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31/08/2021

Fim do mês

Foi um dia difícil, este. Morta por jantar e descansar. 

Josh Groban

Nem sempre a crueza é maligna

Em criança doía-me a alma ver podar as árvores. Gostava daquele desmesurado verde, selvagem e inacessível aos caprichos dos homens. Golpear as árvores parecia-me uma crueldade. Cresci, e vi que entre as árvores dos meus amores a que melhor sobreviveu foi a em tempo esgalhada. Curvo-me perante a sabedoria humana.


Gosto de troncos. Gosto de vento e chuva. Impressionam-me as ventanias, os trovões e as árvores arrancadas pela raiz. Curvo-me perante a sabedoria da natureza.

30/08/2021

Piano



*




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Para a Kika, sobrinha (com uma semana de atraso). 

Embrulha, Tia

- Dei-te esse livro [1984] porque é importante que o leias. Mesmo que não seja já, por achares chato, peço que o leias mais tarde.


Sobrinha [16 anos acabados de fazer] - Eu sei que é. Quero ler. Um amigo meu leu e já fez um trabalho sobre ele - gostei muito. Oh Tia, eu já li a Utopia, de Thomas More.


- [rendida] - Olha, vê lá a tshirt. A saia tens até ao fim do mês para trocar.

Sina

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Porque será que tinha um palpite que no próximo Sábado estaria céu nublado? Pode ser que o IPMA se engane.

29/08/2021

Cegueira

Recordo como encarei o Nuno vendo-o cego pela primeira vez. Tinham passado 9 anos desde que nos despedíramos numa noite chuvosa que doeu. Há separações que despedaçam. Lembro-me de brincar e dizer que me parecia o Tim dos Xutos&Pontapés por causa da cara bolachuda: tinha conhecido um homem novo, muito alto e muito magro e encontrei um homem robusto e bem instalado no início da meia-idade. Não foi a cegueira que prevaleceu, mas essa diferença de peso. Tal como a maioria das pessoas tinha algumas minhocas na cabeça sobre a condição da cegueira e das tragédias. A convivência com o Nuno foi dissipando uma a uma.


Ah, quando há um acidente e se perde a visão há necessariamente uma revolta profunda – e depressão -, um período de luto e a aceitação. Tudo certo, senhoras psicólogas que o tentaram convencer após acidente, para fúria dele, que tinha de estar muito triste e deprimido. O certo é que, apesar de não acreditarem, ele estava feliz por estar vivo apesar de tudo. E genuinamente agradecido à equipa hospitalar que o salvou contra todas as expectativas. Custava-lhe, como continua custar apesar das melhorias, infinitamente mais a falta de memória - severa e também decorrente do traumatismo - do que a falta de visão. Temos a mãe dele e eu muito mais revolta do que o próprio, que dá sempre bom tempo – como diz o meu pai. A psicologia nem sempre consegue perceber a lógica das pessoas que vêem a vida com inteligência e pragmatismo: o Nuno tem como sempre teve inúmeros interesses e dedica-se ao que gosta de fazer, lutando para superar as contingências – naturalmente, muito aumentadas pela cegueira. Não podendo dedicar-se a desenhar, pintar ou fazer animações como gostava, não tenho memória de um dia em que não me tenha falado de uma música ou pauta nova que descobriu ou redescobriu e editou, ou numa leitura de descoberta ou redescoberta da ciência, ou dos avanços (e recuos) tecnológicos etc. Salvo afastado dos instrumentos musicais, não há dia em que não toque piano, sintetizador ou guitarra. Não se tem por grande intérprete, pelo contrário, diz sempre que é razoável, pela consciência que tem do que é ser um virtuoso. Não deixa de tocar por isso. Não deixa nunca de tentar saber mais e ser melhor nos seus interesses.


Ah, a imagem de certo cinema: os cegos pela condição a que foram sujeitos tornam-se azedos e manipuladores. Se azedume é isto vou ali e já volto. Só quem não conhece o Nuno, não percebe a ternura de homem que é. A permanente preocupação com os seus. A sensibilidade com tudo e todos quantos mereçam. E o bom feitio colossal – única razão para me aturar com infinita paciência. É evidente que cada um tem sua a natureza e não é a cegueira que vai transformar uma boa pessoa num traste. Há uns anos desenvolvi a teoria de que a visão distorcida e estereotipada dos cegos, dada por alguns, tem a ver com o egoísmo próprio de certos espécimes que convivem com pessoas sem visão e não conseguem superar ou de quem nem sequer se consegue aproximar com o medo do que acha esquisito e desgraçado - abandonando um amigo, nalguns casos. Deve ser uma forma de fazer da vítima bode expiatório para remir a culpa que se carrega.


Ah, os cegos têm limitações de inteligência e têm vidas pobres e trágicas. É certo que actualmente evoluímos muito nesta matéria e a maioria das pessoas sabe lidar com a situação, mas ainda assim não é raro tratar-se uma pessoa sem visão como estúpido. E peço que não se ofendam com o que vou dizer a seguir porque eu própria enfermei de algumas palermices destas e o próprio Nuno reconhece que antes de perder a visão sofria de alguns preconceitos. Tudo se deve ao hábito de encarar quem não vê como um ser estranho e desgraçado e não tão simplesmente como uma pessoa como outra qualquer com a contingência de não ver. Há pessoas que falam mais alto - deve ser para ver se os cegos vêem melhor. Aliás, o mesmo acontece face a outras deficiências. Se repararem o constrangimento conduz a várias reacções diferentes: uns desviam-se ou ficam sem saber o que dizer, outros levantam a voz para se fazerem entender e há aqueles que põem um tom de voz condescende e muito carinhoso (sobretudo mulheres) - só falta fazerem garatujas como se estivessem a falar com um bebé. Ou então são despropositada e excessivamente afáveis como se adorassem a pessoa que acabaram de conhecer – deve ser amor à primeira vista. Para todas estas pessoas tenho uma novidade: a falta de visão é isso mesmo: cegueira e não burrice ou infantilidade. Já agora aproveito para contar que o Nuno odeia a expressão invisual. Diz que não há inauditivos nem imotores e que não compliquem porque ele é mesmo cego. Se bem que as paranóias de mudar constantemente as terminologias pareça palerma, do meu ponto de vista, os cuidados podem fazer sentido por serem altamente ofensivas para a sensibilidade de cada um – e claro que é difícil acertar num denominador comum que seja o mais consensual possível. Eu por exemplo gosto mais que chamem pateta, tola ou maluca do que louca, mas a verdade é que comigo nunca arranjariam unanimidade porque amanhã posso mudar de opinião. Voltando ao que importa, é muito ofensivo ver um cego como o eterno pedinte tocador de acordeão na esquina da rua – sem desprimor para eles. O Nuno por incrível que pareça aos 6 anos - longe de saber que o destino o ia presentear com a cegueira e a falta de memória por volta do 39º aniversário - já tocava acordeão na escola do professor Maximino, em Cascais. Ao que dizem só se lhe viam os olhos, tamanho era o instrumento para criança tão pequena. Mas nem por isso lhe apetece ser visto com o eterno trágico acordeonista cego. Manias.


Ah, os cegos são infelizes. Mais, os cegos inspiram infelicidade. Quem pensa assim não sabe com certeza das gargalhadas constantes nesta casa e nas casas por onde o Nuno passa. Nem da excepcional capacidade para ouvir os problemas e dificuldades dos outros e de sempre ter a melhor palavra: de ânimo, de alegria. Há quem procure heróis sorridentes de poderes mágicos na televisão ou nas redes sociais, distraindo-se dos heróis que consigo convivem. É claro que tem momentos maus, em que se zanga com o universo e a sorte que lhe calhou. Mas esses momentos não são os mais frequentes. Mesmo. Os bons momentos prevalecem sobre as contrariedades e revoltas. Lamento desiludir os catastrofistas, mas o Nuno é um homem feliz. Houve um momento importante nas nossas conversas passadas em que eu, qual tonta a querer protagonismo na sua vida, perguntei se o fazia feliz e ele me respondeu que feliz já ele era “comigo ou sem migo” e que eu era a cereja em cima do bolo. Percebi naquele momento que era o homem certo independentemente do que o futuro nos reservasse, porque naquela altura, como agora, não o tenho por certo, nem quero que ele me tenha por certa.


Ah, isso soa a forçado. Não há pessoas perfeitas. Pois não. É alentejano, filho único e, como ele próprio diz, nascido num Domingo em mês de férias fora do horário de trabalho, ou seja, digo eu, preguiçoso selectivo. Se tivesse deixado ainda hoje eu estaria a buscar o copo de água porque o Lord não sabia ir à cozinha abrir a torneira, ou atenta em permanência às dificuldades informáticas por o menino não aplicar todo o acumulado de conhecimento nessa matéria e que é muito superior ao meu. O tanas. Os primeiros meses de convivência foram muito difíceis – perto de nova separação -, mas ficou claro que o meu mau feitio também serve para alguma coisa, como ensinar preguiçosos a fazer pela vida. Disse-lhe várias vezes que com o meu temperamento no caso dele estaria a trabalhar a atender telefones ou fazer massagens num sítio qualquer, mas o menino só faz aquilo que quer. Concedi. Somos diferentes. O Lord – que se diz sempre um parolo vindo das berças – habituado a trabalhar em tecnologia, a desenhar, a editar música, a tocar, a compor tem o direito a não se sujeitar às tarefas usualmente destinadas às pessoas que não vêem.


Como imaginam este é dos postais que mais dúvidas tive em publicar. Comecei a escrever há uns dias e terminei hoje. A parte fácil é que li ao Nuno e ele disse o que diz sempre que lhe leio um texto meu: publica. Não pode ser mais fácil viver com ele.


Cultivar e escarafunchar a tragédia é uma menoridade ou um luxo de gente ociosa e pobre de espírito.

Bichos & Plantas

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A prima do Ritz no passado Sábado cá em casa. Uma paz de alma, ainda assim o bigodes escondeu-se debaixo da cama o tempo todo. Ao fim de 6 meses só permite a companhia dos donos, dos avós e dos primos humanos. Os restantes são votados à desconfiança total.


 


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Valeu a pena dar uma segunda oportunidade à roseira que o bichano estragou. Também entrou nesta casa em Fevereiro. A ver vamos com evolui. Para já, e depois de ter sido mudada da cozinha para a varanda em vaso novo, abriu um botão este semana. 


A táctica de deixar uma brecha estreita da porta da varanda aberta já não funciona. Quando acordo, sinto o sacana do gato regressar, abre a porta com a pata e vai lá fora arejar. O drama é se - como fui avisada - vê um pássaro ou insecto e faz um vôo para a eternidade.

28/08/2021

Casos e casinhos

António Costa em entrevista a José Manuel Mestre no momento da referência ao caso do atropelamento mortal pelo carro em que seguia o Ministro da Administração Interna.


O ardil com que inverteu a razão: o choradinho para impressionar a população, quando por dentro há apenas e tão só manha e hipocrisia.


Sei, é muito fácil falar em oportunismo em casos de acidentes. Sucede que gente responsável assume a responsabilidade, não se escondendo atrás de inquéritos ou averiguações, muito menos fazendo circular atenuantes para quem seguia no carro e culpabilizantes para quem se encontrava a trabalhar.


Não me venham falar em bazucas & reformas: acabar com estes desaforos seria a reforma das reformas.

Sonho

Disseste a um jovem que as angústias tendem a dissipar-se com o passar dos anos e o que hoje parece insolúvel dentro de dez ou vinte anos perde o peso. Saíste do elevador e entraste no centro comercial que conheces dos sonhos – é um luxo a tua vida, até nos sonhos tens centros comerciais a que pouco vais, diga-se. Percorreste os corredores e havia primeiro uma loja de artigos para o lar, estranhos e brilhantes, procuravas talvez um pequeno prato de adorno ou cinzeiro, não sabes bem. Passaste adiante e entraste na porta lateral de outra loja – tinha duas e a do lado de lá era a principal. Viste que o piso tinha desenhado uma espécie de planisfério, mas como se fosse um mapa de estrada aberto no chão. Começaste a andar e logo se aproximou a funcionária da loja – não fazes ideia o que vendia por não teres tirado os olhos do chão. Explicou que só podias andar “nos caminhos”. Ou seja, nas zonas dos oceanos e em rotas marítimas que pareciam estradas desenhadas de alcatrão azul. Ficaste nervosa, porque distraída saías das rotas, calcando as zonas de terra. Começaste a sentir cair o cabelo. A menina elucidou que cada vez que calcasses terra, cairia o teu cabelo. Passaste a mão na cabeça e saiu um tufo, deixando uma entrada grande no lado direito. Pensaste que tinhas que sair dali rápido.


Este foi o sonho de hoje. De vez em quando tens sonhos assim, cinematográficos.

Estratégia destrutiva

Acusar quem escreve sobre o dia-a-dia, comportamentos e sentimentos – e quem usa a franqueza – de estar a tratar de menoridades e de fazer perder tempo aos outros. Tomar-se por ilustre e refinado pensador sobre as questões fundamentais da vida sejam elas quais forem: política, economia, arte, literatura, religião, desporto etc, sem perceber a sua própria mesquinhez de espírito e incapacidade de ver o mundo ao espelho. Reparar apenas no rebusque da moldura doirada do espelho sem entender o que o dito reflecte. Não perceber que o essencial da vida pode estar nas pequenas ideias e gestos.


Esta é a atitude de alguns intelectuais – curiosamente, também é o ponto de vista de muitos incultos, que fazem lembrar aqueles que não sabendo latim preferiam que as missas fossem celebradas na língua morta por ser mais bonito. São a base de pirâmide dos aduladores dos arautos da sabedoria.


Se são agressivos, além desta acusação procuram culpar alguns – sobretudo algumas – de buscar protagonismo. Tentando fazer com que se sintam inferiorizadas por alegada ignorância, pretensão e futilidade. E, claro, despropósito.


A regra é o pessimismo e a negritude. Num certo paralelo com a lógica do “um relógio parado está certo duas vezes ao dia”, estas pessoas parecem estar convencidas que é sinal de inteligência e sabedoria ver o lado perverso da realidade, como se acautelassem contra as traições da humanidade e do universo. É pena que, como eternos adolescentes rebeldes, não percebam serem elas próprias elos do universo. Ser lúcido e clarividente não é ser destrutivo e defender a inevitabilidade da ruína do mundo e das relações humanas. Não é entrar em processo de autodestruição sugando para a tormenta quem rodeia – refugiando-se e enaltecendo um paraíso perdido no passado que nunca existiu. Para isso não é precisa grande inteligência: qualquer alcoviteira faz o enredo da vida e qualquer carpideira dá eco ao fim certo de cada ser humano.


Procuram rodear-se de iguais. Gente igualmente convencida da sua superioridade e cultora da agressividade, que condena sumariamente todos os ignorantes da base da pirâmide intelectual. Precisamente os que os sustentam.


No fundo, o que está em causa? A necessidade de amesquinhar e acusar outros de imperfeição, ao mesmo tempo que com grande proa e sofisticação se diz ser contra moralismos – a maior das falsidades. Ao mesmo tempo que se pretende fazer passar a imagem de grande conhecedor da complexa e imperfeita natureza humana.


Moralistas, antes os que se assumem como tal. Nada pior do que amantes da devassidão a perorarem sobre o que devem ou não devem fazer os ignorantes. Se gostam tanto e é tão boa a podridão que fiquem por lá. Estranho é que sejam tão infelizes e cultivem tanto a infelicidade, sua e dos outros.


Para alertar para os perigos do populismo, do fundamentalismo, do relativismo, da corrupção e de toda a sujeira do mundo basta denunciá-los, não é preciso espezinhar os outros nem dar provas de podridão, como ser fosse necessário para ascender ao patamar de ilustre conhecedor da natureza perversa do homem.


Este texto foi escrito na decorrência de vários eventos não relacionados entre si, não se dirige a ninguém, nem pretende ofender ninguém.

27/08/2021

Assim são os meus dias

Pergunto qual a probabilidade de - em mais um dia de greve dos STCP - pedir o segundo Uber do dia – algumas das idas e voltas faço-as a pé – e este demorar-se por ter ido parar, sem perceber de antemão, a um velório numa igreja incumbido de entregar um envelope com documentos à pessoa “X”. Perdido na igreja sem saber a quem entregar, veio a saber depois que a destinatária do grosso envelope era a filha do falecido, que chorava sobre o caixão.


Acrescento apenas que o motorista é um simpático dentista brasileiro.


O mais incrível é que não preciso criar ou imaginar situações. Acontecem, tão só.


Assim são os meus dias.

Está quase

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26/08/2021

A estratégia doente

Ter blogues sob pseudónimos femininos. Aproveitá-los para manipular e à traição conseguir informações e inspirar sentimentos de compaixão ou amizade de alguém que “conhece” e de boa fé acredita estar a falar com uma desconhecida. Há homens para tudo.


Isto narrado desde início (são mais de duas décadas) dava uma novela infame. 

Uma versão das coisas

Visto à distância o que te aconteceu em 2007 foi uma coisa do género: bom, minha menina, vais desacelerar e atinar ou queres que te mostre o filme da vida a mil à hora?, disse-te o cérebro. E tu, que andavas distraída dele – do miolo –, nem o ouviste. Aliás, desafiadora: deitaste imprudentemente a língua de fora. Ressentido da falta de atenção e desaforo – os cérebros são uns peléns manientos -, o filho da mãe ligou o sequenciador dos frames da vida a mil à hora, com a particularidade de te mostrar a película sem a confortável convenção “tempo”, i. é, imagens de passado e futuro cruzaram o presente em sequências de flashes baralhados. Ora, parecendo que não a noção de tempo está cá para dar sentido à vida e uma certa paz de espírito, pelo que podes garantir não ser coisa apetecível cair nesse tufão – usar a imagem de buraco negro seria demasiado fácil. Sê suave na linguagem: custa um niquinho e é desagradável.


Saíste de lá outra. Como se tivesses sido torcida na centrifugadora Miele, talvez o teu electrodoméstico favorito em criança, a rivalizar com as máquinas de café. Durante cerca de um ano estremecias inteira, quando recordavas o momento mais violento do furação.


Ah, acelerar o coração melhora a condição física. Ah, é preciso confrontar, é preciso arriscar, é preciso viver. Está bem, abelha. Se quiserem, podes sugerir métodos mais radicais - pode ser que achem divertido, nunca se sabe.


Sopas e descanso, é o que mais te apetece dizer hoje.

Trabalho

Interrompo o “emailar”, olho para o relógio [10h45] e penso: tens 15 minutos para escrever um postal sobre o que estavas a pensar.


Li há pouco tempo que Elon Musk – creio que é ele, senão for será um outro crânio multimilionário da tecnologia – diz querer libertar a humanidade das tarefas aborrecidas. E volto à mesma tecla. Sempre que oiço a conversa do sacrifício das tarefas rotineiras, aborrecidas e do ódio ao trabalho menor, irrito-me por dentro. Às vezes, quem o diz são pessoas que estimo por isso tento distender os ânimos.


Fico sempre a pensar que espécie de auto-estima insuflada têm as pessoas que se acham superiores ao rotineiro e ao trabalho dito estupidificante. Acredito que todos os que trabalham deveriam fazer algumas tarefas rotineiras diariamente a bem da disciplina e da saúde mental. Quanto mais não seja para ficarem mais situados e não se acharem pequenos deuses, a quem o Universo conferiu poderes especiais sobre os outros e sobre a natureza. Sei, há qualquer coisa que assusta: “o trabalho liberta” tem de facto a pior das reputações. A questão é que agora a ameaça está do outro lado: agora querem libertar-nos da própria natureza humana. A humanidade anda sempre atrasada em relação aos perigos. Presa ao que já foi, vê sempre as profecias no lado errado.


E acabei às 10h59. Falta publicar.

Jimi Hendrix


Esta manhã, estamos nisto. Há muito para "emailar" - já não sei a quem ouvi este termo. Fará mal ao cérebro ter o auricular tantas horas apenas no ouvido direito? O lado das enxaquecas. O lado das 14 dioptrias.


(questões fundamentais da existência.)

25/08/2021

Ao dependuro

Começo a acumular esboços de inícios de postais - são isso mesmo. Além dos que ficaram mais lá atrás, deixei ao dependuro quatro. Prefiro que saiam de rajada – o usual nas Comezinhas. Quando ficam em banho-maria das duas uma: não são grande coisa ou não estou certa de publicar e acabo por não escrever tão rápido quanto devia.


Por não ter a certeza de chegar a terminá-los, vou limitar-me a elencar os temas dos primeiros três:



  • a demarcação de comportamentos, termos e gostos populares por necessidade de afirmação – ideia recorrente;

  • a escrita nas três pessoas verbais e

  • compaixão, um sentimento fora de moda.


O quarto acabarei por publicar mais tarde, por isso vou fazer caixinha.


Não sei se repararam mas faço deste blogue o meu moleskine a céu aberto.


O tal que não tenho.

24/08/2021

A batota a aumentar

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Há anos tinha a ideia de adquirir os manuais de Matemática do 1º Ciclo ao 12º ano com dois objectivos: antes de mais reavivar o que aprendi e estudar o muito que nunca cheguei a saber, mas também exercitar zonas do cérebro embrutecidas – nos anos 70 defendia-se que o hemisfério esquerdo correspondia à lógica e o direito à emoção e criatividade - como ilustrado na imagem abaixo -, conclusões científicas que tem vindo a ser postas em causa.


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Depois pensei que já há plataformas digitais para estudantes com exercícios de matemática e possivelmente seria suficiente. Eis senão quando me deparo com mais um livro da série Para Pessoas com Pressa (um maná para a editora e uma preciosidade para quem gosta de saber das coisas ao menos pela rama, como eu). Posto isto, depois de acabar o tomo da Filosofia - que acompanho com o Marías por perto além das incursões na internet -, pode ser que me atire à Matemática. Tudo devagarinho e intervalado com o resto para não me cansar.


Ainda não esgotei esta colecção, mesmo entre os que tenho em casa. Céus, duas vidas não seriam suficientes para as coisas que quero fazer. 

Boa disposição

Isto da Missa ser machista - juro que não consigo dizer isto sem me rir muito -, faz lembrar a prisão do Al Capone por fraude fiscal.

Andrea Lam


Por falar em conflitos de alma, luz e sombra e heteronímia. 

Sono tranquilo

Pousaste o livro e pensaste: este fulano vai ter um triste fim. De nada lhe valerão os múltiplos pseudónimos ou máscaras masculinas e femininas. Não tem alma: viveu fajuto e há-de morrer fajuto. Pensaste uns segundos sobre a repulsa que sentias, ciente que não precisas de te preocupar: quanto mais cerca e maça quem não pode atingir, mais consciência tem do triste fim que o espera e do legado de cobarde falhado com pretensão a talentoso escritor que vai deixar. Nada se aproveita, só sobra marketing. Perdeste mais uns segundos para contar há quantos anos deduziste de quem se tratava, e como na altura te achaste estúpida por teres feito figura de urso. E quão rídiculo é este jogo demente que quer jogar. Podias desaparecer mais uma vez para não aturar o tarado, mas não te apetece. Comeste uma laranja seca e foste dormir o sono tranquilo.

Sándor Márai

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23/08/2021

Orelhas de burro

Assustaste, assustaste, assustaste, assustaste, assustaste, assustaste, assustaste, assustaste, assuntaste, assustaste.


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Não liguem, estou outra vez de giz em punho no quadro de lousa por causa de um erro há alguns postais atrás. O pior é que quando escrevi, reparei no erro, mudei, hesitei e voltei a grafar mal. E como já contei: já li a regra "quinhentas vezes". Há momentos em que faz todo o sentido e escrevo direito, noutros esqueço, perco-me e já não sei nada. Assim sou: não sei escrever sem erros, nem viver sem erros, e tenho a certeza que nunca saberei. 

Mafalda Veiga


É oficial, hoje as Comezinhas estão num registo fora do habitual. E também sabe bem. O único problema é que a música e a voz da Mafalda Veiga, a quem as origens alentejanas se notam tanto, me fazem trabalhar lerda - mesmo devagarinho.

João Pedro Pais


Nunca percebi a desconsideração por João Pedro Pais nos meios "sofisticados". Compõe. Faz boa música e sabe cantar, ao contrário de gente que oiço miar cançonetas pré-fabricadas. Não há justificação, senão a habitual adesão fácil ao artifício. Ou, dito de outra forma: o medo da simplicidade - medo que merece por si só um postal, quando houver tempo.

Boa semana

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U2 & Patti Smith

Tropeçar nos próprios pés

O problema dos que alicerçam a vida no disfarce julgando os outros estúpidos por contraste com a enorme sofisticação e profundidade que acreditam possuir, é não poderem fugir da consciência: por mais elástica que seja, espelhará sempre a falsidade.

22/08/2021

A busca e o acaso

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(Porto, 25 de Dezembro de 2019)


*


Dei por mim a pensar num lugar-comum: a vida é feita de momentos. Daí parti para a ideia-feita de que não se é feliz, está-se feliz - termo que já aqui contei não gosto de usar. A felicidade - até arrepia, só falta passar o texto a cor-de-rosa - seria então um disperso de migalhas de alegrias.


Não é que não seja verdade, também. Mas não é só isto. A aproximação da plenitude – e essa sim pode dar-se num instante concreto e intenso que se esvai, mas também se pode prolongar no tempo desvanecida, porque não sobreviveríamos a viver em êxtase – passa muito por descobrir o fio invisível que une os momentos bons e maus da vida e lhes dá sentido. Não se assustem: não vou falar de fé. Apenas na ideia de que nalguns momentos ou épocas do percurso acreditamos numa força motora que dá sentido à vida: a dor dos momentos maus atenua quando percebidos no contexto universal e os bons resplandecem.


Longe da premência dos porquês e na eterna insatisfação que mais nos define, há momentos ou épocas em que pensamos: a vida faz sentido. Esse é o contentamento.


O facto de o tempo não parar - se é que não pára, aliás, se é que há tempo tal qual o configuramos -, ou pelo menos, o facto de durarmos na sucessão de circunstâncias para além desta descoberta mágica que nos deixa mais radiosos por instantes, meses ou anos, faz com que os motivos que nos alegram se vão alterando ao longo do percurso. O que sentimos antes pode não morrer, mas transformar-se noutra coisa. A felicidade (ai, outra vez) que descobrimos antes pode não morrer enquanto houver memória, mas a natureza verga-nos à eterna insatisfação, que mais não é senão a busca do contentamento.


O que importa na vida é a busca tantas vezes inconsciente e fortuita, que ora desemboca no desencanto ora no encanto.

Computadores

Ainda sobre os estragos ocorridos pelas actualizações automáticas do Windows, que creio serem gerais e, por isso mesmo, haver muito quem tenha estado com estes constrangimentos no computador nos últimos dois meses, acrescento apenas que falei hoje com o informático da família a quem relatei os passos que segui na semana passada. Estes: aqui, aqui e aqui. Disse-me que é o que se faz e não há muito mais a realizar. Sugeriu que se salvaguardem as aplicações que se querem manter numa pen/disco externo, e alertou para o cuidado que é preciso ter na actualização da BIOS, uma vez que se for interrompida por quebra de energia pode avariar a motherboard (a placa do pc vai ao ar). Tive sorte: ao menino e à atrevida, põe Deus a mão por baixo (não sei se correu muito bem, soou estranho).


Certo é que tenho o computador a funcionar livre das aplicações de sistema impingidas pela Microsoft desde Junho, impossíveis de desinstalar na opção normal acessível através do Painel de Controlo, e que fizeram com que a máquina quase deixasse de funcionar.


Não gosto de desbaratar recursos. Não faço um uso muito exigente dos computadores pelo que nunca esbanjei na compra de aparelhos com características superiores às que preciso. Resumindo, tive sempre os básicos, e chega.


Até hoje possuí quatro computadores pessoais. O primeiro, um velho HP de mesa herdado de um irmão e já com muitos quilómetros. Até 2001 usei-o apenas para fins particulares, a partir dessa altura também para fins profissionais. Em 2003 feneceu com as cabeças do disco atracadas. Disseram-me na altura o arranjo implicaria enviar o disco para os E.U.A e a brincadeira custaria alguns milhares de euros. 


Entre 2003 e 2011 tive um portátil de que vergonhosamente não sei a marca. Sei que tinha um processador Intel Celeron e era prateado - estou como aquelas pessoas que me perguntam: qual dos meus carros? O preto ou o prateado? - Morreu com o mesmo drama: pifou o cérebro (cabeças do disco atracadas). Afirmaram na altura que o arranjo já se fazia em Portugal, em Lisboa. Já não custava milhares de euros, mas ainda assim achei que não valia a pena. Perdi música e fotografias. A primeira fácil de recuperar, as segundas não, mas não vale a pena chorar sobre leite derramado.


Entre 2011 e 2018 tive um portátil Toshiba que ainda respira, apesar dos maus tratos físicos que lhe dei. Tem o plástico completamente rachado e aberto junto às dobradiças, e apesar disso não atingiu a entrada da alimentação nem nenhum dos outros componentes, pelo que funciona.


Achando que ia ficar sem ele a qualquer momento, em 2018, comprei o Lenovo que uso hoje. Espero que me dure pelo menos mais cinco anos.


Profissionalmente perdi a conta aos computadores que utilizei. Nunca nenhum morreu às minhas mãos (espero que dizer isto não azare). Mas rato já matei um. E aos teclados como a tinta da letra "a", às vezes, de outros caracteres. Há uns anos entornei um café inteiro com açúcar, andei meses a desprender teclas coladas. E já derreti um "agá" com um morrão de cigarro (fumava um agora, oh se fumava).  


Para quê escrever isto? Apeteceu-me, e chega.


P.S. Ah, lembrei-me agora que antes do HP (anos 90), nos anos 80 tive a meias com os meus irmãos um zx spectrum. Quase não conta, para mim serviu, basicamente, para jogar: chuckie egg, match point e snooker. Afinal, foram cinco computadores.

Diário

Ontem, dia muito cheio depois de uma madrugada carregada. A falsidade seca-me a alegria.


Cedo foram as arrumações e ao fim da manhã a Betel veio buscar a antiga cómoda que habitou a minha infância. Troquei-a por uma do Ikea, que chegou à tarde. O quarto cheira a novo.


À tarde a sala tornou-se mais viva: a Pipa, prima do Ritz, veio visitá-lo, mas ele qual malcriadão bicho-de-buraco enfiou-se o tempo todo debaixo da cama e não deu cavaco. Ela bem foi lá farejar e ele nada, que sou um gato muito destemido mas é quando enfrento os donos já domesticados à conta das minhas diabruras e gracinhas.


Valeu a conversa.


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Hum, já tenho o jarro para regar as plantas (sim, ele é mais  usado como jarra para colocar flores). Para o efeito que quero foi mal calculado, tinha ideia de o ter visto maior. Foto do Ikea.


 


 


Desde manhã pensei numa série de textos, muito longe dos que publiquei. É um mundo de coisas a dizer, se bem que começo a aperceber-me que a maior parte é vício de dizer tudo, o que não faz sentido. Ou, então, faz todo. É um novo género muito em voga: a escrita incontinente.


E estamos nisto.

Amor

Não te declaraste com grandes e bonitas palavras – não eras grande conquistador -, mas quando decidiste ir embora sabia que me amavas. Senti dignidade no teu olhar, meu mouro encantado – mais tarde Deus roubou-te a visão e não O perdoo. Regressaste sem me temer, nem estranhar. Trataste-me como igual, como iguais que somos.


São tantas as vezes que não percebo, por perceber além do que é. Tantas vezes precisei que me mostrassem o que é aquém do que é. Cansava-me tanto ver sempre além. Pedi ajuda e deste-ma. Fiquei a saber como o mundo vê o além, aquém.


Supostamente corri perigos comezinhos como passar anos a fazer o percurso casa trabalho a pé, nalguns troços mal iluminados. Preocupaste-te genuinamente comigo, quiseste que mudasse o percurso - o amor está nas pequeninas coisas. Transporto um fardo pesado e não te assustaste; compreendeste-me como ninguém. A preocupação mútua foi uma constante de vinte anos, apesar dos muitos de distância.


Aprendeste a dizer todas as palavras bonitas que trocamos. O que sinto por ti é mais do que palavras bonitas: é carinho, admiração e gratidão. É amor.


E isto é tão só a verdade.

21/08/2021

Criar

É vulgar o desdém pelo discurso reflectivo na primeira pessoa. Cansa, molesta olhos e ouvidos pragmáticos. Invoca-se a necessidade de distinguir o que é – a famigerada realidade que parece luxo só ao alcance de espíritos instruídos, lúcidos e práticos - para além da pequena e egoísta sensibilidade de gente envolta em devaneios estéreis. É mais fácil gostar de histórias com intriga: relação, drama, comédia. O enredo é apelativo e vende. Seduz multidões de curiosos. Se não há encontro e desencontro, desavença, julgamento e ironia, o que sobra? Tédio.


É muito difícil reflectir a humanidade sem pretexto. É mais fácil usar outro. Quantas paixões e amores inventados servem de mero efeito estilístico?


Se tomarmos o regresso à infância, os devaneios amorosos, o mistério do Universo e a clarividência da morte como alguns temas sobre os quais tarde ou cedo nos debruçamos, pergunto-me para quê usar o outro. O outro é isso mesmo: mais um ser humano feito de dúvida, sonhos e desencantos. Não é uma muleta. Criar não é isso com certeza, nem amar.

Sair de mim

De tanto vaguear no lado de fora, aprisionei-me dentro de mim. Podia jogar com as palavras, intervalando o sujeito entre eu, tu e ela, fazendo de conta que mais alguém havia. Mas neste caso não: sou só eu e a minha solidão só. De tanto bater as asas, viciei-me na liberdade.


Perdi o sabor do vento, como um fumador vai perdendo o gosto aos primeiros cigarros. Lembro-me em novita de parar alguns dias de fumar, só para que o cigarro me voltasse a saber ao primeiro. Aquela espécie de violência no palato que depois de travada, abre os pulmões.


Assim é a liberdade. Se viciada, acaba por não sentir o movimento. Precisa que lho contem: não por vaidade e longe de ser virtude, saber que ainda sou livre no que já não sinto é tão só ser quem sou.


Perguntei ao bom senso como poderia sair de mim. Disse-me que seria pela vontade: como acordas à mesma hora, tomas banho todos os dias, escovas os dentes. Pois, disciplina, respondi. Como te habituaste a dormir comigo, foi assim mesmo que mo disse.


Partimos depois para o concreto. Talvez ler mais o que é de ler: livros em vez de opiniões. Séries, filmes. E pensei eu: voltar a ver e ouvir saindo de mim.  Voltar a sentir.

Chata

Suponho que escreva como converse e o faça como se fosse morrer amanhã e precise passar testemunho. É inevitável ser chata. O que me faz sentir é o que sou: bem sei, há todo um mundo para lá de mim, que me fica aquém. Poderia tentar não maçar, mas abdicaria de mim e, simplesmente, não sei.


Bem sei que, em princípio, não morrerei amanhã nem o que diga interesse por aí além. Mas ou escrevo e converso como se morresse amanhã, ou serei silêncio de ninguém.

20/08/2021

Bom fim-de-semana

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Desabafo

Estou a trabalhar, tenho muito que fazer e só me apetece dizer: tu cansas-me, "rapariga". De cada vez um vestido novo. É muito engenho e sacanagem, como dizem os brasileiros.

A ler


 



Por muito que os líricos lusos desdenhem sempre do "economês", seria bom que o percebessem. Convém não ver só o que está à mostra, mas o fundo do prato, sem nos deixarmos ficar na literatura, por mais badalados sejam os livros que por revoadas fazem as modas dos escaparates, fazendo por conhecer a fábrica da realidade. 


O que mais aprecio nos britânicos é que para lá da arte dos subententidos que tanto gostam usar na ficção, no jornalismo discorrem a direito e sem peias. Digo isto sem tomar partido por esta visão. Mas gosto que me expliquem o conjunto para ver se percebo alguma coisa.


«Xi Jinping’s crackdown on China’s entrepreneurial class, prioritising the state’s continued authority over the forces that have helped power the country’s growth, strongly suggests that viable alternatives to the US are still a very long way off. Culturally, economically, and technologically, America remains a formidable force on the world stage, with repeatedly proven powers of regeneration just when everything seems lost. Politically, the US appears paralysed and divided, even broken, but America’s great advantage – its ability to attract the brightest and best of the world’s human capital – remains undimmed. Few with any choice in the matter are going to opt for Beijing over San Francisco.


Two dud presidents in a row, both apparently incapable of providing credible leadership – first Trump and now the clueless Biden – won’t fundamentally change that calculation.


Rewind to the 1970s, and we find similar narratives as those seen today on the inevitability of American decline. The decade began with the upheaval of the “Nixon shock”, the deliberate destruction 50 years ago this week of the Bretton Woods system of fixed exchange rates that had ruled since the end of the second world war. The whole construct depended both on US policing and on dollar convertibility into gold, and therefore seemed to symbolise America’s dominant position in the global monetary system. At the time, Nixon’s act of apparent vandalism was widely decried as an abdication of the US’s international obligations, and therefore the end of US economic hegemony.


As it turned out, it was neither. By shutting the so-called “gold window” Nixon was merely recognising that a bit like the euro today, maintaining a system of fixed exchange rates that worked for all had become all but impossible, that it was creating unsustainable distortions in trade and capital flows, and that by denying the natural market adjustment mechanism of free floating exchange rates, it was dividing nations one from another rather than unifying them as intended.


Far from destroying dollar hegemony, Nixon’s decision eventually came to reinforce it, laying the foundations for today’s international monetary system where again the dollar reigns supreme, but in less obvious, subtler form.»


[...]


«Two years after the “Nixon shock” came the oil embargo and then in rapid succession, the “fall of Saigon”, marking the end of American involvement in Vietnam. If there is a sense of déjà vu in today’s events, that’s because they have indeed only too painfully happened before. The Iranian hostage crisis under Jimmy Carter topped off a humiliating decade of American failure, and seemed to seal the nation’s fate as a declining power.


Yet it was perhaps the wake-up call that the US needed. Rebooted, the economy was soon to roar back in reinvigorated form. A similar economic and political renaissance was to sweep Britain. It didn’t stop there. By the end of the 1980s, we had had the fall of the Berlin Wall and the supposed triumph of Western, democratic capitalism over communism. So utterly vindicated and supreme did the American model seem that Francis Fukuyama declared it “the end of history”, which only goes to show how mistaken contemporary geopolitical analysis frequently is. There is never an end to history, only a perpetual ebbing and flowing of political tides and narratives.»


 


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  • Para não esquecer os que ficam para trás, no The Telegraph a imagem e a notícia: Ex-Royal Marine Pen Farthing claims wife left Kabul on almost empty plane. «A former Royal Marine turned charity director in Afghanistan has warned people will be "left behind" in Afghanistan as he posted an image of his wife's near-empty evacuation flight out of the capital Kabul.» 

Pedro Abrunhosa

19/08/2021

Ponto de situação

Às 14h00 de hoje:


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Às 14h15:


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Às 21h10:


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E pronto. Depois de remover aplicações e definições desde início, fiz a actualização da BIOS - o próprio sistema recomendava há alguns dias - e desfragmentei o disco. Fiquei sem programas que preciso, mas é uma questão de os voltar a instalar. Por agora repus o Office e o Media Player, e chega. Depois logo se vê. Ainda tem uma pequena lentidão no arranque do disco, mas mais não posso fazer. Dizem-me que as casas de informática têm software para corrigir erros que não sei tratar. Pena. A ver vamos, se voltar a ficar muito lento levo-o lá.

Ao cuidado dos Enfermeiros

Só vos digo, Ordem dos Enfermeiros: isto é o maná. Não se deixem ultrapassar pelos nutricionistas.


Face à tomada de conhecimento da lista de alimentos prejudiciais à saúde retirados dos bares e cantinas escolares por decisão do Governo e do papel que os nutricionistas pretendem conquistar, digo que tirando o aparte de sempre ter notado que quem mais maça os outros com a evangelização nutricional ser quem mais asneiras gastronómicas costuma fazer ao seguir modas e, lamento informar, mais cedo costuma sofrer na pele as consequências da ausência de bom senso - a falta de saúde -, a única coisa que me apraz dizer é que na minha Escola Primária havia Enfermaria (à séria) que frequentei com assiduidade e distinção. Por mim o Governo, terminado que seja o afluxo anormal de trabalho na enfermagem provocados pela pandemia, colocava um enfermeiro por cada Escola - e já, agora, um médico por cada grupo escolar.


Além disso, quando li ontem esta notícia - Sistemas nervoso e imunitário trabalham juntos para manter peso saudável e reduzir risco de doenças como cancro, do Observador -, fiquei de monco caído e para espevitar pensei logo em tomar medidas: vou sentar o meu sistema nervoso e o sistema imunitário frente-a-frente a discutirem a relação. Há anos que arrastam um casamento de conveniência e as consequências são cada vez mais visíveis. Talvez faça pargo com batatinhas assadas e cogumelos salteados para alegrar a ocasião - enquanto me deixam.

Ponto de situação

O Restauro do Sistema não foi suficiente. Vai daí, ontem fui-me às Opções de Recuperação:


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Às 21h00 de ontem estávamos neste ponto: a216cc5d-028d-4e0c-8ead-434b75035faf.jpeg


Às 8h45 de hoje neste:3ef3a7e8-02fd-486c-9940-fc23f3289065.jpeg


Se o computador ficar operacional depois destas arriscadas investidas, será uma vitória. Tudo isto para evitar deixá-lo numa loja de informática. A ver vamos se fiz bem. 


Entretanto quando tiver mais tempo hei-de escrever qualquer coisa sobre a névoa de ideia que me atravessou o pensamento nas últimas horas relacionada com as fases na pintura de Van Gogh e Júlio Pomar.

18/08/2021

Panca das casas

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E cá estamos a relaxar - chiu, não contem a ninguém. A casa de hoje é quase em frente à entrada do Botânico, zona que aprecio apesar de acreditar que seja das que mais regista assaltos por esticão no Porto.


E assim passa meia horita a imaginar acordar ao fim-de-semana, ir dar um giro no Jardim e tomar café na Confeitaria Botânica – que não tem outra graça que não seja a de ter sido o ponto do encontro dos meus pais quando na faculdade e o local onde algumas vezes tomei o pequeno-almoço - café e torrada - com o meu pai em dias de exames na altura em que eu mesma andava na faculdade; digamos que é coisa que passou de geração. Além do que gostei mais tarde de lá ir pontualmente com o Nuno ao fim-de-semana enquanto vivi por perto.


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Ficam as fotografias com o pormenor de agora incluir a casa de banho, cuja remodelação me agrada. Não podem acusar este blogue de não arriscar. Aqui revela-se de tudo quanto não é costume: dos restauros de sistema dos computadores aos banhos com janela - coisa que adoro, por me transportar a criança e à grande janela a dar para as tílias do lado nascente do terreiro.


E pronto, está na hora de acordar: apesar de ser um apartamento dos anos 80 não tenho o vil metal para o comprar. O que vale é que a internet tem sempre anúncios para ver. Daqui a uns dias sonho com outro.

Vidas informáticas

O último mês foi catastrófico em termos de actualizações do Windows. Fiquei com o computador pessoal praticamente inoperacional, por força de uma data de programas que não autorizam desinstalação, e lá foram parar nas actualizações automáticas.


Há três anos não fazia um Restauro de Sistema, e no Windows 10 desse Lenovo fazê-lo requer paciência: a funcionalidade parece escondida. Ainda assim não consegui retroceder à data que queria: os pontos de restauro disponíveis eram próximos, não havendo possibilidade de personalizar. 


Deixei-o em casa a encerrar com actualizações, na esperança que não volte a instalar os programas que varri com o restauro.


E o mais dramático - bom, é melhor avisar que brinco, estou consciente dos verdadeiros dramas: a fome no mundo, as guerras, os refugiados, as calamidades naturais, os maus-tratos infantis, as exploração do trabalho e sexual, a corrupção etc. -  é que ontem tinha programado ver casas nos sites imobiliários (nada mais relaxante) e o sacana do computador deixou-me na mão.


Pergunto-me se serei a única a quem isto aconteceu no último mês.


Bom dia.

17/08/2021

Júlio Pomar


Deambulo por alguns sítios online onde podemos ver as obras deste extraordinário pintor. Por exemplo: aqui.  Mas o melhor é ouvi-lo no documentário Júlio Pomar - O Risco.


*


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Aqui.


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Das duas uma: compro uma máquina decente ou aprendo a fotografar.

Ronda do dia

Enquanto os meninos e as meninas da esquerda e da direita se entretêm a medir a pilinha do quem é mais defensor dos direitos das mulheres, os afegãos caem nas mãos dos fanáticos, com o beneplácito e sorriso amarelo do Extremo-Oriente, aliás, do além Urais. A Ocidente os cobardes da esquerda pedem às afegãs que se aguentem à bronca e as gabarolas de grimpa levantada da direita ironizam sobre o silêncio das #metoo – argumento do tipo que me lembro de usar no Liceu, há trinta e tal anos.


Na televisão portuguesa vejo um comentador, cujo apelido fazia parte das referências à mesa de jantar quando era pequena: mais um da casa tal, filho do primo tal, casado com a sicrana, da família tal, a viver na terra tal, sobrinha do tio tal, a trabalhar no sítio tal. Em rigor, até conheço bem alguns deles, mas adiante. O certo é que não faltará nunca um lugar no Governo, numa direcção de uma grande empresa, num alto cargo da função pública ou nalgum órgão de comunicação social. Nada de mal ocorreria não fosse o facto do comentário - redondo e com meia dúzia de referências às tácticas e artimanhas políticas - ser de uma vacuidade só. Mais: revelar total insensibilidade pela vida dos afegãos. A lembrar a actuação de outro familiar seu num dos governos transactos. Ainda assim, menos mal. Quando no Governo conseguem causar maior prejuízo, beneficiando as redes de interesses instaladas, como não podia deixar de ser.

Eric Clapton

16/08/2021

Castigo

No quadro de lousa.



  • Incinerada, incinerada, incinerada, incinerada, incinerada, incinerada, incinerada, incinerada, incinerada, incinerada.



  • Talibãs, talibãs, talibãs, talibãs, talibãs, talibãs, talibãs, talibãs, talibãs, talibãs.


Devia escrever 100 vezes cada uma, mas fico-me pelas 10. Isto porque descobri erros nos postais anteriores. Deve haver mais, mas ao menos estes corrijo. Por falar em talibãs (plural de talibã), no Público optou-se pela estranha fórmula "taliban", ou seja, pelo inglês. Será medo ou esquecimento do português? 


Há 24 anos um distinto diplomata, já desaparecido, desabafou-me o quanto o irritava a designação "palestiniano" usada nos jornais. Como se palestino não chegasse. Perdeu essa batalha.


Mas voltando aos erros e gralhas das Comezinhas, não me valendo a professora primária ou almas caridosas e tendo grandes reservas no corrector ortográfico disponível, vou relendo o que escrevo para intuitivamente tentar (tentar, sublinho) não deixar grandes vergonhas - isto faz lembrar gente próxima de outros tempos que depois de fazer as contas na máquina calculadora, tirava as teimas fazendo-as à mão nas agendas anuais (sim, aquelas onde se assentavam diariamente as despesas; um outro mundo). Às vezes, dou pelas gralhas e erros horas ou dias depois e toca a corrigir. Enfim, que embrulhada aqui vai, o que vale é que faço a festa, atiro os foguetes e apanho as canas. É o que dá ter os neurónios a tinir violoncelos de Bach.


Só mais uma coisinha e já vos deixo em paz: não sei se repararam mas usei o verbo 'assentar'. Mais um termo em desuso. Isto já é missão. Agora ide em paz (assusta, não assusta?), deve haver muito mais interessante para fazer.

George Jackson

Inho

Há quem não goste do uso de diminutivos, os considere ridículos ou apoucados. Claro que tudo em excesso, cansa. Mas, como boa portuguesa, gosto de usar ‘inhos’ e ‘inhas’. Os espanhóis acham piada a este nosso tique. É coisa que nos caracteriza. Não vejo razão para nos envergonhar, quando parece tão só um modo delicado, terno ou irónico de tratar o mundo que nos rodeia. Será ridículo? E quanto do melhor nesta vida não tem ridículo?


Entre os técnicos da língua portuguesa há quem não os aconselhe, e chegue mesmo a proibir na literatura. Só vos digo uma coisa: é de fugir de alguns técnicos linguistas, sobretudo, quando se dedicam a ensinar escrita criativa, mas também dos que parecem muito sérios e recomendáveis quando entram em modo de censura. Vejo por aí gente que tenderia a escrever muitíssimo bem, não fosse o medo da quebrar regras e preconceitos de época introduzidos pelos linguistas. Não se apercebem o quão castrador e obtuso é o medo do ridículo.

Agradecimento


Um agradecimento à equipa da SapoBlogs pelo destaque do postal Sábado.


E aos pouquinhos, mas generosos leitores das Comezinhas, que se foram mantendo apesar de na semana passada pouco ter escrito. Muito obrigada.

15/08/2021

Os equívocos virtuais

Ontem uma pessoa por quem tenho estima e há três anos “conheço“ superficialmente do mundo virtual disse que me tinha por professora de música. Fico a pensar que espécie de conclusões tiramos sobre as vidas de uns e outros nestas andanças online – sendo que não minto a ninguém sobre informações da minha vida e que, obviamente, omito alguns dados sobretudo quando conheço mal os interlocutores, tal como faria no mundo físico. A pessoa em causa não conhece as Comezinhas, caso contrário, muito possivelmente já teria percebido que estou longe de ser professora de música, mas permito-me especular sobre o sem-número de ideias erróneas que fazemos das vidas de cada um.


É verdade que no mundo físico também há ambiguidades e preconceitos – às vezes, até mais arreigados – relativos às vivências e carácter de cada um, mas o mundo online onde a cara se mantém tantas vezes tapada - algumas com máscaras de conveniência ou mesmo de intrujice – é propício ao equívoco. Mas é também fonte inesgotável de surpresa, e para quem gosta de desvendar pessoas e ideias é muito atraente. Contrariamente ao que se pensa, a atracção pode não estar na facilidade – há muito quem ache que a internet é a galinha dos ovos de ouro das relações, sejam de que natureza forem – mas antes no grau de mistério, de não dito, de não visto. De não sabido. E na forma mais ou menos verdadeira e séria com que se vai revelando o que se é. Isto pode favorecer conhecimentos de maior profundidade. Com quantas pessoas convivemos há anos ou décadas no mundo físico de quem nada sabemos sobre o que pensam de assuntos cruciais? Quantas fragilidades são escondidas na presença do mundo físico? – não só por causa dos interlocutores, como de outros factores como o espaço, o tempo e a circunstância.


Voltando ao exemplo da música. Estou quase certa que a maioria dos meus próximos desconhece que gosto tanto de música e que lhe dou o valor que dou, apesar de saber tão pouco. Mas um quase desconhecido que me vê pontualmente num espaço onde partilhar músicas é prática habitual, achou que estava ligada a esse mundo – terá percebido o interesse.


Para terminar duas ideias. A do uso das informações colhidas na internet e a do pudor versus falsidade.


Quem passou muito tempo a deambular no mundo online e conversou com dezenas ou centenas de pessoas, sabe que este é um poço sem fundo de informação. E uma fonte inesgotável de inspiração. Tenho na memória dezenas de histórias de vida, pormenores de vitórias, momentos de angústia, até trágicos. Mal comecei a usar este meio de comunicação perdi por morte duas pessoas queridas, ainda que não próximas. Vivi alegrias, próprias e alheias. Já não distingo o mundo virtual do real – prefiro nomeá-lo físico. Alegro-me e entristeço com as pessoas a quem quero bem, enfureço-me, tantas vezes sem razão, quando me irritam - apesar de neste último caso ter começado a aprender com o tempo a “desligar”. Por isso, considero que devo respeito a tudo quanto fui sabendo através das pessoas que conheci. Usar a informação assim colhida para benefício próprio e à traição é coisa de mau carácter. Por ter isto muito claro no meu espírito, quando imagino no futuro inspirar-me nas várias pessoas que conheci, penso em ter o cuidado de as respeitar, ainda que saiba que quando com elas conversei não me passava pela cabeça tudo quanto agora expus, por estar simplesmente a falar de mãos limpas, sem intenção de enganar ou usar. E não me pesa nem envergonha a ingenuidade com que fui ou sou ludibriada. Assentei há muito que o pior que podemos fazer é responder na mesma moeda.


A última questão tem a ver com a muito comum tirada do “sou aqui como sou na realidade, não tenho duas caras”. E aqui é difícil explicar que se pode ser diferente num e noutro plano, sem ser necessariamente falso. Sou no mundo online tal como sou com os próximos (quase, vá), mas muito diferente se no mundo físico estivesse entre gente desconhecida, ou gente por quem não sinto afinidade, ou tão só entre grandes grupos, sobretudo, barulhentos, ou de gente presumida, enfim, são vários factores. Somos muitos. Há numerosas pessoas mais reservadas ou menos expansivas no mundo físico quando confrontadas com factores que as inibem de se revelarem. E, francamente, não tenho muita paciência para as psicologias e para os conselhos sobre o desenvolvimento de competências sociais, muito menos para os despiques infantis do vamos ver quem é mais corajoso ou desinibido. Cada um é como cada qual e não temos todos que ter como lema veni, vidi, vici. Nem temos todos que elevar a voz para que nos oiçam, nem marcar posição de forma exuberante - quanto mais não seja por não fazer genuinamente o nosso género. Por mais que saiba que há pessoas que são sempre iguais a si próprias, muito seguras de si e da sua presença em qualquer circunstância, a ideia que todos temos que vencer a timidez ou ser extrovertidos e exibir 514 amigos reais, virtuais e imaginários leva cada vez mais gente a sentir-se injustificadamente mal consigo própria. Aceitarmo-nos como somos parece essencial e essa lição creio ter aprendido há uns anos valentes. Tal como cedo me apercebi que entre as pessoas com perfil mais introvertido ou tão só mais discreto muitas há com vastos interesses próprios e maior tendência para os aprofundarem.


Resumindo, a retirada da carga física pode ter vantagens, aproximar as pessoas e até ajudar a aprofundar relações e ideias, não obstante nada valer o calor de um abraço amigo, o volume da som das palavras de uma conversa ao vivo, o aceno de concordância, um franzir de sobrancelha em desacordo, um sorriso, a verdade de um olhar cúmplice.


Tudo tem o seu lugar.


Como sempre, os dois lados da questão.

Banda de Boca

Afeganistão

O mundo não pára. Estamos em permanente desactualização.


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Leio algures num jornal português que os talibãs querem evitar um banho de sangue na tomada de Cabul. Fui espairecer para os jornais britânicos. No The Independent encontro esta leve conversa sobre as intenções dos novos/velhos donos do Afeganistão e várias pequenas peças jornalísticas sobre os últimos dias em terras afegãs - o formato em permanente actualização não permite fixar os momentos pretendidos: das entrevistas de rua de Cabul a afegãos às declarações dos ocupantes, mas também o ponto de vista do dirigentes dos vários partidos representados no Parlamento britânico. A informação parece ser incinerada a todo o momento, como no buraco de memória para ser devorada pelas chamas. Até no mecanismo de dar as notícias percebemos que o mundo não pára e como estamos em permanente desactualização.


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14/08/2021

Sábado

Início de tarde dedicada às plantas.


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Primeiro passo: ir ao chinês comprar um vaso de 40cm de diâmetro e com maior altura para que a japoneira possa expandir as raízes, que ocupam todo o espaço actual. Uma vez em casa catar na caixa de ferramentas as duas verrumas da Eca. E perfurar o fundo do vaso.


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Depois preenchê-lo com a terra: em baixo a que estava há mais tempo cá em casa e que não me parece de grande qualidade. Nela vai assentar o cilindro com a japoneira e toda a terra retirada do antigo pote.  Usei o conjunto de cozinha à falta dos utensílios de jardinagem próprios – evitei sempre comprar para não ter mais quinquilharia, mas não vou resistir à tentação de o fazer e acrescentar aqueles jarros bonitos do Ikea.


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Para que a japoneira saísse em bloco com todas as raízes e terra junta, bastou usar o garfo ao longo da parede lateral. Depois de pousada na terra a 1/3, despejei os 11 litros de substracto universal, mas não cobriam integralmente o cilindro. Por isso, abalei novamente e fui ao Continente comprar mais 11 litros, aproveitando para completar alguns vasos fanados.


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Entretanto a antiga japoneira jazia noutro pote, seca que dava dó. Tirei o esqueleto, abri um buraquito e enfiei lá o resto da pequena roseira – daquelas que dá rosas minúsculas e que o Ritz me fez o favor de comer e estragar. A ver vamos se ela vai gostar do ar livre e se vingará.


 


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