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16/05/2025

Ponto de situação

O que fiz de relevante nas últimas horas? Aluei. Senti-me pairar sobre a realidade e temi o desfasamento. Perdi-me completamente nos pensamentos sem saber muito bem o que se passava à minha volta. Meia anestesiada ao almoço comi dois filetes de pescada, não consegui comer as batatas nem a alface. Mas entretanto já devorei uma banana e bolachas. Pelo caminho passei numa rua que calcorreio com regularidade. Lembrei-me terem falado de uma loja em que nunca tinha reparado e quis assentar no chão e confirmar. Pensei que seria a de lingerie, mas informaram-me mais tarde que essa é só armazém e a conversa havia sido acerca da escova apanha migalhas de mesa. Tudo a ver. Um bazar de utilidades caseiras. Voltei atrás para fazer novamente a rua e prestar atenção às lojas. Vi e fixei: lingerie, bazar, imobiliária, confeitaria, sapataria, notário, etc. Uma conquista: afinal não hei-de ser sempre a que não vê nada do que se passa à volta. São batalhas difíceis que não dizem nada à maioria, a quem é fácil ver e relatar tudo quanto todos vêem. Entrei no centro comercial e em duas lojas de roupa. Não ia comprar nada, deitei os olhos aos vestidos com franzido elástico e saí. Entrei na Bertrand, a conversar ao telefone, em minutos fui percorrendo as mesas e prateleiras com os olhos: História e biografias, política internacional, ciências sociais e humanas, neurociências e demais não ficção, poesia, literatura internacional, destaques. Peguei em dois calhamaços de autor português muito na berra. Ficção. Sangue, crime, temas mediáticos reais e datados a enquadrar o enredo, sangue, temas reais e mediáticos da actualidade a encaixilhar a intriga, crime. Pousei. Comecei na minha habitual e árdua tarefa de procurar livros muito finos e se possível de mulheres e de preferência de portuguesas. Um funcionário estava, como é costume, a repor obras na estante da literatura portuguesa. Já é rotina a que assisto sempre que lá vou e me aproximo daquela estante. Fico à espera do dia em que me entreguem em mão uma preciosidade. Depois de percorrer as quatro ou cinco prateleiras com os olhos, deparei-me com Lídia Jorge e pensei: vou repetir, é aposta ganha. E foi. Comprei o livro Marido e outros contos. Um dos mais finos da estante. Li o primeiro conto. Fotografei. Mais logo publico. A diferença entre escrever a metro e literatura talvez esteja na arte de ver a realidade do direito e do avesso com a verdade e o pudor corajoso de quem não sabe ser vulgar e ainda assim se atreve. Daí o apreço e respeito. O resto, o meu estado aluado, fica para o diário de fim-de-semana.