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Poema em Linha Recta
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Álvaro de Campos
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Poema em Linha Recta
Álvaro de Campos
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Um agradecimento pelas visitas aos pouquinhos leitores das Comezinhas e, muito em especial, um obrigada no feminino às leitoras que enviaram simpáticas mensagens a propósito do postal Sonhos.


Portugal tem um microclima muito especial, no qual as mais rasteiras ervas daninhas prosperam à conta da indiferença das pessoas de bom gosto. É confrangedor ver como matarruanos enfarpelados de verve fácil e aparentemente educada fazem o seu caminho de trepadeira social. Dizem-se muito estudados e convencem-se da sua razão e importância. Criam uma rede de relações baseada na conveniência, com um sistema de apadrinhamento mútuo. E ao desdenhar de quem algum dia teve peso na edificação do País, mostram uma dor de cotovelo indisfarçável. Às vezes, as críticas que fazem às elites de antanho até fazem sentido. Mas logo caem em saco roto, quando se percebe não passarem de vulgar cobiça. Não é a verdade, o conhecimento ou a decência que procuram, mas sim a cadeira.
A velha Nação caminha para os nove séculos e o trilho traçado pelas trepadeiras não muda. A inveja de quem esteve ou está bem instalado move nos alpinistas ódios de morte. Só os muito distraídos caem na esparrela de alinhar nos discursos de rancor dissimulado e nos jogos sujos para alcançar as cadeiras do poder e dos privilégios. Alguns, mais expeditos, confrontados com a constatação da sua pequenez, tentam inverter o tabuleiro do jogo e mostrar que a sua superioridade está no sórdido e na capacidade de subversão o sistema. Nesses casos, é ainda mais confrangedor ver ingénuos simplórios vindos das berças armados em Marquês de Sade, edição de bolso.
Desde que a pandemia tomou de assalto a realidade e se fala em livros e filmes cuja associação é inevitável - já lá vai mais de um ano -, tenho tentado lembrar-me do único romance de Camus que li. Acreditem que é difícil assumir – não pela vergonha ou constrangimento, mas sim pelo absurdo -, que a minha memória é de tal forma esdrúxula que consigo não ter recordações de livros que li e lembrar os que não li, como já aqui expliquei. Sei que em casa dos meus pais havia alguns romances de Camus. Pelo menos três: O Estrangeiro, que sei não ter lido apesar de ter começado; A Peste, que sei nem sequer ter começado e, finalmente, A Queda, que li. Caso único neste autor.
Tento reportar-me ao momento da leitura e não consigo sequer recordar se foi na adolescência, se já na casa dos vinte. Fazendo um exercício de lógica, suponho que vença a segunda hipótese, uma vez que apesar de quase não me lembrar 'da história', tenho a nítida ideia de que fiquei presa à forma de monólogo inteiro e da meia surpresa que para mim isso representou à época. Não porque não soubesse que se fizesse, mas por perceber que se podia fazer de forma tão conseguida. Ora, essas sensibilidades à forma e ao modo como os autores pegam na história creio ser coisa que só comecei a refinar depois da adolescência. De resto, lembro-me do vaguear pensativo do personagem central junto aos canais de Amesterdão, que associo à imagem de uma judia a patinar nos seus lagos gelados, desde que há dez anos li duas novelas de Manuel Teixeira Gomes.
Ler comigo é como ver novelas seguidas para aquelas senhoras que adormecem na primeira e acordam na segunda e misturam tudo: acabo a casar personagens e circunstâncias de uma das histórias com as do outro enredo. Mas o mais curioso é que o pouco que retenho do que leio raramente é a história em si ou a trama. O que tantas vezes me afasta de falar ou escrever sobre o que leio. Ligo-me a pormenores, imagens, momentos; faço associações a episódios reais ou ficcionais, a telas, a músicas, a pessoas. Enfim, uma salgalhada onde ninguém se entende, senão eu própria.
Pronto, este texto - nascido de um rascunho feito há algum tempo - continuava com mais observações que abriam com a frase: considero ler lido vergonhosamente poucos livros, mas... -, mas os considerandos seguintes eram fortemente críticos e hoje estou numa de paz e amor. Passei-os para outro rascunho e num dia em que regresse o mau feito – o que é sabido não deve demorar -, voltarei à carga sobre ler muito, pouco ou nada, vaidades e humildades.
Boa quinta-feira.
A propósito: 7 (sete) é o meu número favorito.
Também gosto do 3 (três). E do 1 (um). Bem vistas as coisas, não desgosto do 13.
Portugal é um país muito pequeno não sob o ponto de vista histórico e geográfico, mas das relações. Neste rectângulo com ilhas toda a gente trabalhou com alguém filho do dono da casa onde casou alguém que passou férias com alguém que disse mal de alguém e teve namoro com alguém que processou alguém a quem comprou alguma coisa herdada de outro alguém que encontrou no jogo de futebol com o primo de alguém que é sócio de alguém que esteve em casa de alguém que no restaurante comeu na mesa do lado de alguém que roubou alguém que encontrou no enterro de alguém onde animada e afectuosamente se beijam, abraçam e confortam todos os alguéns, antes de saírem aos pares a difamar os outros pares de alguéns que acabaram de beijar e abraçar, ao mesmo tempo que bradam contra a situação deplorável do país.
Em criança muitas vezes ouvi dizer a alguém que teria agora 105 anos que pensou escrever as memórias, mas escusou-se fazê-lo por saber que muitos se melindrariam e consigo se zangariam. Sorrio ao lembrar disto e tomo nota que a cada passo que alinho as letras umas atrás das outras, penso quantas delas seriam tomadas como ofensas se fossem ditas a direito. Mesmo como todas as cautelas e tentativas de subtileza, muitos se sentirão ofendidos.
Não sei se levada pela Lua Cheia se calhou, mas ontem dei comigo a planar em brandos pensamentos: que será feito daqui a quinze ou vinte anos das pessoas, lugares, escritas, ditos e sentidos que agora me preenchem os dias? Caminharão pelos meus sonhos? Tenho a sorte de ao fazer retrospectivas - e faço-as amiúde, apesar de não viver do passado -, dar conta que guardei sobretudo o melhor. Talvez por isso diga que os meus sonhos são tão povoados de lugares e pessoas como as telas de Bruegel – bom, apesar de tudo, os cenários são um pouco mais actuais. A dormir deambulo em constância por casas onde vivi e às vezes por casas por onde apenas passei. Além de passarinhar por espaços estranhos ou que só conheço dos sonhos, reencontro pessoas que conheci desde a infância. Na maioria vivas, algumas já desaparecidas, outras nem sei se respiram. Conheço algumas apenas dos sonhos – ah céus, sei que está longe de ser ideia nova, mas dormindo hei-de agarrar com ganas os sonhos até os confessar de modo a escrever coisa que valha a pena. Em regra, são sonhos bons ou pacíficos. Às vezes, lá sinto uma ou outra aflição nestas minhas gentes do passado vivido e sonhado. Raramente são pesadelos, apesar de ao surgirem serem de truz.
Desde há muitos anos sonho ocasionalmente estar numa divisão de uma das casas onde vivi ou por onde passei e ao atravessar a porta ou parede já me ver noutro compartimento doutra casa. À medida que o tempo passa os sonhos vão incorporando mais paredes, mais janelas, portas, ruas, campos. A vista da janela pode ser de uma cidade, mas a rua para onde dá a porta ser de outra. A maioria das vezes, esses são cenários puramente oníricos, mas há ocasiões em reconheço estar numa das casas reais por pormenores mínimos: os vidros foscos martelados de início de século da despensa ou do corredor de Valinhas - casa não especialmente bela, mas geométrica, de hera a meia haste, sem qualquer pompa e fanada de tinta nas paredes. O meu paraíso. Vou pescar as cenas dos meus sonhos às memórias, das mais recentes às mais longínquas. O jogo de cubos empilhado na caixa que faz as vezes de mesinha cabeceira. Os mosquitos mortos a chinelo na paredes do apartamento em Troia. As tábuas corridas do chão. A cadeira de escritório de napa preta de costas para a janela da avenida de Gaia e a campainha que toca. Ou o tupperware laranja guardado no segundo armário cor de salmão da cozinha. Os três lanços de escadas do apartamento em Cacilhas. O chuveiro já sem água no terraço da casa de Pedras d' El Rei. A vista do quarto para o plátano e o pátio da urbanização em Gaia. O chão de cerâmica clara por onde rolam dispersas as missangas cinza do colar partido. A ampulheta em cima da camilha redonda. O pau de giz, a chaminé a o leite do gato na velha casa transformada em centro de estudos. Duas mangas verdes na cozinha de Benfica. O menino Jesus no Natal no lugar habitual do telefone junto à pequena janela que dá para o Douro e os reclamos das Caves de Vinho do Porto. As plantas penduradas por cordas ao tecto junto às escadas e a cama que sai da parede na Covilhã. Ou o esqueleto nu das tílias trespassado pelo luar no Inverno. A janela sem cortinas em Arca d’ Água, palavras por dizer no sofá e a mini televisão de dez centímetros que acabou em Angola. Nas Antas, os decalques do quarto mais pequeno lá em cima, os sustos nas escadas da cave, o cheiro na copa vindo das gavetas com roupa de cama guardada ponteadas aqui e acolá de saquinhos de alfazema. A varanda sobre o parque de campismo em Lagos. Quatro cadeiras de ferro e a mesa com tampo de pedra manchada do ambientador vertido por descuido na casa com vista para a Segunda Circular. O cheiro a estrume nos campos - sim, nem só da maravilha de cheiro a terra molhada, eucaliptos e madressilva se faz o campo, a mata e os jardins. A nespereira a crescer no parapeito da janela dos arrabaldes de Lisboa. O velho armário com portas de correr na casa das portadas ainda perpassadas com disparos centenários do lado sul do rio. O piano na janela de João Grave. O interruptor alto e solto no átrio do mínimo apartamento em Sacavém. O cheiro a lenha queimada a crepitar na salamandra e o aroma da arrecadação comprida onde se guardavam as maças nas prateleiras e as batatas do lado de lá – a esse espaço dedicarei memória escrita na Quinta. A gaiola do hamster na lavandaria em Vila do Conde e as conversas vindas da cozinha. Ou o bruaá do estádio do Bessa. Um momento único da vida em que, talvez por esta permanente andança, me insurgi contra as mudanças de casa, afirmando que queria ficar quieta. Não foi com certeza um momento que me definisse, pois que as mais das vezes sempre tive vontade de partir ou mudar. Apesar de não partir para longe nem muitas vezes nem por muito tempo. Por vezes, sonho com os lugares e as gentes das viagens. Mas não é muito comum. Acredito que quando for mais velha, essas memórias venham em força. E também em forma de sonho.
E como é que as pessoas que conheci me chegam aos sonhos? Tão só por me lembrar delas. Guardo os rostos dos meus colegas da escola primária e das irmãs professoras. Da cozinheira, cujo nome está entre o esquecido e debaixo na língua. Sentava-se na soleira da porta ou nas escadas a descascar as favas. Era magra e vestia sempre de preto, apesar de muito nova. Enviuvou cedo. Lembro-me do sorriso do F. e das suas aflições com a asma - também o F. lá de casa as tinha -, das fúrias e das brigas com o Z.R., das cópias do caderno da I.P., com a letra muito bonita, alinhada e sem rasuras, das meias e dos chinelos da C. Lembro-me do baque e expressão na cara da F. ao ver o mar pela primeira vez na Nazaré, quando lá fomos em passeio escolar. Lembro-me dos casamentos na escadaria. Do terreiro, dos baloiços e do escorregão e da torneira da água rente à parede e do tanque. E, claro, da enfermaria e dos curativos. Da sala do jardim-de-infância e dos colchões e caminhas de grades. Das paredes da sala da quarta e segunda classe. Das prateleiras de madeira no cantinho forradas a oleado, que albergavam os livros, e que me calhavam - acho que escolhi a tarefa -, limpar o pó. Sim, heresia das heresias: na escola primária da Misericórdia de quando em vez os alunos mais velhos davam uma ajuda na limpeza. As mesas eram limpas com Vim em pó e esfregão. Tínhamos de ter cuidado de não raspar o autocolante com a imagem no canto do Papa João Paulo II, que será sempre o meu Papa - todos tempos um, suponho. Lembro-me da carinha de bebé e da bata aos quadradinhos azul e branco do B., que estava no infantário quando eu andava na quarta classe - uma das minhas batas era amarelo claro e tinha um folho no peito, e usava o estojo redondo vermelho e preto em forma de joaninha. Lembro-me de cantarmos as músicas das Doce nos recreios. Dos buxos dos jardins da frente, dos peixes, da capela, do portão e das cambalhotas dependurados nos ferros que o trancavam.
Tal como me lembro das casas que albergavam o ciclo preparatório e liceu de Felgueiras, de muitos dos meus colegas, professores – da professora Dulce Moura, uma velha senhora que sobrevivera a um cancro difícil e nos dava ciências - e funcionários - lembro-me da velha Rosinha, que parava a vassoura para me chamar e consultar de perto os pontos de tricot das camisolas que eu trazia vestidas, para tirar ideias. Recordo mais ainda dos cinco anos no liceu de Gaia. A Biblioteca Municipal e os cafés – ainda hoje não faço grande diferença entre café e biblioteca, locais onde aprendi por igual, suponho. Do Glass e as almas e as conversas que os habitavam. E depois da faculdade, que em sonhos nunca acabei: falta sempre fazer um qualquer exame ou vários. Como todos nós tenho um baú enorme de recordações. Que se estendem pela dezena de locais de trabalho por onde passei e das pessoas que os povoavam. Vivências díspares entre si. Desde a chegada no primeiro dia ao primeiro Banco, onde assim que cheguei encontrei no edifício um conhecido por piso, até à estranheza e distância total de ambiente e gente que envolvia outro qualquer emprego. E os lugares e ocasiões de convivência: as reuniões familiares alargadas, as festas, as saídas à noite, os cafés e as conversas com os amigos, os bares e discotecas, alguns concertos. As praias, sobretudo, as de Lagos e as noites nas suas ruas. Todos estes lugares e gentes, que na grande maioria não voltei a ver, visitam-me quando durmo. Em paz, gosto de os rever. Há ainda os espaços online, onde conheci gente real ou virtualmente. O facto de não haver presença física, não invalida que me entrem nos sonhos e se instalem com a maior das naturalidades. Agora, em perfeita comunhão com todo o passado e presente.
Puxando mais para ali ou acolá, tudo isto é comum a grande parte das pessoas que vivem o tempo presente. Aliás, há imensa gente com existências muito mais preenchidas e ricas, até porque na verdade sempre levei uma vida bem caseira e pacata. Nada de novo, portanto. A não ser a pretensão de achar que por ser reservada, atenta aos outros, a mim e a muito do que nos rodeia – e absolutamente distraída do tanto que me poderia conduzir a uma vida mais fácil e exemplar, mas certamente menos minha -, posso um dia vir a escrever qualquer coisa de jeito sobre aquilo que quem conheci e eu vivemos, vimos e sentimos.
O lamentável e condenável episódio da agressão ao repórter da TVI em Moreira de Cónegos vai dar azo a semanas da ladainha anti portista do costume. À usual conversa de ódio clubista. Com todas as tretas ressabiadas a que estamos habituados.
Pelo que percebi houve crime. Então, que se accione a Justiça e se processe o imbecil. Se for caso disso, que se questione a passividade do Presidente do Futebol Clube do Porto ou de outros elementos da estrutura do clube. Mas não me venham com o palavreado e historietas do costume de Calimero injustiçado.
Tanta choraminguice só devia envergonhar quem procura justificação para os próprios insucessos passados.
Registo a vontade e o à vontadinha com que muitos (imagino que a coçar aquilo que virtualmente fingem ter) insultam Ursula von der Leyen, sem um átomo de admiração: é só estar atenta à grosseria habitual tantas vezes camuflada de falsa civilidade.
E sim, sei que fui grosseira no parêntesis. É o mínimo que posso fazer face ao nojo que provocam alguns comentários lidos desde ontem. Além do que é a única linguagem que alguns espécimes entendem.
Já me sentia desfasada da realidade ao ouvir o discurso do medo e de denúncia permanente e persecutória dos (alegados) maus comportamentos em tempos de pandemia, mas nos últimos dias sinto-me ainda mais extraterrestre ao ler que cerca que 100 mil portugueses fizeram o auto-agendamento para vacinação logo no primeiro dia e ao ouvir nas televisões que estão muito ansiosos ou nervosos.
O ímpeto é o mesmo que leva o Governo a gabar-se de ser o mais rápido a estender a mão à Europa na pedinchice.
Estão bem uns para os outros, governados e governantes.
O que dizer do dia de hoje, na companhia de Alicia Keys? Tranquilo, salvo o episódio da corda do estendal. É impressionante como o cérebro pode embrutecer depois de uma frustração. Estava tudo encarreirado, perfeito: já no ponto final. Só faltava o nó. E eis que um mau passo, estraga tudo. Depois para refazer o processo, o corpo já não responde: os neurónios solidificam, negando-se a comunicar entre eles. Na desistência, dou meia dúzia de nós mal atados, embrulho o desarrumo e fico à espera que um módico de inteligência e serenidade volte ao espírito.
Entretanto o Portinho espalhou-se com o Moreirense. Bah.
Só valeu como segundo dia de contenção. Aí, correu tudo conforme me tinha imposto. Só faltam quatro meses.







Rua de Álvares Cabral, Campo (Praça da República), Rua da Boavista e Carvalhosa (Rua de Cedofeita).

Quando publiquei o Espanador sobre a Índia, julguei que iria escrever de enfiada os remanescentes três textos em falta. Sucede que à Índia seguia-se a China e, depois de me aventurar sobre as terras do extremo oriente, de duas horas de leitura e uma hora a tentar rabiscar qualquer coisa, cheguei à inevitável conclusão que não vou conseguir publicar novo texto no Espanador esta semana. Com tempo, ele virá.

Atravessou o jardim no passo decidido de quem tem pressa em mostrar-se triunfante, no momento em que o João, sentado no banco de jardim de perna cruzada, dobrava meticulosamente o Independente já lido, pousava-o e, reservado, levantava os olhos. Assistia ao movimento de mulher ousada. Com gestos precisos ela afastava qualquer empecilho, provando ser capaz de traçar o próprio caminho, longe de sinas de vida dura. Nada contida, de corpo elegante e bem delineado, balançava afinada os braços a cortar a brisa amena e marchava decidida, com coluna bem erguida, peito alçado e movimento de anca livre. Um manifesto de liberdade. Magnífico exemplar do 25 de Abril, concluiu João, ao acender o SG Gigante, e logo desviar o olhar para o velho e quebrado homem a invectivar o grupo de adolescentes com quem acabara de se cruzar e que, além do despropositado coro de vernáculo, audível em todo o jardim, atirara à água três ou quatro latas de refrigerantes, agora juntadas à garrafa de superbock no fundo do lago. Mais logo o Alcino limpa, pensou. Desde 1969, varria e recolhia o lixo no centro da cidade. Estreou-se ainda em ditadura e assim permaneceu, sempre. Este ano, Portugal vai à final do euro, pela primeira vez na história do futebol, e o Alcino reforma-se, divagava o João. O vermelho das latas de coca-cola, bem visível no fundo da água, na madrugada seguinte seria mais difícil de distinguir, já fora laranja das latas de sumo Kas, ou do azul dos invólucros do capri sonne. Com o passar dos anos era indiferente, só custava mais no inverno, quando a água estava mais fria e suja. Pedia ao destino não aparecessem bichos maltratados ou mortos. Era uma recolha sofrida. Revolvia as entranhas por mais madrugadas passadas. Contara isto ao João em tardes de amena cavaqueira no banco de jardim.
Depois de acenar ao Alcino, cumprimentando-o, voltou a olhar na direcção oposta, viu a Ana Paula desaparecer depois de subir os poucos degraus da câmara municipal, para cumprir o horário da tarde. Esquitécia, a palavra assomou no seu pensamento no tom morno e doce da Constança. Assim se referia a mulher à Ana Paula, quando em casa conferiam o dia. Era a única pessoa a usar o termo. Nem sequer constava do dicionário. O João matutava se teria relação com a sesquitércia da matemática. Não sabia, mas achava adequado. Ainda assim, defendia sempre a figura central: não há rã sem girino, dá-lhe tempo. Ai, não tenho dúvida, é mesmo uma questão de tempo. Tens razão, dizia a Constança. Antigamente, nós dávamos tempo, três ou quatro gerações, muita fé e paciência. Mas o mundo hoje é outro. O tempo está para gente sem dúvidas nem educação. Irá longe num ápice, os outros nem por isso, vaticinava. Estava envolvido no pensamento da mulher, quando a filha se aproximou, carregando o caderno novo de capa florida, onde esboçara o primeiro início do livro, e perguntou a cor dos sapatos da Ana Paula
(Escrito de Abril de 2015 a Abril de 2019.)

Dois anos após as almoçaradas do Outono de 2014, os habituais convivas juntaram-se na Casa Agrícola, junto ao Mercado do Bom Sucesso, para festejarem a chegada ao governo da protagonista. Tal como previsto nas estrelas, a Ana Paula fora convidada a integrar o governo como secretária de estado da administração pública. Fez o infalível trabalho de casa. Um ano após a participação na Entrevista da TVI, no final do ano de 2015, mudou-se para Lisboa. Em rigor, e como vaticinara o Luís, fixou-se no Estoril. A mudança fez-se a pretexto do convite para integrar o grupo de reflexão sobre a modernização administrativa e a reforma do estado, para o qual foram canalizados fundos suficientes a gerar sete novos postos de trabalho no ministério das finanças e da administração pública. Sete novos postos de trabalho, bem remunerados, para se reflectir a futura reforma do Estado que, eventualmente, passaria pela sua redução. Comissão da qual, no final e como seria expectável, saiu apenas um sound bite, baseado em estudo na União Europeia, o qual atesta haver menos funcionários públicos em Portugal do que a média europeia. Razão dos dois pareceres emitidos. O primeiro no sentido de reforço de pessoal em áreas específicas dos serviços do Estado, com sinais de ruptura. E o segundo a calendarizar as medidas concretas de admissão de novos funcionários para daí a quatro anos. Sobrepunha-se o mais conhecido imperativo orçamental de todos os tempos: o almanaque eleitoral. E a pretexto de tão aturadas ponderações e conclusões, a Ana Paula viu resolvida a sua particular situação material, e encetou o trilho partidário a nível nacional. Fora presença notada no congresso da Feira Internacional de Lisboa, em Novembro de 2014. Fizera parte das listas da comissão nacional, garantindo a eleição, no ano seguinte, para a Assembleia da República, como cabeça de lista pelo círculo de Aveiro. Em tempo recorde, porque já não estamos no século XX, quando tais percursos demoravam dez ou vinte anos a ser feitos, em tempo recorde, escrevia a Margarida, a protagonista palmilhou o trilho do poder, transformando-se numa figura de relevo nacional. Chegara ao poder central, de onde tudo passa a paisagem a modelar ao gosto dos caprichos de provincianos deslumbrados. Cumpria-se a história do país dos últimos séculos.
Na capital, rapidamente se adaptou à teia de relações que interessam a quem tem pretensões de poder. Tornou-se amiga chegada e pretensa discípula de figura maior do partido, uma mulher inteligente, arrivista e azeda, com preparação académica e percurso de vida que faria adivinhar melhor futuro. Nos últimos dez ou vinte anos, ao entrar na onda de ditames contra a realidade, e do novo e empolgante conceito de história e factualidade errada, fora perdendo o controlo sobre opiniões ou princípios defendidos, e traída pelo próprio azedume e ressentimento fora engolida pelos slogans apregoados. Como previsível o mundo do moderninho consumira-se a si mesmo. Por falta adesão aos factos, o politicamente correcto entrara em autocombustão.
Em pouco tempo, a Ana Paula aproximou-se, percebeu as fraquezas e, estrategicamente, deixou-se ficar como figura de segunda linha, até ter a certeza de ter aprendido a arte de fazer política. Teve de estabelecer as relações necessárias, estreitar os ódios convenientes e aprimorar o discurso de demagoga. Teve de polir todas as arestas de mulher de paixões e opiniões. Aprender a defender as que rendem likes no Facebook e seguidores no Twitter. A moderninha daria lugar à ditadorazita de Espinho. Afinal, a protagonista era uma mulher do seu tempo e tarde ou cedo mostraria ao país a razão de déspota se escrever no feminino.
A Margarida reflectiu sobre a última frase escrita e sentiu aproximar-se o final do livro. Folheou-o. Queria tranquilizar-se. Estar certa do problema não estar na ascensão ao poder por gente vinda da província, mas sim a ascensão ao poder de quem traduz cosmopolitismo pela ideia superioridade da cidade, enquanto núcleo do poder e das relações que interessam. Por espíritos provincianos, oriundos da mais recôndita aldeia do país ou de qualquer avenida lisboeta. Já nos chegava a visão estreita e pacóvia das elites das gerações anteriores, que não diferenciavam ser cosmopolita do bajular de correntes de pensamento estrangeiras e, por isso mesmo, se sentiam envergonhadas do país onde nasceram, como temos as novas gerações de deslumbrados e deseducados, a afiançarem a ideia de que ser cosmopolita, é ser moderno, urbano, abusar das novas tecnologias e defender de forma militante o apagão da história; a tal que explica o nosso estágio de civilização.
Eterna ingénua, ansiava por velhos e novos ascendidos à nata do país cientes de não haver cosmopolismo sem o respeito por quem habita o universo, venha de onde vier. Sabedores do princípio íntimo do começo do universo. Vincava a ideia da necessidade de se ter mundo. Fazer parte do universo e respeitar-se a si e ao outro é mais difícil do que parece, dispensa a sobranceria pacóvia dos velhos privilegiados e impõe o conhecimento e compreensão dos factos da história desprezado pelas novas elites. E feita esta consideração, não sem antes rir da conclusão tirada, como qualquer outra resposta descabida na literatura, foi à pasta dos meus documentos procurar o primeiro início do livro que pretendia escrever, mas ao qual não dera continuidade, por se ter perdido a contar a vida da protagonista e outras personagens. Ainda assim decidiu, tal como tinha anunciado ao Vicente, valer-se do esboço inicial e passá-lo para o epílogo. Copiou e colou o texto. Trocou o título, apagando Ana Paula e escrevendo O Livro dos três Princípios. Simplificou, limpando as considerações inúteis sobre a evolução política dos últimos cinquenta anos, e sorriu ao ver novamente da cena triunfal da Ana Paula, a atravessar o jardim, calçada de revolução. Aí estava o terceiro princípio do livro.

A decisão de participar, em 2014, na Entrevista da TVI foi de iniciativa própria e contra a opinião dos amigos de partido. Serviu de trampolim para a entrar em cena na vida pública a nível nacional. Em casa teve o apoio total do Orlando e da filha mais velha, e a desaprovação da mais nova que, desde cedo, viu a mãe e a irmã comentar os sucessivos big brother nas redes sociais, mas via com maus olhos a exposição da própria mãe, em programas odiados por pessoas de bom senso. A Mariana estava longe de ter herdado a astúcia da mãe. Com aguçado faro político, a Ana Paula sabia que ser ouvida, notada e reconhecida era essencial. Sempre fora seduzida pelo poder e sabia bem como o alcançar. E a participação no reality show A Entrevista, como para muitos outros aspirantes a políticos a aparição em debates no mundo televisivo ou virtual, foi um passo decisivo na caminhada da política da nova era.
Mas nem tudo foram flores, a nova visão ambiciosa não era comungada por muitos no partido. Tal como a Mariana, consideravam vergonhoso tomar parte desse mundo. Uma coisa seria a desejável participação em debates televisivos, outra a exibição da vida em directo. A Ana Paula contrapunha tratar-se de vozes do Velho do Restelo e que só em Portugal se pensava de forma tão senil. Custava-lhe ter uma filha antiquada aos vinte e um anos. Uns anos mais tarde, em defesa daquela participação televisiva, tentava dar exemplos de outros países, mas só ocorria o Trump e percebia não ser boa ideia trazer o personagem às discussões. Declarava-se mulher desempoeirada, sem nada a esconder. Achava perfeitamente normal mostrar-se a si e à sua vida aos portugueses para que pudessem saber o que contar. Não estamos no tempo das trevas. Já não é preciso esconder o corpo, a vida e as ideias, dizia. Vivemos num país livre e isto sim é liberdade. Devemos mostrar como somos e a forma de pensar, acrescentava.
A Mariana tremia transida com estas frases. Mais? Mostrar mais, ainda? Olhava à volta e via os colegas na faculdade a mostrarem como pensam e são, via os professores, os funcionários, as pessoas nos restaurantes, nos supermercados, nas estradas, nas praias, nas salas de cinema. Desejava tanto que reservassem um pouco o que pensam e são, e dessem espaço e oportunidade à expressão dos outros. Ou, simplesmente, houvesse algum silêncio. A direcção nacional do partido também viu, por razões diferentes das da ingénua Mariana, com maus olhos a participação de uma militante em funções autárquicas no reality show. Se antes a Ana Paula obtivera sinais a nível central de eventual lugar destacado nas listas ao próximo congresso, a direcção do partido, por altura da exibição das primeiras entrevistas na TVI, arrepiou caminho e considerou retirá-la das listas. O apoio tido de antemão estava comprometido. No partido instalou-se o medo de ser confundido com big brothers. A razão principal do volte face teve origem, sobretudo, no gozo demostrado pela elite de comentadores de Lisboa. A chacota versava sobre o provincianismo de Ana Paula, que apesar de muito tentar não conseguia disfarçar a pertença e identificação com a sua terra. Como é sabido, comentador ou político que se preze, faz questão de se mostrar cosmopolita, apesar de frequentemente não ter a mais pequena ideia do que isso seja. E uma das formas de se demarcar do passado recente é destratar o resto do país e as suas gentes, até as mesmas migrarem, como eles ou os ascendentes fizeram, e transformarem-se em prezados amigos de sempre na capital.
Na caminhada até Lisboa, a figura principal atravessou vários níveis de provincianismo. O próprio, traduzido na pequenez de espírito e na vontade de ser diferente, de se aproximar da imagem de sofisticação vista nos colegas de partido, elementos de grupos restritos de interesses. Mas também, e ainda, numa reminiscência de adolescente: a eterna vontade de se aproximar da imagem transmitida na televisão ou, nos tempos modernos, nas secções de lifestyle dos portais virtuais. E o provincianismo dos outros. Dos ascendidos ao degrau da escala dos que contam e riscam. A protagonista saloia enfrentou, então, os provincianos intelectuais já instalados. Bajuladores de universidades fora de fronteiras, onde estudaram por breve período, e onde tiveram o prazer supremo de se cruzar nos corredores com autores de livros que só conheciam das prateleiras, a quem começam a imitar os tiques. Deslumbrados a abrir fileiras de discípulos dentro do país, entre estudantes nas faculdades onde têm aulas ou apenas por cultivarem a vaidade pacóvia do clã por terem lido meia-dúzia de excertos de textos ou visto uma entrevista na televisão. O importante é cada um fazer questão de se mostrar superior ao anterior, nem que seja à custa de muito calço de intrujice. É a matrioska da vanglória. Cada degrau de vaidade faz questão de espezinhar a vaidade do degrau anterior.
A palermice não grassa só entre os intelectuais. Em regra, Portugal ainda não se libertou do medo da colagem à imagem do saloio. Tal induz os portugueses mais informados, e supostamente mais cultos, numa saloiice mais perniciosa para a afirmação do país: a bajulação do que é estrangeiro ou novo, em detrimento do português ou antigo. O cunho português ou o tradicional, salvo a excepção de ter tido elogio estrangeiro, é sempre referido em sentido pejorativo.
Daí permitir-se passar em horário nobre da televisão, sem qualquer registo de desagrado, reparo tonto de personagem de origem britânica sobre o carácter terceiro-mundista do Porto, num tempo em que ainda não havia hotéis e restaurantes padronizados ao gosto do turista plástico. E reproduzirem-se os que aderem ao novo-riquismo de quem, no modernismo endinheirado do cliché, nunca chega a conhecer a alma da terra pela qual passa, nem a sabedoria das suas gentes. Há uma expressão portuguesa antiga, a fazer cócegas na inteligência dos mensageiros da sofisticação, que a catalogam de rústica, usada restritamente para caracterizar gente parola, presente em qualquer parte do mundo, com pretensões a ser civilizada: piolho em camisa lavada.
Enfrentou sobretudo o provincianismo dos comentadores e humoristas virtuais e televisivos com audiência, que enchem o espaço da comunicação social de salmos politicamente correcto, disfarçados de mínimos civilizacionais. Como se o respeito pela vida e pelo próximo, fosse inverso a factos menos in ou menos fracturantes. No espírito destas almas educadoras do povo, na dúvida a escolha será sempre contra a realidade. Têm total desconsideração pelo tecido social português, absoluta ignorância sobre a inteligência nacional, sempre menosprezada, sempre desdenhada, ou porque é de direita, e num país de esquerda há quarenta anos, ser de direita passou a ser sinónimo de acefalia, ou é civilizada, num país em que se confunde democracia com grosseria, ou não é de Lisboa, num país de migrados, envergonhados das origens rurais e deslumbrados com a luz da grande cidade, que não os parece iluminar, ou não tem formação académica superior, no país de licenciados e mestrados analfabetos, mas cheios de si.
Ao contrário do previsto pela direcção do partido, a saloiice da Ana Paula foi sua sorte e o seu triunfo eleitoral. Os portugueses deixaram de se rever em provincianos disfarçados e enfatuados. Começam a preferir os genuínos. Afinal, para quê votar em políticos falsos, quando os originais passaram a ter condição elegível. Contra as expectativas da direcção do partido a Ana Paula ganhou os cem mil euros do concurso e passou a ter notoriedade e estatuto suficiente para ocupar o lugar de cabeça de lista pelo círculo de Aveiro. Escolha muito contestada dentro do partido, mas revelada certeira, face ao bom resultado num círculo eleitoral dominado pelo PSD.
As últimas palavras de Salgueiro Maia.
Obrigada, Pedro.
Este foi o programa de final de manhã de hoje.

14. Índia
O que marca os dias presentes na Índia, país de sistema de saúde frágil e índices de pobreza preocupantes, é a desgraça do descontrolo dos casos de Covid. Apesar disso, não é sobre esta calamidade que vou escrever no Espanador, mas de outra latente e que expõe as debilidades da dita democracia mais populosa do mundo.
Mais nova (quando viajar era uma prioridade) nunca me deixei tentar por destinos então muito na moda como Cuba e a Índia. Por motivos diferentes. Não fui a Cuba, apesar do apelo do glamour cinematográfico e da música, por me negar a veranear num bom hotel de um país pobre e sujeito à ditadura. Nunca tive particular vontade de visitar o esplendor histórico, cultural, arquitectónico e pictórico indiano por não conseguir fazer de conta que a pobreza extrema, a discriminação e o desrespeito pela mulher não são realidades gritantes num país que se diz democrático.
No estudo publicado, em 2018, pela Thomson Reuters Foundation - naturalmente contestado pelas autoridades indianas -, ouvidas cinco centenas de especialistas (académicos, legisladores, jornalistas, profissionais de saúde) em áreas que iam da discriminação à violência sexual, a Índia foi considerada como o pior país, entre 193 membros das Nações Unidas, em termos de tradições culturais, violência sexual e tráfico humano.
Apesar dos direitos de igualdade e liberdade das mulheres consagrados na Constituição indiana, o facto é que é perigoso ser mulher na Índia. A violação está enraizada e é justificada pela cultura indiana. As mulheres não se sentem seguras nem livres. Há registos estatísticos de crimes na Índia que mostram um aumento para o dobro - reflectem também o facto de começarem a ser contabilizados -, entre 2012 e 2016, dos crimes sexuais. Mais de 40% das vítimas femininas eram menores e mais de 90% conheciam os agressores. Além do flagelo dos crimes sexuais contra as mulheres, as tradições hindus - crenças e práticas -, aliadas à possibilidade actual de conhecer o sexo da criança durante a gravidez, têm conduzido à prática do aborto selectivo feminino.
No The Guardian: 18.000 crianças migrantes desaparecidas, entre Janeiro de 2018 e Dezembro de 2020, na União Europeia. Os mais vulneráveis à violência, exploração e tráfico às mãos de organizações criminosas.
Se tiver dificuldade em aceder, escolha a opção: Ver no YouTube, sff.
A página oficial do compositor e guitarrista.

Tema em que perco algum tempo: casas.
A primeira casa que comprei era uma caixa de fósforos num terceiro andar sem elevador, em Gaia. Recorri a crédito habitação, que liquidei quando a vendi. Depois adquiri a segunda casa, em Lordelo do Ouro, no Porto, numa altura em que ganhava quase o dobro do salário de hoje, com recurso a crédito para 55% do valor, numa época em que os preços dos imóveis estavam em baixo. A prestação rondava 15% do salário. Considero obscenos os preços do imobiliário em Portugal face aos salários praticados e acho imprudente a taxa de esforço de 35%, nunca tendo tido um empréstimo habitação acima de 20% dos rendimentos (de trabalho, naturalmente) nem lançado mão da fiança, apesar de ter comprado os dois primeiros apartamentos sozinha. No início de 2018, aproveitei os preços estarem em alta e vendi o apartamento (qual Robles, mas sem arrendatários lá dentro e sem esticar a corda do valor, tendo aceite uma proposta logo na primeira semana de anúncio) com um ganho de cerca de 55%, o que me permitiu liquidar o empréstimo e ainda ter um pequeno proveito extra (uma vez que já havia amortizado parte). Em seguida, com esses ganhos comprei em compropriedade 50% do apartamento onde estou agora, na freguesia também cara de Cedofeita, mas numa zona mais modesta e num prédio dos anos 60. Livrei-me do crédito habitação.
Como eu, ou em situação semelhante, há centenas de milhares de portugueses. Nas palavras da luminária que nos governou entre 2005 e 2011 somos crianças - bem sei que se referia a dívida pública, mas já vimos que geriu o país como as suas finanças pessoais. Não haja dúvida que nos tem custado continuar a ser infantilizados aos 20, 40, 60 ou 80 anos assistindo à cena triste de ver conterrâneos batendo no peito em defesa das injustiças e más palavras dirigidas ao antigo Primeiro-ministro.
A isto não se chama inveja nem espírito justiceiro, mas mínimo de decoro. A menos que valha tudo e não tenhamos um pingo de respeito por nós próprios e pelo esforço na vida. E bem sei que os assuntos dívida pública, país e Sócrates não são temas no dia do livro, mas convém recordar que para adquirir livros é preciso dinheiro e disponibilidade mental, tantas vezes ocupada com problemas mais prosaicos a resolver. Dinheiro e literacia financeira, esses assuntos sujos que em Portugal poucos gostam de falar ou sobre os quais e entre intelectuais se fala com desprezo e desconsideração, misturando factos e falsidades como pretexto para tudo continuar na mesma: pouco transparente, pouco compreensível, num eterno enredo de país com atraso sistémico, que dá pano para mangas a infindáveis debates de ideias sobre o sexo dos anjos. Nada a estranhar num país com uma das maiores dívidas públicas do mundo e que gosta de se rir e desdenhar das regras e sovinice nórdica, considerando-as desprezíveis face ao despojamento luso. Também acho lindo o despojamento, mas à própria custa e não à custa dos outros. Caso contrário, não é despojamento, mas desfaçatez.
Face ao mercado, quando ponho a hipótese de me dar o gosto de ter uma casa melhor (um devaneio porque a casa onde estou é boa), em vez de gerir a dívida futura, pondero mudar-me novamente para Gaia, onde os preços são substancialmente mais baixos. Vidas de criança.


Imagens daqui: Idealista.
São muito poucos os que vêem além da aparência. O sério não reconhece o outro como sério, por não ter aprendido a confiar. O inteligente não reconhece inteligência no outro, por este não ter os meneios de linguagem catalogados como sinais de discernimento. O menino bem não reconhece outro como pessoa civilizada, por falta de boa imagem e dos requebros familiares ou de tribo. O pragmático não vê no outro rotina de trabalho, por reduzir a noção de labor ao espavento e eco, feito sucesso.

Thomas Rowlandson, A Dança da Morte: O Glutão.
*
Desculpem aborrecer com realidades desagradáveis, mas face a tanto regozijo do Governo e da comunicação social com o excitado primas, fomos os primeiros a apresentar o Plano de Recuperação e Resiliência de 16 mil milhões, só apetece recordar que a dívida pública se cifrava em Outubro último em 268 mil milhões.
Até quem entende o que é gestão da dívida, face a tanta gulodice (só falta esfregarem as mãos nas aparições públicas), não pode deixar de recordar as palavras desse sábio amigo, educador e inspirador dos actuais governantes, José Sócrates: "Para pequenos países como Portugal e Espanha, pagar a dívida é uma ideia de criança. As dívidas dos Estados são por definição eternas. As dívidas gerem-se. Foi assim que eu estudei".
Quem não aparece, esquece; mas quem muito aparece, tanto lembra que aborrece.
Há talvez dois anos um homem teve um pesadelo e, num ataque de fúria e em defesa da honra, a dormir saltou da cama para esmurrar o agressor, acabando a desfazer a cabeça numa estante do quarto. Ficou em péssimo estado, posso garantir. Esse homem viveu em Angola e passou por situações muito difíceis, mas sempre me disse que nunca sonha com isso, nem considera ter traumas de guerra. Sempre falou de tudo desassombradamente e sem os requebros romanceados e as fantasias que têm muita saída comercial no país do faz de conta.
Depois do estenderete e de cosidos os pontos, foi fazer a TAC. Ao levantá-la, o técnico de diagnóstico estendeu o papel com o resultado e disse: o senhor esteja descansado que não tem nada no cérebro. Ao que o examinado respondeu: eu já desconfiava. O técnico replicou: ah, o senhor já achava que não era nada sério. Ãh, ãh, desistiu o seráfico ferido ao vir-se embora com o papel na mão.
Quando me contou a cena ri desalmadamente apesar de estar face ao meu pai, que aos setenta e seis anos se via com a cabeça e o rosto desfeitos num oito. Rimos todos, como de costume. A única maneira de levar a vida a sério.
Acordei e chovia, depois de abrir as janelas e dar de comer ao gato, pensei que quero fazer uma declaração de amor ao Porto. Comecei a pensar no que escreveria e pouco depois as lágrimas correram - choro com o que penso e escrevo, é um doce drama que me anima. Impressiona-me a ideia de ser capaz de ter tamanho amor a uma cidade. Vaidosa das ruas, árvores, casas e dos recantos mas, sobretudo, das pessoas que as habitam. Um dia, com jeito, empenhando o melhor que possa fazer pela escrita, direi o que me vai na alma e coração em homenagem ao Porto. Vergada de respeito pelas suas gentes.
De resto, olhei à volta, vagueei por aí e pensei: não, não vou deixar que o meu mundo se amesquinhe na bazófia de almas ressentidas e de dedo em riste. É deixá-las revelarem-se insignificantes em português insípido e avaro, corroerem-se a si próprias no seu veneno.
Antes de recomeçar a trabalhar, fui aos rascunhos do blogue e recuperei a nota seguinte por publicar há dias. Há dois tipos de opiniões: as que expressam o que se pensa sobre o assunto e as que o que mais querem expressar é que a minha é mais comprida do que a tua, sou tão mais esperto do que tu e eu e o meu gueto temos tanta necessidade em maldizer-te (e tão pouca capacidade de nos vermos ao espelho). Claro que todos caímos pontualmente neste tipo de opinião, mas não haja dúvida que há tendências que revelam a natureza dos autores.

Tira desenhada daqui: Scientists for EU | Facebook.
Publicada a 4 de Novembro de 2020.
*
Obrigada, Ricardo Álvaro.
Hoje estou virada a ver as coisas pelo avesso. Acontece-me muito. Também é preciso ver pelo revés para não ficar agarrada aos lugares-comuns. Um deles é o de que o humor é sinal de inteligência.
Ontem, cá em casa, ao ouvir um comentário sobre alguém avesso a perceber piadas e sempre tentado a questioná-las, lembrei-me que muito do humor tem base na ignorância. E como muitas das pessoas que consideramos desprovidas de sentido de humor são, simultaneamente, bastante capazes e conhecedoras. Podem é não ser as melhores e mais animadas companhias.
Desde a gracinha rasteira ou anedota tosca ao sketch bem esgalhado de um humorista profissional bem-sucedido muito dos trocadilhos, das ilações fáceis e dos rótulos rápidos são feitos da ignorância das realidades ou do funcionamento das realidades que subjazem à piada. É evidente que muitas vezes essa ignorância não é inocente: é a falsa ignorância para obter o efeito desejado do riso. Mas em muitos outros casos, as graças espelham mesmo o desconhecimento ou preconceitos de personalidade, sociais, ideológicos ou morais do autor da piada.
A coisa funciona por estágios. Na base a piada e o entendimento dela sem o uso inteiro da razão, de que resulta o riso. Em seguida o entendimento dela com a razão e o questionamento, que resulta num certo desinteresse - a que se chama ausência de sentido de humor. E por fim, no entendimento de que se está acima da questão de haver ou não razão e da piada valer por si, resultando novamente no riso. Talvez menos espampanante. Mais sereno, mas não menos gozado.
Os avisos, conselhos, reparos vêm de todos os lados a toda a hora: não fiques parada no tempo, não sejas imprudente, pensa antes de agir, és burra, és inteligente, faz isso, não faças aquilo, corrige isto, marimba nisso, vê isto, não vejas aquilo, és uma nódoa, és brilhante, tens razão, estás enganada, acredita neste, não acredites neste.
Embrulhados em diferentes papéis - o de humorista, moralista, cronista, comentarista, amiguista ou outro qualquer -, os sábios estão em todo o lado prontos a ensinar: é assim, eu aprendi assim, eu faço assim.
Todos damos conselhos e armamo-nos em sábios, entretidos com o nosso umbigo. Distraídos do outro - do seu sangue, da massa encefálica, da sua carne, do que é e sente, da sua qualidade -, e logo a seguir vamos à nossa vidinha contentes com o nosso brilharete, deixando o eterno aprendiz, objecto de tanto conselho e ofuscado com tanta sabedoria, atordoado com tamanha iluminação.
O aprendiz ou abre a boca num valente e enérgico bocejo, aprendendo a decidir por si e a erguer-se, não se deixando impressionar ou amedrontar no pântano do conselho ou morre de tédio e indecisão face a tanto ensinamento.
Às vezes, é preciso mandar às urtigas a sabedoria alheia. Mandá-la calar, para tentar ouvir a nossa.
Ocorreu-me a ideia de que a vida só tem densidade quando nos sentimos um nada desconfortáveis. Incrédulos ou medrosos. O choque pela diferença da maneira de estar do outro, a opinião diferente, o lugar ou ambiente diverso, ou simplesmente o novo, levam-nos a ligar os sensores, as antenas dos sentidos. Para além do mental é coisa física, palpável. Odeio a expressão sair da zona de conforto, mas a ideia faz sentido. Quando nos acomodamos, por mais confortável e até alegre que seja a vida, falta o sal da contrariedade, do chão a fugir dos pés, do friozito na barriga.

Sempre que sinto no ar laivos de intelectualização e o debitar de teorias sobre o sexo dos anjos em vez de se ir directo ao concreto, reduzo-me à minha insignificância e remeto-me para assuntos à altura das minhas capacidades cognitivas.
Hoje, vá-se lá saber porquê, lembrei-me da História do Macaco do Rabo Cortado, de António Torrado. Em criança ouvi este conto vezes sem conta, como muitos outros, no gira-discos das histórias infantis. Isto sim, está ao meu nível de compreensão. Hoje não o encontrei, mas coloquei em cima a imagem de alguns dos contos infantis que ajudam a perceber de que matéria é feita a vida antes de começarem a enredá-la metendo os pés pelas mãos em razões e pretextos que servem sobretudo para justificar o injustificável.
A cantada final do conto do macaco é esta:
"– Olha o macaco mariola
que de rabo fez navalha
da navalha fez sardinha
da sardinha fez farinha
da farinha fez menina
da menina fez camisa
da camisa fez viola
e agora deu à sola
e agora deu à sola.
O macaco no telhado repimpado pegou na viola e respondeu-lhes:
– Pois se agora dei à sola
Pois se agora vos fugi
É que a mim ninguém me enrola
E de mim ninguém se ri.
Timglintim, tinglintim.
Timglintim, timglintim.
Cá em baixo, continuava a surriada. Riam-se e cantavam para ele:
– Olha o macaco mariola,
estarola e gabarola
com pancada na cachola,
dá e tira, mata e esfola,
ora parte, ora cola,
ora mete para a sacola…
Dá a esmola, tira a esmola,
mariola, mariola
quem te meta na gaiola,
quem te meta na gaiola.
Mas o macaco no telhado respondia ao desafio:
– Não me metem na gaiola
que de mim ninguém se ri.
A tocar nesta viola,
tinglintim, tinglintim,
a dançar com castanholas
vou daqui para Madrid.
Sou macaco mariola
e rei do charivari,
porque a mim ninguém me enrola
e a tocar nesta viola
tinglintim, tinglintim
não tenham pena de mim.
Tinglintim, tinglintim
não tenham pena de mim,
tinglintim, tinglintim
não tenham pena de mim…
Foi-se embora o macaco…”

*
Por volta dos treze anos fiz um acordo com a E., amiga de liceu. Chamadas à atenção pela nossa extraordinária professora de Francês, Beatriz Florido – uma senhora, que mais tarde veio a ser minha professora de Português, resolvemos que por cada palavrão que dizíamos, tínhamos de dar uma moeda à outra - já não me lembro se a moeda era de 50 centavos, 1 escudo, ou 2 e quinhentos. Puxando pela memória, creio que graduávamos o deslize e os efes eram os mais taxados. Ela vinha das praias de Gaia e do ambiente de pescadores. Eu tinha vivido em Felgueiras, onde ainda mais do que no Porto vernáculo é vírgula, e estudava no ensino público. Tudo estava explicado. Apesar de em casa não me atrever – tenho amor à pele e a vida ter-me-ia corrido muito mal se me atrevesse -, mal me apanhava livre, era um ver se te avias.
Sempre gostei deste jogo das moedas e da lata das moedas. Uma moeda por cada asneira, deslize, falta, qualquer coisa assim. Usei-o noutras circunstâncias com outras pessoas.
Vem isto a propósito de ler lido os últimos dias das Comezinhas. Fiquei com vontade de pôr um link ali na barra lateral direita com o letreiro a dizer: Uma moeda por cada lamúria.
Ao vasculhar escritos não publicados encontrei esta carta de 23/08/2017.
*
À Maria
Quanto aos rapazes, quero que saibas isto: não te culpes por te teres envolvido na conversa fiada dos artistas. Não te zangues contigo ao descobrir leviandades, puritanismos e falsas moralidades. Percebe as tretas úteis. Vive com as ambições que iludem os sonhos. Partilha as manhas do preconceito em jeito de crítica literária. Fixa os tiques da sobranceria em conferências de egos. E verás certezas em corpos errados e caracteres acobardados.
Contra vontade cairás na armadilha. És mulher. Não há volta a dar. Um dia um qualquer artista te humilha. Terás vergonha do ridículo. Esconder-te-ás da tua figura. Temerás os outros: o que dirão, o que pensarão. Deixa-os zombar. Chegará o momento em que nem a lembrança do artista respira. Deixa-os tombar.
À mágoa incrustada seguirá a fúria esmorecida e tudo acaba na sabedoria do teu sorriso. A alegria da infância regressa e voltas a acreditar, mas não em artistas. Devagarinho regressa o homem que te ama, compõe a música para o teu poema e tu sabes que ele mesmo é arte.
A propósito da Superliga Europeia e a reacção de Boris Johnson.
O resultado de dividir o mundo entre talentosos e ineptos, eleitos e preteridos, perfeitos e deficientes, génios e néscios.
Clubes de bolinha preta sempre os houve. Viver numa redoma é um consolo para os membros.
Não dou dois dias para ouvir as vozes que dirão que criação foi feita de modo transparente, ao abrigo e no respeito pelas leis que regem o sector. Que é o normal funcionamento do Mercado. Que a a Superliga dará mais robustez aos clubes de futebol, estruturas fulcrais no desenvolvimento económico dos diversos países. Que trará mais adeptos e valor ao desporto, contribuindo para a valorização da prática desportiva, essencial ao saúde e bem estar dos europeus.
Divertido será um outro argumento: a Superliga vem romper com a podridão das instituições que regem o futebol europeu. Como se esta iniciativa tivesse a intenção de melhorar a situação actual, e não pura e simplesmente o lucro dos membros.
No The Guardian, o quotidiano na pequena cidade fronteiriça ucraniana Marinka, que se prepara para a invasão pelas tropas russas.
No Observador, o apelo do Papa ao fim das tensões entre Rússia e Ucrânia, lamentando a violação do cessar-fogo e o aumento do contingente militar russo.
Em suma, é oficial e a invasão fatal como o destino.

No próximo fim-de-semana devo acabar de espanar o mundo. Em princípio, será coisa para tirar o pó vite-vite (à moda da V.) à Índia, China, Coreia do Norte e Nova Zelândia. Não faço a menor ideia sobre o que vou escrever, mas também não há nada como a ousadia.





Ontem conversa da animada T., amiga de sempre. Foi dando o toque que é preciso espevitar e não cair no marasmo. Nada como voltar a andar a pé: não tem custos nem complicações associadas, só temos que bater a porta e pormo-nos a caminho.
Hoje percorri 6.300 metros para ir e vir ao Jardim Botânico, que estava encerrado. Os destinos não variam muito, já que a zona é uma tentação: é-me querida e bem familiar. Paragem na Casa Allen - Casa das Artes -, para as fotografias da praxe. Já sabem que não sou grande fotógrafa, por isso, não esperem qualidade de imagem. Não faço muita questão nisso. Interessa-me o registo e a beleza vivida do lugar.
Se fizesse isto três vezes por semana, seria uma conquista.