Arnaut Moreira. "A guerra da Ucrânia vai sobrar para a Europa. Do ponto de vista físico, da confrontação", no Observador.
Excertos do balanço de dois anos da invasão da Ucrânia e das perspectivas de futuro na Europa, pela voz sensata do major-general Arnaut Moreira.
Putin age através de três grandes linhas de ação: os bloqueadores, os agitadores e os narradores.
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Viktor Orban, por exemplo?
Sim, mas também Erdogan, Mike Johnson nos Estados Unidos. Estes são os bloqueadores. São pessoas que estão dentro do sistema e podem bloquear todos os avanços que permitam o auxílio à Ucrânia. Depois, existem aquilo que chamo os agitadores. Estes nem sempre sabem o que fazem, porque agem por motivos que não têm a ver com a guerra. Os agricultores polacos, que estão nas auto-estradas bloqueando o trânsito dos cereais ucranianos para a Europa e para outros lados, entram neste campo dos agitadores. São pessoas que têm coisas a defender e isso acaba por contribuir para que a Federação Russa tenha um acréscimo de superioridade em relação à Ucrânia. Eles agem por conta própria.[...]
E temos ainda os narradores. São pessoas, que muitas vezes, sob um perfil de independência, e isso é importante para poder chegar ao público, não fazem mais do que transmitir a narrativa de Moscovo.
Dá-lhe credibilidade…
Sim. Tucker Carlson, o homem que entrevistou Putin, é um destes narradores. Sem ter uma uma posição crítica vai engolindo tudo o que ouve e depois, ainda se presta ao serviço de ir glorificando tudo aquilo que vê aqui e ali, procurando mostrar como a Federação Russa é que está no caminho certo. Mas há outros também importantes. Elon Musk foi o homem que providenciou e disponibilizou a rede Twitter, agora X, para a difusão da entrevista de Tucker Carlson a Putin. E basta ver os seus [Musk] comentários nas redes sociais, também ele está muito mais próximo do presidente russo do que da administração norte-americana. Estes três: os bloqueadores, os agitadores e os narradores têm permitido a Vladimir Putin somar algumas vitórias naquilo que diz respeito à coerência da atuação do mundo ocidental.[...]
Estamos literalmente a gastar munições…
Estamos tão depauperados, que a certa altura não temos nem munições nem equipamentos para dar à Ucrânia, nem para nos defendermos. Porque não basta entregar. Apoiar foi o gesto mais útil que pudemos fazer, mas era o gesto imediato. Entretanto, em dois anos, produzimos o quê? O que é que produzimos que nos permitissem encarar, ao fim deste tempo todo, com segurança a nossa própria defesa? Porque, quem esteve atento à conferência de segurança de Munique ficou com esta ideia de que — é uma perspetiva praticamente unânime — isto [a guerra a Ucrânia] vai sobrar para a Europa. Vai sobrar, do ponto de vista físico, da confrontação, e a Europa continua a pensar que não, que isto vai ficar na Ucrânia e lá muito longe.[...]
No arranque da guerra Putin conseguiu o contrário, unir o Ocidente. Agora, temos aqui um outro dado, Donald Trump pode ganhar as presidenciais nos Estados Unidos em novembro. O que poderá acontecer depois?
Trump já está a ganhar. Se o problema ocorresse só em janeiro, altura da tomada de posse, isso dava-nos um ano de preparação para pôr as máquinas de produção militar a funcionar. Só que já não temos esse ano. Trump parece que está na presidência desde meados de dezembro do ano passado, porque Joe Biden tem sido absolutamente incapaz de obter também os consensos entre os dois partidos para que o apoio norte-americano a Ucrânia seja efetivo. Há outro aspecto fundamental nisto (é a minha visão): há uma enorme coincidência na visão estratégica entre Donald Trump e Vladimir Putin, nenhum deles acredita nas instituições multilaterais. Estas instituições foram criadas para evitar a guerra ou diminuir as consequências dos conflitos e para proteger os mais pequenos. Proteger os mais pequenos no sistema internacional é conseguir um conjunto de garantias através das instituições multinacionais que impeçam que os pequeninos acabem por desaparecer no confronto com os grandes. Putin e Donald Trump têm exatamente a mesma visão do sistema internacional: é que não interessa para nada esta coisa das instituições multilaterais. Por exemplo, Trump pensa porque há-de negociar com a União Europeia (UE)? A UE são mais de quatrocentos milhões de pessoas, tem um PIB enormíssimo e tem peso. Se a UE não existisse, Trump iria negociar com cada um dos países individualmente.[...]
E, na prática, se Trump ganhar, o apoio norte-americano, que tem sido fundamental, pode ficar em causa?
Há um expressão que é, para mim, a mais definidora de Donald Trump feita em ambiente de campanha eleitoral — não acredito que ele também não esteja a pensar assim — se ele for eleito presidente dos EUA a guerra na Ucrânia acaba num dia. Isto só é possível de uma maneira: entregar a Ucrânia à Federação Russa, não há outra. Vejo aqui avolumar-se um conjunto de problemas que a Europa não vai conseguir resolver em tempo. A Europa não foi capaz, por culpa própria, de alimentar a própria NATO.[...]
No entanto como, durante anos e anos, nunca investimos os 2% na defesa, as capacidades perderam-se. Agora, quando invisto 2%, o que estou a fazer é a manter as atuais capacidades, que não estão operacionais.
Ou seja, é pagar a água, a luz e o gás…
É exatamente isso e os ordenados. Não sobra nada para aquilo que é preciso, que é repor a capacidade operacional e os 2% são insuficientes para isso. Mas o problema não é só esse. Não temos apenas de recuperar as nossas capacidades operacionais, temos também de sustentar a guerra na Ucrânia. Para isso, é preciso um esforço suplementar do ponto de vista dos gastos com a defesa. Esta questão dos 2% é ridícula, de quem não faz contas sobre estas coisas e de quem não vê que este valor não é para esta situação. Para isto contribuiu o facto de a Alemanha nunca ter atingido os 2%.Só agora atingiu essa percentagem.
Exatamente.[...]
A de Serguei Lavrov [ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia] é: podemos chegar a um consenso para acabar com a guerra se reconhecerem que estes territórios, que agora foram ocupados, pertencem e integram a Federação Russa. Esta é a base negocial para tudo na visão de Lavrov. Depois há versão de Vladimir Putin, que defende que os territórios conquistados são russos, mas ainda “não procedemos à desnazificação” do regime, o que significa que a ambição não é apenas de natureza territorial, é também de natureza política. É preciso substituir o regime que está em Kiev por um que seja favorável a Moscovo. Seria uma espécie de Bielorrúsia 2.0. E ainda há o Dimitri Medvedev [vice-presidente do Conselho de Segurança Nacional russo], que é muito claro e sem rodeios: a Ucrânia nunca existiu, não existe e não vai existir. Mais claro do que isto não poderia ser. O propósito final da Federação Russa não é ficar com os territórios do Donbass e da Crimeia, é moldar um regime em Kiev que seja favorável a Moscovo. Isto é cada vez mais difícil do ponto de vista político porque, entretanto, todas aquelas regiões, que no passado costumavam votar a favor dos regimes russófonos, já não podem votar no regime em Kiev uma vez que já foram incorporadas na Federação Russa. Ou seja, cada vez mais o horizonte eleitoral disponível na Ucrânia, excluindo os territórios ocupados, não é pró-russo, é claramente anti-russo. Pela via eleitoral, muito dificilmente o Kremlin poderia atingir os seus objetivos. Precisa, portanto, de uma pressão militar sobre Kiev. A Federação Russa não desistiu de chegar à capital ucraniana. Todos os que acham que vamos tornar a Rússia dócil se lhes fornecermos a Ucrânia e o Donbass estão a fazer a mesma coisa que fizemos quando achamos que Putin ia ficar satisfeito, em 2008, com os territórios na Geórgia ou com as sublevações no Donbass e a anexação da Crimeia em 2014. De território em território, porque a Europa não está preparada para a guerra, vamos cedendo progressivamente à Federação Russa. Esse é o preço que se paga quando não estamos preparados para assumir uma coisa que temos que assumir: a guerra pode não ser da nossa escolha, pode nos ser imposta, podemos não a querer, mas podemos ter que fazer a guerra. E para isso, temos de estar preparados e é isso que ainda não se ouviu no Ocidente.
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Mas antes de terminar e para não ficarmos com a ideia de que Putin ganhou com tudo isto, importa explicar, que a Federação Russa perdeu muita coisa e vai continuar a perder. Há agora uma aliança alargada, que vai ter a Suécia muito brevemente e já tem a Finlândia. O Mar Báltico transformou-se num mar da NATO. Há uma nova e longa fronteira de mais de 1400 km com a Finlândia e Aliança Atlântica. A Polónia, entretanto, ganhou confiança e está rearmada. 30% da frota do Mar Negro foi afundada. O risco da operação naval no Mar Negro ocidental é hoje em dia imenso e a Federação Russa já não arrisca ir para lá. Ganhou uma dependência estratégica da China, que não tinha anteriormente e tem 300 mil milhões de dólares em bens congelados no Ocidente. Este é o resultado da guerra e não é apenas a conquista de Adviivka.