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25/01/2024

Agenda

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Já conhecem o mecanismo das agendas ilustradas com o cérebro azul fluorescente: na melhor das hipóteses, registar os pensamentos para desenvolver em postais futuros, na pior, pouco mais do que nomear as ideias que, tal como as pombinhas, ficam para quem as apanhar.


Queria fazer dois registos mas esqueci o primeiro. Nada que não seja costume. Vamos directos para o segundo que também não defini bem – brilhante: ou não me lembro ou não sei bem o que vou dizer. Eis uma bela amostra das Comezinhas.


Ora o segundo tópico seria para distinguir dois géneros de pessoas, de modo de estar ou de fabricar. Há gente que sabe muito por ter vidas ricas em experiências, conversas, leituras, viagens e ainda assim tudo isto se passe de um modo muito superficial do ponto de vista da criação. Se na conversa ou leitura interessa o enredo, o destino das personagens, as ilações mundanas ou morais, pouco se (passo de modo rápido e repetido a polpa do polegar sobre as polpas dos dedos médios e indicador à procura da palavra – fogem-me, as malfadadas) extrai, é isso, pouco se extrai de grande valia. Como explicar? É o tal fazer sala. Se alguém conta as peripécias de uma viagem profissional ou uma reunião política, desportiva ou intelectual como um gague, isso entretém. Disseminadas essas historietas fazem escola e de cola nas tribos ou seitas que tantas vezes aqui falei, mas não são mais do que isso para quem está de fora: distracções. Há vidas cheias disso e há quem considere as vidas pejadas de entretenimento grandes vultos e quem mais interessa em sociedade. Enfim. Entretém. Se virmos bem há aqui um mecanismo de mimetização da cola da vida de famílias privilegiadas – aliás, de uma qualquer família, já que o modo de coesão é o mesmo -, nas quais as pequenas graças, memórias divertidas ou críticas, reparos, bengalas linguísticas sedimentam a união do clã.


Ao fazerem crescer o hiato na compreensão desta cola para segregar o comum mortal entre os compatriotas criam uma sociedade desdenhosa e potenciadora da inveja. Por uma razão maior? Por questão de valor ou mérito? Para premiar os mais preparados e quem pelas suas especiais qualidades pode ajudar o país, nomeadamente na governação, na política e na administração económica e cultural? Não, apenas por distracção ou passatempo de clã. Por divertir gente que se tem por civilizada.


O segundo tipo de pessoas, menos comum e com origem nas mais diversas castas, possui um grau de comprometimento consigo, com os outros e a vida mais profundo. Podem ter uma vida aparentemente rica ou não, mais ou menos conversada, mais ou menos lida e viajada, mas aquilo que extraem de si e transportam como dádiva é bastante menos superficial. Talvez por terem aprendido a examinar-se a si, aos outros e ao mundo minuciosa e livremente não do ponto de vista do enredo ou intriga, mas dos sentidos, dos sentimentos e das razões – do conhecimento intrínseco a cada indivíduo, momento ou circunstância. Talvez por outras razões. Ui, isto era agenda. Páro já por aqui - não faz sentido desenvolver em regime de agenda.


O primeiro tópico, lembro agora, era sobre o desconhecimento generalizado das noções mais básicas de matemática, geometria e astronomia e tanta coisa mais em gente que se tem por muito iluminada e capaz de se assumir como sumidade. Não é que saiba alguma coisa do assunto, mas ao menos tenho consciência da minha profunda burrice. Resumindo, ainda não voltei a ler para poder escrever, mas ia adiantar que (o quê, céus?). Bom é melhor ficar por aqui: varreu-se-me. Ai se as senhoras pregadinhas, arrumadinhas das blusas e das ideias muito esterlicadas passam por aqui, o que vai ser de mim? Dá-lhes um chelique com tanta desorganização e desalinho nesta casa. Uma maçada. Sofro tanto.