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05/02/2024

A Guerra

Voltando à série A Guerra (cuja maior parte das entradas de Maio e Junho de 2023 pode ser lida aqui), vamos à emoção.


Uns engolidos na onda, outros por estratégia, mas igualmente desconhecedores do futuro, reagem com desnorte aos tempos que aparentam iminência de crise, catástrofe, morte. As efervescências políticas, geo-estratégicas, as guerras aquecem o ambiente emocional das massas e de cada um em particular. As sociedades que nas últimas décadas insuflaram o ego, descuidando a consciência ou auto-crítica, transformam-se em orquestras desafinadas com cada um a tocar a sua peça isolado ou em grupelho amargurado de interesses. Uns gritam pelas causas dos umbigos, outros agridem os activistas com a prosápia de tribo instalada, uns reivindicam direitos desabituados de cumprir obrigações, outros vivem de dar eco a exigências fragmentárias sem respeitar o todo, uns continuam no rame-rame videirinho disfarçado de trabalho sério, outros invejam e pilham o valor alheio. E quase todos estão convencidos da sua grande importância e discernimento.


O gozo com a ideia de respeito, satirizado e reduzido ao escárnio do respeitinho, fez perder o mínimo desejável de cerimónia trazida pelo bom senso. É muito bom que todos se possam expressar, mas seria desejável que passassem pelo filtro do razoável o que manifestam, reivindicam e criticam. Há anos está na moda afirmar-se sem filtros. Aparenta coragem quando pelo contrário pode constituir uma cobardia, um refúgio de afirmação e de falta de reconhecimento de falhas próprias atirando a culpa para diante. Uma sociedade com tantos indivíduos cheios de si, resultado das lengas-lengas da insuflação da auto-estima, precipita-se em estados de alma. A emoção delirante anda à solta, desligada de juízos de razoabilidade e justiça. Poucos escapam, uns porque se limitam a consumir e a regurgitar no espaço público as catadupas de informação divulgadas nos meios de comunicação e redes sociais em regime de excite permanente, outros considerando-se muito lúcidos fazem o mesmo mas seriando parcela da informação para a manipularem em favor dos seus interesses. Ou seja, uns por pura ignorância, outros por ignorância e oportunismo. Venha o diabo e escolha. Num post anterior já abordei esta tolice, não valerá a pena insistir mais por hoje.


Verdadeira ou falsa a imagem que fica é de uma sociedade quente em vésperas de catástrofe. Com cada individuo contando ter pouco tempo de vida e desatando a disparatar numa multiplicidade de últimos desejos insana em que todos berram e ninguém tem razão nem critério. Enquanto o futuro arregimenta a orquestra do Universo que, sereno e frio no lugar dele onde sempre esteve, espera compreendam que o desconhecem.