Comecemos pelo início e com plural majestático para dar autoridade às baboseiras que se seguem. É muita técnica. Não liguem, hoje estou bem-disposta porque resolvi um problema grave e intrincado. Em rigor, até há algumas horas era portadora de dois problemas graves e intrincados. Um real - que com toda a energia e vigor chutei para segunda-feira, porque os fins-de-semana não foram feitos para se tratar de chatices -, e outro que inventei nos últimos dias e consegui deslindar. Já explico – convém fazer render a frivolidade, chamam-lhe estilo. Deve ser pimba, o meu. Mas é o que menos importa.
Um preâmbulo. Os rodeios interessam sempre a quem não tem nada de importante a dizer. Há uns bons anos fazia viagens regulares Porto-Lisboa – mais regulares e menos espaçadas do que agora -, e como não arranjava nada de mais interessante para fazer durante o percurso recorria ao antigo hábito de imaginar situações. Como à época estava muito viva emocionalmente – quando é que não estive?, raro, muito raro – criava cenários que implicavam muito drama, intensidade de sentimentos, confronto – não direi intriga porque até na imaginação sou péssima, um verdadeiro fracasso. Dir-me-ão: porque não aproveitas esse tipo de material mental para escrever? Era o que me faltava. Usei-os da melhor forma que existe: para sentir. Para viver cada uma daquelas viagens de três horas e meia. Usufruí deles e só estragaria ao publicá-los. Seria menorizar momentos líricos que só fazem sentido a solo e em silêncio verbal. Saía de Lisboa cheia de ganas e entre Antuã e o Porto - recordo mais o tempo dos autocarros do que dos comboios, houve anos que embirrei com comboios - já vinha a chorar comovida com memoráveis momentos de paixão, ternura e amor. Recordações íntimas, próprias e chega. Só estava a carregar baterias para amar. Para viver. Sim, poderia ter aproveitado o tempo para ler, conversar ao telefone ou falar com o vizinho do banco ao lado. Mas não seria quem sou hoje e quem sempre fui – quiçá a pessoa mais importante da minha rua.
Vem isto a propósito - vamos ao sumo – de ter andado nos últimos dias a imaginar mudar de casa, a comprar a tal moradia - ai menina, não se diz moradia e jamais vivenda, reduz-te à casa, educaram-te em criança. Como vivo quase tudo intensamente – bom, quase tudo não, há milhentas coisas em que nem sequer reparo e todos dizem serem fundamentais; daí passar o ar de extraterrestre – o enredo ia tão intrincado que sabendo da existência de problemas de humidade na última moradia em processo de panca de compra - aplico-me nestas coisas, fotografo as telhas partidas do imóvel e as árvores envolventes, reparo se os bueiros estão limpos por causa da cave – já andava preocupada com os pagamentos dos serviços de canalização e das reclamações para a Câmara. Isto foi de manhã, depois de uma leitura e de uma saída para ver a dita casa. Porém não há nada como uma sopa quente em dia frio. Pois que após comer o caldo verde do almoço tudo se recompôs no meu espírito – como se me aproximasse de Antuã – ao começar a calcorrear o corredor, a cozinha, a sala com a árvore de Natal e as luzes. O resto da casa. Tudo me pareceu perfeito e um dos problemas graves e intrincados dos últimos dias desapareceu: não tenho que ficar preocupada com o estudo de mercado e a avaliação, em saber quanto dinheiro precisaríamos de diferença para pagar a futura casa, não temos problemas graves de humidade - temos semi-graves mas conhecidos, o que dá uma certa tranquilidade -, os gastos são partilhados com outros condóminos e até a anedota das obras exteriores de Santa Engrácia pareceu insignificante. No fim do meu périplo mental doméstico, o Nuno propôs que comprássemos uma casa: esta, a nossa, pelo preço de um almoço a dois. Achei óptima ideia e acrescentei que pagaríamos o repasto na sempre usual repartição de 50% cada. Só é pena que os problemas reais, os não inventados, não se resolvam da mesma forma pacífica. Mas é assim a vida.
Passei o resto da tarde a saltitar leituras e a pasmar. Entretanto agora à noite desfizemos os natais. Foi um Dezembro dúplice. Começou cheio de alento como é costume e o dia 3 veio com alegrias e desapontamentos. Não sei pesar estas coisas bem, mas talvez tenha pendido mais para o positivo. Se assim não foi de facto, o carácter mais benigno foi ordenado pelo temperamento de não dar parte de fraca – qualidade que possuía em novita e fui perdendo; quem sabe não estou a recuperar. As semanas seguintes foram francamente boas. O fim de ano muito triste e o início de 2024 triste e difícil – no blogue desanuvio. De agora em diante creio aproximarem-se problemas dos quais não posso fugir ou contornar. Na segunda-feira logo começarei a pensar no assunto. Por hoje a árvore de plástico, os enfeites e o presépio estão nas caixas dentro do armário – bom, um dos presépios não. Está na mesinha cabeceira como é costume. O gato dorme ao pé do aquecedor. O Nuno – vou agora mesmo perguntar o que está a fazer para relatar de modo fidedigno – disse: espera, deixa guardar, estou a converter ficheiros flac em mp3 para poupar espaço no disco. A smooth está lá dentro a tocar qualquer coisa. Não sei o quê porque me distraí e deixei a correr o YouTube aqui no computador.
Ai caramba, como é costume lá me esqueci da autoridade, da técnica, do estilo ao produzir mais este imperdível diário de trivialidades. Na próxima é que é. Um dia ainda aprendo a escrever e a tratar com propriedade assuntos com substância. Relevantes. Dignos de respeito e reconhecimento. Até lá continuo a divertir-me e a usufruir da vida. Uma maçada. Sofro tanto.