Pesquisar neste blogue

30/05/2025

Continuando no tintim por tintim

20250530_223450


Depois de mais um dia trabalhoso, quebrado pela hora e meia de almoço semi-passada nos Correios e entremeado com mais uma visão global e sumariada da História de Portugal - dividida em três partes: Origem, da Independência ao Império e o Declínio e a República -, eis-me de novo exausta e com vontade de dormir. Antes de deitar vou refrescar-me com a salada de abacaxi e melancia preparada pelo Nuno.


Os planos para amanhã, Sábado: arranjo breve da casa, lição de piano do M. com o Nuno, Parque da Cidade, almoço em casa da mãe com irmão N., fim de tarde para descansar e tratar da lavagem da roupa, receber e arrumar compras do Continente, jantar, escrever diário, dormir.


O Domingo está por planear e ainda bem. Se bem que devia retomar a natação. Ando a baldar-me, mas a genica física escasseia. A bateria anda descarregada há dois anos e nestes últimos seis meses agravou, talvez por isso tenha perdido o ânimo nos últimos tempos para nadar. Espero que em Julho próximo nas novas análises já tenha boas notícias. Não posso com uma gata pelo rabo.


Por falar em gata, acabo de ser abalroada pelo Ritz a instalar-se no colo, como faz sempre que me sento à mesa do computador no +1.


Boa noite.

29/05/2025

Ponto de situação

Um dos dois dias mais trabalhosos do mês. Muitos contactos feitos e a fazer. E uma orelha disponível para entrar em mundos ficcionados por penas talentosas que revelam interpretações e ambiguidades dos factos vividos.


Também as opiniões bem-intencionadas, mas presumidas de quem é muito jovem e está cheia de iluminação e certezas.


Outros mundos mais discretos por onde passeio, afastando-me paulatinamente das retóricas caceteiras, frívolas e vulgares da politiquice rasteira de manipulação, do futebol excitado e demais actualidade. Isto é, longe das audiências rascas.


Tomara continue a distanciar-me do lixo. Sensação de desafogo.

Lídia Jorge


*


Primeira Pessoa Episódio 3 - de 09 nov 2020 - RTP Play

28/05/2025

Boa noite


 


20250528_205344


Velharias cheias de pó.


*


Em criança cobiçava os discos dos contos infantis dos meus irmãos. A colecção já lhes tinha sido dada quando nasci. Mas lembro bem da minha pedinchice e de ter conseguido que o meu irmão mais velho me cedesse a propriedade dos Meninos Rabinos. Nos idos 70. A colecção tinha cerca de vinte discos.  Entre eles João Espertalhão, Pinóquio, Formiga Rabiga, Os Três Porquinhos, O Macaco do Rabo Cortado (uma das minhas favoritas), Branca de Neve, O Menino e o Papaguaio de Papel, O Patinho Feio, A Cigarra e a Formiga, Os Cabritinhos e o Lobo (também adorava), A História da Carochinha, Frei João Sem Cuidados e o Burro do Azeiteiro. E canções de Natal.


Ao ouvir o vídeo e mexer nestas velharias do que lembro? A pasta nunca estava arrumada à noite, adormecia sempre tarde, nos dias de aulas dormia até à última, odiava o pequeno-almoço, deitava fora a manteiga do pão, era a última a entrar no carro ainda a vestir o casaco.


Agora nos anos 20 deste século o sono e cansaço vem cedo. E as histórias que me dão sono são as dos telejornais e as do mundo online. O tempo voa.

Sugestão: maluqueiras e modas

Na senda de posts pontuais publicados no passado nas Comezinhas com sugestões estapafúrdias para narrativas ficcionais proponho a quem tiver tempo e talento desafiar-se a criar um enredo no qual cruze a realidade da manipulação assente na Inteligência Artificial com o sugestivo mundo paranormal, designadamente com fenómenos como a telepatia e a premonição - imaginem cérebros interligados numa consciência colectiva dissonante. É de dar o nó, mas dificilmente haverá temas mais proveitosos em termos de criatividade.


Se quiserem pôr a pimentinha popular que dá audiência, ou seja, se o objectivo for vender, é só estabelecer as relações de amizade e conveniência certas e associar o enredo às notícias, querelas e marés do momento - à Palestina, à Ucrânia, ao crescimento dos movimentos de extrema-direita, às políticas de cancelamento, à iminência do terceiro grande conflito mundial, à espionagem, às migrações, ao aquecimento global, à criminalidade, ao consumismo de séries televisivas e livros etc. -, ou às temáticas que criaram maiores ondas de comoção nos últimos anos ou mesmo no passado remoto desde que sejam assuntos tendência ou efeméride na comunicação social e nos meios de entretenimento actuais, isto é, nas redes sociais, marketing editorial e plataformas streaming. 


Se querem vender, tudo o que não devem fazer é viver e consumir informação e entretenimento com parcimónia e manter um rumo solitário, reflectido e desalinhado.

IA e acantonamento

(corrigido)


No fim-de-semana passado tinha tomado uma nota para escrever mais tarde sobre algoritmo e acantonamento. Perdi-a. Mas vou tentar reformular. A Inteligência Artificial, mormente os algoritmos, são condicionantes poderosos do pensamento.


A constante sugestão de caminho nas nossas pesquisas e leituras em função do gosto pessoal e opinião acaba por nos manipular. E quanto mais certos estejamos de não ser influenciáveis, pior. Quem está habituado a ver-se como um esteio de conhecimento e certezas, cai ainda mais facilmente na esparrela. Ter sido educado no questionamento, habituando-se a ver os dois lados de cada discussão, ajuda a manter o equilíbrio.


A Inteligência Artificial – e não caiam no erro de pensar: ah, mas eu não uso IA, isso só demonstra o quão inconscientes estão da sua influencia na vossa vida – ajuda a apoiar cada ponto de vista, serve como uma espécie de consolo de razão de cada facção, numa espiral auto-justificativa. Não haverá evolução nem racionalidade a menos que se tenha o hábito de questionar o próprio ponto de vista e de desafiar a manipulação. 


E isto nada tem a ver com conversa popular e vã de tolerância e empatia, mas com real busca de sensatez.


Bom dia.

27/05/2025

Boa noite


Chegou a a minha hora. Vou para a caminha. Boa noite.

Para Além do Cérebro

1. Ciência e Espiritualidade - exibido dia 12-05-2025.


2. Telepatia - exibido dia 19-05-2025.


3. Clarividência e Precognição, exibido dia 26-05-2025.

Vôo de pássaro de 26 de Maio de 2025

(actualizado)


Por onde voaste hoje? Antes de poisares em casa a jantar e no telejornal dos absurdos reais como a matança desenfreada de palestinos - para castigar os terroristas sanguinários do Hamas o estado israelita massacra metódica e cinicamente a população palestina de Gaza. Mas também das incongruências, das semi-notícias, das meias-verdades, nas quais o facto é apenas pretexto disfarçado para floretes de espadachim de guerrilhas políticas e interesses corporativos. Escolhem a dedo os acontecimentos a relatar para prosseguir narrativas oportunistas que congregam o discurso dominante fabricado por influenciadores, os grandes oráculos da treta que tudo prevêem até as realidades que ajudam a criar com intriga e maledicência, as animadoras de claque dos parabéns pela opinião e obrigadas pela partilha dos geniais oráculos, e as multidões que os seguem com améns, olé, améns, olé. Olha a onda, somos tão bem (des)informados, olé.


Logo pela manhã antes de levantares vôo tropeçaste no jornal e num exemplar há setenta anos sempre em pé, com óptimas relações e bem instalado, e como uma ventoinha virando conforme o vento, em função das conveniências, a zurzir os derrotados como convém aos oportunistas. Todavia óptimo amigo do seu amigo, tanto que lhe deves gratidão por ter resolvido um problema sério doméstico. É estranho pensar na duplicidade. Como quem faz o bem aos seus amigos pode ser tão trafulha na vida pública. A onda varre a comunicação social, amém.


Voaste por cantigas de amor desse tempo remoto de trovadores e de vassalagem a damas inatingíveis. Paraste para pensar na antítese barroca, para congeminar se ainda será o peso da educação dos jesuítas na família que determina a tua queda para o paradoxo e avaliação sistemática das contradições da vida. Recordas a caixa das lentes de contacto da adolescência e do instante em que à época a olhaste com a sensação de ali estar uma espécie de eureca: se não é esquerdo, é direito. A invenção da dualidade. Talvez já tenhas idade para retroceder à filosofia clássica, à dualidade entre matéria e mente, entre corpo e mente, as duas substâncias do Universo. Ainda não é desta que descobres o milagre, ainda não é desta que desfazes o quebra-cabeças da caixa das lentes de contacto, mas estás no caminho. Talvez se investigares um pouco das correntes filosóficas mais recentes. Quem sabe já integraram os ensinamentos que resultam das novas descobertas no campo da neurociência. Esta mexerufada um dia fará sentido.


Contudo o vôo de hoje não foi pela filosofia, mas sim pela literatura. E ficaste envergonhada por te lembrares de Aquiles e Ulisses e não de Eneias. É o que dá a ignorância dos clássicos. Mas porquê especial vergonha deste particular desconhecimento se há tantos? De cada vez a sensação de novidade. Talvez te ampare a ideia de peças a casar: entre o enorme manto de ignorância pequenas peças de conhecimento começam a unir-se, formando ínfimos aglomerados com sentido. E é a festa na mioleira. Ah, alegria. Para amanhã já teres esquecido e quem sabe daqui a dez anos voltares à mesma sensação com mais duas ou três peças que encaixem.


Esvoaçaste até Roma, aos imperadores adoptados e pacíficos e ao período dos cinco melhores escolhidos por Maquiavel, e em especial à autobiografia de Adriano de Marguerite Yourcenar, mas também à guerra nas terras do fim do mundo angolanas, pela pena de António Lobo Antunes, que te diz muito menos do que já te disse apesar do talento de nos fazer pensar, e ao realismo mágico no país da pandemia da cegueira ou onde ninguém morre, de José Saramago, de quem te aproximas mais. Passaste uma tangente a Brás Cubas de Machado de Assis por anunciar esta corrente ao mesclar ficção e fantasia.


Tudo superficial, tudo pela rama. Mas a todos tocaste com as pontas das asas. Nalguns terás até mergulhado de corpo inteiro em devido tempo, talvez por isso as peças comecem a encaixar depois dos cinquenta. É recompensa. Uma espécie de prémio de consolação pelo meio-século.


O que interessa? Voaste. Hoje perdeste menos tempo com as tricas das vedetas do comentário político e as baboseiras do esoterismo. Ganhaste o dia. Calhou assim. Tomara tenhas mais recaídas destas. Arejas as ideias. Sais do bafio. Afinal, caminhamos para o abismo, mas segues tirando partido dos dias com o que te dá prazer: aumentar o espaço da tua ignorância. Cada vez maior, graças ao Universo.


Antes tomasses estas palavras caóticas como diário reservado e nunca público. Antes o tomasses como mera âncora para ajudar a desenvolver pequenos textos convencionais a publicar separadamente. Assim é confuso, cansa. Não há coesão, soará a meras ideias soltas. Não vales um chavo. Uma maçada, sofres tanto.


*


Adenda. Publiquei este post também no Medium. Coloco aqui o link para quem tiver curiosidade por ler um comentário crítico lá feito.

26/05/2025

Liberdade

À laia de conselho, essa pecha, devemos aproveitar os momentos que vivemos com quem nos toca antes que suma da nossa vida, porque morre, muda de lugar, tem assuntos e pessoas mais importantes a dar atenção, entedia-se, deixa de nos querer bem, esquece-se de nós por distracção, por perdermos interesse ou utilidade, ou qualquer outra circunstância fortuita. 


Não devemos depreciar, agredir e enganar os que nos dão a sua presença. E os que não dão, talvez seja porque não têm nada para dar. Devemos outrossim valorizar os momentos bons enquanto decorrem e não projectar demais. 


Há que tirar partido de quem nos cerca enquanto está próximo. Enquanto é ou parece ser e está ou parece estar para nós como estamos para ele. O tempo, as vontades e circunstâncias determinarão o que vem depois. Não está ao nosso alcance prender os demais às nossas expectativas.

 

A liberdade não tem só a face da coragem alegre, independente e orgulhosa, implica (des)ilusão, dor e renúncia. 


Este é um conselho que se persegue como ideal nunca concretizado. Seriam necessários despojamento e maturidade absolutos, tão propalados, mas muito difíceis de alcançar. Sejamos conscientes. A liberdade é uma miragem.

25/05/2025

Diário 25 de Maio de 2025






Hoje escolhi uma história de pintura publicada no Medium relativa a Edgar Degas. O autor é um historiador de arte que vou lendo. O post versa a eventual misoginia do artista, que representou numerosas mulheres, em especial dançarinas, denotando fascínio obsessivo pelo corpo feminino. Quase metade das telas a óleo e pastel retratavam bailarinas do corpo de dança da Ópera de Paris. Pela atitude que transparece nas suas obras foi acusado de voyeurismo. Estava mais interessado nas formas e movimentos do que nas pessoas em si. Conta-nos o autor da história que o pintor francês queria captar a cultura sofisticada e a baixa moral na mesma tela, com pouca consideração pelas retratadas, tomando-as mesmo por animais. O seu cunho evitava idealizações, era cru e até indelicado: o ballet parisiense escondia a realidade dura de sobrevivência desesperada de meninas de tenra idade pobres a trabalhar 12 horas por dia seis ou sete dias por semana. O autor da história conta como Degas foi considerado frio e cruel, mas também nos dá a conhecer a perspectiva de estudiosos que concluem que o pintor não odiava as mulheres, era antes reservado, celibatário e observador. Recordam como parte das obras revelam mulheres pensativas e autênticas, como admirava a sensibilidade visual das mulheres e como foi defensor feroz das colegas femininas. Podem ler a história que deu azo a este parágrafo na Reading List.

 






A propósito, ou talvez a despropósito, omito a minha opinião sobre artistas homens, pintores, escritores ou cineastas, com fixação em mulheres por regra jovens que consideram de condição social, intelectual ou moral inferior à sua e a forma como se relacionam com elas e as retratam. Já há muito penso escrever acerca do assunto, mas fica para outro momento fora de antena.


E passo agora às generalidades. Muito do que penso já está plasmado nas Comezinhas e soa a repetição. Daí a sensação de insistência. É inelutável considerar que erro por excesso crítico, mas o sentimento está em contradição com a intuição da necessidade imperiosa e decidida de manter o registo malgrado o desprezo ou indiferença maioritários. Haverá sempre quem compreenda, ainda que minoritário. Todavia, mais do que tudo, vale isto: é destino, é o que sinto, quero e devo escrever. Impermeável às convenções e sobretudo às vagas de opinião e juízos generalizados.


Tinha em mente escrever acerca do testemunho, mas já não sei bem o que tencionava dizer. Talvez a ideia de uma espécie dever de nos apresentarmos ao mundo com caruncho e não perfeitos e reluzentes, prontos a servir de exemplo, de candeia a seguir. Apesar de apreciar a ironia e saber que ela pode ser o melhor refúgio de sanidade, não me seduz o tom apelativo engraçadinho-ó-sedutor. Sou chata e exigente, também não me agrada o tom hermeticamente separado da vida real, do dever-ser ao invés do ser. Intolerante confessa, desdenho de discursos a anunciar comportamentos exemplares, solidários, bonzinhos, inteligentes, competentes, tolerantes. Prefiro as acções reais, as tais com caruncho, poluídas de imperfeição. Não lido bem com o escondido, o subterfúgio. Tendendo a valorizar a discrição e a reserva, nunca apreciei a desinibição excessiva, o exibicionismo ou desfaçatez, porém prezo a autenticidade de quem se revela ao mundo tal como é, sente e pensa, de modo claro e corajoso, sem artimanhas. Até chego a apreciar a exuberância, desde que genuína. O que não me agrada são as tentativas de causar boa-impressão através de referências estratégicas que dêem ser por procuração. Valorizo a presença real e efectiva das ideias e convicções. E já não será preciso acrescentar a repulsa pelo cinismo que tenta provar preparação intelectual de modo ridículo e afectado numa pretensão que revela a própria falta de inteligência e bom gosto.


Em suma, tenho a pê da mania de julgar o que me rodeia. Sem apelo nem agravo.




20250522_142832


E da opinião trivial acerca de inclinações de gosto passo ao dia-a-dia. Numa manhã desta semana percebi que começava a ter tempo e disponibilidade para descobertas tardias. Na Rotunda da Boavista reparei num pássaro de penas castanhas pardas e fiquei na dúvida se era uma melra. Confirmei no milésimo de segundo seguinte ao ver o macho aproximar-se e verifiquei online a diferença entre melros machos e fêmeas para lá da cor laranja do bico dos primeiros. Na quinta-feira almocei com a minha mãe. Pedi que me convidasse para almoçar bacalhau à Brás. Somos muito diferentes, desde logo na escolha da espessura das lombadas dos livros que lemos — no dia tirei uma fotografia a um punhado de livros em casa da minha mãe -, passando pela política, mas também no gosto por trapos e acessórios. Hoje o meu sobrinho veio cá ajudar o Nuno a configurar a placa de som do computador de modo a poder gravar os teclados e piano. Foi ele que comprou as peças e montou a máquina por nossa encomenda. Fui mimada com um relógio diferente do habitual — a bracelete é de tecido e tem pingentes com espiga, abelha, pérola etc. e o mostrador rectangular como há muito não usava. Adorei o mimo sobretudo pelo comentário do meu afilhado: não costumo comprar presentes, mas quando vejo uma coisa que é a cara de alguém não resisto. Claro, a avó não gostou do relógio, não é convencional, já a madrinha presenteada delirou. Mais ainda da presença dele cá em casa. Foi um dia bom.






Capturar1


Capturar2


Capturar3


Obrigada por terem lido. Bom Domingo.



24/05/2025

Ponto de situação

Bem dormida acordei cedo e após a converseta da ronha de Sábado no quarto vim para o computador no intuito de começar a escrever. Mas a preguiça e o umbigo deixaram-me lassa a reler os posts das Comezinhas do último mês - sou a minha principal leitora e admito, enerva a vaidade e lata. Li até à Páscoa, um pouco antes do passeio pelas aldeias beirãs, acompanhada da boa música clássica que o Nuno pôs na pen da aparelhagem enquanto dorme no sofá. Está adoentado há dois dias, apanhado da garganta. Não me contagiou. Apesar de outras fragilidades regresso à sensação de criança quando via todos em casa engripados e eu sã como um pêro.


São agora 12h12 - sincronicidade -, e talvez esboce os tópicos do que pretendo escrever. Já não vou a tempo de escolher a história acerca de pintura no Medium. Exige atenção, por isso quero manter esse exercício semanal. É um pequeno e singelo desafio que me faço. Depois prepararei qualquer coisa simples para o almoço. Talvez os ovos mexidos com tomate, azeitonas e pão.


Ah, horror dos horrores: as repetições, as rotinas. Vida tão enfadonha. Nada sexy, nada estimulante. É muito maçador estar bem comigo própria sem necessidade de agradar. Entreter-me e viver em paz.


À noite tenho de repetir o jantar de ontem e voltar a assar pernas de frango com batatas, já que comprei duas cuvetes e está a acabar o prazo de validade da galinha. Acompanhada com esparregado de espinafres. Ontem o Nuno elogiou e também me soube bem; há muitos dias não digeria tão bem um jantar. Têm sido digestões difíceis. E tenho bolo inglês em casa, o favorito do Nuno; agora também vou gostando.


Enfim, é fim-de-semana e o tempo é para deslassar. Esta tarde terei cá em casa mãe e sobrinho, pelo que é natural que o diário habitual saia apenas amanhã.

23/05/2025

Devaneios para alegrar

(re-actualizado)


Hoje é sexta-feira, dia propício ao lazer. E nada melhor do que projectar as distracções do futuro para ganhar ânimo. No fim-de-semana passado estivemos cá em casa a devanear. Visto que o nosso apartamento está à venda há quase seis meses e propostas só em vislumbre, é possível que dentro de uma semana envie a carta registada a pôr fim à intenção de vender e ao contrato de angariação com a imobiliária.


Rei morto, rei posto. Se a casa nova nos iria absorver poupanças, pode ser que venhamos a estar livres para viajar um pouco mais. Sem perder de vista que a velhice não demora e atento o valor das reformas é bom que não dissipemos o amealhado a flautear a pevide - sim, a expressão certa é laurear a pevide, mas toda a vida baralhei as expressões. Estivemos a fazer contas a quanto teríamos de poupar mensalmente para angariar fundos para grandes viagens.


Decidimos começar por uma pequena, a tão adiada a Marrocos. Para o próximo ano - neste o passeio pelas aldeias históricas beirãs do mês passado e no próximo Outono ao Alentejo consomem os fundos destinados aos arejos. Ao Nuno é indiferente o país do norte de África a visitar, quer é sentir o deserto africano, mas a minha curiosidade pelos marroquinos impõe a escolha. Depois virão as viagens de maior envergadura, de quatro em quatro anos, já que as contas das poupanças assim o determinam. Viagens de duas semanas a Angola e à China. A primeira para voltarmos à terra onde nasci e estive em trabalho trinta anos depois por breve período e onde o Nuno viveu e trabalhou realizado um par de anos. A segunda por curiosidade da civilização antiga. Para terminar, e já na reforma com mais tempo, a viagem ao Peru, aproveitando para passar pelo Brasil e Argentina. A viagem à América do Sul por mim tão almejada desde miúda. Deixo para o fim o melhor, como se guardasse um pouco do mais apetitoso alimento do prato para a última garfada.


E são estes os planos, não se concretizando a mudança de casa. Há meia dúzia de anos projectei três destinos e só Moscovo e São Petersburgo ficaram por concretizar. Pode ser que desta também cumpra parte dos sonhos. O importante é marcar os alvos a atingir e fazer por reunir as condições para alcançar os devaneios. Mesmo num mundo tão incerto como o nosso, mesmo tudo podendo ser gorado. Há que acreditar.

22/05/2025

Escolhas

Independentemente do que os outros possam pensar, há momentos em que me penalizo por criticar demais. Como se me acusasse de minar o sucesso benigno à minha volta. Isto é, temo ser injusta e prejudicar. Porém, se for menos hesitante e insegura compreendo que há razões mais do que válidas para a forma como avalio negativamente muito do que me rodeia e como é notória a melhoria da qualidade do ar quando as redes de influência viciadas retraem com medo de ser expostas. Quanto menos poder tiverem as matilhas instaladas de trocas de favor e a mentalidade reacionária mais o talento despertará e mais fácil será a cada um vingar pelo real valor. Haverá menos palco para encostados de sucesso e mais espaço para os que valem por si.


São escolhas. Podia aproveitar a vaga de retrocessos civilizacionais, fingir que não vejo e tirar partido pondo-me a jeito, mas não faz o meu género. O que mais há é gente a esfregar as mãos de contente, demarcando-se dos populistas só para inglês ver, já que comungam do ideário ultra-conservador. Tudo fazem para esmagar qualquer voz contrária à seita de extrema-direita que se dissemina pelo mundo. Não é com certeza no intuito de proteger a democracia liberal que agitam como bandeirinha sem valor real. Estão muito simplesmente a preparar terreno para dar o salto e continuar a desenvolver as redes de interesses no próximo regime. Estão a preparar o seu futuro egoísta. Como prepararam há cinquenta anos, para se manterem sempre à superfície, sempre de bem com quem ganha.


Vale a pena ficar com o odioso. Ser muito aborrecida e insistente. Vale a pena lutar pelo merecimento em função dos reais predicados – os que não resultam artificialmente do compadrio e de discursos e acções corrompidos por interesses mesquinhos e traiçoeiros. Todos quantos têm valor saem beneficiados. Só sai a perder quem manipula e corrompe para aceder ou manter-se no poder a qualquer custo.

LE RETOUR DES VAGUES

O métier: parasita

(actualizado)


Lançar nulidades cínicas na cena política, intelectual e do entretenimento. Moldá-los(as) desde bebés na falsidade, no descaramento e chico-espertice. Enaltecer gente instalada que possa retribuir dando palco, categoria e emprego a si próprio ou a apaniguados que prestam serviço a achincalhar adversários. Dar destaque às cobras que vivem de se aproximar de quem tem valor no intuito de enganar, roubar e destruir. Protegê-los(as) nas redomas de retórica de covil de raposas velhas, interessadas nas trocas de favor entre gente promíscua e sem escrúpulos.


Queimar a reputação de políticos ou gente que pensa de modo são e independente em fogueiras de maledicência que atraem audiências fáceis de manipular. Com o objectivo de continuar a fazer singrar as nulidades cínicas. Assegurar o lamaçal onde sabem que podem ser reis e senhores. Não sobrevivem em lugares dignos.


É o modo de vida de parasitas que se têm em grande conta. Vivem iludidos. A manipular através do fingimento de sentimentos e razões em todas as esferas da vida, chegando a acreditar que são capazes de convencer e seduzir com ardil gente educada, pensada e de carácter. Sem tomarem consciência das léguas de distância que os separam. Sem perceber como são incapazes de inspirar respeito apesar das audiências.


*


Tirando isto, que é só um aspecto negativo da vida de quem observa que determina a lama da vida pública portuguesa, o resto do mundo sorri. O dia pôs-se simpático, entre gente que se respeita.


Bom dia.

21/05/2025

Chata como a potassa

A inteligência não se anuncia, a modéstia não se anuncia, a generosidade não se anuncia, a seriedade não se anuncia, a sabedoria não se anuncia. O anúncio de virtudes revela a sua própria negação.


Cá continuo chata como a potassa. E hoje com a dose de mimo a transbordar. Pingo narcisismo e mimo. Pinc, pinc, pinc. Coisa ruim, apre.

Bom dia

20250521_083141

20/05/2025

Saudade

Hoje faz-me falta um cigarrinho. Apetecia-me.

Para Além do Cérebro

1. Ciência e Espiritualidade - exibido dia 12-05-2025.


2. Telepatia - exibido dia 19-05-2025.

O Livro dos Três Princípios - Festejo - 34 (excerto)

   Passou o fim-de-semana seguinte a ler o caderno dos pais da Margarida. Deu por si a tentar decorar definições. Mas depressa percebeu não ser suficiente. Não se estava a preparar para o exame da faculdade, mas para debater conceitos, até então, nebulosos. Começou pelo conceito de liberal, que a deixara perplexa nas últimas conversas dos compinchas de partido. Dizia-se liberal desde a adolescência. Achava, aliás, uma marca que a distinguia das mulheres do seu círculo familiar e social. E a perplexidade nas conversas decorria da animosidade demonstrada pelos comensais face ao liberalismo. A Ana Paula desconhecia a existência das várias facetas, e se a dos costumes coincidia tenuemente com aquilo que considerava ser uma pessoa liberal, as facetas política e económica e as suas derivações eram todo um mundo desconhecido. Não percebera até ao momento que a liberdade de expressão, a igualdade de género e a defesa de eleições democráticas são bandeiras da doutrina liberal. E nunca se questionara sobre a legitimidade da propriedade privada ou sobre a liberdade de mercado. Por isso, não percebia o tom insultuoso dirigido pelos convivas às pessoas do quadrante político oposto. Passeou-se também pelo capitalismo e pela propriedade privada. E só aí pôs em causa o afirmado pelos novos amigos. Afinal, o capitalismo não lhe parecia tão mau. Ter propriedade, ter a propriedade dos meios de produção, pagar a quem trabalhe e acumular riqueza não lhe pareciam princípio de vida errado. Só colocava em questão o montante da retribuição pelo trabalho, em momento algum, a questão da legitimidade da propriedade plena dos meios de produção pelo capital.


[...]


Cândida, a narradora admitia a hipótese de colher as melhores potencialidades do combinado liberalismo e socialismo, depurando de imperfeições e perversidades os rebentos capitalismo e comunismo. Não desconhecia os desfechos autoritários do comunismo nem as desigualdades gritantes no seio do capitalismo. Atrevida, a narradora achava que seriam arestas a limar na evolução do híbrido de liberalismo e socialismo, a antecâmara do novo estádio de civilização. Chegada a este ponto, já ouvia os brados pelos milhões de vidas perdidas nas ditaduras comunistas e as reacções inflamadas contra a exploração pelo capital. A aversão total de uns por outros, impedia-os de ver o óbvio: a sensatez aconselha a concertação destas doutrinas políticas e económicas, corrigindo as arbitrariedades. A única forma de impedir os desvios autoritários e nacionalistas e mais uns milhões de mortes escusadas. Não se tratava de manter a mera convivência pacífica entre dois mundos teóricos díspares, que se revezariam no poder, em governos indistintos, dirigidos por políticos fracos e capturados por interesses duvidosos, agarrados ao poder, perpetuando lugares e benesses para os próprios e apaniguados, com o conluio dos intelectuais vigentes que, ao lançar mão de críticas inofensivas, mostram quão farsantes são. Maravilhados pela forma como a nova democracia favoreceu alguns, mormente eles próprios, esquecem os outros, a imensa mole de gente descontente, sempre enxovalhada pela elite bem instalada. Os potenciais eleitores de populistas. Fartos de ser aldrabados, enxovalhados e destratados por um grupo pessoas cheias de certezas e de superioridade moral e intelectual. Alvo da chacota primária por quem regozija a eternização das injustiças, milhões de trabalhadores, tantas vezes mal pagos, vêem os impostos desembolsados serem canalizados para enriquecimento de corruptos, de lapas requintadas a meras baratas do poder. Deparam-se com o tráfico escancarado e despudorado de votos de subsídio-dependentes e de reivindicadores de qualquer causa da moda, fácil de satisfazer, ou de fanáticos de democracias faz de conta. Vêem empresários sufocados por impostos e obrigações legais a visar única e exclusivamente a proliferação de monopólios e o favorecimento de grandes grupos empresariais, que têm a possibilidade de se deslocalizar e de fugir à carga fiscal, conseguindo minar a sobrevivência de qualquer negócio de menor dimensão. Condenados à nascença pela liturgia da consultoria financeira internacional que, desfasada do genuíno, sentencia à morte, pelo mundo fora, todas as realidades não enquadráveis em estudos e linguagem infundada e especulativa. Vêem ainda populações rurais militantemente menosprezadas ou simplesmente esquecidas. E produtores agrícolas constrangidos a praticar preços de venda irrisórios, totalmente desfasados do custo de produção, mais uma vez a troco de subsídios, que enviesam qualquer possibilidade de uma economia justa e séria.


        Em vez de perder tempo com propagandas políticas patéticas que vão ao encontro de cada anseio, de cada indivíduo, a cada momento da existência. Em vez da atraente e moderna defesa das identidades, da cura prometida para mágoas e ressentimentos individuais e, tantas vezes, mesquinhas, propunha-se encontrar um denominador comum da base da sociedade. Soluções a servirem o bem-estar da colectividade. Sorria com a concessão. Ao fim de trinta anos deixara de sacralizar o individualismo e a liberdade individual. Para tando bastou ver a ideia levada ao absurdo, percebendo que tudo tem limites, até a liberdade.


        Não se tratava de manter democracia nos actuais moldes, mas sim reformar este frágil regime, antes que seja engolido pelo populismo. Com a linguagem do real e do concretizável. Fazendo concessões efectivas e palpáveis às populações, que veriam a sua integridade respeitada e, se possível, as vidas melhoradas. Não em resposta a demandas pontuais das populações, mas em razão do todo justo e razoável. De forma a não se tentarem com falsos profetas. Só nesta base via possível a manutenção da democracia, como travão do fascismo à espreita. Adivinhava a desconfiança e o gozo que tais pensamentos inspiravam em mentes mais instruídas e atraentes. Ainda assim, insistia. Apesar de nada disto ser apelativo, nada disto dar mostras dos dias correntes.


[...]


  Não se resignava às novas correntes de pensamento que profetizam como consequência do caminho da automação do mundo moderno e tecnológico, a desocupação de cerca de um terço dos habitantes do planeta a quem, como há dois mil anos, é preciso dar pão e circo. Pensamento que incorre do deslumbre ou da demonização da robotização e da sua potencial perfeição, e na falta de constatação de para cada robô serem precisos vários indivíduos que o criem, usem e corrijam os defeitos. E outros para os abastecer de energia, transportar, fazer a manutenção, enfim, infinidade de acções que escapam aos distraídos do essencial: a iminência de conflitos e desastres naturais à escala mundial, o ajuste certo da densidade populacional do planeta.


        De qualquer modo, percebia a necessidade de suprir as deficiências económicas dos mais desfavorecidos. Razão pela qual, via com bons olhos o rendimento universal experimentado em países do norte. Ao estado compete, através dos impostos cobrados, conceber a redistribuição justa, sendo vantajoso criar o rendimento universal graduado em dois escalões. No primeiro escalão, dirigido em especial ao grupo constituído pelos que podendo, não trabalham, seria dado o mínimo de subsistência, a estender todos os cidadãos, fosse qual fosse a sua condição. No segundo escalão, compreendido pelos que façam prova de não poder trabalhar, seria dada o mesmo valor do anterior acrescido da compensação pela contingência, valor correspondente ao considerado vida condigna. Aos primeiros porque a sociedade comporta sempre margem de gente avessa às regras de convivência em comunidade, mas seria desumano recusar o mínimo de sobrevivência. E porque a justiça da medida seria perdida caso se não estendesse a todos, o oferecido apenas a alguns. Aos segundos, porque aos respeitadores das regras mínimas de convivência, ou aos que não as infringem voluntariamente, devem ser dados meios para uma vida condigna, independentemente da sorte a que estão sujeitos.


        É de mim, ou esqueceste a Ana Paula? O Vicente, ao aproximar-se e ler o último capítulo. Sim, distraí-me, ela estava a ler a Comezinha de 1991 e levantei voo, respondeu a Margarida, ainda absorta pelo manifestado. Estou a arriscar-me muito, não é? O namorado riu. Que queres que te responda? Avante camarada? Se nem tu estás convencida. Queres é apoio. Mas não vais ter. Nem penses, concluiu ele. Ela encolheu os ombros, balbuciando: vamos então voltar à história.

Agenda

Depois de passar os olhos pelas parangonas do Jornal de Notícias, The Guardian, Público e Observador, volto à concha para agendar. O que está a flutuar ainda sem as palavras certas e estruturadas?


A forma com se está no mundo: na busca do equilíbrio comum e justo ou a cavalgar a onda para beneficiar o umbigo. A primeira forma exige reflexão e justeza, a segunda é habitada por larápios que usam o talento alheio para distorcer e manipular o discurso em prol do egoísmo, das audiências e do protagonismo - a fazer charme para aceder aos corredores do poder ou lá se manter. Fazer boa figura à custa da competência e inteligência alheia. A primeira exige coragem na solitude, a segunda costuma atacar de modo cobarde e embusteiro quem é independente para impor a lei da força dos grupelhos.


O modo replicador no espaço público prejudica o interesse comum. Disseminam-se ideias sem qualquer crivo de verdade, apenas por moda. Chavões atraentes ditos pelos protagonistas com maior visibilidade na comunicação social são replicados à exaustão online. Não interessa pensar, interessa copiar os argumentos atraentes para encostar à tribo que dá acesso às audiências e ao poder.


Ou plagiar os argumentos contrários, distorcendo e manipulando a linguagem de modo a caçar o talento do adversário para o pôr ao serviço da própria ganância e falta de carácter.


Menos perigosos do que estes ardilosos e inescrupulosos são os que vão vivendo de modo fácil fazendo resumos de tudo quanto é dito com melhor aceitação pela maioria, produzindo súmulas como se fossem a sua opinião, como se resultassem de pensamento próprio. Neste último caso, não vem especial mal ao mundo.


Já o caso da distorção e manipulação para prejudicar uns em beneficio de outros são nocivas, tanto mais que quem tem esse vício raramente prossegue o bem comum.


E ficam assim os tópicos um tanto mal amanhados para desenvolver um dia, quem sabe.


(nota: não consegui pôr a imagem habitual do cérebro azul fluorescente; ficará para mais tarde.)

19/05/2025

A Trumpetização portuguesa

Captura de ecrã 2025-05-19 101400


Escusam de continuar a esticar o dedo mindinho e pôr ar enjoadinho de quem olha sobranceiramente do cimo do pedestal para o eleitorado terraplanista norte-americano. É melhor começarem a preocupar-se com a torpe cultura das audiências nacionais (e europeias). Basta o sopro troglodita, a leve aragem reacionária, das redes de influência da comunicação social e das redes sociais para os lúcidos e inteligentes portugueses do velho país europeu aderirem em massa. Clap, Clap, Clap aos grandes influentes da nação. Aos vencedores, aos destacados das televisões e plataformas online. Parabéns. Conseguiram. Venceram. A minha vénia pelo brilhantismo na arte da manipulação e distorção dos factos. A dissimulação é rainha e o ar compungido com que André Ventura discursa define o estado da nação.


Parece ressabiamento? Parece exagero? Não é. É clareza.

18/05/2025

Boa noite

db16254b-766d-4cfc-83cc-e18a8094f780


Gerado pelo ChatGPT a meu pedido.

Tarefas de Domingo


  1. Dormir.

  2. Votar.

  3. Escrever fora de antena o ponto final numa valente estupidez. Aclarar com máxima verdade e crueza todos os contornos da insanidade e pôr-lhe fim. A vida voltará ao normal. Já era tempo.


Nota: o post anterior tem o diário habitual dos fins-de-semana.

17/05/2025

Diário 17 de Maio de 2025

A fartura. Hoje não trago apenas uma história do Medium acerca de pintura, mas duas. Um fartote. Se o tempo fosse elástico, a quantos mundos poderíamos chegar esticando a mente como quem estende o braço para com a mão agarrar um objecto numa prateleira alta. No primeiro post, o autor, historiador de arte, versa sobre o pintor francês André Derain a propósito da ida a uma exposição do pós-impressionismo. O mote é a busca contínua de novas abordagens artísticas do pintor ao longo da vida, em exploração criativa constante. Desde o fauvismo, que o autor nos conta resultar do epíteto “animais selvagens” (Les Fauves) com que um crítico da época mimoseou os fundadores do movimento, como Derain e Matisse, caracterizado pelo uso de cores intensas e não naturais, pinceladas livres e em Derain no atrevimento de pintar por instinto directamente sobre a tela sem contornos, preterindo as camadas finas de óleo que davam profundidade aos quadros dos mestres. Do fauvismo até ao classicismo mais tardio, passando pelo cubismo e pelo período gótico. Procurando sempre inovar com verdadeiro espírito de criação artística. Na segunda história, o autor, um estudante de Seul, traz a sua interpretação da pintura surrealista Os Amantes II, de René Magritte. Na tela duas pessoas beijam-se com o rosto e cabeça cobertas de um pano branco que impede real contacto físico. Para o autor, que recorre à interpretação das cores das paredes – vermelho como sinal de paixão e azul a estabilidade e inspiração – mas também à sensação de espaço aberto dada pela parede azul – o quadro simboliza a barreira entre o amor verdadeiro e o que se mostra exteriormente. Em paralelo - não chego a perceber se identifica as duas dicotomias -, vê a contraposição do amor eros e o amor ágape, sugerindo que o amor físico pode corromper o amor genuíno, tornando a relação vazia. E fico por aqui com a pintura por hoje. As entradas que deram origem a estes comentários estão afixadas na Reading List.


Ciente que mais tarde posso desdizer-me ou até já estar em contradição com o que tenha feito no passado, conto a razão por detrás do desajuste ou despropósito no alinhamento dos meus posts. Procuro não fazer ou abusar das associações entre arte ou literatura e as ideias que exponho. Opto por deixá-las respirar por si próprias e não gosto de cair na falácia da prestação de tributo para me engrandecer. Procuro não ilustrar o que escrevo com citações ou imagens de obras consagradas - fazer a ponte ou a associação de ideias para suportar as minhas afirmações. É um expediente usado desde sempre, entre pessoas credíveis também. Sucede que cada um é como é e cada vez mais soa a boleia e tantas vezes interesseira e desrespeitadora. Prefiro que as referências ao que leio não sirvam para me justificar. Deixá-las soltas, mesmo dando ar de desajustada. Prefiro correr por minha conta e risco sem encosto que me dê ser.


Parecendo misturar alhos e bugalhos talvez seja a mesma razão que me levou a ter pudor de contar que numa noite de Inverno ao sair do local de trabalho, há três ou quatro anos, já perdi a noção do tempo, ter encontrado na rua a bonita e delicada Lídia Jorge. A precisar de ajuda. Dirigiu-se a mim e perguntou se sabia onde era o Hotel da Música e confessou-me que se sentia perdida no Porto. Disse-lhe que era mesmo em frente e percebi a dúvida. O hotel não tem entrada nos figurinos tradicionais, fazendo parte do edifício requalificado do Mercado do Bom Sucesso. Perguntei desajeitada: desculpe, é a Lídia Jorge? Respondeu-me que sim e limitei-me a dizer que era um grande gosto conhecê-la. Não tive a presença de espírito de elogiar o seu trabalho, que tanto aprecio. Espero que tenha encontrado a discreta porta do hotel. Fiquei arrependida de não ter atravessado a rua e acompanhado Lídia Jorge até à entrada. No Porto somos estranhos, temos hotéis que não parecem hotéis e quadros de Paula Rego no bengaleiro de museus. Há uma certa informalidade e aversão aos pedestais. Nada disto nos retira o gosto pela arte e elegância. Não são é alardeadas.


Lembro que no dia escrevi qualquer coisa nas Comezinhas para assinalar a mim própria este pequeníssimo encontro, sem qualquer referência à escritora ou a nada que pudesse dar a entender a outros o que tinha acontecido. Era apenas uma forma de registar para mim própria. Fui tão discreta que não consigo encontrar esse post e por isso não consigo situar o episódio no tempo. E vem isto a propósito de não gostar de andar à boleia do talento ou da celebridade alheia e de como acho desonestas as permanentes referências interesseiras a quem tem talento ou apenas visibilidade. Sei que isto pode parecer puritanismo. Excesso crítico. Niquices sem valor. Não creio que sejam. Portugal é o país do compadrio. E é nos pormenores que se marca a diferença. Em regra, não se faz juízo crítico das tentativas de aproximação e excesso de intimidade por interesse. A sonsice e falsidade imperam. Ou pior, existe o topete de tecer considerações acerca de quem se teve oportunidade de conhecer a partir de uma perspectiva ajuizadora para dar o ar de autoridade. Marcar a diferença é uma exigência de carácter e independência. Se não aprecio que se aproximem de mim por puro oportunismo e cobiça, não devo usar referências para me beneficiar ainda que nas mínimas circunstâncias.


O respeito pelo outro fica connosco, mesmo que não seja percebido por ele próprio ou pelos demais fica na nossa acção. Talvez tenha deixado clara pelos exemplos singelos a razão para não apreciar o excesso de intimidade oportunista nem quem cultiva amizades interesseiras.


Amanhã é dia de eleições. Acerca do tema deixo apenas mais uma consideração entediante. Em muitos casos o que mais me irrita na opinião de outros, errada na minha perspectiva, é corresponder ao que pensava em tempos passados. Deve ser uma bulha comigo própria. É detestável ver outros caírem nas crenças patetas ou cínicas de mundos de igualdade de oportunidades e em preconceitos e injustiças em que incorri na adolescência ou juventude. É uma bulha na defesa do sentido da vida como aprendizagem e da consciência de não termos vindo ao mundo a passeio. Não me refiro apenas a opinião de gente mais nova, mas da tendência geral. Apetece-me pô-los num programa rápido de vida com problemas graves a resolver, sacudi-los e fazê-los sentir na pele as dificuldades alheias para ganharem consciência da necessidade de respeito pelos demais.


Hoje não houve retrato escrito do quotidiano, mas fica a fotografia da manhã banal. Exibo a imagem trivial, não as célebres.


Capturar


Obrigada por terem lido. Bom Domingo.

Lídia Jorge

20250516_164916


20250516_164947


20250516_165001


20250516_165006


20250516_165705


20250516_165040


20250516_165115


20250516_165119


20250516_165129


20250516_165133


20250516_165149


20250516_165152


20250516_165202


20250516_165205

16/05/2025

Ponto de situação

O que fiz de relevante nas últimas horas? Aluei. Senti-me pairar sobre a realidade e temi o desfasamento. Perdi-me completamente nos pensamentos sem saber muito bem o que se passava à minha volta. Meia anestesiada ao almoço comi dois filetes de pescada, não consegui comer as batatas nem a alface. Mas entretanto já devorei uma banana e bolachas. Pelo caminho passei numa rua que calcorreio com regularidade. Lembrei-me terem falado de uma loja em que nunca tinha reparado e quis assentar no chão e confirmar. Pensei que seria a de lingerie, mas informaram-me mais tarde que essa é só armazém e a conversa havia sido acerca da escova apanha migalhas de mesa. Tudo a ver. Um bazar de utilidades caseiras. Voltei atrás para fazer novamente a rua e prestar atenção às lojas. Vi e fixei: lingerie, bazar, imobiliária, confeitaria, sapataria, notário, etc. Uma conquista: afinal não hei-de ser sempre a que não vê nada do que se passa à volta. São batalhas difíceis que não dizem nada à maioria, a quem é fácil ver e relatar tudo quanto todos vêem. Entrei no centro comercial e em duas lojas de roupa. Não ia comprar nada, deitei os olhos aos vestidos com franzido elástico e saí. Entrei na Bertrand, a conversar ao telefone, em minutos fui percorrendo as mesas e prateleiras com os olhos: História e biografias, política internacional, ciências sociais e humanas, neurociências e demais não ficção, poesia, literatura internacional, destaques. Peguei em dois calhamaços de autor português muito na berra. Ficção. Sangue, crime, temas mediáticos reais e datados a enquadrar o enredo, sangue, temas reais e mediáticos da actualidade a encaixilhar a intriga, crime. Pousei. Comecei na minha habitual e árdua tarefa de procurar livros muito finos e se possível de mulheres e de preferência de portuguesas. Um funcionário estava, como é costume, a repor obras na estante da literatura portuguesa. Já é rotina a que assisto sempre que lá vou e me aproximo daquela estante. Fico à espera do dia em que me entreguem em mão uma preciosidade. Depois de percorrer as quatro ou cinco prateleiras com os olhos, deparei-me com Lídia Jorge e pensei: vou repetir, é aposta ganha. E foi. Comprei o livro Marido e outros contos. Um dos mais finos da estante. Li o primeiro conto. Fotografei. Mais logo publico. A diferença entre escrever a metro e literatura talvez esteja na arte de ver a realidade do direito e do avesso com a verdade e o pudor corajoso de quem não sabe ser vulgar e ainda assim se atreve. Daí o apreço e respeito. O resto, o meu estado aluado, fica para o diário de fim-de-semana.

Lido



O secretário-geral da NATO, Mark Rutte, acusou o presidente russo, Vladimir Putin, de errar ao enviar uma delegação de segunda linha às negociações em Istambul sobre a guerra na Ucrânia.


[...]


“Um cessar-fogo incondicional é a nossa prioridade”, afirmou Andriy Yermak, o braço direito do presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, numa mensagem nas redes sociais citada pela agência de notícias France-Presse (AFP)





O número de trabalhadores da administração pública subiu 1,3% até 31 de março, em termos homólogos, para 758.889 postos de trabalho, um novo máximo da série estatística iniciada em 2011, segundo dados divulgados esta sexta-feira.





Bruce Springsteen denuncia “abusos de Presidente incapaz e de Governo desonesto”
Mas foi com a canção My city of ruins (“a minha cidade de ruínas”) que Springsteen foi mais assertivo: “Há coisas muito estranhas e perigosas a acontecer neste momento”, começou por dizer, para explicar que, “na América, estão a perseguir pessoas por usarem o seu direito à liberdade de expressão e por manifestarem a sua discordância” — e sublinhou: “Isto está a acontecer agora.”

Bruce Springsteen denuncia “abusos de Presidente incapaz e de Governo desonesto”
As diversas situações foram enumeradas: “Na América, os homens mais ricos estão a ter satisfação em abandonar as crianças mais pobres do mundo à doença e à morte. Isto está a acontecer agora. No meu país, estão a ter um prazer sádico na dor que infligem aos leais trabalhadores americanos. Estão a fazer retroceder a histórica legislação sobre direitos civis que conduziu a uma sociedade mais justa e plural. Estão a abandonar os nossos grandes aliados e a aliar-se a ditadores contra aqueles que lutam pela sua liberdade. Estão a retirar financiamento às universidades americanas que não se curvam perante as suas exigências ideológicas. Estão a retirar residentes das ruas americanas e, sem o devido processo legal, estão a deportá-los para centros de detenção e prisões estrangeiras. Tudo isto está a acontecer agora.”


Quem diz a verdade não merece castigo

Convinha não esquecer que percentagem significativa dos portugueses considera "ler as notícias" tão só ler as parangonas da página MSN que abre por defeito ao ligar o computador. Ou o mesmo tipo de automatismos de selecção da página Google dos telemóveis. Os mesmos que dizem não ver televisão para não serem enganados ou vistos como cafonas, sendo os jornais miragens. Vivem da troca de memes nas redes sociais - por essa via dão ar de informados capazes de sarcasmo. E ainda assim nalguns casos entre as larachas afirmam-se leitores de livros; com a mesma convicção e vaidade com que exibem os ténis da Nike.

15/05/2025

Mais vale

Marcelo Rebelo de Sousa substituir-se aos portugueses e ir votar na AD pela maioria. Assim garante a estabilidade e a solução governativa que tanto deseja. Se não conseguir preencher todos os boletins pode levar como acólitos às urnas os jornalistas e comentadores da SIC. Também estão bem amestrados.

Inside Out

Veneno versus crítica válida

Nas redes sociais, blogs e plataformas online, mas também na comunicação social, mais ainda do que no mundo físico, temos de ter ginástica para estar permanentemente a desviar da peçonha expelida, especialmente de  forma disfarçada. E da vulgaridade e ordinarice muito promovidas e aplaudidas. Ainda há quem insista na necessidade de leitura a eito. O que devemos possuir é critério para ignorar o muito lixo maledicente e grosseiro. Em matéria de juízos de valor confiar apenas nas críticas válidas e fundamentadas ainda que duras de quem cria valor por mérito próprio. Sem encostos e popularidades vãs.


Bom dia.

14/05/2025

Kumquat

20250514_134005


No fim do almoço e antes do café experimentei kumquat - citrus japonica. Sabe a laranja amarga com casca doce. Aprovado.

Quatro pegas

Começo a manhã com a porta da varanda do quarto aberta e logo vejo esvoaçarem quatro pegas.


Lembro a cantilena infantil inglesa sobre magpiesOne for sorrow, Two for joy, Three for a girl, Four for a boy, Five for silver, Six for gold, Seven for a story yet to be told.

13/05/2025

Mais uma mexerufada: o chiquedo

(corrigido)


Terei de ser breve ao falar de eleições. Tentarei, pelo menos. O dia pôs-se atarefado sobrando pouco tempo para relatos e opiniões. Começo por contar que esta semana vou experimentar Kumquat; logo darei notícia se apreciei.


O que não gosto nem um pouco é das alcoviteiras que se juntam na televisão a zurzir naquilo que não lhes sirva de encosto e sustento. Ontem à noite a televisão lá em casa esteve ligada na SIC, antes de mudar para a RTP, e vi o costume: o pretenso chiquedo de adro de igreja alfacinha na maledicência habitual. Gente com discípulos replicadores nos blogs e redes sociais. Agora o alvo de ataque é a esquerda, como há trinta anos era a direita; na época em que os clãs de interesse e trocas de favor preponderantes bajulavam os socialistas, apesar dos governos sociais democratas de Cavaco Silva, essa ovelha negra na perspectiva do chiquedo, que agora adere à nova onda. Apontam para onde soprar o vento favorável aos seus interesses. Repare-se que o chiquedo caracteriza-se por três pechas: presunção, acefalia e oportunismo.


Disfarçado de análise política com auto-elogios à alegada lucidez (consideram-se referências do jornalismo, não há nada como estar contente consigo próprio e viver de aparências). O que faziam há trinta anos é o mesmo que fazem hoje: bajulação das redes de interesse e influência e destruição através da maledicência do que tenha valor e merecimento. Viver à custa do poder com grande audiência. Ah, e claro, incluir no pacote o desporto religioso. Aquela sonsice muito característica de quem através da retórica põe os valores cristãos ao serviço da perpectuação do poder discricionário. 


Em matéria de eleições sinto um déjà vu por causa do meu O Livro dos Três Princípios. Escrito entre Abril de 2015 e Abril 2019 antecipa muito do que se passou nestes últimos anos, não só pela coincidência caricata das origens dos dois principais líderes partidários, Luís Montenegro e Pedro Nuno Santos, como pelas questões políticas, sociais e ideológicas levantadas. Sucede que como é habitual, tudo fora de tempo. Com atraso e o desajuste de sentido usual. À época em que o escrevi (não tem edição em papel, logo, é tratado como lixo para usar e fazer de conta não se leu) frisei a falta de assunção da voz da direita portuguesa. E aí está ela, finalmente a exibir-se, mas na sua pior versão. A distorcer os melhores argumentos da esquerda por síndrome de chiquedo. Insisto.


Como exemplo, temos a manipulação da proposta de uma taxa para grandes fortunas. Tudo fazem para fazer crer que se está a atacar os criadores de riqueza ou mesmo a classe média e a pôr em causa o respeito das empresas criadoras de emprego. Uma ladainha que faz sentido para contrapor noutras matérias, mas nesta serve apenas para atirar areia aos olhos da mais razoável reivindicação de justiça por deslumbre e reverência bacoca aos sinais de grande riqueza. Uma coisa é criticar a proposta de Susana Peralta na época da pandemia para a criação de um imposto sobre a classe média, uma coisa é perceber que a riqueza não nasce na árvore das patacas, mas das empresas, no capital e no trabalho nelas investido, outra completamente diferente é esticar o dedo mindinho, abanar o rabo (esta dói aos matarruanos ascendidos que acham que sabem o que é educação, mas nem distinguiam abanar a cauda de abanar o rabo) e condenar uma proposta de taxar um punhado de fortunas que absorvem e concentram nas mãos de muito poucos parte substancial da riqueza total do país. Nem sequer querem ouvir falar dos benefícios trazidos pela medida (ai credo aumentar as pensões, isso é uma medida social e não económica; a grande lata destes canastrões não tem tamanho), que acabará com o tempo por ser aceite como uma evidência da mais elementar justiça. Os que a condenam são os mesmos que defendiam contenção dos salários no tempo da crise e ficaram muito admirados que o país pudesse possuir contas certas com aumento do salário mínimo. O chiquedo presumido, acéfalo e oportunista, que caracteriza a pior raça de portugueses. Aquela que lida bem com a injustiça ou vive à custa dela.

12/05/2025

Inclinações naturais

Nos últimos dias a televisão lá em casa tem estado desligada ou na RTP, o que traz mais serenidade. Ontem ouvi anunciar um documentário que vou tentar seguir: Ciência e Espiritualidade. Fiquei curiosa. Uma tentação para quem tem mais inclinação para a dúvida do que para as certezas. Começa a ser exibido hoje, às 22h57.

Curiosidades

«O V Recenseamento Geral da População de Portugal realizou-se a 1 de dezembro de 1911, abrangendo todo o território nacional no continente europeu e arquipélagos dos Açores e da Madeira. Segundo este Censo, Portugal tinha 5 960 056 «habitantes de facto»,[1] sendo 2 828 691 homens e 3 131 365 mulheres, verificando-se ainda que somente 1 481 978 sabiam ler[2] e as famílias apresentavam um número médio de 4,2 indivíduos.»


«After 1868 new leadership set Japan on a rapid course of modernization. The Meiji leaders established a public education system to modernize the country. Missions like the Iwakura Mission were sent abroad to study the education systems of leading Western countries. They returned with the ideas of decentralization, local school boards, and teacher autonomy.[2][3] Such ideas and ambitious initial plans, however, proved very difficult to carry out. After some trial and error, a new national education system emerged. As an indication of its success, elementary school enrollments climbed from about 30% percent of the school-age population in the 1870s to more than 90 percent by 1900, despite strong public protest, especially against school fees.»


Fonte: Wikipedia.


*


Vem isto a propósito desta noite ter lido (de vez em quando distraio-me e sem querer leio livros) que no início do século XX o Japão tinha taxas de alfabetização superiores a 90%. E na semana passada ter recordado na televisão num programa sobre a nossa I Républica que as taxas de analfatetismo eram superiores a 70%. Curiosidades.  

10/05/2025

Diário 10 de Maio de 2025






 







BeYou


Hoje a história escolhida no Medium é de Janeiro de 2024 e versa sobre a recriação pelos soldados ucranianos da pintura do século XIX A Resposta dos Cossacos Zaporózios, de Ilya Repin, que retrata a lenda da resposta insultuosa ao ultimato do sultão otomano Mehmed IV. O autor começa por recordar atitude semelhante de desafio em contexto de guerra: a do general norte-americano McAuliffe aos alemães em Bastogne, na Bélgica, em 1944, como a resposta ao pedido de rendição dos alemães: “Nuts!”. O artista francês Emeric Lhuisset recriou a cena dos cossacos com a participação de soldados ucranianos, incluindo o soldado Roman Hrybov, o guarda da Ilha das Serpentes que em 2022 respondeu: “Russian warship, go fuck yourself”. O texto que deu azo a este comentário está afixado na Reading List. O autor conclui que o espírito e moral ditarão a vitória da Ucrânia.



Tenho lido quase nada e prestado pouca atenção ao Medium, salvo ao fim-de-semana em busca de uma história com interesse para trazer para o diário. Isso reflecte-se naturalmente nas interacções e não vem nenhum mal ao mundo. Os apetites e disponibilidade logo determinarão se voltarei a estar mais empenhada nessas leituras. O tempo não estica.


O final do dia pôs-se problemático com chatices como os problemas de humidade no apartamento da vizinha de baixo, não resolvidos com as obras no exterior do prédio no Verão passado, além de algumas rudezas e incompreensões que conheço desde que nasci. Não vale a pena lutar contra os ventos. Há quem não compreenda, nem nunca vá compreender nada do que saia do enredo previsível, das ondas de opinião e quadro-mental dominante e lugares-comuns, nem faça esforço para entender achando o máximo ser insensível. Creio que acreditam que afirmar-se e desconsiderar os demais é prova de carácter forte e inteligência — os outros que se amanhem. Lidar desde sempre com a insensibilidade se me trouxe tristeza, preparou-me para a incompreensão, preparou-me para a vida. O que fui conhecendo de mau não é muito diferente do que lidei desde que nasci. Ainda assim vou publicar o que vem a seguir. Tinha escrito de manhã e fica. Afinal um dos aspectos essenciais é a diferença positiva que o Nuno me trouxe com a sua inteligência e capacidade de expressar emoções e entendê-las. Pela sua sensibilidade. O resto será levado com o tempo.


Quando perspectivo o futuro não é o medo que sobressai, mas vou começar por aí. Do futuro temo a morte dos meus pais. Já aqui falei disso de uma forma bem-disposta contanto que os proibi de desaparecerem antes dos cem, mas o certo é que só a ideia já abala. Outro medo do futuro prende-se com as ausências do Nuno nos episódios de epilepsia e a solidão que sinto naqueles minutos. Matuto como durante tantos anos desejei a independência e como me sinto só e desamparada na ausência do Nuno ainda que por instantes. Como é má a sensação. A ideia de solidão que só muito circunstancialmente me abalou no passado é agora traduzida pelo vazio imposto pela perda ou ideia de perda. É uma dor nova, menos egoísta. O “e se não tivesse o Nuno” dói. Não seria só a falta egoísta de que falarei a seguir, mas a perda da vida que importa, o desperdício da alegria e projecto de vida dele. Seria o amor à própria vida dele que perderia. Aquela luz apagada nas ausências de consciência dá-me cabo da paz e compreendo nesses momentos a importância que tem por si mesmo. Claro, vem também o egoísmo. Tendo conhecido e vivido mais do que uma vez o amor intenso e superficial, a paixão inconsequente e egocêntrica de parte a parte, sei bem a diferença. Sei o que é importar para o mais do que tudo, ser desejada, mimada e valorizada. O que é discutir para logo acrescentar e não destruir nem diminuir. O que é desejar a presença física nas mais simples circunstâncias e saboreá-la. O que é ter ao lado alguém que nos assume como prioridade e nos defende e me defende. Sou consciente do valor do amor verdadeiro e da sua raridade. E quero corresponder, apesar do meu egoísmo e mau feitio. Quero corresponder não por dever, mas por natural sentimento de reciprocidade. Porque sei que o amo, apesar da falta de paixão que me assola e sabendo que toda a vida fui inconstante. Toda a vida fui volúvel. Desejei sempre estar onde não estava, sempre devaneei com ilusões e sei que nunca irei sentir-me inteiramente realizada no amor. O que não invalida que seja feliz a maior parte do tempo. Há dias muito feliz. Outros nem tanto. Só ou acompanhada toda a vida me senti insatisfeita e não levo nem um pouco a sério as tretas de afirmação e da auto-estima como prioridades e as balelas da conquista da plenitude através da autonomia e realização pessoal. Sei que insatisfeita sou mais livre e feliz do que seria se me promovesse como realizada e plena. Não sei nem crio a aparência de saber muito do que impressiona e entretém sábios e seguidores, mas sei o que mais importa. O valor do amor palpável, sofrido, belo, alegre, contraditório, incompleto, real. Verdadeiro. Em permanente construção. Muito diferente do amor ilusório a que chamam pleno e realizado — seja a completude do amor-próprio ou do amor a outrem. Uma miragem que serve de entretém para insatisfeitos conscientes e deslumbrados.


O M. esteve cá hoje. A lição foi diferente do habitual. O Nuno pô-lo a ouvir músicas e uma de um quase desconhecido. Praia do Paraíso, de Tó Neto. A ideia é que o pequeno oiça, reconheça o que está a ouvir e comece a tocar acompanhando. Sem decorar as notas e acordes, mas reproduzindo o que está a ouvir. O M. adorou a música e a experiência: “é muito fixe”. Enquanto isso o Nuno ia insistindo à medida que o miúdo ia tocando: Lá Menor, Ré Menor, Fá… não, M. ouve, não estás a ouvir. Ouve. A presença do M. desde Novembro ajudou-me a apaziguar um desgosto intermitente. É assim que vejo o desgosto de não ter filhos. Não foi uma constante. Havia alturas em que vinha feroz como dor, incompletude, falhanço. Talvez ao usar esta última palavra perceba que a maternidade também não era em mim um sonho decidido. Total. Seria uma forma de provar o meu valor como mulher? Seria infantil. Mas é certo que sinto falta do carinho e entrega associados à maternidade, apesar de ao longo da vida não ter sido uma prioridade. A vinda do M. para as lições de piano com o Nuno é a sequência da decisão de não ter filhos e parar de pensar adoptar uma criança colmatando-a com o voluntariado ligado a casas de acolhimento de menores. O M. veio apaziguar esse vazio. Ajudou a aceitar a vida como ela aconteceu. E perceber que os momentos que o M. passou e passará cá em casa até continuar a querer são não só importantes para o próprio M. — passa a ter uma referência masculina no trato recto e terno além de aprender um pouco de música e ganhar disciplina -, como para o Nuno — faz o que toda a vida gostou de fazer -, e também para mim — vou participando como uma espécie de outsider que mexeu os cordelinhos para que as vidas deles e a minha melhorassem. Ajuda também à sensação de maior tranquilidade os meus sobrinhos começarem a entrar na idade de ponderar ter filhos. A ideia de vir a ser tia-avó deixa-me contente, ainda que seja uma mera hipótese e que ainda vá esperar uns anos. Um bebé na família seria uma alegria. A vida continua para cada um como aconteceu. Como acontece. Sem roteiros certos ou errados.


E escrevo isto pensando: estarei a escrever o que sinto ou a convencer-me? Não devia, mas respondo: as duas. É o que dá pensar demais. Vale o exercício espontâneo de fluxo de consciência tão desdenhado por quem não gosta de falar de emoções e da realidade senão superficialmente e por rótulos.


Obrigada por terem lido. Bom Domingo.

O dia promete

20250510_081450


20250510_083603


20250510_083130


20250510_083145


20250510_083201


Enquanto tirava fotografias às flores da varanda - camélia, jasmim, oliveira e rosa - a pega e o melro residentes no jardim do vizinho bulhavam a disputar território, barulhentos. Ao Sábado de manhã como de costume a tranquilidade impera apesar de estarmos no centro da cidade. O ruído é da bicharada cortado pelos aviões ou um carro mais barulhento. De resto, paz.


As cartas de tarot do dia saíram suaves. Tudo indica venha a pôr-se um dia bom. Cá dentro cumplicidade e riso com patetices sãs - o gozo com a trapalhice do "para ti saiu o king of coiso", nada como saber falar - e o gato feliz na varanda.


Bom dia.


*


20250510_094035


A terminar o início da manhã desci à padaria e trouxe pão quente para comermos com triângulos de queijo e fiambre. Aberto à mão, à trouxe-mouxe. Mais um luxo simples, sem ondas nem bruaás. Antecedido do arranjo rápido da casa.


São 9h50. Tudo pronto para a chegada do M.