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Tivesses tempo e escreverias sem parar durante horas. Não porque estejas naqueles dias de pipocar mental veloz, mas por os pretextos surgirem de modo compassado ao longo das horas.
Gostarias de escrever sobre a avidez de espírito de quem, sem nunca descer do seu castelo de aparência, açambarca e apropria valor alheio sem o correspondente reconhecimento, no propósito de amealhar em proveito próprio (1); da criação da imagem de bom samaritano seja por acções com publicidade seja de supostas boas acções com reserva ou mesmo em segredo numa tentativa de valorização póstuma na descoberta desses gestos nobres encobertos, como se fossem bons princípios que presidissem à obscuridade (2); acerca dos olhares e o que revelam, falando da forma como viste tantos acinzentar ao longo da vida, como se a perda de perspectiva terrena futura influísse na pigmentação da íris, e a forma como alguns acinzentam precocemente revelando personalidades tenebrosas (3); alargar o tema “olhares” para revelar o quanto dizem dos seus donos (4); sobre a tua obstinação e o medo de errar em tanto do que insistes à exaustão convicta de estar certa, sobretudo tratando-se de julgamentos, isto é, o receio de ser injusta e a tentação de baixar a guarda a quem por vezes parece decente e doce (como seria bom), mas no mais das ocasiões se comporta de modo que te revolve as entranhas – será que estão pré-destinados a portar-se assim?, serão inconscientes?, maldita intuição de teres de estar sempre alerta, o que passa a imagem de excesso de rigor e te faz sentir retorcida (5); a ideia peregrina de devagar levares a água ao teu moinho através do que deixas pelo caminho e se dissolve no éter desde o Fora de Baralho, desde sempre (6); voltar ao início e reconhecer, numa vaidade legítima (ou abusiva?), que a criação de valor pode bem estar no sair do castelo, em optar por um abrigo simples com porta e campainha onde possam tocar e na soleira (termo tão rústico e abençoado, céus) deixar pedaços de pão ou pequenas pedras, e continuar nessa eterna caminhada rente a casas alheias no intuito de receberes e retribuíres o tanto que te dão. No fundo, ter o cuidado de não guardares o melhor para o castelo limitando-te a atirar as sobras lá do cimo da janela de princesa. Enfim, não seres calculista e soberba.
Seria disto que falarias se te pudesses estender e também da vontade de ir a uma sala de cinema (7) espevitada por uma ligação deixada em comentário por aí. A concretizar-se será o regresso ao fim de muito tempo a uma sala de cinema tradicional da cidade.