Ontem ao final da tarde e noite fiz o que me tinha prometido no início da semana e revisitei o blogue em 2023 dividindo-o em quatro trimestres. Talvez devesse ter espremido mais e reduzir o tamanho das entradas, mas assim ficará. Pelo meio um jantar desalinhado com as dietas da moda: batata frita da air fryer, ovos estrelados e cogumelos de lata. Nenhum dos três elementos simples aconselhado pelo directório da alimentação saudável. Reli o que escolhi e fiquei com a boa sensação de não ter do que me envergonhar – o que não é nada mau. Ao longo destes anos temo sempre (está-me a custar escrever e falar porque me fogem as palavras, cansaço provocado pelo alheamento em que tenho estado nas últimas horas) incongruências na opinião que vou emitindo. Ontem depois de ler fiquei a sentir que já vai havendo uma estrutura. Fiquei contente comigo. O que é muito bom para quem é tão crítico.
Hoje em conversa disse isto mesmo e acrescentei que não cederei àquilo que considero serem atalhos para o reconhecimento. Se não precisei até aqui das boas relações e das referências oportunistas para dizer o que penso, formar opinião e pensamento e reduzi-lo a escrito, assim continuarei. Não vingarei à custa da vigarice. Pó, é que somos. E o resto um intervalo. Tenciono aproveitá-lo da melhor forma, fazendo o que gosto, ocupando o tempo com o que me interessa e se possível lidando com quem me quer bem e a quem quero bem. Limpo.
Se bem que a independência não se anuncia nem se exibe, menina. Ninguém é perfeito. Que maçada, isto de te revirares e mostrares as entranhas menos felizes a quem passa. Cada um sabe da sua panca. É isso e continuares a insistir em postais enormes, daqueles que quase ninguém lê. Outra maçada. Falta de respeito pelo pouco tempo das pessoas com coisas mais importantes para fazer. É como as gralhas - uma falta de respeito -, devias aprender com quem sabe de edição, de marketing e vendas. Essa gente com quilos e quilos de valor no mercado das audiências. É um aborrecimento seres assim imprestável.
Conversei também sobre um autor do século XX e dei por mim a admitir que parece castigo não fixar o nome de correntes literárias. Ainda que saiba descrever bê-á-bá o que são e recordar leituras de romances que as seguem. Será que Deus me retira aspectos das faculdades mentais necessárias a produzir o que iria contra aquilo que defendo? Isto é, argumentando tanto contra catálogos e etiquetas, estarei predestinada a nunca conseguir etiquetar?, apesar de saber descrever com alguma minúcia o que define o rótulo? Seria uma forma de “provar” o quão aparentes podem ser os rótulos e catálogos se desprovidos de efectivo pensamento e sentimento sobre a realidade que lhes subjaz (para a dupla pensamento/sentimento que tantas vezes uso, vale o comentário feito mais abaixo a propósito do termo "mentalidade").
Na conversa admiti também que teria curiosidade em ler a biografia de uma monarca europeia do século XIX. Coisa rara. Sou nada dada a estas coisas. Mas o período do final do século XIX e primeira metade do século XX continua a interessar-me. Menos a política e mais – reduzamos o pensamento ao simples – a mentalidade da época (soa intelectualmente pobre a expressão, não soa?, estão tão enganados os dos dedinhos no ar da erudição). Já aqui contei que tinha ideia de escrever sobre este período. Mas não creio vá acontecer. Aliás, hoje – ao contrário do que disse em Setembro último e noutras alturas aqui mesmo no blogue - nem sei mesmo se algum dia me dedicarei à ficção. Logo se vê. Talvez fique para a reforma. Ou talvez não – quem sabe se num ímpeto qualquer que agora não prevejo, me dê a gana de saia alguma coisa de rajada. Devia ser assim simples a vida?, não é?
Só este bloco denso chamado Comezinhas já chega. Começa a bastar este livro – apetece-me sorrir, mas sem deixar um riso ou sorriso entre parêntesis, talvez por não ter feito as peregrinações dos cursos de escrita criativa e dos festivais literários, nem nunca me ter apetecido desfiar nomes de autores, obras e leituras em catadupa para impressionar incautos. Voltando à ideia de estar contente. Poucas coisas me deixam mais satisfeita em termos de escrita do que dizerem-me: és muito clara. Por razões endógenas e exógenas. Antes de tudo por ajudar a consolar-me no sentido de ser menos tola do que me sinto ou revejo. E por revelar diferença num tempo em que a confusão é geral e no qual quase todos gritam e ninguém tem razão de tão apegados estão aos próprios interesses ou visão sectária e de tal modo entram em roda livre provocada pelo imediatismo da opinião. No meio do “engraçadismo”, da suposta sofisticação e profundidade de pensamento, é bom que ainda haja gente que tenta falar claro e simples. Que apelidem o nosso pensamento de pueril, perigosamente ingénuo – é medo, o que sentem. Estavam habituados a ganhar à custa dos rótulos, das molduras rebuscadas, das boas relações e das referências interesseiras. Enfim, habituaram-se a singrar à custa da falsa profundidade de conhecimento. Sentem o chão fugir dos pés e estrebucham por medo de perderem o protagonismo e privilégios de sempre, ou melhor, por terem de dividir o palco, já que esta gente fica cá para semente, bem sabido – são as dores de crescimento de um mundo a evoluir. Sempre foi assim. Talvez evolua com injustiças e absurdos. Mas está a evoluir. Repare-se como aproveitaram o nosso argumento anti-agressividade, apropriando-se dele para enxovalharem a facção dos obsessivos identitários, acusando-os de irredutíveis, como se não fossem eles próprios que, pela dissimulação hipócrita, tanto ou mais promovem a cisão do mundo em facções e dela se aproveitam para as audiências. Se tivessem real intenção de procurar um justo equilíbrio em matérias melindrosas de liberdades individuais não insistiriam em empolar as cisões para venderem opinião com que enchem os escaparates lado a lado com os ditos puritanos radicais. Procurariam plataformas de entendimento sem insultar e diminuir a inteligência dos adversários de opinião naquilo que fosse atendível. Isto não é ser ingénuo, é agir com correcção em prol do Bem Comum. Claro que o mundo não segue nem nunca seguiu este traçado limpo – há divergências, há discussões e é impossível fugir delas a todo o tempo; há guerras -, mas a quem pensa cabe ver a realidade de uma forma objectiva e se possível imparcial e não comportar-se como se estivesse a divertir num ringue de boxe. Isso não prejudica o comprometimento com uma posição clara, antes reforça a autoridade.
Entretanto de manhã reparei que além dos botões de camélia, alguns já apodrecidos pela chuva, despontou não só a azálea com o cíclame. A nespereira apesar da chuva continua a pedir-me água. É uma borrachona, é o que é, mas dar fruto, isso, está quieta. Dei por mim a pensar que esta coisa de ter suspendido (até quando?) a ideia de compra de casa com jardim, deixa a questão das minhas árvores poderem atrofiar. Nada de grave, por enquanto têm terra suficiente. Fotografei as flores e lembrei-me também da espada de São Jorge em cima do frigorífico. O guardião do lar está impante. Bem dizia a dona L. quando ma deu que era para deixar dentro de casa. A única planta que consegui sobrevivesse dentro de portas. Das tulipas amarelas sobra só uma. Não gostaram da companhia da televisão e do Buda. A estrela de Natal dada pelo meu irmão N., que pus no aparador, sucumbiu inteira aos dentes do Ritz. Comeu-a inteira; só me deixou o talo.
Tudo coisas que me importam. Para lá disto deve haver mais temas interessantes, mas há tanta gente cheia de certezas a falar, escrever e agredir acerca deles que é escusado estar a interferir. Quando me apetecer, darei um qualquer bitaite. Pó, é o que somos. E o resto um intervalo.
Boa semana.