
14. Índia
O que marca os dias presentes na Índia, país de sistema de saúde frágil e índices de pobreza preocupantes, é a desgraça do descontrolo dos casos de Covid. Apesar disso, não é sobre esta calamidade que vou escrever no Espanador, mas de outra latente e que expõe as debilidades da dita democracia mais populosa do mundo.
Mais nova (quando viajar era uma prioridade) nunca me deixei tentar por destinos então muito na moda como Cuba e a Índia. Por motivos diferentes. Não fui a Cuba, apesar do apelo do glamour cinematográfico e da música, por me negar a veranear num bom hotel de um país pobre e sujeito à ditadura. Nunca tive particular vontade de visitar o esplendor histórico, cultural, arquitectónico e pictórico indiano por não conseguir fazer de conta que a pobreza extrema, a discriminação e o desrespeito pela mulher não são realidades gritantes num país que se diz democrático.
No estudo publicado, em 2018, pela Thomson Reuters Foundation - naturalmente contestado pelas autoridades indianas -, ouvidas cinco centenas de especialistas (académicos, legisladores, jornalistas, profissionais de saúde) em áreas que iam da discriminação à violência sexual, a Índia foi considerada como o pior país, entre 193 membros das Nações Unidas, em termos de tradições culturais, violência sexual e tráfico humano.
Apesar dos direitos de igualdade e liberdade das mulheres consagrados na Constituição indiana, o facto é que é perigoso ser mulher na Índia. A violação está enraizada e é justificada pela cultura indiana. As mulheres não se sentem seguras nem livres. Há registos estatísticos de crimes na Índia que mostram um aumento para o dobro - reflectem também o facto de começarem a ser contabilizados -, entre 2012 e 2016, dos crimes sexuais. Mais de 40% das vítimas femininas eram menores e mais de 90% conheciam os agressores. Além do flagelo dos crimes sexuais contra as mulheres, as tradições hindus - crenças e práticas -, aliadas à possibilidade actual de conhecer o sexo da criança durante a gravidez, têm conduzido à prática do aborto selectivo feminino.