Recordo como encarei o Nuno vendo-o cego pela primeira vez. Tinham passado 9 anos desde que nos despedíramos numa noite chuvosa que doeu. Há separações que despedaçam. Lembro-me de brincar e dizer que me parecia o Tim dos Xutos&Pontapés por causa da cara bolachuda: tinha conhecido um homem novo, muito alto e muito magro e encontrei um homem robusto e bem instalado no início da meia-idade. Não foi a cegueira que prevaleceu, mas essa diferença de peso. Tal como a maioria das pessoas tinha algumas minhocas na cabeça sobre a condição da cegueira e das tragédias. A convivência com o Nuno foi dissipando uma a uma.
Ah, quando há um acidente e se perde a visão há necessariamente uma revolta profunda – e depressão -, um período de luto e a aceitação. Tudo certo, senhoras psicólogas que o tentaram convencer após acidente, para fúria dele, que tinha de estar muito triste e deprimido. O certo é que, apesar de não acreditarem, ele estava feliz por estar vivo apesar de tudo. E genuinamente agradecido à equipa hospitalar que o salvou contra todas as expectativas. Custava-lhe, como continua custar apesar das melhorias, infinitamente mais a falta de memória - severa e também decorrente do traumatismo - do que a falta de visão. Temos a mãe dele e eu muito mais revolta do que o próprio, que dá sempre bom tempo – como diz o meu pai. A psicologia nem sempre consegue perceber a lógica das pessoas que vêem a vida com inteligência e pragmatismo: o Nuno tem como sempre teve inúmeros interesses e dedica-se ao que gosta de fazer, lutando para superar as contingências – naturalmente, muito aumentadas pela cegueira. Não podendo dedicar-se a desenhar, pintar ou fazer animações como gostava, não tenho memória de um dia em que não me tenha falado de uma música ou pauta nova que descobriu ou redescobriu e editou, ou numa leitura de descoberta ou redescoberta da ciência, ou dos avanços (e recuos) tecnológicos etc. Salvo afastado dos instrumentos musicais, não há dia em que não toque piano, sintetizador ou guitarra. Não se tem por grande intérprete, pelo contrário, diz sempre que é razoável, pela consciência que tem do que é ser um virtuoso. Não deixa de tocar por isso. Não deixa nunca de tentar saber mais e ser melhor nos seus interesses.
Ah, a imagem de certo cinema: os cegos pela condição a que foram sujeitos tornam-se azedos e manipuladores. Se azedume é isto vou ali e já volto. Só quem não conhece o Nuno, não percebe a ternura de homem que é. A permanente preocupação com os seus. A sensibilidade com tudo e todos quantos mereçam. E o bom feitio colossal – única razão para me aturar com infinita paciência. É evidente que cada um tem sua a natureza e não é a cegueira que vai transformar uma boa pessoa num traste. Há uns anos desenvolvi a teoria de que a visão distorcida e estereotipada dos cegos, dada por alguns, tem a ver com o egoísmo próprio de certos espécimes que convivem com pessoas sem visão e não conseguem superar ou de quem nem sequer se consegue aproximar com o medo do que acha esquisito e desgraçado - abandonando um amigo, nalguns casos. Deve ser uma forma de fazer da vítima bode expiatório para remir a culpa que se carrega.
Ah, os cegos têm limitações de inteligência e têm vidas pobres e trágicas. É certo que actualmente evoluímos muito nesta matéria e a maioria das pessoas sabe lidar com a situação, mas ainda assim não é raro tratar-se uma pessoa sem visão como estúpido. E peço que não se ofendam com o que vou dizer a seguir porque eu própria enfermei de algumas palermices destas e o próprio Nuno reconhece que antes de perder a visão sofria de alguns preconceitos. Tudo se deve ao hábito de encarar quem não vê como um ser estranho e desgraçado e não tão simplesmente como uma pessoa como outra qualquer com a contingência de não ver. Há pessoas que falam mais alto - deve ser para ver se os cegos vêem melhor. Aliás, o mesmo acontece face a outras deficiências. Se repararem o constrangimento conduz a várias reacções diferentes: uns desviam-se ou ficam sem saber o que dizer, outros levantam a voz para se fazerem entender e há aqueles que põem um tom de voz condescende e muito carinhoso (sobretudo mulheres) - só falta fazerem garatujas como se estivessem a falar com um bebé. Ou então são despropositada e excessivamente afáveis como se adorassem a pessoa que acabaram de conhecer – deve ser amor à primeira vista. Para todas estas pessoas tenho uma novidade: a falta de visão é isso mesmo: cegueira e não burrice ou infantilidade. Já agora aproveito para contar que o Nuno odeia a expressão invisual. Diz que não há inauditivos nem imotores e que não compliquem porque ele é mesmo cego. Se bem que as paranóias de mudar constantemente as terminologias pareça palerma, do meu ponto de vista, os cuidados podem fazer sentido por serem altamente ofensivas para a sensibilidade de cada um – e claro que é difícil acertar num denominador comum que seja o mais consensual possível. Eu por exemplo gosto mais que chamem pateta, tola ou maluca do que louca, mas a verdade é que comigo nunca arranjariam unanimidade porque amanhã posso mudar de opinião. Voltando ao que importa, é muito ofensivo ver um cego como o eterno pedinte tocador de acordeão na esquina da rua – sem desprimor para eles. O Nuno por incrível que pareça aos 6 anos - longe de saber que o destino o ia presentear com a cegueira e a falta de memória por volta do 39º aniversário - já tocava acordeão na escola do professor Maximino, em Cascais. Ao que dizem só se lhe viam os olhos, tamanho era o instrumento para criança tão pequena. Mas nem por isso lhe apetece ser visto com o eterno trágico acordeonista cego. Manias.
Ah, os cegos são infelizes. Mais, os cegos inspiram infelicidade. Quem pensa assim não sabe com certeza das gargalhadas constantes nesta casa e nas casas por onde o Nuno passa. Nem da excepcional capacidade para ouvir os problemas e dificuldades dos outros e de sempre ter a melhor palavra: de ânimo, de alegria. Há quem procure heróis sorridentes de poderes mágicos na televisão ou nas redes sociais, distraindo-se dos heróis que consigo convivem. É claro que tem momentos maus, em que se zanga com o universo e a sorte que lhe calhou. Mas esses momentos não são os mais frequentes. Mesmo. Os bons momentos prevalecem sobre as contrariedades e revoltas. Lamento desiludir os catastrofistas, mas o Nuno é um homem feliz. Houve um momento importante nas nossas conversas passadas em que eu, qual tonta a querer protagonismo na sua vida, perguntei se o fazia feliz e ele me respondeu que feliz já ele era “comigo ou sem migo” e que eu era a cereja em cima do bolo. Percebi naquele momento que era o homem certo independentemente do que o futuro nos reservasse, porque naquela altura, como agora, não o tenho por certo, nem quero que ele me tenha por certa.
Ah, isso soa a forçado. Não há pessoas perfeitas. Pois não. É alentejano, filho único e, como ele próprio diz, nascido num Domingo em mês de férias fora do horário de trabalho, ou seja, digo eu, preguiçoso selectivo. Se tivesse deixado ainda hoje eu estaria a buscar o copo de água porque o Lord não sabia ir à cozinha abrir a torneira, ou atenta em permanência às dificuldades informáticas por o menino não aplicar todo o acumulado de conhecimento nessa matéria e que é muito superior ao meu. O tanas. Os primeiros meses de convivência foram muito difíceis – perto de nova separação -, mas ficou claro que o meu mau feitio também serve para alguma coisa, como ensinar preguiçosos a fazer pela vida. Disse-lhe várias vezes que com o meu temperamento no caso dele estaria a trabalhar a atender telefones ou fazer massagens num sítio qualquer, mas o menino só faz aquilo que quer. Concedi. Somos diferentes. O Lord – que se diz sempre um parolo vindo das berças – habituado a trabalhar em tecnologia, a desenhar, a editar música, a tocar, a compor tem o direito a não se sujeitar às tarefas usualmente destinadas às pessoas que não vêem.
Como imaginam este é dos postais que mais dúvidas tive em publicar. Comecei a escrever há uns dias e terminei hoje. A parte fácil é que li ao Nuno e ele disse o que diz sempre que lhe leio um texto meu: publica. Não pode ser mais fácil viver com ele.
Cultivar e escarafunchar a tragédia é uma menoridade ou um luxo de gente ociosa e pobre de espírito.