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10/05/2025

Diário 10 de Maio de 2025






 







BeYou


Hoje a história escolhida no Medium é de Janeiro de 2024 e versa sobre a recriação pelos soldados ucranianos da pintura do século XIX A Resposta dos Cossacos Zaporózios, de Ilya Repin, que retrata a lenda da resposta insultuosa ao ultimato do sultão otomano Mehmed IV. O autor começa por recordar atitude semelhante de desafio em contexto de guerra: a do general norte-americano McAuliffe aos alemães em Bastogne, na Bélgica, em 1944, como a resposta ao pedido de rendição dos alemães: “Nuts!”. O artista francês Emeric Lhuisset recriou a cena dos cossacos com a participação de soldados ucranianos, incluindo o soldado Roman Hrybov, o guarda da Ilha das Serpentes que em 2022 respondeu: “Russian warship, go fuck yourself”. O texto que deu azo a este comentário está afixado na Reading List. O autor conclui que o espírito e moral ditarão a vitória da Ucrânia.



Tenho lido quase nada e prestado pouca atenção ao Medium, salvo ao fim-de-semana em busca de uma história com interesse para trazer para o diário. Isso reflecte-se naturalmente nas interacções e não vem nenhum mal ao mundo. Os apetites e disponibilidade logo determinarão se voltarei a estar mais empenhada nessas leituras. O tempo não estica.


O final do dia pôs-se problemático com chatices como os problemas de humidade no apartamento da vizinha de baixo, não resolvidos com as obras no exterior do prédio no Verão passado, além de algumas rudezas e incompreensões que conheço desde que nasci. Não vale a pena lutar contra os ventos. Há quem não compreenda, nem nunca vá compreender nada do que saia do enredo previsível, das ondas de opinião e quadro-mental dominante e lugares-comuns, nem faça esforço para entender achando o máximo ser insensível. Creio que acreditam que afirmar-se e desconsiderar os demais é prova de carácter forte e inteligência — os outros que se amanhem. Lidar desde sempre com a insensibilidade se me trouxe tristeza, preparou-me para a incompreensão, preparou-me para a vida. O que fui conhecendo de mau não é muito diferente do que lidei desde que nasci. Ainda assim vou publicar o que vem a seguir. Tinha escrito de manhã e fica. Afinal um dos aspectos essenciais é a diferença positiva que o Nuno me trouxe com a sua inteligência e capacidade de expressar emoções e entendê-las. Pela sua sensibilidade. O resto será levado com o tempo.


Quando perspectivo o futuro não é o medo que sobressai, mas vou começar por aí. Do futuro temo a morte dos meus pais. Já aqui falei disso de uma forma bem-disposta contanto que os proibi de desaparecerem antes dos cem, mas o certo é que só a ideia já abala. Outro medo do futuro prende-se com as ausências do Nuno nos episódios de epilepsia e a solidão que sinto naqueles minutos. Matuto como durante tantos anos desejei a independência e como me sinto só e desamparada na ausência do Nuno ainda que por instantes. Como é má a sensação. A ideia de solidão que só muito circunstancialmente me abalou no passado é agora traduzida pelo vazio imposto pela perda ou ideia de perda. É uma dor nova, menos egoísta. O “e se não tivesse o Nuno” dói. Não seria só a falta egoísta de que falarei a seguir, mas a perda da vida que importa, o desperdício da alegria e projecto de vida dele. Seria o amor à própria vida dele que perderia. Aquela luz apagada nas ausências de consciência dá-me cabo da paz e compreendo nesses momentos a importância que tem por si mesmo. Claro, vem também o egoísmo. Tendo conhecido e vivido mais do que uma vez o amor intenso e superficial, a paixão inconsequente e egocêntrica de parte a parte, sei bem a diferença. Sei o que é importar para o mais do que tudo, ser desejada, mimada e valorizada. O que é discutir para logo acrescentar e não destruir nem diminuir. O que é desejar a presença física nas mais simples circunstâncias e saboreá-la. O que é ter ao lado alguém que nos assume como prioridade e nos defende e me defende. Sou consciente do valor do amor verdadeiro e da sua raridade. E quero corresponder, apesar do meu egoísmo e mau feitio. Quero corresponder não por dever, mas por natural sentimento de reciprocidade. Porque sei que o amo, apesar da falta de paixão que me assola e sabendo que toda a vida fui inconstante. Toda a vida fui volúvel. Desejei sempre estar onde não estava, sempre devaneei com ilusões e sei que nunca irei sentir-me inteiramente realizada no amor. O que não invalida que seja feliz a maior parte do tempo. Há dias muito feliz. Outros nem tanto. Só ou acompanhada toda a vida me senti insatisfeita e não levo nem um pouco a sério as tretas de afirmação e da auto-estima como prioridades e as balelas da conquista da plenitude através da autonomia e realização pessoal. Sei que insatisfeita sou mais livre e feliz do que seria se me promovesse como realizada e plena. Não sei nem crio a aparência de saber muito do que impressiona e entretém sábios e seguidores, mas sei o que mais importa. O valor do amor palpável, sofrido, belo, alegre, contraditório, incompleto, real. Verdadeiro. Em permanente construção. Muito diferente do amor ilusório a que chamam pleno e realizado — seja a completude do amor-próprio ou do amor a outrem. Uma miragem que serve de entretém para insatisfeitos conscientes e deslumbrados.


O M. esteve cá hoje. A lição foi diferente do habitual. O Nuno pô-lo a ouvir músicas e uma de um quase desconhecido. Praia do Paraíso, de Tó Neto. A ideia é que o pequeno oiça, reconheça o que está a ouvir e comece a tocar acompanhando. Sem decorar as notas e acordes, mas reproduzindo o que está a ouvir. O M. adorou a música e a experiência: “é muito fixe”. Enquanto isso o Nuno ia insistindo à medida que o miúdo ia tocando: Lá Menor, Ré Menor, Fá… não, M. ouve, não estás a ouvir. Ouve. A presença do M. desde Novembro ajudou-me a apaziguar um desgosto intermitente. É assim que vejo o desgosto de não ter filhos. Não foi uma constante. Havia alturas em que vinha feroz como dor, incompletude, falhanço. Talvez ao usar esta última palavra perceba que a maternidade também não era em mim um sonho decidido. Total. Seria uma forma de provar o meu valor como mulher? Seria infantil. Mas é certo que sinto falta do carinho e entrega associados à maternidade, apesar de ao longo da vida não ter sido uma prioridade. A vinda do M. para as lições de piano com o Nuno é a sequência da decisão de não ter filhos e parar de pensar adoptar uma criança colmatando-a com o voluntariado ligado a casas de acolhimento de menores. O M. veio apaziguar esse vazio. Ajudou a aceitar a vida como ela aconteceu. E perceber que os momentos que o M. passou e passará cá em casa até continuar a querer são não só importantes para o próprio M. — passa a ter uma referência masculina no trato recto e terno além de aprender um pouco de música e ganhar disciplina -, como para o Nuno — faz o que toda a vida gostou de fazer -, e também para mim — vou participando como uma espécie de outsider que mexeu os cordelinhos para que as vidas deles e a minha melhorassem. Ajuda também à sensação de maior tranquilidade os meus sobrinhos começarem a entrar na idade de ponderar ter filhos. A ideia de vir a ser tia-avó deixa-me contente, ainda que seja uma mera hipótese e que ainda vá esperar uns anos. Um bebé na família seria uma alegria. A vida continua para cada um como aconteceu. Como acontece. Sem roteiros certos ou errados.


E escrevo isto pensando: estarei a escrever o que sinto ou a convencer-me? Não devia, mas respondo: as duas. É o que dá pensar demais. Vale o exercício espontâneo de fluxo de consciência tão desdenhado por quem não gosta de falar de emoções e da realidade senão superficialmente e por rótulos.


Obrigada por terem lido. Bom Domingo.