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04/05/2025

Diário 4 de Maio de 2025


Desperta depois de uma noite dormida no sofá, que há muito não acontecia, e do pequeno-almoço de pão ainda quente com um triângulo de queijo e café, começo o que deixei por fazer ontem. No Medium li duas histórias da mesma autora acerca de técnicas de pintura. Na primeira sugere o uso do pincel para desenhar em substituição do lápis. Dá dicas sobre a escolha do pincel redondo com ponta fina, papel de prensa fria e opta pela aguarela. O pincel em conjugação com a aguarela dá maior fluidez, expressividade e elegância. E refere o que lembro terem-me ensinado de forma brusca na primeira e única vez que experimentei uma aguarela: soltar a mão e não temer o erro ou imperfeição. Na segunda história a autora mostra como pintar vidro. A chave está em perceber que ao pintar algo transparente, temos de nos lembrar de que o objecto é translúcido. Não vamos desenhar a superfície desse objecto mas a superfície de tudo quanto vemos através dele: as cores, formas e sombras. A observação do que está dentro e através do material transparente e a sua representação farão surgir como por magia a ilusão da transparência.



Cada uma das duas histórias simples podia representar uma metáfora para a forma de observar, de estar na vida e até de escrever. A vantagem da liberdade de soltar não temendo a imperfeição e a magia do subentendido que desnuda as verdades difíceis de revelar.


Mais uma vez recordo que quem quiser ler os posts que deram origem a esta entrada pode fazê-lo na Reading List. Opto por não trazer as imagens que os autores dos postais sobre os quais escrevo associam às suas histórias. Descrever o que vi, ouvi, li ou aprendi sem juntar a imagem das pinturas é um exercício em si. Se as exibisse, auxiliaria o cérebro dos leitores com a poderosa realidade — o facto -, prescindindo da imaginação, da capacidade de criar imagens, e por mais sejam desajustadas da realidade, são as de cada um. Será a própria escrita a induzir maior ou menor verossimilhança. São passeios mentais como os estimulados pelos reflexos na parede da garrafa de água pousada na mesinha cabeceira que um dia comentei nas Comezinhas. Coisas com que perco tempo. Difíceis de compreender a quem só toma por tempo útil o dedicado ao relato, aos enredos e às histórias e considera este tipo de deambulações excessivos esmiuçares de banalidades — tomadas como momentos aborrecidos senão imbecis; falta-lhes a glosa da trica pessoal, do rebusque oco do lugar-comum, da faca e alguidar, da bola e da questiúncula da actualidade.


O gosto de aprender por aprender. A curiosidade de matérias em que jamais se terá a pretensão de ensinar, mas tão só compartilhar aquilo que chega até nós por mero prazer na comunhão do gosto. Sem lições patetas com o objectivo de protagonismo e de criar ascendente para se colocar numa posição privilegiada e desrespeitadora dos demais. Ainda que os demais não cheguem a perceber a diferença entre delicadeza de quem os respeita e o desprezo no aproveitamento oportunista dos presumidos. Ainda que nem compreendam a diferença entre o que lhes é dado e o que é vendido caro por quem vai fazendo caminho agredindo de forma sub-reptícia quem tem valor perante a indiferença generalizada de uma maioria que mais ou menos crédula e criativa segue as ondas da comunicação social, pródiga em denunciar as injustiças aparentes e cega face às iniquidades reais e ocultas e por isso mais danosas, como a eliminação do merecimento.


Mas voltemos ao que interessa. À manhã de Sábado. Enquanto lia a história do Medium acerca de pintar a transparência ouvia a lição do M. Ao fim de duas semanas de ausência e sem piano ou teclado onde treinar tocou o Hino da Alegria de memória. Gostei. Pouco depois estava o Nuno a insistir: Dó, Lá Menor, Fá, Sol. A tentar fazer com que o M. atine no ritmo e na harmonia, no tempo certo. Oiço o miúdo perguntar com alegria ansiosa na voz a cada tentativa: acertei, agora acertei? O desalento quando não, o contentamento na voz quando começa a acertar. Assim vale a pena, ver o brilho nos olhos do miúdo, a quem perguntámos por carros preferidos. A H. revelou que ele sabe as marcas todas. Mais um aficcionado dessas máquinas horríveis. Ao final da tarde mandámos vir da AliExpress uma miniatura 1:24 para dar ao M. Merece.


Ontem houve visita cá a casa. Quase me tinha esquecido que estava à venda. Um casal de português e inglesa. Aproveitei e revi as fotografias de uma moradia pela qual temos interesse. Pus-me a imaginar e, à falta nessa casa de um quarto com luz directa para substituir o meu +1, criei na mioleira um espaço de leitura e escrita no corredor da segunda entrada da modesta moradia, que tem telhas de acrílico e degraus de acesso à cozinha. Não quero falar muito para não azarar uma vez mais.



Capturar


Hoje é dia da Mãe. Já falei com a minha. Logo às nove da manhã. Impera a boa-disposição. O Nuno falou cedo com a sua. Também estava tudo tranquilo em Almada. A primeira rosa do ano está a despontar na varanda — da roseira do dia de namorados de há quatro anos. Chamo-lhe a roseira do Ritz por terem entrado ambos nesta casa em Fevereiro de 2021, ela a 14, ele a 22. Planta e bicho querido. Diário feito.



Obrigada por terem lido. Bom Domingo.