Aqui ficam as ligações para um punhado de postais do terceiro trimestre de 2023 com excertos.
Julho
- O sonho de hoje, de 02.07.23
Uma jangada militar grande com cores camufladas, onde seguia junto de uma multidão e próximos, patrulhada por dois navios que teriam de nos abandonar por necessidade de acudir a outras paragens. Alguém próximo dizia-me: como somos considerados um navio de guerra quando formos encontrados no meio do oceano seremos atacados. Enquanto isso observava um mecanismo guindaste (a que errada e em pensamento no sonho chamei eclusa) num dos tais navios que se ia afastando, deixando-nos à nossa sorte.
Em Valinhas vários pequenos cestos de verga vazios.
Noutro momento e espaço uma mulher próxima queixava-se do peso e desconforto de segurar um bebé. E eu entrei muito cedo num café vazio; estava apenas a dona do espaço e uma bebé sorridente, sentada no tampo de uma mesa, que me deu um beijinho. Supostamente ia entregar um boletim de euromilhões. Logo eu que não tenho jogado, nem me apetece nada jogar.
- A eira, de 18.07.23
Ora vamos lá tentar dizer isto em breves palavras para não ser ainda mais maçadora do que é costume. Lá atrás em 2000 no tempo do primeiro Big Brother lembro-me de admitir que vi alguns episódios – único reality show a que assisti em toda a vida. A curiosidade nem sempre mata o gato. E recordo uma discussão que à época tive com várias pessoas. Contra a absoluta recusa de qualquer exposição eu rebatia que o problema não estava na exibição propriamente dita, mas no carácter dos sujeitos e da substância do que se exibia. Isto é, já na altura defendia que me parecia natural, até aconselhável, que pessoas normais pudessem se quisessem mostrar-se nos aspectos comezinhos da vida. Normais por contraposição às ordinárias e às presumidas, por sempre me ter parecido que o espaço público estava pejado dessas duas últimas personagens. O que sempre se vendeu foi o reles ou piroso e o presunçoso, como se isso caracterizasse os portugueses. Ora, basta viver, passar pelas escolas e universidades, pelos locais de trabalho, pelas reuniões de amigos e sociais, pela vizinhança, enfim pelo nosso dia-a-dia para compreender que o melhor do tecido humano português não está espelhado no espaço público. Por ser constituído por pessoas discretas, com preocupações comuns, com ambições sensatas ou mais extravagantes mas num cunho menos fabricado para vender - gente que não tem de viver escondida por o mundo medíocre, ruidoso e ganancioso fazê-las definhar. E é tanto mais assim que quanto mais o comezinho for abafado, mais será engolido pelo ordinário e pelo pretensioso ou ganancioso. E isto é válido para as redes sociais e todos os espaços online.
Como tantos portugueses (talvez a maioria) fui educada a não me expor numa espécie de pudor que tem tanto de positivo quanto de nefasto. Todavia fugi à regra em que fui criada e as Comezinhas são manifestação disso mesmo. Se permitirmos que só o ordinário ou presunçoso apareça e vingue, deixaremos de ser nós. Deixando-nos anular por aquilo que não reconhecemos como os nossos valores. Deixando-nos vencer pelo que não tem sequer valor mas apenas aparência.
Cada vez gosto mais de ler gente relatar preocupações triviais de modo cuidado.
- O que esta segunda-feira?, de 24.07.23
Numa visão nada abonatória, mas é a que te apetece hoje espelhar: na mão do português está a vontade de ter as cartas do parceiro de mesa, o desprezo pelas suas qualidades e a ambição de ganhar o jogo. Acha que vai sair vitorioso por possuir o Às de Ouros - a “justiça”: sempre entendida por si, não como bem comum, mas como reconhecimento do valor e mérito próprios face aos demais. E embirra e sente-se injustiçado por ter na sua mão o terno de espadas a que dá tão pouco valor - a crítica -, que é o juízo moral ou intelectual sobre o comportamento do conjunto de jogadores na mesa, determinante no desenrolar da partida.
Como não estás a jogar fizeste uma pequena batota e espreitaste o monte. O último a ir ao monte teve azar, levou uma série grande de cartas e ficou uma data de anos burro por não haver paus. À bica está o duque de copas - a “democracia” -, para desgosto de uns e alegria de outros, que já se vêem a virar o jogo. Chama-se alternância, existirá sempre se o jogo apesar de viciado por batota ainda contiver os quatro naipes com 13 cartas cada e não for corrompida em definitivo por naipe único – o de copas, por exemplo, todo dado aos afectos e à abolição das desigualdades, com censura de ideias dissonantes.
Mas que interessam estas considerações todas se, em geral, os portugueses, por não gostarem de regras, nem repararam que não tem o menor interesse possuir um Às ou um Terno sendo o objectivo do jogo apenas assistir ao naipe da mesa e descartar o maior número de cartas mais rápido? Que interessa apelar ao bom senso se não é comum o português conceder no carácter fortuito e injusto da Natureza e predispor-se a agir em função das regras e do bem comum?
Não chegaste a ver as cartas dos outros, nem continuaste a coscuvilhar a sequência do monte para saber o futuro, por isso este postal acaba por aqui mesmo. Pedes desculpa por ter escolhido o Burro em Pé e não o Bridge, mas convinha para ser um postal em harmonia com os conhecimentos rasos das Comezinhas.
A terceira mulher em particular pôde constatar como algum mundo masculino é feito de chichés e pouco sabedor do mundo feminino para lá do conhecimento parco e interpretação básica de algumas mulheres, do cinema e das leituras. O tempo é ocupado com prioridades como o futebol, a pseudo-cultura das boas relações e interesses e suas fofocas, os floretes argumentativos sobre a escaldante actualidade trocados na comunicação e redes sociais, rematadas com a cereja em cima do bolo - a "erudiçãozita" chamariz. Enfim, a futilidade do efémero e da aparência - sempre com muita audiência -, e não o essencial, tomam muito tempo e disponibilidade da massa cinzenta para que alguns homens (e mulheres) possam ir além dos preconceitos e lugares-comuns como o do encanto da fragilidade feminina, apesar de encherem a boca com alegado conhecimento, perorar e julgar as mulheres rotulando-as de estúpidas ou ignorantes, sobretudo, se não obedecerem ao figurino sofrível e sedutor das bem-sucedidas alinhadinhas com os estereótipos do tempo, os chavões de facção, as excitações dos temas do momento ou se não corresponderem ao protótipo arrebatador das bem-sucedidas que simulam irreverência e coragem – em suma, se não servirem para fazer claque. Um bocejo.
Se esta fosse uma crónica daquelas revistas femininas de meados do século passado, conteria um conselho a mulheres desavisadas: fujam de homens que não respeitam nem admiram a inteligência das suas mulheres. Dão péssimos maridos ou amantes e, em regra, são ainda mais burros do que aparentam, logo, não vos ajudarão a ser mais felizes.
- O que é esta segunda-feira?, de 10.08.23
Pairar é a palavra escolhida.
Há muitos anos cultivavas um ciúme pequeno e saudável de quem te contava voar demorado a sonhar. Nalguns sonhos içavas ao céu como se presa numa mola invisível. Doutros momentos lembras a sensação de te elevares um pouco do nível do solo, mas não daquela sensação que imaginas fabulosa de sobrevoar aldeias, vilas e cidades. Ou paisagens de planície, montanhas, rios e mar. Saboreando bem o programa. É impossível não ambicionar viver sonhos assim. Afortunados sonhadores, esses. Houve momentos em que o mundo onírico tocou estas imagens, uma espécie de gozo de pairar sobre a Terra, mas nunca de modo pleno, que acordasses a dizer: sim, sonhei um bom pedaço que voava e pairei sobre terras que conheço, ou mesmo sobre paisagens exclusivas do sono. É uma ambição: vaguear no ar. Será que se pedires - isto é, falares muito nisto verbalizando o desejo -, acabas por voar a sonhar?
Em criança pequena sonhavas que voavas entre barras. Com toda a certeza pelo deslumbre que se apoderava de ti ao veres as ginastas nas paralelas assimétricas. Era um sonho bom de infância. Em adulta recordas mais sonhos de subir e descer, mas normalmente na vertical. Só muito raramente há a tal sensação de pairar e é sempre muito curta. Houve ocasiões em que a tua escrita era assim: subia e descia apenas, sem qualquer graça. É assim que vês muito do que é escrito: a maioria não sai do solo, com sorte iça e se houver arte paira e voa. Talvez a imagem da falta de soltar a mão ao pintar uma aguarela traduza esta ideia.
Vem isto a despropósito de ser tranquila a sensação de pairar sobre a vida. Começam a ser bastantes os momentos em que vês tudo à distância, sem grande comoção. Não é que não haja momentos de intensidade, de compromisso físico e psíquico com a realidade, daqueles que provocam comoção, com contentamento, paixão e euforia ou tristeza e fúria. Porém não raro dás por ti a passar os olhos e os ouvidos pelo real como se fosse raso de significado, de pendor problemático ou de qualquer modo relevante. Como se fosse tudo reduzido a explicação maior desconhecida. E aqui não entras no esmiuçar espiritual para não criar anti-corpos em quem não concebe nada de existente para lá do visível ou palpável.
Imaginem olhar para as fotografias de uma página da internet com rostos de figuras conhecidas e chegarem (devias escrever “imaginai” e “chegardes”, mas recusas-te) à conclusão que estarem lá essas imagens ou as de um queijo da serra ou pneu ou pato ter em vós exactamente o mesmo significado. Calculem o mesmo para conversas que ouvem ou nas quais participam, ou textos ou livros que lêem, jornais, filmes, etc. Imaginem-se do lado de fora do mundo, desprovidos de pensamento e sentimento que reflicta toda a carga de informação e esmiuçar inútil veiculados pelo espaço público e privado que consomem ou no qual vivem – aquilo que se diz dar consistência e conhecimento e que supostamente chancela a opinião como informada ou válida. Tentem supor que se despiram de todas a explicações prévias que vos chegaram ao longo da vida sobre os seres humanos e suas intrigas, acerca dos animais, plantas, do céu, terra e mar e todo do Universo. Que o vosso cérebro se esvaziou e nada tem a importância que as conversas, toques, afeições, olhares, leituras, conflitos, enfim, a presença no mundo impõe. Deixem-se cair na invenção desta ausência e compreenderão a insignificância de tanto que é valorizado por incapacidade de auto-conhecimento. E isto sem grande necessidade de explorar as noções contrapostas de consciente e inconsciente tão caras a quem parece não evoluir tendo ficado preso no tempo, ainda fascinado e convencido da modernidade e pertinência das novidades da psicologia e psicanálise de há cem anos – com recurso constante às catalogações fáceis de realidades por quem tem a pretensão de tudo entender e tudo já ter visto.
Face a estados da mente fora do comum, como esperar compreensão do teu mundo se o expressares com total franqueza? Por mais exponhas muito com a maior clareza possível, sabes que há um hiato inultrapassável, por ora. Vais devagarinho, mostrando o que vai saindo naturalmente, não sem freio ou filtros – nunca serás adepta de excitações afirmativas e fáceis tão apelativas para os tais catalogadores das certezas que reduzem tudo à vulgaridade -, mas com a autenticidade possível e sem grande dificuldade talvez por falta de vergonha.
- Diário, de 13.08.23
O Porto, outra vez.
Na última vez que fomos a Almada, no regresso de Domingo, ao aproximar-nos das Devesas, decidimos não seguir até Campanhã e apear em Gaia como acontece algumas vezes. À porta da Estação, ainda um pouco agitados com as movimentações que as entradas e saídas do comboio sempre implicam, e hesitante em chamar o Uber, perguntei ao Nuno se achava bem irmos comer qualquer coisa ali perto no Pingo Doce junto à casa onde vivi 17 anos. Respondeu-me: claro, agora que já estamos na nossa terra é tranquilo. Foram das palavras mais surpreendentes e bonitas que lhe ouvi e ele é pródigo em dizer-me coisas bonitas – não podem imaginar como se me encheu o coração quando o ouvi dizer isso. Saber que se sente aconchegado nesta terra e se sente acarinhado pela minha família e amigos, que agora são também dele, é uma bênção.
O orgulho que tenho no Porto é também este: fazer seu filho quem chega, fica, sente e trata bem a cidade e a sua gente.
- O que é esta segunda-feira?, de 14.08.23
A palavra escolhida como pretexto é: defeito. Motivo para desenlear os dedos à segunda-feira.
Um cavalo de batalha dos tempos modernos no pensamento dominante: esconder todas as falhas, suprir as imperfeições, castigar as fraquezas, disfarçar as deficiências. Ficcionando, aumentando, distorcendo, reduzindo-as ao simplismo ao invés de as limitar à simplicidade. No domínio do gosto, da forma e da substância. O gosto não se discute, afirma-se. Como quase todas as ideias fortes passam a inquestionáveis. Ora aqui nas Comezinhas é uso pôr em causa tudo e mais um par de botas, não por devaneio tonto, mas por me deparar tantas vezes com contra-sensos que decorrem de ideias feitas. Não quero impôr gostos, porém posso discuti-los e justificar a minha antipatia ou menor apetência por determinadas marés e contra-marés populares ou restritas. Se não me atrai especialmente muito do que se chama arte em fotografia, pode ser por não me rever nas escolas artísticas e a vulgarização delas num nicho de intelectuais e de publicações que definem em cada época o que é ou não válido como arte. O excesso de estilismo, o pretenso minimalismo, a redução da imagem a uma única e perfeita ideia, pronta feita e acabada, como se não aceitasse impurezas é capaz de me repelir. Assim vejo muitas das fotografias artísticas cujo objecto é a paisagem rural ou urbana oca de vida, o corpo humano, masculino ou feminino, ou a sua interacção vazios de naturalidade. Os exemplos de imagens a preto e branco, supostamente para enfatizar emoções, de toque pouco autêntico em contrastes de pele e contorno masculino e feminino muito realçados ou de corpo de mulher envergando vestido ou nudez a exalar feminidade numa postura de abandono encostado a cenário de luz difusa são dois clichés que nada me dizem. Se a ideia é salientar as emoções e a beleza, tem o efeito contrário, banaliza-as. Resulta no mesmo que a quietude do mar turquesa ponteado por uma ilhota de palmeira solitária. Tudo me parece pífio e irreal. Decoração de quarto de motel. Nos primeiros casos sobressai a pretensão, no último o pimba. O que disse para a imagem estática vale para o cinema, no qual o excesso de depuração e artifício da fotografia remete para um mundo sem macula, que não reconheço nem real nem ideal. E vale também para a escrita.
Bem sei que a fidelidade ao real, longe de representada pelo realismo ou hiper-realismo nas artes plásticas, traz amiúde associado um ar de descuido, de irritante, de desagradável. Se nos limitarmos a retratar o mundo tal qual é desprevenido, sem artifício, caímos no sensual risco de nos vermos tal qual somos, sem trabalho de produção, sem caricatura, sem vontade de causar impacto por lente aumentada ou distorcida. Aqui nos aparecem a paisagem e a nudez tal qual são, desafectadas. Espontâneas.
- O mundo aqui tão perto, de 15.08.23
O momento não nos define tanto mais que podemos valorizar com intensidade todo o instante como se o mundo parasse para repararmos nele e logo a seguir esquecêssemos. O momento não nos define apesar da imagem que deixamos a quem passa ser feita do que dizemos ou fazemos em determinada ocasião e assim ficarmos carimbados para sempre ou por muito tempo. [...]
Acordei cedo e ao contrário do costume fomos de manhã ao Parque da Cidade. Passeámos e tirei as fotografias do post anterior. Nada a acrescentar às legendas senão não ter conseguido fotografar a troca de palavras de um casal humilde que cruzou connosco. Distraí-me com as palavras e não fui a tempo de captar a imagem do par cúmplice na casa dos 40 que se ouvia à vez numa t-shirt colorida com dizeres publicitários sobre os jeans magros e gastos e um vestido cilíndrico em tons cinza de cintura que não estreita.
Depois fomos à bola de gelado. Erro crasso. De manhã não se comem gelados, muito menos de chocolate. Opinião válida apenas para mim própria. Não sei porque alinhei nem porque traí o hábito do maracujá. Se só gosto de chocolate à noite, para quê inventar? Má ideia.
Seguimos para o Forte São Francisco Xavier - Castelo do Queijo. Entrámos sem pagar os 50 cêntimos de cada entrada só pelo olhar atento do funcionário da recepção. Principiámos pelo pequeno espaço do Museu, fotografei armas e dinastias. Subimos, tirei imagens do mar, da praia, dos canhões e guaridas. Descemos e fomos ver a anunciada exposição de pintura. Cumprimentei a senhora que estava à entrada, que me devolveu um sorriso simpático e ao fim de três ou quatro palavras se apresentou como a pintora. Ah, bom, temos cá a artista. Que bom. Demos a volta ao exíguo recinto, bastante pintura de porcelana que não me encanta, quadros e objectos vários pintados por mãos dedicadas. E se muitas das peças não são do meu agrado, há ali inegável talento. Pedi autorização para tocar. Peguei no íman do Farol de que gostei muito. Voltámos para junto de Margarida Castro Cunha, assim se apresentou quando perguntei o nome, filha de pintora, mãe de filha que entre outros trabalhos fez restauros na Igreja dos Clérigos e de filho artista plástico. Nascida em Lamego, com vínculos a Esmoriz e Espinho, mulher de figueirense (da Figueira da Foz) que acompanhou de perto a conversa. Um doce e simpatia de senhora, que ali estava só porque hoje é feriado. De resto, está sempre em casa a trabalhar – a pintar. Sempre. Assim é gente dedicada e talentosa. Achou piada a eu saber o nome do farol, que ela desconhecia – para me dizer qual era apontou o dedo na direcção do paredão do Farol de Felgueiras. Disse-lhe que tinha vivido em Felgueiras na infância, por isso me foi fácil fixar o nome do farolim. E saímos, trazendo o íman.
Chamámos o Uber e mais uma vez pude confirmar como o Porto é uma aldeia. Além de me certificar que pouca coisa me dá tanto gozo como a conversa franca, mesmo sabendo que o tom geral dos contactos é bem confessional. O jeito natural e disposição do Nuno para ouvir ajuda, e a minha predisposição para a conversa e a curiosidade também. Entrámos no carro e pouco depois já sabíamos bastante da vida profissional anterior do explorador do negócio. Minutos mais tarde já o tinha ouvido falar de nomes de amigos de familiares meus, e também nomes ligados a empresa antiga e ao meio cultural da cidade – gente, entidades e espaços ligados à música, cinema e teatro. O mundo é muito pequeno e se bem que despassarada não cultive as relações dos meus familiares e amigos, nem para isso tenha feitio, sempre me chega qualquer coisa – o suficiente para quem está de orelhas atentas. Na segunda parte do pequeno percurso contou-nos o drama da sua vida – não há nada como conduzir passageiros com vidas pouco standard para se dar o à vontade. Há uns bons anos o filho avisou-o que devia ver o telefone da mãe. Não podem imaginar as fotografias. Ao fim de mais de 20 anos de casamento foi corte total no próprio dia, largando tudo para trás, menos os filhos: quis guarda conjunta e precisamente por isso mudou de vida e comprou os carros da Uber. Revelou a mágoa do abalo e além de mais a perda de amigos que desaparecem nos piores momentos da vida. O Nuno apoiou-o na sensação de abandono total pelos amigos quando o desastre acontece. Pus os panos quentes habituais: pois, também sei como é, mas às vezes nós próprios repelimos as pessoas, a vida é como é, precisamos relativizar. Nisto os homens são muito mais a direito: não perdoam. E chegámos a casa, nós descemos, ele deve continuar a trabalhar e a recompor-se do abalo já antigo e ainda por superar. Faço figas para que refaça a vida com a nova companheira e seja feliz tocando guitarra.
- Argumentistas, de 18.08.23
A sensação acerca da informação actual.
Hoje alguém me disse que os noticiários dos últimos tempos pareciam absurdos. E desconfiava da sua própria lucidez. Compreendi e há muito tempo sinto o mesmo. A informação actual parece um rodilho de fiapos soltos sem princípio nem fim. Há muito reparo e disso tenho dado conta aqui nas Comezinhas. Cada vez menos se quer saber da causa das coisas. E para isso não é precisa a falsa profundidade de análise de muitos alegados estudiosos, cujos trabalhos e opiniões se resumem a exaustiva argumentação em defesa de uma facção ou a meras provocações com boa imagem – sempre muito citados e multiplicados em referências pelas respectivas tribos. O que falta é lógica e lucidez ao invés de excites e alegações. O que falta é simplicidade. Andam muitos excitados e deslumbrados a brincar na vida real às séries televisivas, nomeadamente, às passadas em ambiente judicial ou político. Convencidos dos seus profundos conhecimentos, habilidades analíticas e capacidade de julgamento. Depois de três gerações inteiras criadas a consumir imaginação, atafulhadas de ficção, já não se distingue real de fantasia. Vale tudo, sobretudo a retórica. Não é um tempo bom para o juízo dos seres humanos que engolem tudo sem mastigar para logo a seguir regurgitar bê-á-bá o que ouvem e lêem. Não é um tempo bom para a razão, mas sim para o sucesso de argumentistas.
E entretanto tudo quanto é destacado e por isso sobressai são balelas. Vamos de vento em popa caminhando alegremente na direcção do absurdo. Alimentando-o todos os dias de protagonistas frívolos de aparência sapiente.
- Diário, de 19.08.23
Por fim, o mais importante. Depois de ter conhecido e namorado com o Nuno há 23 anos, de namorarmos neste segundo round há quase 13 anos, de vivermos juntos há quase nove, no mês passado decidi dizer um sim inteiro, sem ses nem mais adiamentos. Vamos casar no próximo mês sem festejo nem convidados, apenas as duas testemunhas da praxe, com a discrição que ambos apreciámos. Bem sei que afirmava que o casamento só faria sentido para agradecer e não para fazer promessas. Todavia ao fim destes anos já há o que agradecer. Por enquanto pelo civil. Sim, sei, também dizia não ter de dar explicações ao Estado, o problema é que o Estado vinga-se de quem não se sujeita às suas regras. Mas sobretudo apenas só pelo civil por ainda não estar muito certa que Deus seja decente connosco. Se Deus se portar bem dando-nos provas disso mesmo, lá para os 80 casaremos pela Igreja. Antes disso é manifestamente cedo. De resto só interessa dizer que gosto deste rapaz à séria, como nunca gostei de ninguém. E se ainda sofro de medos de desilusões por sempre ter sido céptica nestes domínios, nunca conheci nem de perto nem de longe uma pessoa tão completa, tão sã de cabeça e de tão bom coração. Vivo com um tesouro. Sei que deveria ter diluído os elogios em prosa mais cuidada, ele merecia, mas sabe que vive com uma mulher meia brutinha. Alguém tinha de ser bruto cá em casa. E nisso nem com o Ritz posso contar. São uns mimalhos.
- O que é esta segunda-feira?, de 21.08.23
O verbo eleito é podar.
Diz o dicionário tratar-se de cortar ou desbastar o inútil. Quem viveu no meio de árvores e vinhas ou quem por elas tem gosto facilmente compreende a dor associada ao método - mimetizado da Natureza - de favorecer o crescimento e fortalecimento das plantas.
Transmute-se a ideia para a educação do ser humano desde a infância. É custoso nos dias de hoje, em que vinga certa visão de liberdade desprovida da correlativa responsabilidade, compreender a ideia de sem sofrimento, sem escolhas e desbaste do inútil ser difícil educar um homem ou mulher completo. Consciente de si e do seu papel e real valor no mundo – nem mais nem menos do que é. Por exemplo, nem transbordando auto-estima e arrogância tão incentivadas pelas modas actuais, nem tolhido pelo dispensável sentimento de incapacidade de fazer valer a sua palavra e vontade.
Não reajo bem a quem despreza e ridiculariza os consensos ou encontros de visões díspares como se fossem prova de moleza de carácter. A virtude está amiúde no meio-termo. Nem aprecio quem fala e escreve em ponto final, cheio de si e das suas certezas. Desde o erudito a falar de cátedra ao simplório a tentar impôr o que ouviu dizer. Incomoda-me quem por incapacidade de chegar ao outro (não de forma leviana e artificial para inglês ver), por desconhecimento do mundo do outro, se refugia na soberba das verdadizitas blindadas expressas em palavras ou imagens manipuladas através das quais insulta ou despreza. O estímulo a ser afirmativo a toda a força, que vem estando na moda nas últimas décadas, repito, o estímulo a ser afirmativo custe o que custar, tendo-se democratizado, implica incapacidade de aprender e reconhecer sem razões oportunistas o valor alheio e contribui para um mundo de mera aparência de conhecimento. Como se o sarcasmo ou a presunção de cientificidade ou a convicção conferissem verdade às resolutas afirmações produzidas. Estes são traços de vidas de moldura, boas apenas para fazer figura.
Se é pateta catalogar a timidez como defeito e explicá-la com lugares-comuns como a falta de amor e compreensão – fruto destas psicologias lifestyle que governam a mentalidade dominante -, não é menos verdade que o incentivo à afirmação individual deve acontecer desde cedo. O que não invalida que se ponha travão ao desembestar de vontade inconsequente. Só assim um ser humano adulto compreenderá o que é o conflito de interesses e terá consciência do peso relativo dos interesses em jogo, próprios e alheios, em vez de produzir apreciações tontas e agir de modo desprezível e egoísta sem disso ter consciência. Não é de protótipos de palavreado inútil ou de "paradigmas" de felicidade nem de criar máquinas bem-sucedidas que falo, mas de ajudar a educar homens e mulheres dignos.
Para lá da sorte - de também ser fruto das circunstâncias e da arbitrariedade da Natureza - o carácter forma-se da poda feita na educação.
Adenda. Duas notas extras.
- Este postal não trata de poda estética.
- Um corte mal feito na poda pode implicar a morte da planta.
Setembro
- Diário, de 02.09.
Sim: sol, chuva, vento, praia, serra, árvores, plantas, bichos, passeio, conversa, música, nado, leitura, comida, tudo isso e muito mais te agrada e ganhas bastante tempo a fazer aquilo que te dá satisfação. Chegas a ter o topete de tirar prazer de trabalhar. Sim, a lançar conta-correntes e outras tarefas desinteressantes para a maioria. É-te fácil ter prazer, não há como dizer de outra forma. Não defendes as rotinas à toa. Conheces o gozo que podem proporcionar se a cabeça e o coração estiverem alinhados, se não forem meras fugas em frente. Agora seria oportuno explicar de onde vem esta aceitação satisfeita da vida. Talvez fales de um momento do passado em que por uma unha negra estiveste para deixar de ser. Como dizer isto sem soar a lamechice ou pensamento inspirador da treta. Quando compreendeste que um movimento teu só não pôs fim a tudo por um rasgo do acaso ter mudado a rota do destino num ápice e que para o bem e para o mal não és inteiramente senhora de ti, começaste a reencontrar um fio que une o todo e te empurra dia após dia, dificuldade após dificuldade, alegria após alegria. Primeiro a muito medo e à medida que os anos foram passando, cada vez mais a recuperar a segurança perdida, com reveses, hesitações e fúrias mas também com ânimo e ajudas - a vida a refazer-se.
Nesse processo lembras-te de teorizar sobre os idiotas felizes nos quais te incluías, os que ao planear e sonhar encontram contentamento, ainda que não haja concretização de parte desses desejos – seria impossível porque isto é gente para milhares de sonhos.
- O que é esta segunda-feira?, de de 04.09.23
Logro é a palavra eleita.
Valorizar tudo quanto favoreça o caminho tido por mais respeitado pelos que têm poder ou influência – por quem supostamente possui mais autoridade nas relações pessoais, profissionais, sociais. Agir sempre como se a espada da obediência ao conveniente e oportuno fosse descer sobre o corpo perpassando-o de modo fatal. Abafar e desprezar tudo quanto seja espontâneo, genuíno tomando-o por simplório e por isso sujeito ao escárnio da maioria. Confundir conhecimento e verdade com convenções herdadas, sectárias e vantajosas do ponto de vista individual - logro. Considerar que a credibilidade decorre de espécie de exibição de carta referências de quem supostamente produziu saber e partir do princípio de quem não a exibe não é recomendável senão para ser abusado, sobretudo se revelar conhecimento efectivo a ser aproveitado com oportunismo e desrespeito. Seja sob pretexto de fins lúdicos, de estímulo intelectual ou ficcional, seja com o fim aparente de exploração do conhecimento e explicação na natureza humana, entusiasmar-se e admirar a perversidade e o cinismo, considerando-os inevitáveis e naturais, tomando-os por lucidez e sagacidade. Elogiar e realçar por efeito onda sem atenção ao real talento. Agir como cata-vento sempre em busca de aceitação ou vantagem. Revelar pouca inteligência em análises levianas e nas escolhas quase sempre previsíveis e gananciosas. Confundir discernimento com manha. Eis o perfil dos(as) embusteiros(as).
Não há como fugir da realidade: isto existe e tem sucesso.
- Moralidades à quinta-feira (série), de 07.09.23
Se observarmos a vida em dois planos distintos, um mais espiritual outro mais terreno, podemos constatar algumas contradições. Quem está habituado a lidar com o espiritual e o esoterismo sabe que é costume generalizar ou relativizar a dor e o valor de cada um face a uma razão suprema que em última instância reporá a justiça. Em traços gerais diz-se: a condição humana determina que todos sofram altos e baixos, todos tenham o seu valor intrínseco. Por contraste e baixando a um nível mais mundano é inelutável recorrer à comparação, a tal que o lifestyle proíbe - artificialmente, porque vive disso -, e com objectividade compreender que a forma como cada um está no mundo e o factor sorte são determinantes no decurso da vida.
E é sobretudo importante fazer entender como é perniciosa a adesão fácil ao discurso Miss Mundo do lifestyle, que nos pretende dar a lição do (aparente) esforço ser sempre recompensado, do recurso e favorecimento da lábia e do oportunismo, do desinteresse ou repugnância pelas reais questões da justiça mascarando-as de lugares-comuns como a igualdade de oportunidades e o mérito no esforço, nos quais pretensos empenhados, trabalhadores e, em geral, indivíduos certinhos saem sempre vitoriosos por contraste aos preguiçosos, invejosos e desregrados.
Em suma, mascarar as qualidades e defeitos do ser humano, tomando a aparência por realidade, colocando tudo no mesmo patamar, pode ser um óptimo pretexto para perpetuar injustiças. Quantos mais bocejos se observam perante quem levanta questões de equidade efectiva, mais sujo fica o mundo - um lugar propício ao destaque da mediocridade.
*
Posts anteriores desta série.
Por vezes o pensamento e o sentimento até coincidem e ainda assim há animosidade vinda da pura vontade de conflito, da usurpação de valor alheio ou da necessidade de rebaixar outrem para ganhar ascendente, mais do que de picardia inócua ou reacção a alguma injustiça.
Quantas vezes esticaste as asas e cortaram-te as penas? Quantas vezes alongas as asas e arrancam-te as penas?
Enquanto tiver juízo, a cair no erro da doutrinação, farei sempre a contrario. Espécie de psicologia reversa. Dando-me como exemplo de falha, de defeito, espelhando as minhas fraquezas.
Quem lê as Comezinhas de início sabe que a crítica a quem “olha de cima da burra” é uma das mais importantes ideias deste blogue – em que faço mais finca-pé.
[silêncio]
Onde está a moralidade hoje? Para dentro. Na admissão das falhas como alerta e incentivo a ti própria para mudar de atitude a arrumar o raio das gavetas da mesinha de cabeceira, os documentos do portátil pessoal e duas das três caixas de email profissionais.
Em contraposição carimba-se os que fogem da intriga, do obscuro e do conflito como moralistas ou puritanos, já em vias de ferrados como perigosos defensores das ditaduras, pois se atentam contra os mais nobres valores ao proporem mais reflexão, mais lucidez e, pasme-se, ao terem o topete de sugerir necessidade nalguns momentos de renúncia ao argumento em prol de consenso.
Ainda que sem a posse de toda a informação e conhecimento, presumo em regra que penso melhor do que a maioria. E admito. Detesto a falsa tolerância. Odeio sentir que estão a fazer de conta que respeitam um ponto de vista só para passarem a imagem de grandes democratas, quando é patente que quem o faz, geralmente, gosta da competição ou desporto da retórica, de manipular o discurso e as acções de modo a prejudicar não quem é nocivo ao mundo, mas quem não lhe traz vantagem pessoal. E mais do que tudo gosta da zombaria e só com ela se sente gente, se sente vencedor; e só com ela esconde a solidão.
Mas contaram-te que estando um grupo de velhas senhoras a lanchar, aproximou-se uma criança pequena, franca e malcriada e dirigindo-se a uma delas disse: ui, é tão feia. Contida, a visada fez de conta ouvir pior do que de facto escutava, afagou a cara do pequenino e virando-se para a dona de casa e avó da criança disse: tão engraçadinho, o teu pequeno.
Cedo ouviste esta história antiga e, como alguns, afagaste e afagas muitas faces de desaforos de engraçadinhos(as) que insistem em achar não que és feia, mas sim burra.
- De
Afinal a moralidade encapotada não é exigível apenas aos bruxos, mas a todos, incluindo aos pregadores mais sofisticados da praça. Cada um vende a banha da cobra que tem mais a jeito e promove o protagonismo e a auto-estima à sua maneira. Escusam de se pôr em pedestais que não vos pertencem, ó eruditos da treta. Desçam à terra.
Só para dizer que hoje seria dia de Moralidades à quinta-feira, mas como sou uma bloguer de trazer por casa, não escrevi nada. Nem me vai sair nada de interesse de chofre. Deixo apenas a nota de que acordei muito mais inclinada para as imoralidades, por isso talvez não seja grande ideia fazer esfregas moralistas.
- De 25 Maio 2023.
Não sei se abra uma rubrica: moralismos à quinta-feira. Afinal gosto de sermões. Tão fora de moda. Não é nada sexy nem excitante - assim não arranjo casamento. Que maçada.
- O que é esta segunda-feira?, de 11.09.23
Muitas das questões abordadas por aqueles que são tratados como radicais das causas identitárias pelos que tenho denominado ultra-conservadores – o que é um pouco injusto com a ideia benigna conservadorismo; deveria sim considera-los agressores – são pertinentes e justas apesar de parecerem hipersensibilidades de histéricos. O mundo é ingrato para muitos sem razões atendíveis, salvo a perpectuação ou a regressão à lei da selva. A imposição da lei do mais forte por contraposição à escalada de puritanismo – e excessos de ridículo como reacção à lei do mais forte num intuito de impor lógicas bizarras que também elas estão longe de justas - tem servido de estratégica ou táctica para protagonismos políticos. Os discursos, as argumentações e as atitudes prepotentes baseadas na factualidade crua - que dão a sensação de rigor e de objectividade -, sem interpretação contextualizada de modo justo e isento, mas pelo contrário resultado de manipulação retórica, fazem parte da política no sentido menos digno.
Não são os direitos humanos e a protecção da Natureza que estão em jogo na maioria das discussões, mas a política no sentido mais rasteiro. O que não prenuncia nada de bom. Não há aqui nenhuma epopeia para apuparmos o Velho do Restelo que representaria o travão a grandes avanços, há sim a mais elementar necessidade de bom senso.
- Sonho fora de horas, de 29.09.23
Estranhíssima sensação a do sonho de hoje. Uma rapariga de sete anos sentada ao toucador com pedra de mármore e alçado de espelho, e todo o resto do quarto decorado com mobília típica da primeira metade do século XX. Uma narradora dizia que a menina sensaborona vivia com a mulher adulta vaporosa que esperava o elevador de portas estofadas de verde garrafa. A miúda era sólida e chata como a Arte Nova e observava os movimentos da mulher adulta com quem vivia, não se sabendo quem tomava conta de quem, a quem competia o encargo de manter a realidade funcional. A sensação mais impactante era a da miúda não compreender aquela pose produzida num vestido demasiado bem passado e requebros artificiais a que chamam feminidade. Interpretei como sendo eu a criança e a adulta numa projecção de maturidade incompreensível. Ou seja, ideia muito básica: éramos duas numa: a adulta e a miúda. A narradora dizia que devia escrever. Pensei que o regresso à infância é uma ideia demasiado fácil, demasiado vista. Mas bem sei que tudo depende de como pegasse nela.