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16/01/2024

Diário

Vou escrever um diário para não passar o dia em branco.


Às nove menos um quarto da manhã estava marcada a consulta anual com o cirurgião que me operou há dois anos: bypass gástrico. Tudo muito parecido com a consulta do ano passado. Avisou-me do ferro nas lonas, responsabilidade minha que esqueço de o tomar. Dos dois quilos a mais ganhos no último ano – nada de mais e que não seja habitual, disse-me compreensivo. O problema seria se fossem seis ou sete. Quanto a plásticas e perguntado aconselhou a que vá entrando com o pedido noutro hospital já que é demorado. Ainda vou decidir se vou optar por essas andanças. No fim do mês terei consulta com a endocrinologista que, nos seus quarenta e poucos quilos de menina nova, prevejo me diga não haver qualquer problema de falta de ferro que não se resolva na escolha de alimentos e que devo emagrecer mais cinco quilitos, como fez o ano passado. Tudo normal. Do hospital segui para a florista.


Às dez estava a trabalhar a ritmo normal. Serena. Entretanto sucedeu um irritante extra-trabalho pelo telefone que não convém valorizar. Há gente que está no mundo a harmonizar e gente que gosta de confundir e complicar – face a estas segundas o ideal é reduzir a conversa ao mínimo necessário para esvaziar ao máximo margem de conflito.


Às treze começou o almoço da minha mãe para festejar os 80 anos com os quatro filhos. Sem contar. Não foi bem surpresa. Foi acontecendo assim: num improviso um liga ao outro e de repente estamos todos no restaurante. A mãe estava sorridente e é tão bom. Tudo correu sereno com rosas amarelas e gerberas brancas e amarelas a assinalar o dia. Ontem comprei um vestido verde de bolinhas brancas para oferecer. Será que vai ficar bem? No fim do almoço os quatro pintainhos já ressessos regressaram ao trabalho e a mãe continuou a atender as múltiplas chamadas que não pararam o dia todo. Bom sinal.


A tarde foi bastante produtiva. Não dei pela falta de ferro. Quando pensei escrever este diário de hoje senti que deveria introduzir qualquer ideia além relato para não ficar assim a seco. E sei que entre as muitas, muitas chamadas que fiz de tarde e alguns emails enviados, congeminei qualquer coisa acerca do que escrever, mas esqueci. É recorrente dizer isto aqui nas Comezinhas, mas é tal qual se passa na minha cabeça-de-alho-chocho. Vou dar uns minutos para tentar lembrar.


Não era isto que tinha pensado, mas cá vai: o que omito no blogue? Expor conflitos – bem sei que sou muito crítica e ácida, mas creio haver diferença entre isso e viver ou lucrar da discórdia. Poupo o argumentum ad hominemTambém evito exibir sentimentos e emoções. Sejam os fictícios, isto é, aquilo a que chamo balelas de quem gosta de brincar às sensações e paixões ou faz disso negócio de entretenimento, sejam os reais, aqui por respeito por mim e por quem gosto. Nada mais deprimente do que vulgarizar sentimentos. Os genuínos não andam por aí em jogos fáceis de diversão em prosa ou versos. Bem sei que cada um é como cada qual, mas sinto que os sentimentos verdadeiros guardam-se para conversas a dois e não para multidões. Apesar da aparência de livro aberto sou uma cafona, como dizem os brasileiros. Não há o que fazer: tenho Vénus em Capricórnio; o que me vale é que este planeta está na Casa 7.


Também não era acerca disto que havia pensado mais cedo, mas conto que vou publicar este postal antes no final do dia contra o que é aconselhável pela estratégia de destaque. Este post não é de todo candidato tal, mas se fosse, jamais deveria ser publicado ao fim do dia, já que nunca poderia constar da lista dos mais comentados. Já sabem: se quiserem discrição, publiquem à noite antes da meia-noite. Outra: se quiserem discrição, jamais refiram de modo positivo ou negativo uma figura com projecção. Opiniões sobre figuras públicas rendem sempre visibilidade. Se quiserem manter a reserva, falem de si próprios e dos vossos interesses – bom, não é garantia de sossego, mas é bem menos provável grande projecção.


E agora estou com muito sono e cansada - terei sido induzida pela conversa do médico, ou os cansaços são reais? Amanhã recomeço a tomar ferro.