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29/02/2024

Devaneios e outras considerações

Há poucos segundos devaneava com possível obra para conseguir uma sala minimamente aceitável na modesta casa de bairro económico que ontem vi na Internet. Nem entro em detalhes de como fazer conjugar todos os factores que a fariam nossa: ter a sorte de não haver logo uma oferta de outro potencial comprador, conseguir vender o nosso apartamento a tempo de com o produto da venda comprar a pequena moradia, etc. Mas isso também agora não interessa nada, há tanto que está na cabeça nos últimos dias. O de hoje excepcionalmente trabalhoso. Sempre a dar-lhe, perdi a conta aos emails, às chamadas.


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O jantar com malagueta para espevitar o dia. À hora de almoço aquela indisposição mais psicológica do que física - será?, ou haverá causa física para estas revoadas de má onda que passam? Já as encaro com o espírito de “sei que logo passa”, mas não as consigo contornar. O que me haveria de dar na meia-idade. Manias que quando mais nova não me autorizava e bem via serem muito comuns nas congéneres: os vaipes, os humores variáveis. Enfim, dizem que isso é ser gente, é o que nos dá humanidade.


Mais? Assim à rédea-solta. Pensei no conto do patinho feio e numa divagação que escrevi há talvez dez anos inspirada nele. Não sei onde pára nem é importante. Hoje no meio da má disposição pensava apenas como alguns são atirados para vidas acanhadas e incompreendidas por simples estupidez de uma maioria audível leviana, irreflectida, ignorante e egoísta. A preguiça de compreender o que possui mais profundidade caso não venha nos catálogos do visto e referenciado; tudo quanto não tenha os pozinhos intelectalóides insuportáveis de tão forjados e pretensiosos. O desdém pelo que é autêntico por medo, por cobardia de assumir o gosto pela beleza do que é simples, e a adesão ao simplismo e ao redutor, ao maniqueísmo, de modo a ser alçado a previsível destaque da inanidade por agradar a uma facção – o que é preciso é que haja audiência, é que venda. O tédio face ao que não comporta intriga ou gargalhada, o enjoo pela reflexão, substituída pelo desporto do argumento e contra-argumento. A arrogância que assenta na preguiça de perceber a profundidade para lá da sofisticação forjada, na cobardia em aceitar o simples e no tédio pelo que não tem maledicência, cria vidas artificiais. Irmanadas artificialmente na vacuidade. Vidas solitárias entre a multidão apostada na mimetização. Manadas de informados, manadas de consumidores de entretenimento cultural, manadas de eruditos. Todos a repetirem inanidades em troca directa de louvores e favores. Vidas solitárias, vãs. Vazias de sentido e camufladas debaixo de risinhos, de ditos espirituosos, de sarcasmo fácil e cobarde, decalcados dos cânones do socialmente recomendável – longe vão os tempos em que era arriscado ou um acto de audácia contar uma piada. Hoje na opinião e no humor vinga a futilidade da afirmação do ego à custa de o ter bem enquadrado no que é dado pela intelligentsia, cada vez mais pífia, cada vez artificial. Cada vez menos criadora, menos corajosa, menos independente.


Mais? Acerca das eleições, ainda sem dizer o que penso (nem sei se o vou dizer), adianto que me custa cada vez mais ler ou ouvir argumentos a preto e branco. É evidente que há lados, há perspectivas, mas cada vez me cansam mais os incapazes de se mostrarem flexíveis a justos na avaliação dos factos - ou sendo capazes, por tacticismo fazem tábua rasa da verdade distorcendo a realidade para defenderem o indefensável. Voltamos acima: aos argumentos simplistas e redutores dos comentadores e dos políticos para vender opinião ou caçar votos, julgando imbecis os leitores e os eleitores. Tenho cada vez menos paciência para quem desconsidera a verdade e os outros, tratando-os como se fossem burros aptos a serem objecto de lavagem cerebral.


E isto já vai longo e já me esqueci do que mais pensei hoje. Vou dar uns minutos para tentar lembrar. Hum, não foram precisos minutos, bastaram segundos. Tomara eu adoptar em definitivo a atitude correcta e justa face aos que desconsideram os outros (ainda que nem sequer se apercebam disso por pura displicência) simplesmente ignorando-os em absoluto. Isso seria o mais avisado, o mais justo. Toda a vida dei o benefício da dúvida, sendo condescendente com atitudes abusivas ou desrespeitadoras de quem num despropósito ridículo se acha superior e capaz de iluminar e destratar quem o rodeia, quando quase tudo quanto faz é destruir o que tem valor para fazer vingar interesses e modos próprios (ou alheios pilhados) por egoísmo, mesquinhez e caça ao lucro. Não valem um chavo.