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21/02/2024

Estado de espírito

Sem assunto. Mas não sem vontade de escrever. Dir-se-ia o cúmulo da lata e vacuidade. Seja. O preconceito não me aquece sem arrefece. Não vou contar mais uma ideia luminosa, das centenas que me surgem ao ano. Não tanto por me irritar não concretizar a maioria, até porque realizo algumas delas e isso já é muito bom, mas por serem de facto muitas. Até a mim me canso. Fico exausta comigo mesma. Então, perguntam, porque não abrandas?, não reduzes o que pensas, focando no essencial? Porque não escreves menos e mais consistente ou com objectivo mais definido? Resposta: não me apetece. E manda a evangelização da psicologia, da religião e da bruxaria: ah, mas temos de ser mais assertivos e resilientes (linguagem de psicólogo lifestyle), mais sacrificados (oração da religião), mais crentes em nós e na ajuda da espiritualidade (mezinhas das bruxas). Em suma: todos têm razão, devemos ser trabalhadores e disciplinados. Óptimo, mas não me apetece seguir o guião da disciplina convencional. Crio disciplina própria.


Também não vou cair hoje no diário. O que teria de mais relevante a contar seria um mal-estar passageiro de saúde e só a referência já me desgosta. Uma menoridade, se bem que saiba faça parte da vida e goste habitualmente de a espelhar tal qual é e não dar uma imagem ideal. Nem contar que ouvi dois debates. Amanhã logo os junto ao que se seguir para voltar a fazer o postal com o elenco das contendas ouvidas e uma ou duas linhas acerca de que me vier à telha. Nem vou projectar o dia de amanhã, como também é costume por aqui. Terei de me levantar mais cedo. É tudo. Nem vou pôr fotografias do jantar, que não foi nada de especial e serviu apenas para suprir as necessidades básicas como é comum em muitas circunstâncias apesar de hoje haver o gosto de fantasiar cada refeição como se de uma questão de arte se tratasse e não do mais básico instinto de sobrevivência. E não estou a tentar dar o ar de dificuldades económicas, quando muito o de frugalidade e de uma atitude comum face à realidade: gostar pouco de inventar no essencial. Igualmente não vou procurar música ou animações no YouTube, se bem que neste caso fique tentada. São formas passivas de viver o momento e de em simultâneo ser surpreendida. Não desgosto. Entre tudo o que não vou fazer esta noite, estas duas seriam a que mais me tentariam. Por fim, não vou esperar pela meia-noite para publicar este postal no intuito de fazê-lo concorrer nos mais comentados. Manias.


Como passa pouco das dez e meia ainda vou ter tempo para ler umas páginas do livro no activo, mas com esta preguiça boa que me assola não sei se chego ao fim da segunda página. Gosto da expressão livro no activo (não há nada como a vaidade), faz-me sentir cheia de energia. E batoteira também, convenhamos. Até porque um deles está pousado há uma semana. Lá está, não há nada como o discurso e a aparência para se construírem imagens falsas. A retórica é um mundo lindo de mentiras, isso sim. Umas com perna curta aos olhos de quem for observador.


Adormecerei rápido. Nem alegre nem triste, nem empolgada com grandes projectos nem desanimada. É muito provável que caia nos braços de Morfeu com a sensação de um dia cumprido e nos poucos minutos que levarei entre fechar a luz do candeeiro e a queda no sono talvez reveja as conquistas e alegrias dos últimos anos. Afinal é preciso lembrá-las, reparo ultimamente. Gozá-las e adormecer.