Mil pequenos apontamentos nas últimas horas. Na verdade, mil não. É exagero. Mas muitos. A ver se expresso o dizível nas próximas linhas escritas em andamento.
1. Por mais desejemos a paz nas nossas relações quotidianas e tenhamos sido educados no respeito pela harmonia das ditas, estamos sempre sujeitos a ver-nos enredados em más palavras e atitudes de quem, por muitas virtudes tenha, não foi educado a respeitar o próximo.
2. Sempre houve fala-baratos. A diferença é que agora são cada vez mais, têm mais anos de instrução escolar e televisiva e não estão sujeitos ao juízo de censurabilidade pela falta de bom senso. Antes pelo contrário qualquer rol de patetices ou alarvidades fica legitimada pela liberdade de expressão. Vale apenas a lei do mercado: havendo audiência, está legitimada.
3. A convicção de que se está a fazer uso do direito à opinião e se está a ser inteligente criticando os malfeitores na defesa de um mundo puro de paz e amor expressando banalidades sem sentido que replicam lugares-comuns de discurso Miss Mundo está muito em voga. Algumas conversas, textos e comentários parecem reproduzir letras de música hippie. É tudo muito bonito tirando o facto da realidade ser bastante menos linear e estúpida - estúpida no sentido de incapaz de compreender os custos da vida: a paz e o amor não nascem do nada nem o dinheiro vem da árvore das patacas.
4. A convicção de que se tem opinião acerca de política (na realidade sobre os políticos), noções de História, de pintura, de poesia ou qualquer outra matéria pode fazer muito bem a egos ingénuos e/ou convencidos. Sobretudo se quem realmente sabe tiver uma atitude condescendente ou mesmo incentivadora dessa vontade de afirmação alheia. Ninguém nasce ensinado e são precisas gerações para educar a população. Tanto mais num país cujo paradigma máximo de ilustração tem sido a mentalidade propagada pela televisão e redes sociais. A desejável e respeitável democratização - no sentido do alargar a um maior número de indivíduos - do "conhecimento" comporta sempre a própria depauperação da "sabedoria" e é legitimo fazer estes reparos pese embora o respeito pelas benesses da melhora progressiva da instrução das populações. Isto é, devemos encarar como treino a estupidez opinativa do tipo "os políticos são todos iguais, era metê-los no Campo Pequeno e..." ou da conversão da História em contos infantis inverossímeis ou novelas de quinta qualidade como um processo na evolução histórica. Esperando que os netos dos autores dos impropérios sejam capazes de melhor. Refiro-me a muito do que é atacado pelos eruditos conservadores como ignorância (não deixa de ser) e puritanismo (absolutamente inconsciente) e vem sendo atacado como o grande mal do mundo actual.
5. Há momentos em que pensamos se chegamos para tudo. A realidade cai-nos em cima e só pedimos ao Universo que nos dê um pouco de paz e discernimento para aceitar (ou arcar) os desafios da melhor forma.
6. Dar ar é quase tudo na vida dos sempre cheios de certezas e de exigências com os outros. Nos que se acham no direito de ferir tudo e todos. No contraponto o trabalho discreto, a dedicação desinteressada não brilha nem reclama louros. Há quem destrua e busque o permanente conflito e a mentira no objectivo de alcançar protagonismo e audiência e há quem vá criando valor e apagando fogos sem nenhum reconhecimento.
7. Quantos se perguntarão porque carga de água o azedume, a ambição desmedida e o desrespeito pelo outro, ainda que associados a virtudes que até os mais penalizados por estas atitudes reconhecem, rendem mais louros e lucros do que a rectidão?