O que fiz hoje de útil, além do óbvio? Ouvi um vídeo acerca de um romance já lido de autora portuguesa que prezo muito. Ouvi outro YouTube sobre um livro de contos que já li de escritor norte-americano. Vi e ouvi falar de um ensaio acerca de Espanha e a América Latina numa perspectiva histórica de autor mexicano que ainda não li. Porque não dizer os nomes nem o conteúdo? Continua a apetecer-me fazer caixinha. Para ser diferente? Não. Para não fazer igual ao que já existe. Para depurar o que me dá prazer do que me cansa – não é que os outros não devam fazer; acho óptimo, aprendo imenso, mas fazer o mesmo daria muito trabalho e aborrecer-me-ia de morte. Além de mais estes autores já morreram. É deixá-los sossegados, não gastando o nome. Sorrindo. Assisti ainda a outro vídeo a abordar uma selecção de autores e obras da literatura portuguesa, pouco mais do que nomeando. Uma nota interessante: o autor dos vídeos é um homem novo brasileiro. Bem preciso era que por cá houvesse quem saísse dos pedestais da pseudo-intelectualidade enfadonha e falasse de literatura sem manias de superioridade e referências interesseiras "entre pares". Isso sim induziria o alargamento do número de leitores. Insultar os portugueses de ignorantes não ajuda peva ao incremento dos hábitos de leitura, serve apenas para medir pilinhas e coninhas vaidosas das leituras, muito precisadas de afirmação entre amigos e fãs palermas. Plateias de intrujões que dizem ler e se percebe pelas intervenções lerem muito pouco ou até lerem alguma coisa, porém sem compreenderem o conteúdo. E porque não digo o nome do canal com que me entretive hoje? Por não apreciar cair nas redes de referência. Acabámos todos a ver o mesmo e lá se vai a independência e o percurso único de cada um para o brejo.
No fim do périplo pelo YouTube voltei à astronomia para o Nuno me explicar umas noções básicas de matemática e geometria. Parei logo ao fim de vinte minutos para não me baralhar toda. Nos próximos dias leio mais uma página para acrescentar um postal com tudo reduzido ao simples e ao que sou capaz de compreender. Odeio a sensação de cair no erro crasso de escrever o que não entendo. Ou melhor, até posso ter dúvidas, mas saberei ao menos colocar a questão. Agora debitar por debitar, não.
Escorripichado o que rendeu o passeio pelos vídeos de hoje? Muito, entre outras a ideia que comungo de que lendo alguns autores portugueses menos cosmopolitas na aparência, mais ligados às raízes, aprendemos bastante acerca do nosso idioma, reconhecendo e preservando as tais palavras que as últimas gerações parecem ter vergonha de usar com o domínio da linguagem enfadonha-ó-pretensiosa dos media e páginas lifestyle. Dão menos azo a citações supostamente eruditas a propósito da má-língua da actualidade política, social e cultural, mas têm muito mais sumo. O papel do subentendido na literatura e o espaço que deve existir, por contraste, para o declarado. O appeal para as mulheres da coragem num homem. O balanço positivo da romanização da Península Ibérica. Umas luzes de raspão sobre o impacto nos impérios índios das investidas hispânicas. E tanto mais sobre o que ler mais tarde.
Compreenderão porque leio efectivamente - essa palavra horrorosa que os eruditos pedantes odeiam – poucos livros? Se lesse mais teria de espetar uma agulha na testa para fazer um furo e esvaziar. Cada processador de miolos sabe o que aguenta.