Shahin e Mahin, bangladechianos, casados e pais de dois filhos, trabalham a 3.5 euros à hora nas estufas de framboesas, amoras e mirtilos no Alentejo. Vivem no T3 com outras cinco famílias, pelo qual pagam conjuntamente 1.300 euros mensais.
Numa noite de Primavera vêem na televisão o primeiro-ministro do país para onde emigraram – de cuja língua ao fim de dois anos têm noções básicas – excitadíssimo com a defesa dos direitos humanos nas comunidades migrantes de Odemira. Dormem mal a pensar como vai ficar a situação da legalização pendente no Serviço de Estrangeiros e Fronteiras.
Uma semana depois acordam com um aparato policial desmedido e são reencaminhados a tremer de medo pelo que lhes possa acontecer para a antiga Pousada da Juventude. Na televisão do recinto vêem um ministro histérico – o co-responsável com o primeiro-ministro desta acção de marketing político -, a esbracejar entusiasta pelo direito à habitação dos cidadãos nepaleses e a invectivar a direita.
Vanessa, esteticista portuguesa, é casada com Lucas, estucador de origem cabo-verdiana que já adquiriu a nacionalidade portuguesa. Residentes no Barreiro ganham cada um cerca de 4.5 euros à hora, vivem com a sua filha e a irmã mais nova de Lucas num T3. A irmã é administrativa numa empresa de gestão de condomínios, e ganha 4 euros à hora. Pagam ao banco 380 euros mensais pelo crédito habitação.
Sentados na chaise-longue da Ikea, Vanessa segura um tupperware com um punhado de frutos vermelhos, que vai depenicando enquanto deita o olho ao Jornal da Noite na televisão, e insurge-se contra a desumanidade com que são tratados os migrantes no Alentejo: é uma vergonha. Lucas levanta-se, vai à cozinha buscar uma banana do Equador e comenta que aqueles frutos miúdos desenxabidos que mulher está a comer custam um balúrdio. Ainda da cozinha atira: quando acabarem essas confusões dos indianos e começarem os resumos do futebol avisa-me, não vires logo para a Secret Story.