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19/02/2024

A força de assumir as fragilidades

Há quem julgue os outros pelas falhas para daí retirar a conclusão da fraqueza alheia. Mas nunca o faça em causa própria. É uma forma de afirmação por suposta comparação com um ideal ou modelo representado pelas qualidades do próprio crítico - considerar os outros menos capazes, menos inteligentes, mais ignorantes confere uma sensação de poder, de estatuto em que se auto-investe. Isto é uma menoridade aos olhos de gente consciente, isto é, de quem conhece não só as suas capacidades e qualidades como as suas deficiências. E sabe assumi-las.


Este é um mundo ao contrário para muitos habituados à mentira de egos insuflados pelas modas nas últimas décadas das esfregas bacocas da auto-estima, que afecta muitos dos oito aos oitenta. E é também a nossa ancestral chico-espertice. Ao lerem isto muitos considerarem nada existir aqui de novo. Aliás é bem provável que pensem: mas toda a gente sabe isso. Na verdade, não sabem. Se soubessem não insultavam os outros todos os dias insistindo em esconder os defeitos para aparentar uma imagem de logro de sofisticação, de perfeição ou quando muito pequenos pecadilhos que se apresentam de modo subtil e irónico para dar um ar ainda mais inteligente, elegante e superior. Todos tão tolerantes, tão trabalhadores, tão inteligentes, tão lidos, tão informados, tão cultos, tão democratas, tão injustiçados por não lhes ser reconhecido o génio, tão sérios, tão críticos da corrupção do vizinho e do político, tão respeitadores da lei, tão cumpridores e credores de respeito. Pena que depois o país feito de cada uma destas puras virgens seja outro. Não bate a bota com a perdigota por discrepância entre o discurso e a acção, por ausência de consciência no modo de agir de cada um no seu dia-a-dia, por falta de auto-critica. É a forma certa de nunca melhorarmos, de nunca evoluirmos.


Um povo que não conhece nem assume para si próprio as deficiências apontando-as sempre ao vizinho ou ao político não é capaz de usar as qualidades que podem ajudar a supri-las. Um povo mentiroso que vive da aparência não pode progredir de forma sustentada ou segura. É um logro.


É desagradável dizer isto. Pouco popular. Seja. Não escrevo para ser simpática ou conquistar palmadinhas nas costas, no objectivo de conquistar um lugar confortável, amigos ou relações interesseiras, nem para impressionar ou chocar na defesa de um mundo puro, nem para as audiências. Escrevo apenas o que sinto e penso - essa é a minha ambição e chega. Deixo-me ir sem medir vantagens. Arrisco ser desprezada. Arrisco a derrota que me é bem conhecida. Não a temo. Há coisas piores. Prefiro mil vezes a derrota à aparência e à mentira. Sou narcisa e convencida da minha razão. Basto-me.