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21/04/2021

Humor: os três estágios

Hoje estou virada a ver as coisas pelo avesso. Acontece-me muito. Também é preciso ver pelo revés para não ficar agarrada aos lugares-comuns. Um deles é o de que o humor é sinal de inteligência.


Ontem, cá em casa, ao ouvir um comentário sobre alguém avesso a perceber piadas e sempre tentado a questioná-las, lembrei-me que muito do humor tem base na ignorância. E como muitas das pessoas que consideramos desprovidas de sentido de humor são, simultaneamente, bastante capazes e conhecedoras. Podem é não ser as melhores e mais animadas companhias.


Desde a gracinha rasteira ou anedota tosca ao sketch bem esgalhado de um humorista profissional bem-sucedido muito dos trocadilhos, das ilações fáceis e dos rótulos rápidos são feitos da ignorância das realidades ou do funcionamento das realidades que subjazem à piada. É evidente que muitas vezes essa ignorância não é inocente: é a falsa ignorância para obter o efeito desejado do riso. Mas em muitos outros casos, as graças espelham mesmo o desconhecimento ou preconceitos de personalidade, sociais, ideológicos ou morais do autor da piada.


A coisa funciona por estágios. Na base a piada e o entendimento dela sem o uso inteiro da razão, de que resulta o riso. Em seguida o entendimento dela com a razão e o questionamento, que resulta num certo desinteresse - a que se chama ausência de sentido de humor. E por fim, no entendimento de que se está acima da questão de haver ou não razão e da piada valer por si, resultando novamente no riso. Talvez menos espampanante. Mais sereno, mas não menos gozado.