorriso no olhar disse tudo. Foi dizendo: é um faccioso, mas adorou. Foi nítido. O Nuno tem esse condão de dar alegrias à minha mãe – com ajuda minha, que além de saber escolher o genro, vou conhecendo a minha gente e bem sabia que depois do Jerusalém e dos Titãs não se ia ficar sem ler mais este. Ganharei eu nas conversas telefónicas diárias com os relatos ao longo de dois ou três meses – sempre esperançosa tenho isto tudo calculado sem deixar de pôr a hipótese de me saírem furados os planos. Naquele momento recordei um jantar há cerca de dez anos e do brilho instantâneo, intenso e radiante da minha sobrinha quando o Nuno disse que podia ensiná-la a tocar piano – não houve tempo para aprender, ficou-se por decorar músicas com a ajuda dos tutoriais da Internet, sem aprender música em si, mas já é alguma coisa. Resumindo: o Nuno roubou-me a família, essa é que é essa. Vejo a minha mãe sair com pesado livro no saco preparando-se para calcorrear os quase três quilómetros e digo: não é melhor levar noutro dia quando vier de carro? Responde-me lesta: não, não, este vai já comigo.
![]()
Sai o meu pai, entra o meu irmão N. com os labradores. Se a pachorrenta Pipa já havia quase chegado a entendimento com o Ritz, com o alegre Guna não vi alternativa senão fechar a porta do segundo quarto. Vi o Ritz uivar – parece-me o verbo adequado uma vez que aquilo que ouvi nada tinha a ver com bufar, assemelhando-se muito mais a um uivo – à Pipa que desandou rápido, porém o filho resolveu rosnar e ladrar ao meu príncipe felino e ele não gostou mesmo nada. Empertigou-se todo, arqueou e ficou em posição de ataque, vontando a uivar forte até eu arrastar o cão para fora do quarto e ter fechado a porta para que não se travassem de razões. Dei ao N. os presentes para entregar à S., além do Poesia Grega de Hesíodo a Teócrito, traduzida por Frederico Lourenço, um fio com um pingente de pedra ametista e lápis-lázuli, igual ao que dei à T.. Não faço ideia qual será a reacção da S. a estas bruxarias, mas logo saberei quando falar com ela. Nada como experimentar. Não contava estar com o N. hoje por isso julguei que ainda teria tempo para dar uma voltinha rápida na Poesia Grega, mas fica mesmo para outras calendas.
Depois de tudo passado dei uma breve arrumadela à casa que está muito habituada à ordem da quietude da vida pasmada a dois e não ao reboliço, jantámos o resto da caldeirada de ontem e dormi logo a seguir no sofá. Acordei e li agradada as primeiras vinte páginas do Quase Tudo, do João Afonso Machado. Interrompi por o Nuno vir conversar, por me distrair com leituras de blogues e, por fim, ter começado a escrever este diário. A ver vamos se o dia é sossegado o suficiente para continuar a ler o livro. O único esforço que tenciono fazer Domingo é o de ir a pé até à piscina municipal, já que dentro de água é puro gozo, como tento ao máximo seja a minha vida – por falar nisso, devia estudar os epicuristas. Ontem foi um dia bom. Repleto, para contrabalançar as rotinas.