Passaram uns valentes anos desde que o nome Sócrates, o seu desplante e desonestidade me comiam o cérebro em zanga e levavam a escrever comentários desaustinados, podre de fúria pela complacência da maioria dos portugueses com tamanha trapaça. O desamor a nomes como Zeinal Bava vem da mesma altura. Já a alergia a Ricardo Salgado é bem anterior. O comentário seguinte não é considerado decente nem inteligente, mas a verdade é que Salgado, ao contrário dos outros arguidos, carrega o carácter ou a falta dele na própria cara.
Hoje pouco das poucas-vergonhas deste gangue me comove. A Operação Marquês quase nada me diz. Mas apesar de tudo, sou portuguesa e é a decisão de levar a julgamento um antigo Primeiro-Ministro de Portugal que está em causa. Por isso, fiz um esforço e fui ler notícias sobre o caso no jornal Observador e, como estudante liceal aplicada, faço o resumo comentado do que lá li, para não ser apanhada de surpresa amanhã quando os jornais divagarem sobre a decisão do juiz Ivo Rosa.
Sócrates está acusado de: 1. corrupção a) por benefício do Grupo Lena entre 2005 e 2011 (em co-autoria com Carlos Santos Silva); b) por benefício dos compradores do Vale do Lobo (em co-autoria com Armando Vara) c) por benefício de Ricardo Salgado na Portugal Telecom e GES; 2. branqueamento de capitais (em co–autoria com CSS); 3. falsificação de documentos (em co-autoria com CSS); 4. fraude fiscal (em co-autoria com CSS).
As defesas de Sócrates e CSS, de tão amigos são, invocam o mesmo tipo de vícios: os de forma. CSS invoca nulidade de prova e de recolha de prova. Em concreto, contesta a obtenção dos extractos bancários da CGD (transferências da mãe de Sócrates) e do BES (transferências de CSS) fora do âmbito do inquérito criminal. Sócrates invoca a viciação do sorteio do juiz de instrução. E com ela toda a prova carreada sob decisão do juiz Carlos Alexandre.
Já Zeinal Bava, qual sofista ambicioso, explica aos leigos que os milhões para si transferidos por Ricardo Salgado eram just business e todos os actos enquadrados e, adequadamente, justificados em figuras jurídicas caçadas à medida pela defesa. O resultado? O puro e virgem negócio de privatização da PT.
Presumo, assim, todos os movimentos a que o país assistiu, desde a derrota da OPA sobre a PT pela SONAE, passando pela venda da participação na Vivo à subscrição de títulos do GES foi tudo o normalíssimo curso dos negócios. Todos nós que vivemos esses episódios atónitos ao ver o país ruir às mãos deste gangue, somos pobres ingénuos, não percebendo nada da alta finança.
Por último, Ricardo Salgado, rato, não contestou formalmente a acusação, mas obviamente beneficiará caso da eventual absolvição por corrupção passiva de Sócrates, Zeinal Bava e Granadeiro ou da nulidade da prova ou prescrição dos crimes.