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01/01/2024

Diário

Aqui vai que não vai. A dividir o cobertor e a ouvir a respiração e tosse típicas de gripe assanhada que atacou uns tantos - talvez me mantenha a salvo como era costume em miúda. Daqui a dois ou três dias o Nuno irá doente para cima juntar-se aos muitos elementos da família igualmente atacados pela fruta da época.


Mas escrever acerca do quê?, se o que me ocupa os neurónios são estas impressões corriqueiras. E me sinto cada vez mais infantil com estas sinceridades espontâneas. 


Se no Natal ainda estive atenta ao mundo, nestes últimos dias nem televisão, nem jornais. Passarinhei por Almada. Hoje sozinha e em vão em busca de uma farmácia de serviço - longe demais. O Nuno aguarda sereno pelo brufen até amanhã de manhã. Hoje vai-se ficando pelo ben-u-ron e pelo aspegic sem o qual não costumamos andar.


O chá de poejo perfuma a casa, aclara as gargantas e aquece o espírito. Está a assentar junto ao frasco de mel de esteva vindo da Semblana.


E o que mais? Nada que julgue poder ser dito em voz alta. Ai a ficção. A ficção talvez me pudesse salvar. Mas não levo jeito. Cada vez que a ensaio em pensamento sinto-me resvalar para a mais crua realidade. Talvez enfabulada. Não são todas? Quanto mais nos julgamos senhores da razão e da verdade, mais perspectivamos de modo subjectivo. Bem me desejaria capaz de mais. Mas além de infantil, sinto-me básica.


Depois há o hiato. Entre a infantil ou básica e a que antevê os meandros de muito, a que vai descobrindo o mundo e os outros enquanto se descobre a si. A que não se vê.