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31/05/2021

Gramática

Impressionante.


Relês o postal Corridinho escrito há precisamente um ano. Recordas bem ter ficado irritada dias depois por ter escrito ‘lembraste’ quando querias usar ‘lembras-te’, pelo que corrigiste o erro. Hoje deste por ti a achar novamente que estava errada a correcção. Perdeste uns minutos a pensar: era a segunda pessoa do pretérito perfeito e não a conjugação do verbo com o pronome que queria usar. Não, não era. Era mesmo o presente com o pronome reflexo.


Que fazer? Já te aconteceu quinhentas vezes, já leste a regra dezenas de vezes. E parece-te impossível fixar. Até dos truques para memorizar te recordas. Mas escreves mais por intuição do que pela gramática.


É um erro recorrente desde criança, tal como a pontuação, para a qual conheces duas ou três regras basilares e tudo o mais te sai por fazer ou não sentido na estrutura e divisão da frase.


Ainda por cima no caso bastava escrever 'lembras' - limando a frase - e utilizar o artigo em vez da contracção da preposição com o pronome e artigo.


O resto do postal remete para a poesia. E de momento não andas com vontade de versejar. O que não quer dizer que reapareça a qualquer momento.

Tchaikovsky - Lago dos Cisnes


The Kirov Ballet.

Um Epílogo

 


Quando estes poemas parecerem velhos,
e for risível a esperança deles:
já foi atraiçoado então o mundo novo,
ansiosamente esperado e conseguido
- e são inevitáveis outros poemas novos,
sinal da nova gravidez da Vida
concebendo, alegre e aflita, mais um mundo novo,
só perfeito e belo aos olhos de seus pais.

E a Vida, prostituta ingénua,
terá, por momentos, olhos maternais.


Jorge de Sena

Novelo

Deixas a escrita doce e bela para as circunstâncias em que faz sentido. Não serias capaz de dizer o que não sentes para embelezar sentimentos inexistentes ou encobrir amarguras e sofrimentos. Mil vezes passar por insensível à falsidade.


Esperas que o tempo te ajude a desembaraçar cada sarilho da vida, como ajudou há pouco a trazer luz e razão às trevas que te penalizaram injustamente durante tanto tempo. Ah, há matérias em que a razão não é chamada. Não crês: a razão é sempre chamada.


Não fazes a mais pequena ideia do que vai ser o futuro, como nunca soubeste, apesar de muito devanear. Conheces mal até os teus desejos, muito menos foste fadada com engenho para programar. Não tens talento para transformar sonhos e desejos em alvos. A tua escrita tesa e decidida é enganadora. A tua preocupação é a de manter tudo o mais desenleado possível e fiel ao que sentes. Não enganar. Tentar agir pelo certo. Tentar e às vezes escorregar. Procurar viver de cabeça erguida, acreditando na boa-fé dos outros, por não fazer sentido ser de outra forma apesar dos pesares. Estiveste demasiado tempo em reclusão e amadurecimento defendida dos outros e de ti para te veres regressada à vida em vão.


Se a vida fosse como querias – nunca é, sabes bem -, cada um saberia o que sentes, ainda que não soubesses dizer exactamente o que sentes, muito menos o que queres. Da mesma maneira que gostarias que assim agissem contigo. Sem sarilhos nem enredos.

30/05/2021

Actualizações da Microsoft

A quantidade de lixo que cada actualização dos computadores comporta devia ser assunto a ser tratado e regulado pelos governos e a UE. A Microsoft enche os terminais - cada um de nós -, das aplicações que bem entende, sem querer saber da aceitação pelos utentes, presumindo que ao optarmos por fazer a actualização aceitamos tudo quanto vem em pacote.


Além de desconfiar da bondade desta ‘venda’ de produtos à força - a Microsoft ganha com o tráfego gerado -, este permanente despejar de actualizações penaliza o utilizador. Quanto mais não seja pelo trabalho que tem em desinstalar os programas impingidos para conseguir usar a máquina com maior eficiência.


Se nesta tivesse mais do que uma vida, faria o curso de engenharia informática só para tirar algumas dúvidas e me proteger.

29/05/2021

Panca das casas

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Desta vez fui lá. Visitei, avisando antes que era mesmo ‘só para ver’. Não gosto de fazer perder tempo quem trabalha e contam-se pelos dedos de uma mão as casas a que fui fazer visita guiada, antes de estar de facto determinada a mudar.


A curiosidade prendia-se com a zona, que conheço da infância. A parte boa: os dez minutos de espera a sentir a vida envolvente. Agradou-me. O dia esteve bonito. Seguiu-se a visita em si. Bem sei que a casa que dali conheci era bem maior e cresci muito desde a infância, aumentado ainda mais de há 15 anos, mas a sensação, salvo no primeiro andar, era a de circular no Portugal dos Pequeninos. A descida à cave foi ainda mais assustadora do que era na infância à noite e às escuras, mas desta vez por temer não caber. Além de mais, apesar da informação ‘está habitável’ a realidade é que o que os portugueses chamavam habitável há 40 anos deixou de ser. Andamos mais exigentes.


No fim, pequeno passeio no jardim central para matar saudades.

Roger Waters - The Tide is Turning


Parabéns, mano Francisco. 

28/05/2021

Insectos

Admito defeito grave: não sei ler ou ouvir traçar perfis de carácter ou psicológicos e em muitos casos ler ou ouvir narrar histórias alheias. Daí me cansarem os enredos e as intrigas. Cada um vê os outros e as suas vidas como vê. Ainda que em silêncio, tendo a irritar-me com exposições de traços de personalidade e percursos de vida. Vejo essas análises quase sempre muito ao lado do que o outro é de facto. Quase sempre estereotipadas ou decorrentes de preconceito ou ressentimento. Parece-me ultrajante o despudor ou a pretensão com que se julga conhecer o outro e como se cataloga, fazendo-o parecer uma qualquer espécie de insecto. Soa-me à vingança do ‘optera’ onde não encontro nem vida nem alma do bicho.


A contradição: como todos também rotulo, considerando correctas as minhas etiquetas. Com toda a certeza decorrem de preconceitos e ressentimentos ou são estereotipadas. Sucede que me convenci que ao sentir o que escrevo, e ao estar de modo militante do lado de fora das tribos e das correntes opinativas dominantes, vejo com mais realismo. Mais verdade. É sem sombra de dúvida uma pretensão.


Também me irrita a onda de relativização de defeitos humanos graves, empacotando-os no lote de contradições da vida. A visão do ser humano como um somatório de qualidades de defeitos numa vida de contradições pode ser muito fiel à realidade (dos factos), mas é em muitos casos auto-justificativa. A onda de relativização traduz-se em mera absolvição psicológica, num tempo em que já não se usa absolver moralmente. Estaria tudo muito bem, se ao menos houvesse consciência deste expediente.

Flores

E o mundo fez-se mais leve. O sono descansado num sonho de porta aberta na casa do jardim florido. Muito florido. Uma imensidão de flores de pétalas de cores alegres. Tímidas ou exuberantes. Suaves ou vivas, mas alegres. Duas borboletas brancas ponteadas a azul e amarelo quase a poisarem-te na mão. Quase, chegou uma abelha ou duas e afastaste a mão. Reparaste na matilha de cães pretos junto ao portão. Um era de casa, os outros não. Pacíficos. Distraídos nas suas vidas, como costumam andar. Ao entrar a porta dava para a escada que conheces de sempre, apesar de traçada em nova amplitude. Acordaste, mas logo regressaste ao sono. A rampa larga de pedras desencontradas da tua vida e a erva das bordas. A água a jorrar para os patos. Um melro preto, ou dois. Seriam dois? E um ganso a enrolar-se.

Angola - João Lourenço


No passado dia 26 tentei colocar o vídeo com a declaração de João Lourenço, mas as imagens ainda não estavam disponíveis no YouTube. Aqui fica o pedido de perdão de João Lourenço, em nome do Estado angolano, às vítimas do 27 de Maio de 1977.

27/05/2021

Caramba

E agora vou bater em quem?


Fiquei desasada.

Jorge Palma - Só

O ponto final

Talvez não houvesse necessidade de dizê-lo, mas cá vai: não tens amores do passado por resolver. Com absoluta franqueza, não queres resgatar lembranças do passado e mesmo que quisesses a natureza fez-te um pouco desmemoriada, pelo que nem terias a que te agarrar fossem belos ou feios esses momentos longínquos. Já te é difícil recordar o palpável quanto mais o afecto sem presença. Quando te referiste em Março ao caso único por resolver, referias-te a tudo quanto rodeia o amor e não o é. Porque esse foi o que foi e deixou de ser há muito. Não existe. Dizes com esta frieza, não por  mágoa ou represália, mas por ser verdade.


Tinhas sim o equívoco que o envolvia por resolver e justificada fúria. Não gostas de fazer figura de urso. Não gostas de jogos sujos. Não gostas de mentiras. Posto que o equívoco esteja desfeito, adiante: pedra sobre o assunto que há duas vidas a continuar sem mais empecilhos.

RSA Animate - Dave Coplin

O teimoso

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Um dos últimos brinquedos de criança de que me desfiz foi o Teimoso. Não era este da imagem - que é para gatos -, mas um teimoso educativo. 


Todos os sinais apontam para um enormíssimo Déjà vu/2007. Terei a cautela de me manter sempre em pé.

Recapitulando

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Recapitulando


Esquerda/Direita


por Isabel Paulos, em 15.01.20


 


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Imagem do Expresso.


 


Para quê ter o trabalho de fazer o confronto de ideias entre esquerda e direita, se não são elas que determinam as políticas e comportamentos do País e dos portugueses. Para quê falar em mudar de regras? Se não há qualquer intenção de cumprir as (boas) que existem nem as (boas) que venham a surgir? Para quê manter o prazer de discutir? Se debater por debater e, por motivos fúteis, tudo questionar, acaba por servir apenas para encobrir o poço sem fundo da vileza da nação?


Afinal, parece que tudo se resume a pouco.


À esquerda grosseira, arrogante e fanática. Convencida da superioridade moral expressa em meia-dúzia de slogans identitários berrados num qualquer simulacro de academia de ciências sociais e artísticas ou na confraternização em manifestações e acampamentos de excitados activistas das causas efémeras, com cada vez maior número de figurantes assalariados e bem remunerados. Na falsa presunção de legítimos e únicos herdeiros da divisa igualdade, solidariedade e liberdade, fazem-se senhores desta coutada de caça às bruxas em que se transformou o mundo e o País. Traduzem igualdade por amiguismo, solidariedade por facilitismo e liberdade por bandalheira. A coisa vai tão mal que se enaltecem verdadeiras nulidades, tomando-as por sumidades, bem pagas e subsidiadas e, por facciosismo e inveja, se desprezam e humilham sabedores.


À direita bem empertigada, vaidosa e insensível. Convencida da superioridade moral expressa em meia-dúzia de máximas rezadas numa qualquer faculdade abonada e conservadora de ciências jurídicas e empresariais ou nas reuniões sociais de punhado de amigos bem instalados em relações interessadas com preocupações vagas por um País que os conserve sempre no topo a pirâmide ou lá os alce. A falsa presunção de que têm sido a educação, a inteligência e a capacidade de trabalho a reger o mercado nesta sombra de sociedade minada de alto a baixo por corrupção, injustiça e inveja.  A tradução de educação por etiqueta fajuta, leituras e pensamento balizados por dogmas tribais. Inteligência traduzida por habilidade de se impor aos demais e capacidade de trabalho por lábia em vender mais. A coisa é tão feia, que quem mais tem e pode manifesta inveja e raiva de quem nada ou pouco tem e não se deixa pisar ao retratar o mundo.


Aos saltitantes de cenário em cenário, tomando os piores ares e tiques das duas e mantendo-se à tona a debitar opinião conivente em função da circunstância.


E aos sonhadores que, apesar da antipatia por tamanha vileza, se negam a refugiar no cinismo falsificado.



 


26/05/2021

Josh Groban - Duetos


Há horas na companhia de dezenas destes duetos. Um dia diferente.

Mais um postal daqueles

Antes de virar a página - se é que a página se vai deixar virar -, deixo mais um postal ressabiado, com os melhores cumprimentos.


Há talvez dois meses alguém próximo e a quem quero muito bem recomendava-me em tom mais de confidência do que de conselho: cuidado, assim entregamos o ouro ao bandido. Não, o interlocutor não era uma mulher, nem o tema eram as afectividades. O assunto era a opinião e a forma como a expomos e defendemos.


A ideia talvez se traduza na cautela de não colocar inteligência nem verdade nas palavras, para evitar ofender. E não verdade no sentido absoluto – de convencimento da nossa inteira razão -, mas tão somente na franqueza posta no que dizemos. Ele contava como ouvira uma conversa entre duas ou três pessoas de opinião muito divergente e elogiava a forma correcta e sem sobressaltos como foi travada. Em causa o respeito pela opinião do outro. Acompanhei-o na tese: também admiro quem consegue. Desacompanhei-o na conclusão: respeitados os mínimos de educação, não me parece que tenhamos de apagar a paixão para fazer de conta que não somos quem somos.


Não disse na altura, mas a imagem que me veio à cabeça naquele momento foi a de um vídeo que recebi no dia de Natal com a reacção de crianças à chegada de cachorros como presente de Natal. Os miúdos muito comovidos foram quase todos bastante efusivos. Qualquer um de nós que tenha a memória da chegada de cachorros na infância percebe como o coração dispara e a alegria transborda. Mas reparei que entre eles havia dois irmãos – um rapaz e uma rapariga de ar frágil e delicado, muito contidos nos gestos e movimentos. Tão presos na expressão que ao se aproximarem cautelosos do cachorro segurado pelo adulto e ao fazerem festinhas – estou a escrever de memória – usaram as pontas dos dedos. Também se comoveram - era visível -, mas não transbordaram, apesar de estar convencida que se perguntados, diriam amar muito o bicho, com verdadeiro sentimento. Cada um é como cada qual.


Esta imagem espelha muita da opinião que abunda no espaço público. Por vezes lugar-comum outras, por mais correcta e sensata seja a exposição às vezes até mesmo fiel aos factos, parece-me artificial e sem alma. Dita por ir na corrente, por ser decente. Conveniente. Há momentos que até a inconveniente não é expressa com qualquer sentimento de verdade – de franqueza -, mas apenas para inchar o ego, chocar e com isso arranjar mais clientela. Interessa a imagem que se dá, e até a falsa imagem de frontal é estudada. 


Lamento, mas habituei-me a mexer nos bichos embrenhando bem as mãos e dedos no pêlo, na pele. Revirando-os, espevitando-os, rastejando com eles pelo chão. Ao cão, companheiro de passeatas e confidente de infância, além de o mimar, tirava-lhe por brincadeira os ossos dos dentes e quando moribundo tratei-o como possível, extraindo - numa última tentativa de o salvar - dezenas de larvas do peito provocadas por uma ferida grave e feia com que nos apareceu em casa depois de desaparecido por uma quinzena. Aos gatos catava as pulgas. Às gatas assistia-lhes aos partos. Gosto de mimar, não sou de passar as pontas dos dedos nos bichos, nas pessoas nem nas opiniões. Cada um é como cada qual.


Damos o ouro ao bandido? É evidente: reparo e registo. Que sejam muito felizes com ele – com o ouro e o seu brilho. E nós sejamos fiéis ao que somos. Está tudo bem, cada um com aquilo que valoriza.


Não acredito que a realidade melhore por ser efabulada em boas intenções. Não acredito num país soberano com uma dívida como a nossa e envergonha-me a mão portuguesa permanentemente estendida. Envergonha-me a corrupção. Irritam-me a mentira e os trapaceiros. Reparo em vozes e oratórias muito honradas, cheias de certezas, desencontradas nos corpos e vidas muito videirinhos que as transportam. Não acredito na maior parte das boas intenções apregoadas. Sobretudo nas políticas e nas opiniões políticas. Irrita-me que ninguém tenha coragem para dizer o desagradável e o difícil por ir contra o que a população quer ouvir. Irrita-me ainda mais que cada vez que alguém sugere qualquer coisa de semelhante seja de imediato caluniado, como se não estivesse apenas a constatar a realidade. Irrita-me mesmo a hipocrisia com que se deixam cair na solidão pessoas e gestos nobres, a pretexto de não se perder o estatuto, o lugar, as amizades de conveniência. Irrita-me a traição por motivos fúteis e materiais. Na verdade, convenço-me cada vez mais que não é a população que quer ouvir as balelas demagógicas do costume, mas quem decide e está bem instalado. Fazer melhor implica trabalho e muitas vezes sofrimento. E não, nunca advoguei teses do sacrifício nem acho que nos devamos andar a martirizar. Mas não se consegue fazer melhor à custa de festinhas com as pontas dos dedos, amiguismos e pancadinhas suaves nas costas.


O facto é que aquele que disser coisa razoável pode ver as suas palavras deturpadas e os argumentos invertidos e desvirtuados. Vale tudo pela retórica e pela mentira. O objectivo? Deve ser o de manter o país na mediocridade e na eterna dependência, à semelhança dos portugueses, cada vez menos autónomos, menos capazes, menos livres. Mais presos de movimentos, a fazer festinhas ao cachorro – que amam muito - com as pontas dos dedos.


Não é fácil estar ciente da menoridade do que aqui acabei de escrever: conhecer múltiplas objecções que inspira - sim, cada um é como cada qual, ninguém é melhor do que ninguém nem se deve colocar em posição de doutrinar os outros -, mas ainda assim publicar sem pudor o texto acreditando que por pouco que seja, alguma coisa valerá.

Usar os neurónios

Neste espaço devia estar um texto bem engendrado a demonstrar como na maioria dos casos os denunciadores do fascismo, que gritam e esbracejam muito, e se consideram gente corajosa, de coração bondoso e sempre de boa-fé mostram ser os que mais contribuem para o extremismo, de tão entretidos andam a injuriar gente sensata, enquanto esta mesma gente prudente está como usual discreta e subtil, mas não menos determinada, a cortar certeira as raízes do mal. As raízes do fascismo.


Imaginem-no, sff. Se acharem que corresponde à verdade, claro.

25/05/2021

Uma vénia


Um dos anúncios que mais me divertiu nos últimos anos.

Recapitulando

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Li o dicionário

Não resisto a deixar aqui esta descoberta. Quando tiver oportunidade leio-a em memória dos bons tempos de miúda em que passava horas seguidas nos dicionários a saltar de palavra em palavra pelo significado. 


Um dia contaram-me que um angolano, perguntado sobre a forma como aprendera português, respondeu: li o dicionário.

Recapitulando

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24/05/2021

Diário

Disponibilidade para a escrita ao fim do dia e o resultado até bem começado acabou numa diatribe que só me empequenece. Foi directa não para o lixo, mas para os rascunhos e logo o tempo dirá se terá serventia. Melhor este parágrafo, que apesar de dever irritar muitos sensíveis ao jeito – oh horror, brasileirice - de quem não obedece aos padrões correntes, só com o empequenece e a serventia, já merece existir – oh presunção.


Como não me convém arreliar, remeto-me ao diário. Voltei aos atrasos; a ver se amanhã me porto bem. Seguiu-se dia banal e consulta médica de rotina ao fim deste dia em que muito se falou de médico de família. Cá por casa não nos podemos queixar, cada um tem a sua, e cada uma melhor do que a outra. No meu caso, mais nova do que eu, atenta, conhecedora, respeitadora de horários, e descobri hoje: simpática. De facto, continuo fã do Serviço Nacional de Saúde: apesar de ter seguro de saúde há 22 anos, não prescindo da competência dos médicos do público, quanto mais não seja pela pouca vontade de ficar sujeita ao negócio da venda de actos médicos fúteis ou desnecessários. Às vezes, dado o pouco uso que lhe dou, penso que pago seguro privado só para fazer o mercado funcionar e sentir-me protegida em situações em que não possa esperar (o que mais se faz no sector público), mas sai-me cara a brincadeira.


A deambular pela rua ainda a horas do comércio aberto, resolvi cortar o cabelo já que me lembrei que o último corte tinha sido caseiro e convinha dar arranjo. Ao calhas pela rua fora vi um anúncio de toldo num primeiro andar: tentei tirar informações no Google, mas acabei por fechá-lo e subir sem nada saber quanto a qualidade e preço. Imaginei que não corresse mal. Não me arrependi. Recolhi a casa depois de pequeno giro e sentir o cheiro a erva e vegetação de um mísero aglomerado de árvores e verde. Depois de jantada, quis ler um conto e lembrei-me que ainda não tinha gastado os de Vergílio Ferreira todos – faço-os render. Procurei o livro e não encontrei. Fui desencantá-lo caído para trás da estante, todo dobrado. Gracinha do Ritz, no tempo que lá se escondia. Já lhe passou o gosto pela leitura. Agora prefere desenlaçar os rolos de papel higiénico pela casa fora e desfiar-me mais ainda o tapete.


Acabei a leitura serrana com a ideia de que não estamos tão longe assim mentalidade cavernícola e das misérias humanas tão bem descritas por Vergílio Ferreira. E assim encerro a jornada.

Segunda-feira

Boa semana.

23/05/2021

As Alsácias

Desde sempre ouvi falar das Alsácias e destas crónicas de Vera Lagoa. Por razões várias, vêm-me à memória. Finalmente, encontro e leio uma, publicada num blogue para nossa sorte.

Mosca

Gostava de ter a perseverança do Ritz. Consegue estar durante quase uma hora em pé, só apoiado nas patas de trás, a espreitar através da janela, em busca de alguma mosca ou mosquito incautos - petiscos extra.


Já as refeições normais valorizamos de igual modo, com a única diferença de ele se sentar em frente à gamela a olhar para mim com aquele ar de ‘já te despachavas’ e de eu ter que preparar o meu próprio comedouro. A novidade nos últimos dias é a introdução da liquidificadora – para criar a minha própria mosca. 

Lembrete

Recordo que as Comezinhas têm caixa de mensagens e se quiserem dizer qualquer coisa directa, clara e objectiva - por uma questão de compreensão - façam o favor. 


Não tenho poderes divinatórios nem sei nem quero saber o que as pessoas pensam ou sentem, se não o disserem de modo transparente e limpo.


Bom Domingo.

22/05/2021

Regresso ao passado

Eu não digo que paira no ar o regresso ao passado: os jornais estão empolgados com o Festival da Canção e o país adormecido à espera do resultado.

21/05/2021

Escolha os factos forjados

Ah e tal, o perigo das fake news nas redes sociais. O que nos vale é a isenção e o rigor do jornalismo. Sim, sei: a investigação foi encomendada pela própria emissora pública. Sim, sei, maus profissionais há em todas as profissões. Estão quase redimidos. Pena que ao fim de 26 anos o mea culpa adiante um grosso aos visados. 


Sobre a entrevista a Diana Spencer, em 1995 na BBC, o Diário de Notícias de hoje:


 


O príncipe William, segundo na linha de sucessão do trono britânico, acusou a BBC de ter contribuído "significativamente para o medo, isolamento e paranóia" sofridos pela sua mãe, Diana de Gales, nos últimos anos da sua vida.


[…]


De acordo com um relatório independente divulgado na quinta-feira, a BBC encobriu as práticas "fraudulentas" utilizadas pelo jornalista Martin Bashir para garantir a sua famosa entrevista e não cumpriu as normas adequadas de "integridade e transparência".


[…]


Entre outras coisas, Bashir foi acusado de recorrer a práticas irregulares, tais como a utilização de documentação falsificada, para garantir a entrevista.


"Os empregados da BBC mentiram e usaram documentos falsos para garantir a entrevista com a minha mãe, fizeram afirmações falsas e esfarrapadas sobre a minha família, o que alimentou os seus medos e paranóia", disse William, na sua declaração.


E criticou a cadeia pela sua "terrível incompetência" ao investigar a forma como Bashir obteve a entrevista, e subsequentemente encobriu as suas conclusões.


Contribuiu "significativamente para o medo, paranóia e isolamento" que ela viveu nos seus últimos anos.


"A nossa mãe perdeu a sua vida por causa disto, e nada mudou. Ao proteger o seu legado, protegemos todos, e defendemos a dignidade com que viveu a sua vida"


O seu irmão mais novo, o príncipe Harry, entretanto, divulgou uma declaração escrita através das suas redes sociais, na qual denuncia que os "efeitos de ondulação de uma cultura de exploração e práticas antiéticas acabaram por reclamar a vida" da sua mãe, Diana.


"A nossa mãe perdeu a sua vida por causa disto, e nada mudou. Ao proteger o seu legado, protegemos todos, e defendemos a dignidade com que viveu a sua vida", disse o Duque de Sussex.


[…]


 Harry considerou que o relatório Dyson "é o primeiro passo para a justiça e a verdade", mas mostrou-se preocupado por "estas práticas, e ainda piores, estarem hoje generalizadas" e irem além de um único meio de comunicação social.

Maio 2021

🕖✍️🕟🕸️🕕🐜🕛👩‍💻

Sexta-feira

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Ao almoço de hoje no Orfeu fui presenteada. Vamos lá ver quanto tempo demoro a lê-los.

Fidelidade

Quando se faz uma crítica a certa maneira de ser, estar ou pensar, a primeira reacção é julgá-la cobiça. Parte-se do princípio que a crítica é feita por desdém de quem se considera subjugado ou desconsiderado, de quem ambiciona o mundo objecto de apreciação.


É normal que assim se pense, por ser vulgar que tal aconteça. Sucede que nem sempre. Por vezes, os críticos estão mesmo certos da razão e pertinência do que dizem. E mesmo que se julguem desconsiderados, não aspiram a mundos onde não se revêem.


Quem acredita no que está a dizer e é fiel ao que pensa, não usa nem se limita à retórica ou a despejar cintilante informação acumulada e irreflectida, e ainda que o tempo, outras opiniões ou vivências o possam vir a fazer mudar de opinião, não se contenta com a aceitação ou aprovação dos outros, nem se sacrifica na procura de maior audiência ou popularidade.

A ler

 


The pro-Palestine movement is broad but it can’t be a home to antisemitism, por Keith Kahn-Harris, no The Guardian.


 

Provérbios e expressões idiomáticas

 


Nem tudo o que parece é.


*


Nem tudo o que reluz é ouro.


 

20/05/2021

Tílias - Filha e Maternidade

Tu falavas. E é sempre mais bonito quando tu falas. Não consigo voltar a conversar contigo, como hoje cedo; explicava que tu não existes e tu condescendias comigo, dizendo: pronto, mãe, supondo que eu não existo e sou uma mera obra da tua imaginação, a que deste corpo e alma através de palavras, ainda assim, quero um irmão ou uma irmã. Filha ouve, isto era muito mais bonito. Não te precipites. Não era assim a seco. Agora só me ocorrem psicologias baratas que estragam mais ainda o momento. Não interessa mãe, conta-me. Como foi a conversa? Não sei mesmo, filha. Lembro de te explicar que nunca tive a pulsão de pôr no mundo um filho ou filha. Não será bonito, mas o facto é que o Ave Maria me toca mais pela beleza da arte do que pela beleza da maternidade. Como se a beleza da arte se despegasse da humanidade. E não pode despegar, minha filha, senão não é arte. A ideia de perfeição, além homem, além mulher, é o perigo maior. Tornamo-nos senhores de nós mesmos, e não somos. A maternidade prende-nos ao mundo, prende-nos à necessidade do bem. E por mais que nos queiram dizer que não se pode escolher entre o mal e o bem, por mais que digam que não existe essa fronteira, ela existe e está na maternidade, na vida. Se quiseres, na continuidade da maternidade. Se desejares ver o bem além da terra, das pedras, das plantas, dos rios, dos mares, tens de perceber que a maternidade nos reduz à dimensão de vigilantes do mundo e nos eleva à dimensão de elos do tempo. Que queres diz como isso, mãe? Que devemos saber quem fomos ao longo dos séculos, dos milénios. Que a maternidade é uma pequena centelha que nos dá sentido. E se não a experimentarmos de modo natural, ao menos tenhamos a sensatez de respeitar a beleza integral. Ao criar-te, minha filha, tenho a preocupação de não te despegar da humanidade, não só por convicção de que é o bem, como por amor à arte.


 


Excerto da Quinta, escrito a 20/08/2019.

19/05/2021

You've Got a Friend in Me - Randy Newman

Planos

Leitura agendada para o fim-de-semana: Dom Casmurro, de Machado de Assis. Já pedi emprestado.


A 234ª decisão do ano tomada ontem: encostar a Quinta por um ano ou dois, e tentar (disse tentar) nova novela - ah, a ignorância é muito atrevida. Já comecei a fazer o croqui. Figas, a ver se desta vai.

Visitas

As Comezinhas têm visitas frequentes no último meio ano da Noruega e da Suécia, e no último ano dos Estados Unidos e Brasil. Há dias em que estas visitas superam as nacionais. Muito obrigada.


Pontualmente têm entradas de outras partes do mundo. Ontem, uma da Palestina. Atento o momento difícil que está a atravessar, não posso deixar de cumprimentar essa visita em especial.

O mundo dos puros arrogantes

Texto corrigido. *


Ora, aí vou eu lançada outra vez. E continuarei a insistir até que os dedos me doam.


Pergunto-me muitas vezes de que massa são feitos alguns críticos das falhas alheias, a quem nunca se ouve admitir erros. Apontam faltas de carácter aos outros, como se fossem de uma lisura a toda a prova. Acusam outros de transgressões e ilicitudes como se não prevaricassem. Ridicularizam a gramática dos outros, como se o seu português não fosse pouco mais do que um aglomerado insípido e sofrível de letras sobrepostas.


Uns, um nadinha mais evoluídos de ouvir dizer, percebem que não há puros e prontificam-se a fazer gracinhas sobre as falsas moralidades. Mas qual é o momento que escolhem para o fazer? O da auto-defesa camuflada ou da defesa de amigos de oportunidade, claro. Os amigos de interesse de que sempre se rodeiam e são rodeados. Em nome de suposta superioridade intelectual saem em defesa de canalhas com quem partilham sórdida concepção do mundo.


Mais tiques deste tipo de gente? Considerar ou desconsiderar terceiros em função da aceitação que tenham ou não por membros influentes dos clãs que julgam oportuno integrar ou bajular até forçar a entrada. Perfeita incapacidade de perceber as qualidades de terceiros se não forem referenciadas por alguém cuja opinião considerem por devoção sectária.


E quão confrangedor é ver esta gente citar Eça – é sabido que qualquer bicho careta pouco mais do que analfabeto cita Eça para mimetizar a intelectualidade de trazer por casa – ou enaltecer os poetas e prosadores do regime – em bicos de pés bem esticados à procura de igual aceitação -, ou perorar sobre os descalabros da governação nacional e a fraca educação e instrução dos portugueses. Longe de perceberem que são eles próprios - convencidos das sua importância e superioridade, mas alçados sem verdadeiro critério de qualidade à elite do país – que fazem desta terra a choça que é.


E passa do aflitivo ao divertido – para não nos afogarmos no lodo – ver esta gente criticar a corrupção, as endogamias e a falta de elevador social. Este último existe. Os critérios para ascender à elite nacional é que são de fugir (de susto): por cada pessoa de valor alçada pelo seu valor, noventa e nove trepam e vivem do encosto, das referências mútuas, dos interesses e da dita corrupção. E não é por gritarem muito contra a endogamia que não se percebe que tudo quanto fazem na vida é viver nas e das tribos. É bem conhecida a táctica, mas ao atacarem os fantasmas da falta de mérito para afastar os olhares da própria mediocridade só conseguem convencer outros membros medíocres da tribo.


A verdade é que, na maior parte das vezes, o mundo do mérito passa ao lado desta gente, apesar das vaidades e de sempre terem o dedo apontado à vulgaridade, aos erros e imperfeições de quem faz a vida do lado de fora dos guetos da intelectualidade.


A vida tem-me demonstrado à saciedade que quanto mais arrogante é alguém menos qualidade intelectual tem e mais mau carácter é. Aprendi sempre bastante mais com sóbrios sabedores que cultivam a aprendizagem e a passagem do testemunho sem alarde nem achincalhar quem se mostra interessado em aprender. Enfim, gente sábia e humilde a quem devo muito. Mas lá está, humilde não é um adjectivo em voga, nem ser humilde é valorizado nos guetos da vaidade. Não é o conhecimento e a sabedoria que procuram, mas a glória. A glória do medíocre.


 


*Texto corrigido uma hora depois da publicação. Ainda assim é natural que tenha erros e gralhas para gáudio dos puros detentores da perfeição.

18/05/2021

Para acordar


Despretensiosas, e várias seguidas.

Nadas


Ontem adormeci a ouvir isto.


Este é o típico post de quem não arranja nada de útil para dizer e de quem está com um sono desgraçado e mais sono arranja com este género de música.

17/05/2021

Trabalho


Boa semana, gente.

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De regresso ao escritório, ao fim de cinco meses e meio.

16/05/2021

Bruce Springsteen - Further On Up the Road

A floresta

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A dificuldade em atravessar a floresta de amiguismos e trocas de favores para quem tem vontade de fazer caminho próprio apenas à custa do que de facto vale, é que por mais que puxe da faca de mato para abrir caminho e fazer qualquer coisa de novo, as velhas - e novas, precocemente envelhecidas e corrompidas - figuras das redes de interesse deixam cair os seus frutos podres para alimentar mais mato, mais do mesmo, mais luxuriante e ofuscante bazófia.


Em compensação, o que abre caminho tem a vantagem de poder prescindir de tudo quando e como quiser. E a tranquilidade de saber que para o bem e o mal trará sempre a natureza consigo.

15/05/2021

Casa & Conforto

Diz-se que as mulheres se perdem em lojas de roupa, sapatos e acessórios. Eu perco-me em lojas de móveis, loiças, atoalhados e quinquilharias. Até naquelas que juntam à decoração, materiais de construção. Esse é o meu mundo de fadas. Claro que aos 20 anos, apesar de nunca ter ligado peva a coisas da moda, me fazia confusão ver senhoras com a idade que estou agora deliciarem-se nas compras em lojas de ferragens ou materiais de construção. Apesar de tudo nessa altura ainda perdia algum tempo com os trapos. Alguma propensão para a descontracção e desvalorização do vestuário, calçado e acessórios, aliada ao facto de ter começado a engordar valentemente e de nos últimos anos ultrapassar os cem quilos, afastou-me em definito desse mundo coquete. Pode ser que me dê a parvoeira – não estou a insultar ninguém, apenas a mim –, e daqui a dois anos quando voltar a ter um corpo normal me dedique a estar mais de cinco exasperantes minutos em lojas de roupa.


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A coisa nasceu cedo. Por um lado fui educada a ignorar marcas, e acrescentei a isso a desconsideração pelas tendências. O facto de ter passado a infância numa quinta, num mundo mais masculino do que feminino, cedo me fez gostar de estar à vontade como os rapazes e logo que comecei a determinar o que vestia, preferi calças e, entre as calças, jeans. Nunca me achei menos feminina por isso, achava sim que tinha os movimentos soltos e uma postura minha, que as saias ou os vestidos não permitiam. Além do que, como muitas raparigas, sofria de complexos achando que estava melhor com as pernas tapadas. Lembro do desgosto que dei em casa quando comecei a insistir nas saias compridas até ao tornozelo, as únicas que que consentia. Não deve ser fácil imaginar uma menininha de ar delicado, e ela começar a ter um ar aciganado – não é insulto, eu gostava. Lembro na adolescência de amigos próximos homossexuais se meterem comigo pelo tipo de indumentária que às vezes achavam pouco feminina. Nunca me importei e nem por um segundo pus em causa a minha orientação sexual – como supunha que alguns deles pusessem -, em função dos trapos. Sabia desde muito cedo que gostava de rapazes e também tinha a certeza que não tinha vocação para estar permanentemente atenta à postura das pernas. Nem para os ralhetes familiares, que desde criança fui alvo, por não me saber sentar. Era o que me faltava. O que os outros achavam podia-me chatear mas nunca demover daquilo que era e queria. Na casa dos vinte, quando estava mais magra e mais bonita, cuidava-me mais e sentia-me bem com isso. Mas as saias e os vestidos eram peças usadas esporadicamente, preferindo sempre as calças no dia-a-dia por uma questão de conforto e carácter prático. E também nunca tive grande pachorra para saltos-altos apesar de ter havido alturas em que os usei. Pensando bem, aquilo é um pouco estúpido. Por mais que se saiba usar, são no mínimo cansativos e de facto não tenho vocação para o martírio. Agora com este peso e corpo estranho naturalmente nem pensar em usar saltos finos, quando muito aqueles sapatos geralmente feios de tacão largo. E a regra do dia-a-dia é andar com sapatos quase rasos confortáveis ou sapatilhas - ai credo, os ténis possidónios. Sempre que arranjo uns de que gosto muito, compro mais um ou dois pares de cores diferentes para fazerem várias temporadas. Aliás, há anos que faço o mesmo com blusas e calças: se gosto muito, compro mais do que um exemplar igual ou de cores diferentes. Assunto arrumado por mais tempo e menos idas às lojas, o que é óptimo.


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Agora copos, pratos, xícaras e demais quinquilharia, isso sim é coisa que me enche as medidas. Ou roupa de cama, de mesa, atoalhados. Disso gosto, mesmo. Apesar de não ser grande decoradora, cresci a ler revistas de móveis e decoração – pensando bem cresci a fazer de tudo. Já depois da mais tenra infância em que achava que quando fosse grande ia escrever (à máquina), em criança mais velha achava que ia ser arquitecta, para depois na adolescência decidir que ia ser diplomata - viu-se. O escrever à máquina, que julgo associava a qualquer coisa parecida com o ser professora, vinha do exemplo materno. A arquitectura além das revistas, vinha do gosto despertado por uma professora para o desenho de plantas de casas. Vício que tive – apesar de sempre ter desenhado mal -, durante mais de 20 anos e que esbarrou na constatação no 9º ano em Arte e Design da evidente falta de talento e não menos patente preguiça. A diplomacia começou logo por esbarrar na decisão pelo curso de Direito, quando devia ter decido fazer o curso de Relações Internacionais, para o qual também entrei aos 17 anos numa universidade privada, e mais tarde, novamente na preguiça e falta de alento.


Mas ninho nunca me faltou. Casa e tudo quando a compõe, com mais ou menos talento e gosto para a decoração. Com mais ou menos arte, ninho nunca me faltou. Talvez por isso dê tanto valor às ´coisas de casa´, a quem comigo a habita e à paz de espírito.

Umbigo

Hoje é dia de postal preâmbulo. Vêm aí mais escritos egocêntricos, narcísicos e exibicionistas. Daí a necessidade do aviso prévio. Não porque renegue tantos defeitos – assumo-os -, mas por sentir precisar de explicar esta queda inevitável para aquilo a que pomposamente se chama cunho diarístico ou pendor intimista da prosa. Há seis ou sete anos quando comecei a escrever diariamente – nos primeiros anos apenas para mim, dando a ler a três pessoas -, pus a questão que continuo a colocar: enquanto não aprender a deixar de falar de mim quando escrevo e começar a criar alguma coisa de valor, para quê escrever? Habituei-me em adolescente usar a escrita como desabafo. Eram peças manhosas sem qualquer valor que não fosse o da cura ou catarse, que nunca dei a ler a ninguém. Fosse em prosa ou em (tentativa de) verso o resultado era mau. Má caligrafia, má gramática, má semântica. Aos 33 anos, no pior momento da minha vida, deitei tudo isso fora e fiz muito bem.


Na casa dos 20 escrevi pouco, apesar da participação na internet. Na casa dos 30 escrevi pouco, apesar de ter blogues e participar em fóruns. Digo que escrevi pouco por não considerar escrever emitir opiniões sem o mínimo critério de forma. Na segunda metade da casa dos 20  e início dos 30 conversava por escrito online em chats e fóruns, e tive os meus modestos blogues – onde me portei muito mal com os co-autores, não os respeitando nem dando liberdade suficiente. Lá juntei um amontoado de frases cheias de erros, gralhas, vaipes, gracinhas, desabafos sobre tudo e mais um par de botas. Apaguei o que pude e se tivesse mão em tudo quanto deixei, apagaria tudo. Não concordo nada com a ditadura de quem nega o direito aos autores de apagarem o que escreveram. A censura não se faz apenas no sentido de não deixar falar, como no sentido de forçar todos a dizerem e a escreverem qualquer coisa e ficarem agarrados ao que escreveram eternamente. Como se o mundo tirano se reduzisse a quem pode ou não escrever em função de poder ou não deixar perpectuar o que escreveu. Penso que quem assim age não tem a consciência que está a coarctar a liberdade de outros, salvaguardada que esteja a necessidade de quem escreve assumir por inteiro as opiniões emitidas e as consequências que daí advenham. Creio que não passa pela cabeça de muitos defensores fundamentalistas do arquivo, que todos temos direitos sobre aquilo que produzimos ou criamos – entre eles o de alienar ou destruir o resultado. E imaginar que só a cobardia ou o mau carácter justifica essa destruição é de uma pobreza de espírito própria de inquisidores.


Ao entrar nos 40 comecei a escrever diariamente sem publicar online. Nos anos anteriores crescia a vontade de construir uma novela ou romance, sempre adiada por preguiça e falta de alento. Com a idade fiquei menos preguiçosa, e o alento veio muito do Nuno, que marca a diferença de tudo quanto estava acostumada, por ser um extraordinário incentivador e constante defensor. Esta voz positiva na minha vida fez toda a diferença. Depois de muitos anos afastada na internet, no final de 2018 voltei à carga, outra. Voltando a gostar das pontuais conversas bem-dispostas e das trocas de ideias despretensiosas online. E também a apreciar dar bitaites. E a gostar muito de escrever nas Comezinhas, que fiz à imagem daquilo que verdadeiramente me dá prazer: estar como se tivesse sentada na mesa redonda da salinha da salamandra em Valinhas a conversar com muito poucos – é verdade que aqui sou eu que falo (quase) sempre, mas sei que posso visitar em silêncio ou não muitas das casas de quem me visita, aqui na SapoBlogs, na Blogger, no email ou no Whatsapp, onde possa ser. Há dias em que disparato em função de coisas que leio ali ou acolá ou da má-disposição momentânea. Desculpem-me. É a telha, não há o que fazer. Já me penalizei demais por isso e não faz sentido.


Mas voltando ao início: a questão é porquê perder tempo expondo-me, mostrando qualidades e fragilidades, se há tanto no mundo mais interessante sobre o que me debruçar? Não sei bem, ou talvez saiba: acho que ao fazê-lo falo do mundo e acreditem ou não – sei que é difícil acreditar -, mas não é do meu umbigo que escrevo ao mostrá-lo.

Ilhas recuperadas

A reabilitação das Ilhas, no Porto.


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Anúncio do Idealista.


 


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Bairro do Monte Pedral

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Anúncio no Idealista.


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Bairro d’O Comércio do Porto.

Janelas

Sexta-feira à noite e nada. Nem saber da vida profissional que se avizinha, que pode ser igual a si própria nos últimos anos ou mudar significativamente. Apesar de ter colocado as fichas na segunda hipótese, a roleta deve parar na mesmice. Uma aposta arriscada, mas impus condições que podem inviabilizar o acerto da esfera no número certo, passe a redundância. Ainda assim, o vício de arriscar um pouco, leva-me a ter (infundada) esperança.


A eterna sensação de que a vida está empenada. Se bem que há momentos em que olhando por cima do ombro, vejo que a poeira deixada indica movimento e mudança. Nem por eles dou. É a tal falta de percepção do tempo que passa de que falava a outra. A inconsciência do momento. Do instante.


Um dia de decepções. Mais um. É cíclico. Não é de esperar diferente de quem conheces tão bem como as palmas das mãos. A única surpresa é ainda te surpreenderes com as desconsiderações pontuais. Pode ser que a esperança tenha fundamento e acabem estas, para virem outras novinhas em folha de bandas diferentes.


De resto, a noite trouxe apenas interrogações triviais: de que raio estará a falar fulaninho ou fulaninha tal? Será que percebe que não se pode adivinhar o que não é dito directa e explicitamente? Sim, talvez não seja sequer de falar. Cansam-me as embrulhadas. Sejam trapaça ou não, fico com a sensação de embuste.


Arejo, preciso abrir as janelas. Mudar de janelas. Voltar a dedicar-me às minhas coisas e deixar de dar atenção ao que não faz sentido. Lidar com o palpável e confiável. Escrever para mim, para ficar. Voltar aos dias em que sabia estar a construir alguma coisa, em vez de voltar a esta sensação antiga de corda bamba no vazio. Bah. Xô, sensação má.

14/05/2021

African Teacher cartoon | The intelligent boy

O ralho

Tenho a cabeça pesada: hoje acordei a ralhar no blogue, logo. É o teu estilo ‘literário’ diz o Nuno: o ‘ralhanço’. Então, não é o que é suposto uma mulher fazer? Respondi. Pelos vistos, e levas jeito, diz ele.

Perguntar não ofende

Se és tão contra o estado de coisas, porque é que usas o mesmo tipo de linguagem e discurso da situação? Porque é que incorres nos mesmo vícios que criticas nos outros? Porque é que a vontade de apontar o dedo a quem está numa posição de poder desperta em ti tanta fúria ao mesmo tempo que te comportas tal e qual quem está na dita posição de poder? Porque é que relativizas sarcástico defeitos teus e da tua tribo ao mesmo tempo que não perdoas o mais pequeno desalinho ao adversário? E porque é que vives à sombra do próprio poder e de redes de interesses?


É a democracia, lorpa.

13/05/2021

Coisas simples

O último par de anos devia ter ensinado que os termos do futuro não estão garantidos. Pode-se tentar ser previdente, mas não partir do princípio que as coisas serão como se imaginam.


Bem sei que a antecipação das dificuldades pode levar a melhor planeamento, mas a realidade tem mostrado que quer a bruxaria económica quer a especulação financeira têm servido apenas para piorar a situação dos cidadãos. A tentativa de beneficiar quem é útil num futuro incerto e a ganância prejudicam os que mereciam melhor tratamento no presente.


Tanto me assusta a criação de novos impostos sobre os ‘ricos’ advogada por certa esquerda, como a resistência ao aumento do salário mínimo (e médio) ou o favorecimento das famílias numerosas por determinada direita. Qualquer destas medidas a longo prazo contribui para a perpectuação e alargamento da pobreza da maioria em favor do enriquecimento de uma minoria. Em última instância conduzem ao aumento do fosso social e económico.


Deve-se agir em função do que está certo em termos absolutos e não de previsões incertas. O que está certo é retribuir na justa medida o esforço ou trabalho de cada um – que se traduz na capacidade inventiva, produtiva e criativa – e apoiar socialmente quem de facto precisa – quem (já) não pode de contribuir.


Há tanta correcção a fazer no presente - é escusado projectar fantasmas do futuro por mais realistas e plausíveis sejam. Não vale a pena enviesar o mundo ao gosto do freguês. 

Stravinsky - A Sagração da Primavera

12/05/2021

MEC

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Este livro foi presente de aniversário dos meus 15 anos. Como gostava de ler as crónicas do Expresso de - é uma tentação escrever do, como sempre disse, mas o respeitinho é muito bonito - Miguel Esteves Cardoso, a minha mãe ofereceu-mo em Dezembro de 1988. Nas semanas seguintes levei-o comigo para o liceu. Em rigor, para o Glass, café onde passava a maior parte dos dias. Sentada à mesa com a E., o A. e outros amigos, relia em voz alta - mal, sempre li mal - as crónicas e ria como uma perdida. Bons tempos.


Além do sentido de humor, lucidez e incrível dom da observação, sempre achei luminosa a escrita de Miguel Esteves Cardoso.


Lembrei-me disto a propósito de uma conversa na internet tida há dias com um simpatizante da direita radical e populista – designação refutada pelo interlocutor que se considera tão singelamente uma pessoa de direita conservadora. Dei por mim a dizer frases que não recordava dizer senão aos 14 ou 15 anos quando discutia com amigos e colegas de turma militantes do então Movimento de Acção Nacional e do Partido Comunista  - era uma turma muito especial. Para lá dos entusiasmos e voluntarismos juvenis encontrei um mundo de paz inconformada e inteligência na poesia, mas também na prosa de alguns autores como o MEC. Mais uma vez fico com a sensação do carácter cíclico das ideias e opiniões e com a impressão de regresso aos anos 80.

As coisas que nos chegam por email

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O bê-á-bá

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Perguntar não ofende.


Explique-me quem puder, como é possível aceitar viver pacificamente num país onde 60% dos trabalhadores por conta de outrem têm salários iguais ou menores a 800 euros mensais, sabendo que:



  •  o preço médio das casas é de 1.942€ m2 - para que fique claro aos distraídos: 194.200 euros por imóvel de 100m2 -, sendo que um empréstimo junto da banca no valor de 174.000 euros (o máximo concedido para o valor de referência) representaria uma prestação mensal na ordem dos 485 euros mensais a 40 anos - ou de 840 euros a 20 anos.

  • no empréstimo para compra de automóvel de 18.000 euros o valor mensal a pagar seria de 370 euros mês por 5 anos.


Muito agradecida.

Stravinsky - Pássaro de Fogo

Sarrafo

Harmonizar o emocional e o racional não é o teu forte. Foi demasiado fácil deixares-te ir ao sabor das emoções, imprudente e inconsequente. Lá longe no tempo, muito. Mais perto, talvez menos. Dás por ti a pensar se o amadurecimento no teu caso passará por começar a saber equilibrar estas coisas. Se for o caso, ainda te falta crescer tanto.


Dás por ti a abafar inconscientemente o emocional com a razão ou sensatez. É uma espécie de barra intransponível do salto à vara. Como se soubesses de antemão que não saltarás àquela altura e por isso te deixasses entretida no colchão a tratar de assuntos rotineiros, abstraindo de que transpor a sarrafo era o teu destino. Ou então um mar envidraçado, espécie de fina camada de gelo que o cobrisse por inteiro, mantendo-te a nadar em águas profundas sem capacidade como as baleias de vir à tona respirar. Conheces o resultado óbvio: ou vai ou racha e sabes bem como é rachar. As emoções explodem, desmedidas e descontroladas. Segue-se o sossego.

11/05/2021

Sporting

Parabéns ao Sporting e aos sportinguistas. É bonito ver-vos felizes.


Agora que ao fim de tantos anos reaprenderam como se faz – é a saber jogar à bola que se ganha -, vejam se deixam de tricas e laricas internas, de inventar desculpas e ser mariquinhas.


Bons festejos.


Para o ano, vingança. 

09/05/2021

Salto de pára-quedas

Bom, minha gente, estou à espera de uma resposta importante em termos profissionais: na semana passada propus-me trocar 15 anos de contrato sem termo por uma colocação em trabalho temporário. Uma maluqueira aos 47 anos. Como imaginam estou ansiosa pela resposta e com pouca cabeça para o resto.


Independentemente do rumo que leve a vida, decidi fazer mais uma paragem aqui nas Comezinhas. Já sabem que não sou certa, por isso, não faço ideia se vão ser dois dias ou dois meses.


Obrigada às generosas visitas da casa. Façam o favor de ser felizes no entretanto.

Don't Worry Be Happy - Bobby McFerrin


Indo à minha vidinha.

08/05/2021

Sábado

Muito sono ao acordar apesar das seis horas dormidas. Anda por aí défice de descanso. Há mais de meio ano que tento combinar com a M. uma caminhada na marginal de Gaia. Tínhamos apontado para amanhã de manhã e, como sempre, tivemos pontaria desastrosa. Choverá. Ficaremos pelo café. Vai daí, e já que estarei perto da casa da T., telefonei-lhe a dizer: amanhã de manhã vou tomar café com uma amiga perto de ti, podia passar em tua casa. Diz a T.: espera, que é que disseste? Tomar café de manhã, amanhã? Domingo? Deixa tirar uma fotografia à minha cara para te mostrar. E pronto, lá veio por whatsapp a cara da T. toda feita careta retorcida. Lá se lembrou que há 30 anos (e também há 25) tinha muita dificuldade em tirar-me da cama às 3 da tarde em dia da semana para irmos tomar café juntas. Vidas. E o que o tempo fez delas.


De tarde depois destas conversas decidi ir à Bertrand. Entrei com ideia de comprar um livro de contos para oferecer. Mas afinal não foi esse o sucedido. Logo me anunciaram quais as mesas das promoções e aproveitei para trazer mais um daqueles livros ‘prá reforma’. Esta coisa de fazer de conta a mim própria que leio é estapafúrdia. Se tenho a azareco de morrer antes dos 67 – a simulação da Segurança Social Directa só me deixa ler a tempo inteiro nessa altura –, corro o risco de deixar nas minhas estantes mais livros virgens – bom, não totalmente, por serem raros aqueles com quem não dei uma pequena voltinha – do que lidos na íntegra. Comprei então o livro ‘prá reforma’, mas que poderá eventualmente ser lido no próximo par de anos, por ter ouvido por aí que é daqueles autores de sentido obrigatório. ‘Ósdepois’ andei à cata de coisa que me desse mesmo gosto oferecer – e ler, já que tenho o hábito pouco educado mas muito proveitoso de ler os livros que ofereço. Depois de muito espiolhar obras várias, os meus olhos pararam em Clarice Lispector e, em concreto, em Água Viva. Passei o resto da tarde a lê-lo e fui enfeitiçada. Ainda assim e apesar do sono que não me larga desde manhã, fui capaz de voltar à tona depois de mergulho profundo neste espontâneo e intrincadíssimo monólogo existêncial no feminino. Não é difícil imaginar que gostei muito do correr da pena e do corpo solto ao sabor do pensamento em torno do eu, que vai engrossando em densidade. Uma boa oferta. A primeira presenteada já beneficiou com a leitura.

Clarice Lispector - Água Viva

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Chico Buarque



07/05/2021

Chamar os bois pelos nomes

Quanto à questão do assédio sexual há uma evidência que nunca se pode esquecer: apesar de ser um fenómeno comum aos dois géneros - sim, as mulheres assediam -, poucas mulheres se poderão gabar de nunca ter sido assediadas. Essa é a grande diferença.


E se é evidente que é difícil distinguir entre uma tentativa de aproximação ou sedução legítima, que pode ou não acabar numa relação consentida e desejada, e a importunação de outra pessoa por meios esquivos, impróprios e desleais, não é menos evidente que muitos homens - e muitas mulheres - consideram normal o assédio patente e tentam justificá-lo com base em visões distorcidas e maniqueístas da realidade.


Há a acrescentar que não são de desculpar homens e mulheres que são coniventes com o assédio sexual e que apesar de terem conhecimento de assédio patente, produzem afirmações em defesa da honra de homens que não merecem um chavo de consideração por serem uns verdadeiros cabrões ou pulhas, usando e abusando da mentira, da chantagem, da impunidade a seu bel-prazer. Sobretudo, por viverem num país onde – apesar de uma falsa aparência de emancipação feminina, de mentalidade desempoeirada sob o ponto de vista da sexualidade e das vaidades das leituras freudianas - ainda se distingue entre mulheres sérias mães de família e as outras, as putas que são boas para foder e passar adiante.

Ficção básica

Shahin e Mahin, bangladechianos, casados e pais de dois filhos, trabalham a 3.5 euros à hora nas estufas de framboesas, amoras e mirtilos no Alentejo. Vivem no T3 com outras cinco famílias, pelo qual pagam conjuntamente 1.300 euros mensais.


Numa noite de Primavera vêem na televisão o primeiro-ministro do país para onde emigraram – de cuja língua ao fim de dois anos têm noções básicas – excitadíssimo com a defesa dos direitos humanos nas comunidades migrantes de Odemira. Dormem mal a pensar como vai ficar a situação da legalização pendente no Serviço de Estrangeiros e Fronteiras.


Uma semana depois acordam com um aparato policial desmedido e são reencaminhados a tremer de medo pelo que lhes possa acontecer para a antiga Pousada da Juventude. Na televisão do recinto vêem um ministro histérico – o co-responsável com o primeiro-ministro desta acção de marketing político -, a esbracejar entusiasta pelo direito à habitação dos cidadãos nepaleses e a invectivar a direita.


Vanessa, esteticista portuguesa, é casada com Lucas, estucador de origem cabo-verdiana que já adquiriu a nacionalidade portuguesa. Residentes no Barreiro ganham cada um cerca de 4.5 euros à hora, vivem com a sua filha e a irmã mais nova de Lucas num T3. A irmã é administrativa numa empresa de gestão de condomínios, e ganha 4 euros à hora. Pagam ao banco 380 euros mensais pelo crédito habitação.


Sentados na chaise-longue da Ikea, Vanessa segura um tupperware com um punhado de frutos vermelhos, que vai depenicando enquanto deita o olho ao Jornal da Noite na televisão, e insurge-se contra a desumanidade com que são tratados os migrantes no Alentejo: é uma vergonha. Lucas levanta-se, vai à cozinha buscar uma banana do Equador e comenta que aqueles frutos miúdos desenxabidos que mulher está a comer custam um balúrdio. Ainda da cozinha atira: quando acabarem essas confusões dos indianos e começarem os resumos do futebol avisa-me, não vires logo para a Secret Story.

06/05/2021

Audições - Novo Banco

Audição de João Costa Pinto, ex-Presidente do Conselho de Auditoria do Banco de Portugal.



 


Audição da PwC.



 


Audição de Moniz da Maia, um dos maiores devedores do Novo Banco.