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08/04/2021

Personal trainer e genuflexório

Nos dias em que fico mais do que apática, abobalhada ou abobada como dizem os brasileiros, dou por mim a perder tempo com o impensável. Para fazer as pazes comigo mesma, não me zangando com a perda de tempo, vou-me consolando ao pensar que é destas muitas palermices que me vou fazendo e que nada é desperdício. Ligar a tudo e ligar tudo é também ganhar tempo a construir o que somos. O que somos é que vá, pode não ser lá grande espingarda. Ou pelo menos espingarda enquadrável nos padrões do socialmente desejável e aceite. Por exemplo, desperdício é uma palavra que sempre associo aos carros e às oficinas, por causa dos pedaços esfarrapados de tecido imundos e encharcados de óleo. Vidas de outro tempo, em que nos carros ainda não prevalecia a electrónica sobre a mecânica. Nada a ver com este postal, ou quem sabe, tudo. Tudo anda ligado.


Nestes dias em que navego na maionese, que é mais ou menos como estar às quatro da manhã a ver televendas - hábito que nunca tive por jamais me ter pegado o vício de ver televisão na cama -, dou por mim, como dei hoje, a deixar prolongar os três ou quatro segundos que costumo aguentar da voz do personal trainer do youtube, que em inglês anuncia a nova dieta da moda: esqueçam as milhentas dietas das calorias com trinta e quatro variantes, agora o que está a dar é confundir o metabolismo. Mas antes disso há que esfregar o ego das mulheres com metabolismo lento: nós fomos feitas assim ao longo dos milénios para resistir aos Invernos rigorosos. Somos umas sobreviventes que armazenam a gordura para suportar as agruras da invernia. Descobri hoje porque gosto tanto dessa estação e, a avaliar pelo corpinho esbelto que transporto, sinto-me preparada a sobreviver duas ou três destas estações sem comer rigorosamente nada. Autofagia é a solução. Bom, o PT não diz tanto, isto são associações livres minhas. Tudo quanto o esforçado comunicador diz é que se alternarmos dias de alimentação mais calóricas com menos calóricas, enganamos o organismo, não permitindo que ele desacelere acabando naquilo que todos quantos já fizeram dieta sabem (as minhas nunca ultrapassaram a terceira semana): aumento de peso.


Já conhecia a do jejum, que nunca fiz e me faz lembrar os tempos antigos do jejum para comungar. Quantos miúdos de hoje saberão o que é confessar os pecados e comungar? E explicar que crianças desonestas como eu passavam a hora anterior à confissão a imaginar coisas credíveis para confessar, porque obviamente era impensável dizer a verdade ao sô padre Jorge. Lá ia eu e o Ritz, o cão ficava na porta lateral da igreja a vigiar, eu assentava os joelhos no genuflexório (quantos ainda sabem o que é?) e a conversa começava sempre com trocas amistosas de palavras sobre cães. O sô padre falava dos que tinha tido e fazia perguntas sobre o Ritz, a que eu respondia com gosto, até que terminava o interlúdio que demorava sempre mais do que o acto. À fatídica pergunta - que já não me lembro bem como era formulada, mas seria qualquer coisa como isto: então, menina, diz-me lá as asneiras -, eu respondia invariavelmente: atirei pedras aos outros. E começava o pior: pedras grandes? meninos da escola? em casa? Ora, não havia pedras nem outros nem meninos, porque eu não tinha atirado pedras algumas e ficava encravada naquela mentira embaraçosa - cuja ideia ia buscar a trocas de informações sobre temas para as confissões com colegas da primária – e ainda por cima aquela hesitação fazia-me lembrar dos eventuais pecados verdadeiros que, obviamente, jamais confessaria. Para me escapar passava adiante e dizia depressa: ah, e chamei nomes feios aos outros. Pronto, aí estava safa, era certo e sabido que tinha chamado camelo e burro e outros monumentos de eloquência na escola ou em casa. E pronto, com uma palavra compreensiva passava aos bancos corridos, o Ritz esperava que eu acabasse de rezar a Ave Maria e o Pai Nosso e vínhamos para casa. Sob o olhar atento do padre Jorge a quem mais do que tudo fixei (como muitas vezes acontece) a voz nasalada tão característica. Trinta anos mais tarde numa consulta de urologia estava com uma sensação estranha e não sabia porquê, só depois percebi quando me cruzei num corredor de um Centro Comercial com o dito médico que ali falava ao telefone em tom de voz bastante alto: era igual a voz à do padre Jorge. Bah, esquisito ser consultada pelo padre Jorge, daí a sensação de estranheza.


Mas quanto a confissões e ao comungar foi assim meia-dúzia de vezes entre os sete e os onze anos, quando me livrei dessas vidas, com uma decisão importante. No dia de ensaio geral para a comunhão solene (ainda se chama assim?), era suposto estar presente e fazer a leitura que me estava destinada, coisa a que sempre me consegui esquivar, quando mais não fosse por sempre ter lido aos arranques e trocado (sim, as minhas leituras são criativas: sempre li palavras que não constam do texto, às vezes chega ao caricato de serem antónimas das que lá estão). Mas Deus é grande e meu amigo enviou-me um eclipse solar nesse final de Maio de 1984. Passei a tarde desse dia no terreiro de Valinhas com películas de fotografias em frente aos olhos a olhar para o Sol e, naturalmente, nem me passou pela cabeça ir ao ensaio geral. Chegou recado da mestra de cerimónias, a Menina Santos, irmã do padre - que odiava ser menina, queria ser dona e eu há época não percebia essas nuances e chamar-lhe-ia tudo quando quisesse desde que me deixasse sossegada -, pois que eu tinha sido uma grande irresponsável e como castigo me seriam retiradas as leituras e passaria para última da fila depois das grandalhonas - as filas eram em escadinha do mais baixo para o mais alto. Mal sabia a menina dona Santos o quão feliz fiquei por não ter de ler, e que o último sempre foi o meu lugar predilecto. E da memória ninguém me tiraria a vista do Sol a ser comido pelo escuro, ah pois: isso é que ninguém me tirou. A partir daí, durante a adolescência ia espaçada ou mesmo raramente à missa, por fases, anos em que várias vezes, outros quase nunca. Ainda quando me dizia ateia, gostava de ouvir as prédicas do padre dos Clérigos.


Parecendo que não personal trainer e padre não andam tão longe, e o que me levou hoje a ficar pasmada a ouvir o musculado PT deve ser a mesmo canto de sereia que me deixava meia absorta a ouvir as leituras, orações e sermões da igreja. Isto anda tudo ligado. Pelo que, resumindo e concluindo, hoje já tive direito a missa no youtube.