Volto dentro de instantes. Até já.
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31/01/2024
Diário
A manhã teve pequena alteração ao rame-rame, uma hora fora do edifício onde trabalho há 21 anos, com interrupção de dois. Um simulacro de incêndio com evacuação. Já foram sendo feitos vários, mas por uma razão ou outra nunca me encontrava no local. Deram-se em horário de almoço ou férias, pelo que foi a primeira vez que participei num exercício destes com intervenção de bombeiros e equipas de evacuação. É útil para perceber as asneiras que fazemos e preparar-nos para uma eventualidade desagradável. Quem como eu já passou por um incêndio em casa sabe como é importante aprender a lidar com a situação.
Passando para a tarde, na qualidade de portuguesa não podia deixar de fazer mais um apontamento sobre o estado de saúde – não perguntes a um português como ele está, ele responde-te. Neste caso nem é preciso perguntar. Conto mesmo que não queiram saber. Já sei porque ontem me desejaram as melhoras. Hoje em mais uma conversa profissional, um senhor teve oportunidade logo no início do diálogo de me fazer notar que estava apanhada da garganta e com problemas de voz. Juro que ainda não tinha reparado, mas é verdade: falha-me a voz. Ando a fazer falsetes (será que as mulheres estão autorizadas a fazer falsetes?, ou é exclusivo masculino). Neste último mês e meio tenho estado cercada de gente com constipações e gripes de diverso tipo, mas nada me tocou senão espirros, o pingo e agora a falha na voz.
À noite fui à farmácia herdeira deixar mais uma batelada de pecúlio à conta dos nutrientes, como minerais, que deixei de absorver e por isso preciso repôr.
Ainda ao final da tarde enquanto trabalhava ouvi Barbra Streisand. Não ouvi o Memory do musical Cats – colada no post anterior -, mas não consigo dissociar a sua voz desta música. Mais nova e durante anos a fio tentava entoar a melodia que adorava como uma desalmada a desafinar estridente para gáudio dos meus sobrinhos então pequenitos. Não sei que raio de memórias invocava à época – a tia não é assim muito adulta retorquiu a minha sobrinha num almoço quando contava pelos dedos os adultos esquecendo-se de me incluir. Que felicidade era essa que queria recuperar? Não há nada como ser tonta e ter pouca vida para recordar. Ou então não, já havia muito a reaver. Outra que adorava, essa ainda na casa dos vinte era o Don't cry for me Argentina, para gozo do Nuno e meu amuo. Quando somos novos o épico atrai, vá-se lá saber porquê, e não são os enjoos opinativos dos expertos da música pouco dados a sinceridades que me impedem delas. Além disso não procurem nas Comezinhas intelectualizações e abstracções do meio em que vivo e do que me é caro, nomeadamente, família e amigos. Não consigo nem quero dissociar o que leio, oiço ou vejo dos elos que me atam à vida. Pensamentos e sentimentos depurados da própria biografia, assépticos, não são comigo. Preciso saber do que estou a falar em vez de perorar dando o ar indiferente e frio de sábia sofisticada.
Mais? Sei lá. O barulho da máquina da roupa a lavar os lençóis está a encanitar-me. Há dias em que nem me apercebo deste tipo de ruídos, noutros irritam-me, mas adiante. O que é bonito na sã convivência? O que se vai cedendo de nós e aspirando dos outros (a frase ficaria gramatical e literariamente mais bonita depurando-a ao “o que se vai cedendo e aspirando”, sucede que se dissesse desse modo, percentagem significativa dos poucos que me lêem interpretariam coisa diferente do que pretendo dizer e não devemos escrever para a forma e o efeito, mas para ser entendidos; não estou a menosprezar ninguém, antes pelo contrário, a tentar respeitar todos). Eu e tu. Nós e vós. E todos os eles que somos nós mesmos do outro lado do olhar ainda que muito avessos. Somos peças moldáveis ao longo da vida, como a plasticina. Bem sei que é preciso não dobrar a espinha, mas o corpo envolvente que é feito do nosso pensamento e sentimento vai-se fazendo e refazendo ao longo da vida, numa eterna e mais ou menos volúvel composição. Pensando assim é-me muito estranho pressentir o empedernimento das almas ainda que postiço. O que mais me ofende? Não confiarem em mim. É estúpido, sei. Ninguém tem a obrigação de confiar. Sobretudo se não conhece ou conhece mal. Mas não há como alterar este sentimento em mim. Sinto a desconfiança como uma dúvida acerca da minha honestidade. E não é que me tenha por mais honesta do que outros, é por me ter habituado a acreditar apesar das decepções e das pretensiosamente chamadas lições de vida. Fui educada a confiar e a aprender a respeitar os outros não desconfiando por mesquinhez e medição permanente de vantagens. É evidente que abro excepções e nem sempre confio, mas não inverto o ónus da prova. Além de mais, verifiquei de modo prosaico que quem muito desconfia, em regra, não é de confiança. Ofende-me o cálculo e a desconfiança sobre mim e genericamente acerca dos demais: não perdoo, tal é o tamanho da ofensa. Não é que ao longo da vida tenham desconfiado muito, mas não passou em claro cada afronta. E quando falo em confiar em mim e nos outros refiro-me não só em acreditar na seriedade e na falta de vontade de ludibriar ou tirar vantagem mas também em confiar nas competências, nas capacidades, nos talentos de cada um, não fazendo pré-julgamentos básicos, esses sim desonestos porque baseados em preconceitos e em tacticismos. Não é nada cristão não perdoar ou até será, afinal há aqui um conflito de valores entre o respeito que se deve ao outro e a capacidade de perdão. A que propósito veio isto? Ia escrever: não faço a mais pálida ideia. Mas seria só enfeite. Creio que sei de onde veio isto. Já o tinha pensado há muito, há anos. Porque saiu agora? Não sei. Deve ser efeito da psicoterapia feita neste divã chamado Comezinhas. Dá para tudo, este blogue.
30/01/2024
Barbra Streisand
Houve alturas em que este género de música me empolgava muitíssimo. Mais daqui a umas horas devo ter escrito qualquer coisa.
O diâmetro do folículo piloso
São quase dez horas da noite e finalmente abri a página em branco do dia. Para dizer o quê? Vou contar tintim por tintim o que me acontece nos últimos tempos: ao longo do dia, enquanto faço tarefas mecanizadas ou ando na rua ou espero, vou congeminando o que tenciono escrever. Sucede que quando chego a ter oportunidade de assentar os dedos nas teclas já passaram umas horas. Normalíssimo. Esta vida toca a todos: tratar do inadiável em primeira linha deixando o prazer para depois. Já diziam os meus mais velhos: primeiro a obrigação, depois a devoção.
E por falar em anciãos é por eles mesmos que começo a propósito da importância do sono. O trato com uma família grande ou aquilo que me chega do convívio dos meus mais próximos com a família alargada trouxe-me um manancial de historietas e ensinamentos vários. O tio G. lá das antípodas sempre foi dizendo que não toma decisões importantes sem ter dormido uma noite sobre o assunto, a prima N. naquela paciência de quem toda a vida esperou pela meia-noite para se deitar vai lembrando que quase tudo fica menos grave depois de uma noite de sono e a prima Q., no alto dos seus noventa anos habituados a outras teclas mais melódicas, bem sabe que os computadores têm manias e quando não funcionam é preciso pô-los a dormir para de manhã voltarem a trabalhar. Os mais velhos sempre me mostraram a importância de dormir, todavia para dizer a verdade por natureza conheci a regra logo na infância – desaprendi mais tarde. Contam-me que sempre que era contrariada nas bulhas com os meus irmãos – são três rapazes por isso estavam em vantagem para embirrar -, barafustava, chorava e ia dormir. Quando acordava voltava à carga como se nada fosse. Afinal não é para isso que serve dormir? Para dar a volta ao texto? Já dormir à noite a horas não era o meu forte. Aqui contei que fui noctívaga durante muitos anos, só aos 33 quando comecei a ter rotinas me habituei a horários mais regulares e saudáveis. E só depois dos quarenta quando comecei a tirar partido das rotinas comecei a acordar antes do despertador.
Por falar em rotinas outra ideia que me ocorreu hoje ao longo do dia foi a da identificação do ego com aquilo que fazemos profissionalmente. Como explicar? Por partes. Há muitos anos oiço os bruxos e psicólogos – já sabem que os equiparo – afirmar que não nos devemos identificar com aquilo que possuímos do ponto de vista material. Daí extravaso para aquilo que fazemos. Há uns anos tive de dar formação simples das minhas funções a um rapaz muito novo que estava em fase de experiência e entretanto esperava resposta de emprego noutra empresa – para onde acabou por ir. Ao fim da primeira semana depois de eu reduzir tudo pão, pão, queijo, queijo, ao mais simples que há, senti nele isto: ah? É isto que faz?, mas isto não tem nada do que saber, é sempre a mesma coisa – é evidente que não o disse, mas inferia-se das suas palavras. Além disso implicou com o monitor do computador – já explico depois este pormenor. Vamos por partes. Muitas pessoas sentem imensa necessidade de ter profissões que dêem ar de sofisticação, de complexidade – chamam-lhes desafiadoras, intelectualmente estimulantes, de responsabilidade. Uma série de etiquetas que servem sobretudo para valorizar egos precisados de causar impacto nos outros. Todos sofremos disso, fazemos equivaler a dignidade da profissão à consideração e estatuto que os outros nos dêem em função dela. Ora, seja qual for a profissão, todas poderão ter componentes mecanizadas, e isso não lhes retira dignidade. Se torcessem o nariz a tarefas rotineiras, quantos desdenhariam trabalhar como investigador científico ou bibliotecário? Por outro lado, o mais importante é a forma como cada um as desempenha, a seriedade – no sentido de competência – com que cumpre o que lhe foi incumbido. Talvez só tenha aprendido esta lição nos últimos anos, ao alcançar a paz comigo mesma que, como evidente, tem os seus reveses, mas em regra domina sobre a sensação tão desagradável noutras épocas de humilhação. E foi curioso ter visto o filme Dias Perfeitos, de Wim Wenders, há duas semanas. Muito a propósito. Mas porque me lembrei disso? Por hoje, segunda-feira, ter chegado ao escritório e verificado que fui premiada pelo informático da empresa com um monitor grande. Nunca reclamei do anterior, como fez o tal funcionário assim que entrou na empresa. É evidente que é isto é normal – imagino que o rapaz viesse habituado aos computadores xpto de jogos com cadeiras condizentes e monitores enormes. É evidente que a isto se chama sangue-novo. Mas não consigo evitar. O excesso de reivindicação do que não é essencial sem medir custos é prática destes tempos de consumismo e facilitismo das gerações que nasceram no slogan: porque eu mereço. Lamento, mas para merecer é preciso fazer por isso. E um dos erros crassos do país é premiar quem afirma que merece ou é recomendado antes de o demonstrar. Não estou a referir-me apenas a gente nova, antes pelo contrário. É mal que vem detrás, este do facilitismo. Há por aí muito caquéctico/a que viveu de mordomias sem ter demonstrado especial valor.
De resto o meu dia começou a receber uma mensagem WhatsApp com a curta-metragem de alunos da faculdade do curso de Artes e Cinema Digital de Viana do Castelo, que vi (e postei aqui no blogue) enquanto me dirigia para mais uma consulta. Tive a confirmação de que a falta de ferro quase roça a anemia. É uma questão de ter juízo e começar a tomar as ampolas. Até porque começa a notar-se no dia-a-dia. Ontem depois de quarenta minutos de puro prazer a nadar, seguido de almoço e de passeio no parque, quando cheguei ao Castelo do Queijo já nem força tive para chamar o Uber, metemo-nos mesmo num táxi que lá estava e exausta adormeci no curto percurso para casa. Hoje no autocarro uma senhora brasileira que tinha consigo um saco pesado de compras insistiu em dar-me o lugar. Fiquei a matutar se será do cabelo branco ou do ar cansado. À tarde num dos muitos telefonemas, outra senhora simpática desejou-me as melhoras. Ri-me e brincámos no gabinete. Lembrei de há uns anos largos me dizerem isso amiúde de manhã: as melhoras. E pensar: isto não tem remédio, de manhã tenho sempre sono. Mas teve remédio. A idade cura muita coisa. Pena trazer caruncho. Ao fim da tarde fui buscar o Nuno ao dentista e jantámos fora. Hoje não vai haver nem televisão nem outras distracções.
À hora de almoço exercitei abundante e convictamente o vernáculo. Por ter de alterar dia da encomenda no Continente online, baixar a aplicação do passe dos autocarros no telemóvel e carregar o meio de pagamento – ora já se sabe do meu jeito especial para os aparelhos electrónicos. E não contem a ninguém, mas perdi mais uma vez o passe – nos últimos dois anos creio que o perdi três ou quatro vezes. Farta disto resolvi começar a usar aplicação na expectativa de não perder o telemóvel, que seria um rombo bastante maior.
E pronto, foi mais um post narciso acerca do diâmetro do folículo piloso do dedão do pé. O primeiro com este título apesar das Comezinhas estarem pejadas deles - quem sabe o título não veio para ficar. Isto diverte-me. É uma maçada conversar com os meus botões. Sofro tanto.
29/01/2024
Ponto de situação
Dia longo e intenso. Se me conseguir decidir se durma se fique acordada, talvez haja post daqui a um par de horas.
28/01/2024
Semanário
Os dias da semana passada foram mais movimentados do que habitual aqui no blogue como previra ao escrever que há diferença entre publicar antes ou depois da meia-noite. Gosto de variar. Foi uma semana mais popular das Comezinhas, o que não quer dizer que não voltem à concha - à discrição. E não se trata de estratégia ou justificação, é o que sinto. Sempre fui de ondas e apesar da idade trazer uma certa estabilidade, nunca me afastarei da inconstância.
Vi mais um episódio do Mundo à Vista na Escócia e fiquei com aquela sensação de intimidade com uma parte do mundo que desconheço. Como explicar? Ao aproximar-se das preocupações e interesses dos habitantes de cada lugar que visita a autora do programa consegue humanizar a viagem. Há uma espécie de vizinhança entre a estadia em Miranda do Douro e a visita a uma ilha perdida nas terras frias da Escócia.
Esta semana o P. amigo e veterinário do Ritz veio vaciná-lo. Conversa sempre boa de pessoa inteligente, com trocas de impressões sobre aspectos profissionais. Contei-lhe que ao contrário de outros tempos em que os dias de trabalho eram martirizantes face à convivência com pessoas tacanhas, actualmente vivo em regra a serenidade boa numa relação harmonizada com os colegas. Ele contou um episódio delicioso de uma senhora que lhe havia pedido para matar uma carpa e face à sugestão evidente para tirar o peixe da água retorquiu se não era possível cortar-lhe a cabeça. Em todas as profissões estamos sujeitos ao absurdo.
Além dos vídeos do YouTube, que aqui relatei, li uma crítica literária de que gostei muito – é bonito perceber a forma como as pessoas se entregam e vibram com as leituras. É uma forma de conhecer dois mundos: o da obra/autor e também o do crítico. E ontem dei por mim, a propósito de eventuais batotas de "conhecermos" a literatura através das recensões, a rir com a oferta de resumos de A Arte da Guerra, de Sun Tzu. Antes não tivesse rido. Poderia isso sim começar a zombar de mim própria pela confusão que fiz ontem, aqui patente hoje no penúltimo post, entre O Livro de Shang Yang (este sim, li e aqui publiquei fotografias em 2020, e é acerca de administração e reforma política - e o tratado da mesma época, A Arte da Guerra, de Sun Tzu, de estratégia militar. Enfim, vivendo e aprendendo. Bem espremido, o que me apetece dizer? Não terei tempo para ler a ínfima parte do desejável, pelo que não me faz espécie alguma que a par das leituras das obras, leia ou veja vídeos com críticas quer aos que li ou vou ler, quer aos que não vou ler. E se é possível fazer confusões como a que fiz apesar de ter lido, o que se passará quando só se sabe de ouvir dizer.
Não tenho visto os jornais televisivos com grande atenção e nos últimos dias li pouco mais do que as gordas. Para ser muito directa quanto à vida política portuguesa no fundo tudo se reduz a uma ideia de que somos (os fartos disto) acusados: desprezar os partidos ditos moderados – o centrão PS e PSD – é dar margem para o crescimento do Chega. Hoje ouvi de passagem Francisco Assis diagnosticar a táctica da extrema-direita: reduzir a história da democracia a uma história de fracasso. Tem razão, isso é feito. Mas não só pela extrema-direita. É feito pelo senso comum da rua e isso dá votos (aumentar os salários e as regalias da função pública também). Ventura corre atrás do que pulsa a rua para a alimentar. Quanto à ideia de cima, desculpem-me o uso do português popular, mas lá dizem os portugueses que quanto mais te agachas mais se vê o cu, isto é, há uma fatia da população (ainda não muito significativa, caso contrário o PS não teria tido maioria absoluta em 2022) cada vez mais farta do centrão e Ventura, que é antes de tudo um oportunista, limita-se a cavalgar a onda. O mal está em Ventura ou nas razões prévias para o descrédito? Já me cansa dizer o mesmo há anos e bem sei que não se pode dissociar isto dos ventos que vem lá de fora, mas é perfeitamente legítimo que os portugueses, apesar da Democracia não ser um fracasso, lhe vejam os podres e não perdoem. Quanto à ilusão do fracasso, pese embora as críticas que podem ser feitas aos sucessivos governos, as ladainhas da pobreza nascem nos jornais que ecoam e promovem a mentalidade queixosa e trapaceira dos portugueses - a cada momento e quando dá jeito abstraem na melhoria significativa das condições de vida nos últimos cinquenta anos. Dito isto, não há que haver paninhos quentes noutros planos. A título de exemplo: a corrupção não é invenção, a falta de equidade na distribuição da riqueza e no acesso às benesses do Estado não é invenção, o peso excessivo e o encosto no Estado não é invenção. Enquanto os ditos moderados continuarem a não dar o braço a torcer, rindo do sarcasmo das peças de humor e escárnio dos jornalistas que substituíram as notícias, e enquanto os destinos do país estiverem à mercê dos casos de Justiça, Ventura esfregará as mãos e engordará.
Entretanto deixo fotografias do passeio habitual ao Parque da Cidade tiradas hoje ao início da tarde. Ao contrário do costume desci pelo caminho do lado esquerdo. Vi várias pegas. Primeiro uma sozinha saltitante, depois duas esvoançantes e no fim quatro inquietas. E hoje para variar ponho as fotografias por ordem cronológica inversa.
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Volto já
Lá para o fim da tarde devo vir aqui espetar qualquer coisa na janela. Talvez um relatório da semana, ou talvez umas páginas de A Arte da Guerra, que já aqui afixei em 2020, e a cuja leitura regressei ontem, a propósito dos Titãs de Montefiore - isto está tudo engatado. Convém fazer intervalos dos astros. Não sei, para já conto que já nadei e daqui a nada comerei sopa de legumes e uma fatia de pizza que sobrou do jantar de ontem. Depois vou ao Parque da Cidade, ver se ainda aproveito o sol de hoje. Até já - gosto de falar comigo; diverte-me.
27/01/2024
A geometria e outras disciplinas que tais
Hoje na qualidade de Xerazade de trazer por casa estás virada para o resumo e relutante em estenderes-te por assuntos que te são difíceis compreender. Vais abreviar. No post de ontem contaste que Eratóstenes mediu há mais de 2000 anos a inclinação da luz do sol ao meio-dia do Solstício de Verão em Siena e Alexandria e fez a experiência usando a distância entre estas duas cidades. Como a Terra tem curvatura – não é plana - a diferença entre os ângulos vai estar para 360° (volta inteira à Terra) tal como a distância em quilómetros entre as cidades está para a circunferência da Terra. Aplicando a regra dos três simples, divide-se os 360° pela diferença entre os ângulos da sombra nas duas cidades, multiplica-se pela distância e encontra-se o valor real da circunferência da Terra, que se sabe hoje ser de 40.075 quilómetros e à época foi calculada em 40.160, ou seja, uma medida muito aproximada.
Sabendo o tamanho da Terra é fácil calcular o tamanho e a distância para a Lua e o Sol. Através dos eclipses e das fases da Lua. Num eclipse lunar – no qual a sombra da Terra corresponde à circunferência da Lua - fica-se a saber que a Lua é ¼ da Terra e qual a distância entre as duas. No quarto crescente ou minguante – em que está metade iluminada pelo Sol e está a 90° da Terra, pode-se apurar a distância em graus entre a Lua e o Sol, e sabendo que a soma de um triângulo é sempre 180º, fica-se a saber os ângulos entre os três vértices – Sol, Lua e Terra. O que permite calcular a distância entre os três.
Para os que têm a mesma dificuldade que tu em entender coisas simples como esta, usas o exemplo do radar nas auto-estradas, a velocidade é calculada a partir de duas fotografias em pontos diferentes e a diferença de tempo em percorrer a distância.
Apesar desta simplificação não ficaste a perceber inteiramente o que acabaste de escrever mais acima, pelo que voltarás à carga mais tarde. Não dirás amanhã para não te comprometeres com promessas que dão cabo da tua disposição. Detestas falhar. E isto é apenas consequência de um punhado de páginas de um livro de um astrónomo. Talvez se perceba assim porque lês poucos livros: demoras eternidades a deglutir cada página e precisas de ajuda extra para exemplificar as abstracções. E estas páginas que leste há poucos dias ainda têm muito sumo para espremer.
Como nota final referes apenas que devias ter aprendido isto no liceu, mas não recordas tê-lo feito. Foste boa aluna a matemática até aos 12 anos e a partir daí, como a entrada na rebeldia da adolescência foi o caos – nos 13/14 anos sofreste de estupidez galopante, só tendo recuperado algum juízo a partir do 10º ano, mas há época entre esse ano e o 12º não era obrigatória a disciplina de matemática. Resumindo: chegaste a adulta sem entender regras básicas da matemática e da geometria. Tu e muitos compatriotas, talvez a maioria.
Ainda as pedras
A primeira compra no Aliexpress. Pulseiras Sodalita Azul e Ametista para mim (para juntar à howlite e quarzto rosa que me deram) e uma pedra Aventurina Verde para o escritório do Nuno. Esta felicidade - a ser trazida pelas três peças - custou 12.80 euros.
Com toda esta toléria não pude deixar de me lembrar das pulseiras milagrosas Tucson. E do quanto me ri e ridicularizei todo este mundo de crenças.
Sim. Trata-se de terapias fajutas com alegado fundamento na "ciência", mas que querem? Diverte-me, gosto. E cada um é livre de ocupar o tempo e gastar (pouco) dinheiro com o que quer.
Pergunto-me: quantos disparates tidos por certezas das "ciências" são consumidas como verdades absolutas, sem que ninguém as questione? Os mesmos que enchem os jornais e revistas a denunciar estas e outras terapias, mostram devoção absoluta por conclusões de estudos "científicos" cada dia mais questionáveis e estapafúrdios. E tão alicerçados em negócios rentáveis quanto as terapias esotéricas.
Almoço
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Almoço neste Sábado. De resto e no momento: sono, cansaço e impaciência resultantes de uma semana intensa. Esta tarde descansarei. A Xerazade de trazer por casa só voltará quando tiver cabeça para isso. Gostava de fazer um resumo da semana e mais outras mil coisas, mas por agora vou mesmo dormir. Pode ser que daqui a umas horas tudo seja diferente.
26/01/2024
Mexerufada de calo de vida, pilha-galinhas e Eratóstenes
Tantas vezes aqui passaste a ideia que te é cara de não gostares de relativizar o bem e o mal, o amor e o ódio, o verdadeiro e o falso e por isso mesmo talvez se fique com a ideia de excessos de rigor ou puritanismo. Não sabes, talvez passes essa imagem, talvez não. Mas vem isto a propósito de outra ideia associada: o calo de vida. Será muito difícil a quem não amou ou odiou compreender o amor e o ódio. Será muito estranho a quem não foi desamado perceber o que é o desamor. E a quem não traiu ou foi traído saber o que é a traição. Quão esquisito parecerá a quem não enfrentou nenhuma tragédia na vida compreender como o ser humano integra e normaliza todas as experiências até as mais drásticas? Que saberá do desprezo quem nunca foi desprezado ou desprezou? Tão estapafúrdio parecerá a quem vive com pouco a ambição de um milionário deslumbrado pelo luxo. Ou a este compreender o prazer das pantufas forradas a pêlo compradas numa loja chinesa ou um copo de três na taberna? Que saberá do roubo quem nunca foi roubado ou roubou? E da sensação de enterrar os pés no lodo do rio, antes da liberdade de nadar? E quem nunca enganou ou foi enganado de forma drástica, como entenderá as consequências da mentira e trapaça? O que saberá da dádiva sem contrapartida o oportunista? Ou o ingénuo do ardil? E por aí adiante. Há coisas que não se aprendem de ouvir dizer, do senso comum da rua, dos livros ou das conversas de circunstância. Ou se vivem, ou se sentem ou não. Falarão de cor. E escreverão linhas e livros de cor sem conhecerem as cambiantes do pensamento e da emoção. Os aventureiros e os poetas que o são conhecem o mundo por vivê-lo e por senti-lo, não por discorrerem acerca dele. Não há grande espaço aqui para cobardias, encolhimentos de emoções e razões. Ou se vive, ou não, ou se sente ou não. Ou se é, ou não é. Não há enredos e intrigas, não há histórias que perdurem do nada. Não se cria razão e emoção do nada por imitação, por ouvir dizer.
E agora que já riscaste os pilha-galinhas, passas directa a Eratóstenes para partilhares o que o Nuno te contou ao almoço. Bom, vais acrescentar uns picos porque consultaste o senhor Google. E recordas que isto vem tudo a propósito de um dos teus passatempos – há dois anos andavas virada para as tílias, agora para isto, não que tenhas tido benefícios com as entradas para as tílias, nem que os vás ter com este projecto, mas a tua vida faz-se assim: de curiosidade e puro gozo. O objectivo agora é compreenderes os fundamentos ou a inexistência deles da astrologia, que é uma matéria que aprecias. Se preciso fosse recuarias até Adão e Eva, todavia vais apenas até ao helenismo. Repare-se o que fazes para pores em causa aquilo de que gostas, e imagine-se o que serias capaz, se para aí estivesses virada, de fazer com o que não gostas. Voltando ao sumo: já depois de Pitágoras, o qual havia postulado que a Terra é esférica, viveu um senhor de origem africana – nascido ali da zona onde agora é a Líbia (vais tentar contar a história sem voltar a consultar a Internet) que sabia umas coisas de várias disciplinas – entre elas matemática, geografia e astronomia e foi director da Biblioteca de Alexandria, tendo encontrado por lá uns papéis – essas coisas que não convém perder por fazerem falta -, que diziam que em Siena, no Egipto, era possível ver o sol no fundo do poço ao meio-dia do dia Solstício de Verão, isto é, o sol ficava perfeitamente perpendicular ao solo não fazendo sombra. Ora, como este senhor tinha lampejos de inteligência lembrou-se de medir a inclinação da luz do sol noutra localidade e em seguida apurar a distância entre um lugar e outro. Contratou quem calcorreasse a distância a passo regular entre Alexandria e Siena e…
(as Mil e Uma Noites da Xerazade continuam amanhã… estou cansadita e amanhã também é dia.)
25/01/2024
Chegar a casa
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A Lua Cheia à chegada a casa. Ainda hei-de ter um telemóvel com câmara que capte bem a lua.
Ponto de situação
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A pipocar desde manhã. Agora sossegou e vou concentrar-me no trabalho quatro ou cinco horas e pode ser que à noite saia qualquer coisa do que congeminei:
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1. A experiência da vida, o senso comum e a ligeireza nos julgamentos. 2. Riscar comentário acerca de pilha-galinhas por excesso de repetição. 3. A ausência de sombra no poço no solstício de Verão de Eratóstenes.
É como na farmácia: há de tudo.
Agenda
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Já conhecem o mecanismo das agendas ilustradas com o cérebro azul fluorescente: na melhor das hipóteses, registar os pensamentos para desenvolver em postais futuros, na pior, pouco mais do que nomear as ideias que, tal como as pombinhas, ficam para quem as apanhar.
Queria fazer dois registos mas esqueci o primeiro. Nada que não seja costume. Vamos directos para o segundo que também não defini bem – brilhante: ou não me lembro ou não sei bem o que vou dizer. Eis uma bela amostra das Comezinhas.
Ora o segundo tópico seria para distinguir dois géneros de pessoas, de modo de estar ou de fabricar. Há gente que sabe muito por ter vidas ricas em experiências, conversas, leituras, viagens e ainda assim tudo isto se passe de um modo muito superficial do ponto de vista da criação. Se na conversa ou leitura interessa o enredo, o destino das personagens, as ilações mundanas ou morais, pouco se (passo de modo rápido e repetido a polpa do polegar sobre as polpas dos dedos médios e indicador à procura da palavra – fogem-me, as malfadadas) extrai, é isso, pouco se extrai de grande valia. Como explicar? É o tal fazer sala. Se alguém conta as peripécias de uma viagem profissional ou uma reunião política, desportiva ou intelectual como um gague, isso entretém. Disseminadas essas historietas fazem escola e de cola nas tribos ou seitas que tantas vezes aqui falei, mas não são mais do que isso para quem está de fora: distracções. Há vidas cheias disso e há quem considere as vidas pejadas de entretenimento grandes vultos e quem mais interessa em sociedade. Enfim. Entretém. Se virmos bem há aqui um mecanismo de mimetização da cola da vida de famílias privilegiadas – aliás, de uma qualquer família, já que o modo de coesão é o mesmo -, nas quais as pequenas graças, memórias divertidas ou críticas, reparos, bengalas linguísticas sedimentam a união do clã.
Ao fazerem crescer o hiato na compreensão desta cola para segregar o comum mortal entre os compatriotas criam uma sociedade desdenhosa e potenciadora da inveja. Por uma razão maior? Por questão de valor ou mérito? Para premiar os mais preparados e quem pelas suas especiais qualidades pode ajudar o país, nomeadamente na governação, na política e na administração económica e cultural? Não, apenas por distracção ou passatempo de clã. Por divertir gente que se tem por civilizada.
O segundo tipo de pessoas, menos comum e com origem nas mais diversas castas, possui um grau de comprometimento consigo, com os outros e a vida mais profundo. Podem ter uma vida aparentemente rica ou não, mais ou menos conversada, mais ou menos lida e viajada, mas aquilo que extraem de si e transportam como dádiva é bastante menos superficial. Talvez por terem aprendido a examinar-se a si, aos outros e ao mundo minuciosa e livremente não do ponto de vista do enredo ou intriga, mas dos sentidos, dos sentimentos e das razões – do conhecimento intrínseco a cada indivíduo, momento ou circunstância. Talvez por outras razões. Ui, isto era agenda. Páro já por aqui - não faz sentido desenvolver em regime de agenda.
O primeiro tópico, lembro agora, era sobre o desconhecimento generalizado das noções mais básicas de matemática, geometria e astronomia e tanta coisa mais em gente que se tem por muito iluminada e capaz de se assumir como sumidade. Não é que saiba alguma coisa do assunto, mas ao menos tenho consciência da minha profunda burrice. Resumindo, ainda não voltei a ler para poder escrever, mas ia adiantar que (o quê, céus?). Bom é melhor ficar por aqui: varreu-se-me. Ai se as senhoras pregadinhas, arrumadinhas das blusas e das ideias muito esterlicadas passam por aqui, o que vai ser de mim? Dá-lhes um chelique com tanta desorganização e desalinho nesta casa. Uma maçada. Sofro tanto.
24/01/2024
Continuando a abreviar
O que fiz hoje de útil, além do óbvio? Ouvi um vídeo acerca de um romance já lido de autora portuguesa que prezo muito. Ouvi outro YouTube sobre um livro de contos que já li de escritor norte-americano. Vi e ouvi falar de um ensaio acerca de Espanha e a América Latina numa perspectiva histórica de autor mexicano que ainda não li. Porque não dizer os nomes nem o conteúdo? Continua a apetecer-me fazer caixinha. Para ser diferente? Não. Para não fazer igual ao que já existe. Para depurar o que me dá prazer do que me cansa – não é que os outros não devam fazer; acho óptimo, aprendo imenso, mas fazer o mesmo daria muito trabalho e aborrecer-me-ia de morte. Além de mais estes autores já morreram. É deixá-los sossegados, não gastando o nome. Sorrindo. Assisti ainda a outro vídeo a abordar uma selecção de autores e obras da literatura portuguesa, pouco mais do que nomeando. Uma nota interessante: o autor dos vídeos é um homem novo brasileiro. Bem preciso era que por cá houvesse quem saísse dos pedestais da pseudo-intelectualidade enfadonha e falasse de literatura sem manias de superioridade e referências interesseiras "entre pares". Isso sim induziria o alargamento do número de leitores. Insultar os portugueses de ignorantes não ajuda peva ao incremento dos hábitos de leitura, serve apenas para medir pilinhas e coninhas vaidosas das leituras, muito precisadas de afirmação entre amigos e fãs palermas. Plateias de intrujões que dizem ler e se percebe pelas intervenções lerem muito pouco ou até lerem alguma coisa, porém sem compreenderem o conteúdo. E porque não digo o nome do canal com que me entretive hoje? Por não apreciar cair nas redes de referência. Acabámos todos a ver o mesmo e lá se vai a independência e o percurso único de cada um para o brejo.
No fim do périplo pelo YouTube voltei à astronomia para o Nuno me explicar umas noções básicas de matemática e geometria. Parei logo ao fim de vinte minutos para não me baralhar toda. Nos próximos dias leio mais uma página para acrescentar um postal com tudo reduzido ao simples e ao que sou capaz de compreender. Odeio a sensação de cair no erro crasso de escrever o que não entendo. Ou melhor, até posso ter dúvidas, mas saberei ao menos colocar a questão. Agora debitar por debitar, não.
Escorripichado o que rendeu o passeio pelos vídeos de hoje? Muito, entre outras a ideia que comungo de que lendo alguns autores portugueses menos cosmopolitas na aparência, mais ligados às raízes, aprendemos bastante acerca do nosso idioma, reconhecendo e preservando as tais palavras que as últimas gerações parecem ter vergonha de usar com o domínio da linguagem enfadonha-ó-pretensiosa dos media e páginas lifestyle. Dão menos azo a citações supostamente eruditas a propósito da má-língua da actualidade política, social e cultural, mas têm muito mais sumo. O papel do subentendido na literatura e o espaço que deve existir, por contraste, para o declarado. O appeal para as mulheres da coragem num homem. O balanço positivo da romanização da Península Ibérica. Umas luzes de raspão sobre o impacto nos impérios índios das investidas hispânicas. E tanto mais sobre o que ler mais tarde.
Compreenderão porque leio efectivamente - essa palavra horrorosa que os eruditos pedantes odeiam – poucos livros? Se lesse mais teria de espetar uma agulha na testa para fazer um furo e esvaziar. Cada processador de miolos sabe o que aguenta.
23/01/2024
Breves apontamentos pela manhã
Esqueci-me de pôr as pulseiras de pedras howlite e quartzo rosa que recebi de presente Sábado – sei, não uso pulseiras habitualmente, mas a vida vai mudando -, ainda assim talvez por ter descido até ao local de trabalho a ouvir Michael Bolton consegui cortar com razoável acerto o papel do rolo da cozinha da empresa. Quando não tem picotado costumo enviusá-lo todo, ficando sempre chateada comigo por não ser capaz de ter paciência e destreza para o fazer de modo correcto. Hoje saiu direitinho e pude pousar o pão de abóbora e noz do pequeno-almoço numa folha de papel harmoniosa. Segundo as bruxarias - é com meiguice que digo isto -, deram-me a howlite para serenar o cérebro, diminuir a irritabilidade e equilibrar as emoções e o quartzo rosa para trabalhar o amor-próprio, criar melhor relação comigo própria e com os outros - para aceitar melhor. Do que andei a ler reparei que ambas contribuem para baixar a bolinha, isto é, para situar o ego. E sorri. No primeiro dia que usei – Domingo – passei parte substancial do dia a barafustar. Comentei no trabalho, diz-me um colega: foi a purga. E rimos.
Hoje o dia começou bem, mas esqueci-me das pulseiras. Logo à tarde já as trago.
22/01/2024
Diário
Hoje o diário será abreviadíssimo.
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Relato apenas que mais uma vez fomos visitados por três pegas - avisaram-me os colegas. Quando me aproximei da janela já só avistei uma. Em casa jantámos macarrão grande com cogumelos e linguiça espanhola (made in El Corte Inglés, a linguiça) com almôndegas. O Ritz fez levantamento de rancho quando pus na gamela os últimos grãos do saco de ração seca de salmão que findou hoje. Olhou para a parca quantidade e virado para mim abriu as goelas, miou zangado e abandonou o recinto em protesto. Só voltou quando abri o saco novo de ração de carne de vaca - o bigodes começa a ter manias e a refinar. De resto foi um dia muito cheio, mas daria muito trabalho contar.
Contrastes
Por ter sido visitado ontem, ia fazer uma entrada habitual de "O post aberto ontem" com o Mercado da Alegria que aqui publiquei em Julho de 2020. Entretanto um colega de trabalho falou-me das Carquejeiras. Procurei e encontrei o documentário Carquejeiras - As Escravas do Porto da RTP de Abril de 2020. Resolvi então deixar as ligações para estes dois apontamentos contrastantes da vida portuense: do trabalho pesado do século XX e do pacato e feliz passeio domingueiro do século XXI.
Boa semana.
21/01/2024
Limpezas
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Fim de tarde de limpezas. Momento para tirar lixo do meu dia-a-dia, não só físico como também e sobretudo online. Afastar e ignorar tudo quanto não presta. Poderá dar um pouco de trabalho, como tirar o cotão debaixo das gavetas da cama, mas nada como a decisão de melhorar a vida tornando o ar mais respirável. Já o devia ter feito há muito. É o que dá procrastinar. Perde-se tempo com o que não tem valor.
Entretanto oiço políticos na televisão a perorar acerca de tudo quanto foi dito, debatido e rebatido nos últimos anos. O país pode não sentir, a mim soa tudo a requentado - a dèjá vu. Muita excitação, muito teatro de todos os flancos, em palavras escolhidas para atrair. E o que penso? O que está à superfície - no discurso, no debate - nada tem a ver com o mundo real cada vez mais convenientemente escondido dos ecrãs de televisão e dos computadores entregues ao folclore mediático, aos interesses partidários, corporativos e de grupos de interesse económico, social e cultural ou mesmo a meros caprichos de egos com voz audível a que passaram a chamar realidade - um mundo fictício paralelo vinga. Quando chegarem a ver a realidade de hoje já o mundo terá outra configuração - nunca o vêem em tempo real, limitam-se a debitar conclusões do que já foi como se dessem lições de História - correndo atrás do prejuízo como dizem os jornalistas desportivos. Nunca chegam a tempo e desprezam os que antecipam ou vivem em tempo real - chamam-lhes lunáticos, incompetentes, falsos moralistas, tudo serve para insultar. A fórmula mágica de manter o mundo sempre nas mãos de quem não presta e afastar do poder quem podia fazer melhor.
A visão do inferno
Perdoem-me a fulanização, mas hoje vai disto. É provável que daqui a um ano tenhamos Donald Trump na presidência dos Estados Unidos, guerra alargada com a Rússia provocada pelo facínora Putin, numa primeira fase no norte da Europa, com a intervenção da NATO e o patético Pedro Nuno Santos à frente do Governo de Portugal. Se não for ele, pontuará Luís Montenegro e aí teríamos a oportunidade de ver essa coisa que dá pelo nome de Hugo Soares a definir políticas do país. Até arrepia a alternativa. E os espernéficos da ala mais à direita da Aliança Democrática. Venha o diabo e escolha. Em que votar? Nulo novamente, não me resta alternativa. Enquanto insultarem a inteligência e dignidade dos portugueses, não vejo razão para dar o meu voto. Bem sei que já aqui defendi que deveríamos escolher o menos mau. Convenhamos que é cada vez mais difícil encontrar o menos mau, tanto mais que são afastados pelos "fazedores de opinião" de sucesso.
Com que se entretém os vips dos jornais, blogues e redes sociais? A envenenar por ódios pessoais e incapacidade de largar os velhos hábitos de pilhagem e de bullying próprios de ganapos do liceu, com o ar mais angelical possível, sempre como se fossem impolutos e estivessem a denunciar amoralidades na política. Sempre blindados do jogo baixo dos factos seleccionados a dedo e na argumentação viciada e dissimulada a que chamam debate de ideias democrático. Habituados que estão a audiências incapazes de juízo crítico e que por isso engolem e replicam todas as patacoadas. Assim perpectuam o encosto nos grupelhos e na peçonha da intriga política.
Há anos havia um programa pateta na televisão com uma rábula que acabava com o naufrago a dizer face à realidade que encontrava quando era salvo: tirem-me daqui, quero voltar para a ilha. É isso que sinto. Quando olho em volta só me apetece voltar para a ilha. À falta da possibilidade de viver sem ter que levar com o constante sucesso e crescendo da estupidez alheia - responderei com sucessivos textos de vulgaridades e apontamentos narcísicos. Sempre tenho de me distrair com coisas menos absurdas. Face à canalhice com que me deparo constantemente creio que chegarei a ter oportunidade de fazer postais acerca do diâmetro dos folículos da penugem do dedão do pé - a minha ilha. Já esteve mais longe.
Bom Domingo.
Cavalgadura
Há gente que opta por ser cavalgadura até morrer. Em definitivo: é mantê-los longe. Vivem de envenenar tudo quanto tem valor para enaltecer as matilhas que sustentam a desonestidade. Envelhecem e morrem no próprio visco.
Adeus.
20/01/2024
David Sobral
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Em Novembro último escrevi aqui acerca da necessidade de noções de matemática e geometria - e conhecimentos básicos de astronomia - para compreender as razões ou falta delas da astrologia. Hoje peguei neste livro, que a minha mãe está a ler ao Nuno aos sábados, e li apenas um capítulo - o segundo. O que já foi produtivo. Antes de mais por ajudar a perceber como se calcula a dimensão dos planetas, distâncias e movimentos. E por a astronomia explicar que o movimento das estrelas não é cíclico - antes irreversível se perspectivado a longo prazo -, pondo em causa a base da astrologia.
Isto impede que continue a interessar-me por astrologia? Claro que não. Mas já sei mais qualquer coisa.
Sábado
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Trabalho há anos perto de vários centros comerciais com lojas e botecos da moda. É raro usufruir deles. Hoje passei a tarde junto do local de trabalho e tomei chá frio no BonBon Cha. Escolhi de pêssego com bolinha de explosão de sabor a maracujá. A T. preferiu o de Lichia. Gostei de continuar a conversa de sempre de velhas amigas, desta vez com direito a troca de pedras e forma de silicone para a air fryer.
Diário
Ai a minha vida. Emaranho-me em problemas graves com muita facilidade. Agora é este: não sei por onde começar o texto. O drama, a tragédia. Podia iniciar pela letra da música que acabei de ouvir na smooth fm mas gostei tanto que já esqueci: qualquer coisa, sou da sanzala, sou da mistura. Soa-me muito bem para começo de conversa. Antes outra em inglês acusava uma ela de não compreender o amor. É, elas são tramadas. Umas malvadas e eles coitados, uns indefesos de sentimentos muito puros. Também podia ir por aí. Ou então dizer que já servi o whisky há quase meia hora e ainda não o comecei a beber. As duas pedras de gelo já devem ter derretido. Vou esticar o braço para trás, pegar o copo, olhar, dar um gole e pousá-lo no chão. Digam-me lá como sobreviviam sem estas informações relevantes sobre o rolar deste universo narcísico? É, já dissolveu e ainda assim está intenso, este JB 15 anos. Dois dedos costumam durar a noite toda, como há 25 anos durava a vodka limão. Preferia Vinho do Porto, mas acabou na semana passada. Já mandamos vir mais para as nossas noites de fim-de-semana.
Ora vejamos o que vai ser isto? Um diário, então vou ali ao cimo da página pôr o título: diário. Mas hoje vai ser comprido. Ó se vai. Isto se me acorrerem os tópicos acerca dos quais digo as patacoadas habituais com que me divirto comigo própria em primeira linha e com outros se acaso aparecerem. Estranho, há quem veja aqui mais tristeza do que alegria. É o que dá não compreender as coisas simples da vida, nem ser capaz - de tanto procurar sentidos profundos para a vida - de sentir felicidade no comezinho.
Se começar pela manhã posso contar quão fonas sou. Ontem reparei que em cima do estafermo – único móvel que trouxe de Valinhas e que é o meu reduto de gavetas da memória do paraíso – estava um frasco vazio de sabonete líquido dos que costumo ter nos lavatórios. Vazio não, quase. E essa é a questão. Odeio deitar fora frascos, tubos e tudo mais ainda por escorripichar. Peguei nele e despejei o máximo possível no que estava a uso no lavatório e levei o resto para o chuveiro. Como faço com os restos de champô, juntei água. Usei-o em substituição do gel de banho. Diz o Nuno: assim ainda enriquecemos. Devagarinho, mas enriquecemos. Ele goza porque é o dissipador do património da família. Bem sabe que quando resolve que é hora de deitar fora o tubo de pasta de dentes dele, o passo para mim aproveitando-o mais duas semanas. Ora, já conto dez linhas acerca de sabonete líquido e pasta dos dentes e digam-me lá se não sou boa candidata ao Pulitzer? Pena que tenha de confirmar na Wikipédia como se escreve o nome do prémio – mas esse será o próximo passo: atribuir prémios literários, musicais e que tais a quem não sabe escrever nem compor. Modéstia à parte considero-me muito bem colocada. Diria mesmo na pole position. E ainda há quem ria disto e me imagine uma tresloucada sonhadora daquelas que o cinema intelectual-chato-comercial desenha tontinhas e imbecis, perfeitamente deslocadas da realidade até encontrarem seres iluminados que as encaminham rumo ao estrelato segundo passos sólidos e sensatos. Êh. Como dizer? O sujeito do desfasamento da realidade destas historietas está mal identificado. Apontaria mais para o alheamento do argumentista e menos para o da personagem.
Mais a registar no dia? Ah, ainda não contei tudo de ontem. Bem sei que se preocupam comigo e gostam de fazer como os mais-do-que-tudo zelosos, perguntando à chegada a casa: como te correu o dia? Ontem, mal. Parte do dia e não só pelas razões apontadas no anterior diário, mas também por receber a conta da EDP. Fiquei de trombas por uns bons momentos, pois claro. Essas coisas indispõem muito. Ainda que acrescida apenas este mês com os encargos com o acesso à rede – é tudo a somar – pelo consumo aumentou muito. Mais um tombo. E se há coisa que sei bem é como é duro o mês de Janeiro em matéria financeira. Resumindo. Desliguei de imediato o segundo aquecedor a óleo e guardei-o no +1 debaixo da secretária para não me tentar novamente. Curiosamente à noite apanhei o Ritz, condicionado como os cães de Pavlov, deitado em frente ao aquecedor desligado. Por ter passado no último mês muitas horas na cadeira do canto da sala junto ao dito – fiz-lhe ninho lá, com uma mantinha e era o sítio onde mais horas passava nos últimos tempos.
Por falar em bichos na noite passada tive um sonho extraordinariamente simbólico. Andava a passarinhar pela marginal ribeirinha lisboeta com os meus e pousou-me um passarinho verde no ombro. Como é costume sempre que tenho sonhos simbólicos passo do cenário inicial para Valinhas. Neste caso o cuidado com o pássaro verde, que era muito meigo e dava-me bicadinhas na cara e orelha, transferiu-se para uma cadela que andava por Valinhas e não estava bem de saúde. Ao acordar vi o significado de pássaro verde no ombro e é bom. O da cadela doente imagino que nem por isso. Amanhã estudo melhor as bruxarias. Para já compreendi durante o dia que esta coisa das bruxarias pega-se. Como direi? Além de preconizar palavras e ideias usadas por outros no dia seguinte, estou numa daquelas fases de me acontecerem coisas como esta: a M.R. na empresa perde o telefone, pede-me que lhe ligue para o ouvir e penso do nada que está na gaveta da secretária, ligo e lá vejo o telefone a tocar dentro da gaveta. É este tipo de antecipações multiplicado por inúmeros momentos durante o dia. São dias como o de hoje que fazem fases de quando a quando. Nas quais penso brincando comigo mesma: toma as gotas, rapariga e é melhor não falares muito do assunto. Logo voltas ao normal. Se ainda fosse um dom que pudesse usar, mas não tenho domínio sobre ele. É fortuito. Impossível de domar. E acerca disto muito poderia dizer, talvez escrever vários livros, se soubesse escrever e criar enredo e libertar personagens e toda essa tralha. Mas vou continuar a produzir textos para as Comezinhas. Isso me pede a intuição. Ou será a preguiça? Digamos que é uma preguiça muito trabalhosa, quase disciplinada e quase sempre prazerosa à moda dos brasileiros. Mas caramba, devia ser à moda angolana. Como direi, então? Tamos juntos?
Mais a registar do dia? Trabalhei, mas isso não é relevante para efeito de Comezinhas. Os intervalos são o que as preenchem. A T. mandou mensagem e amanhã tomaremos um cafezito para pôr a conversa em dia. Liguei a dar os parabéns à S., que faz hoje cinquenta anos e estava radiante a passar o fim-de-semana na Galiza. Partilhou comigo as razões da felicidade e deixou-me muito contente por vê-la assim. As pessoas que vibram com os momentos bons, as pessoas que não fazem caixinha da felicidade, devem ter direito a bónus de alegria. Falou-me em chegar aos cem anos. Faço votos para daqui a cinquenta anos estarmos as duas a rir de lá termos chegado. O meu irmão F. - creio está em Madrid -, mandou-me por WhatsApp uma fotografia minha com que ficou para corrigir defeito nos dentes – um conselho: não comam linguine preto com gambas antes de tirarem fotografias. Primeiro fez-me desaparecer de todo da imagem e escreveu: corrigi o erro. Depois pôs-me a andar sobre as águas de Esposende como Jesus. Esse milagre conseguiu, só ainda não consegui perceber se tirou o resto de linguine dos dentes. Mais logo vejo.
Agora começa a estar quase tudo. Falta talvez recordar que sexta-feira é dia de ecoponto. Mas ontem antecipei-me e fomos libertar a casa do lixo e demais resíduos. Já sabem como me sinto bem quando acabo essa tarefa. Aproveitamos para dar a volta ao quarteirão e descer um pouco a Constituição só para nos obrigarmos a subir e assim fazer a digestão do jantar. Por falar em digestão, à vinda recolhi as cartas da caixa de correio e não gostei nada: duas cartas da ARS a avisar que, quais maninhos siameses, devemos fazer o rasteio do cancro do cólon e reto recomendado pela faixa etária. Deve ser melhor terminar por aqui. Afinal daqui em diante este texto teria tendência a descambar. Bom, terei de ver pelo lado positivo, se resolverem fazer averiguações mais minuciosas sempre poderei tomar aquela droga que dão na anestesia local da colonoscopia que nos faz sentir felizes. Espero me calhe a droguinha certa. E assim termina este diário.
19/01/2024
A preparar
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A melhor noite da semana. A pisar o sofá como os gatos e os cães para fazer ninho. Até já ou até depois.
Ponto de situação
Não é que tenha muito interesse, mas ficam registadas as 4000 baboseiras desta casa. Uma rolha, precisa-se. É o que é.
E já agora aproveito uma vez mais para agradecer
a generosidade aos leitores das 4000 mil baboseiras. Gabo-vos a paciência. Obrigada.
E para terminar conto que estou morta que acabe o dia de trabalho e por ao final do dia fazer mais um importantíssimo diário de trivialidades. Isto diverte-me, mesmo. Há dias em que me chateia, é certo, mas no mais das vezes dá-me gozo. E quem corre por gosto vai cansando, mas logo arrebita.
Se quiserem, aproveitem
Imaginem uma dádiva de palavras. Isso mesmo: uma chuva de vocábulos. Suponham que numa noite vos é concedida pelos deuses - ou Deus, se não forem politeístas, ou pela vossa profundíssima inteligência, trabalho e talento, se forem tontos e vaidosos – um leque de palavras cheias de potencialidades para a escrita e pensamento. E que acordam de manhã e por artes mágicas as vêem espalhadas e distendidas nas bocas, canetas e dedos dos que vos cercam. É só a maravilha da dádiva e podem ficar contentes. São os elos da vida a vir à tona. É muito bom sinal e não se confunde com os furtos e ganâncias de que aqui falei ontem – essa é outra onda, a má onda, que também existe e é preciso denunciar.
E se aqui virdes vêem tolice ou momento doentio, acreditai acreditem que ainda sabeis sabem pouco da vida.
Bom fim-de-semana.
18/01/2024
Diário
Às oito menos dez da manhã estávamos à porta do Centro de Saúde. Fui acompanhar o Nuno na consulta de rotina. Às nove e trinta e cinco estava a trabalhar na empresa. Nada como viver e trabalhar no centro da cidade com quase todas as comodidades perto. E marcar as consultas para a primeira hora da manhã de modo a não faltar ao tempo de trabalho. Único mínimo contratempo: deixei o guarda-chuva no Centro de Saúde. Há muito não me acontecia perder um.
À hora de almoço fui às duas lojas de chineses aqui da rua: numa comprei um guarda-chuva que me parece de franca má qualidade - lá terei de ir a uma loja tradicional ver se encontro um decente -, noutra um auricular com fios. Na terça-feira deixei cair e pisei os meus: ups, feneceram. O dono da loja perguntou-me se queria dos bons: tinha uns a três e os que escolhi a seis euros. Testei logo. Disseram que me ouviam bem pelo que o microfone não deve ser mau e como oiço bem, óptimo. Assunto resolvido. No fim-de-semana comprei também aqui na rua, num indiano, uma capa nova para o telemóvel e pus película.
Esta semana calcei dois dias as botas que recebi de presente no aniversário. Magoam, ao contrário das do ano passado. Talvez também por isso à hora do almoço tenha baixado uma neurazita. Joanetes massacrados por calçado apertado podem contribuir para o mau humor. Joanetes? Ai credo, tema vergonhoso de gentinha. Este blogue vai de mal a pior.
O mau humor passou com o retomar do trabalho à tarde, depois da descida a pé que me incomodou bastante. Há anos venho falando (soa a brasileiro?) do bem que faz à mioleira estar cansada à hora de dormir à conta do dia de trabalho e de como trabalhar e manter a mente ocupada com tarefas rotineiras – não necessariamente estimulantes do ponto de vista intelectual - faz maravilhas à saúde mental e emocional. Contrariando um pouco as teses que estiveram tão na moda nos últimos anos acerca da estupidificação da vida moderna. Aqui poderia explorar temas relacionados com o uso das tecnologias e as ladainhas do costume, mas por agora vou ficar quietinha – e insisto nos diminutivos, pareço a cabeleireira da minha adolescência para quem tudo era “inho”.
Voltando às rotinas do quotidiano pessoal e profissional. Claro, se não tivermos tempo suficiente para vir e estar à superfície vivendo as emoções e razões que precisamos experimentar, acumulamos mal-estares, o que é nocivo. Em tudo há que saber dosear. Mas para isso serve aprender a expressar o que pensamos e sentimos, não deixando o corpo somatizar. Bom, e ser bafejado pela sorte de ter por perto pessoas que permitam tal possa acontecer. Gente de carne e osso com quem possamos dividir alegrias e desgostos. Com quem possamos contar. É um equilíbrio difícil esse de conseguir ocupar a mente com tarefas impostas pela obrigação de nos sustentarmos e delas tirarmos prazer e ainda conseguir desfrutar de tempo com o que mais gosto nos dá – os nossos interesses e aqueles a quem queremos bem.
Se a vida for correndo de feição, a idade traz esse privilégio de encontrar paz no dia-a-dia. E o pique de adrenalina necessária à felicidade. Naturalmente estragada aqui a acolá por pequenas ou maiores contrariedades.
Entretanto depois do jantar fiz as compras online do Continente.
E pronto: só trivialidades ou não estivéssemos nas Comezinhas. Está feito mais um dia.
O tempo dirá
É inevitável pensares com os teus botões: é sempre deprimente assistir à exibição de louros à custa de outrem - a quem não se presta o devido reconhecimento. Quando é sistemático mais ainda – ficas a compreender melhor o propósito dos elogios interesseiros dentro das matilhas e os mecanismos do “alegado” sucesso. Não há pingo de vergonha. Quem age assim só acerta na opinião que expressa por acaso e não por consciência estruturada.
Havendo Justiça estas coisas seriam penalizadas. Mas enfim, isso da Justiça não te compete. A ti cabe apenas observar e anotar – e por consequência calha-te também ficar com a o rótulo de mau feitio. Com jeitinho, o rótulo de ressabiada, moralista ou puritana. Como é sabido gente intelectual e moralmente superior disfarça todas estas pechas, faz escárnio e desconfia dessa menoridade da procura do bem comum e da verdade - nunca é por bons motivos, nunca terá bons resultados, vaticinam mistificando episódios ou figuras da História - enaltecendo o cinismo e a sacrossanta ironia – esse bem maior sagrado que todos buscam: o humor. Pena que a ironia, por mais valiosa seja, possa servir apenas como instrumento de inteligência desbaratado sem qualquer garantia de nos trazer acerto ou felicidade. Sem querer armar-me em sibila* preconizo um futuro não muito longínquo no qual se reconhecerá que o humor tomou o lugar da religião e foi convertido em arma de fanatismo.
Outra nota que te ocorreu ontem foi a da reciprocidade, uma regra de ouro do carácter. Nunca compreendida por quem se comporta de maneira arrogante e gananciosa. Amealhar o que é dado (ou usurpado) e usar em proveito próprio sem responder à dádiva de forma idêntica ou reconhecer a origem é próprio de gente ou de actos que não prestam. Normalmente esta característica vem associada a uma série de outras: a mentira, dissimulação, desconsideração, agressividade (encapotadas ou não). E assim definham as relações. E assim definham as sociedades e os países – no egoísmo.
*A despropósito. Li A Sibila há uns anos no local de trabalho no monitor do computador enquanto envelopava os à época mil e tal envelopes mensais - havia mais mãos a ajudar.
17/01/2024
Diário
Hoje calha um mini-diário já que amanhã terei de me levantar às seis e meia.
A primeira parte do dia correu um tanto estranha em resultado de problemas informáticos e algum alheamento provocado por ter acordado a meio da noite – pois, não me venham com as virtudes de deitar cedo; nos últimos tempos quando o faço acabo por estar acordada umas horitas de madrugada. A tarde foi mais produtiva e até deu para conversar no blogue.
A tempestade Irene só deu de caras comigo ao fim do dia à saída do autocarro; apanhou-me com a força toda. Uma fortíssima tromba de água que me deixou encharcada no que não estava resguardado pelo casaco de chuva: meias, calças e botas. Nada que não se resolvesse ao chegar a casa, trocando-me antes de preparar o jantar: salmão selvagem, arroz de tomate e esparregado de espinafres, seguido de café.
À noite distraí-me com o jornal não tendo prestado atenção. Queria ouvir André Villas-Boas, mas lá terei amanhã que puxar atrás a box. Hoje depois de me aconselharem usei a gravação, mas para ver a grande reportagem da TVI que exibiram no final do Jornal Nacional acerca de mulheres inventoras portuguesas - cientistas: “Ninguém fez algo parecido.” A ver, definitivamente. Inspirador.
Antes de dormir vou ler duas entradas dos Titãs de Montefiore e olhem lá - estou muito pelo início, pela antiguidade. Vou devagar, devagarinho.
Pronto, está o dia feito e aqui ficaram registados alguns apontamentos da jornada.