Há quem tenha brancas. Agora tenho pretas.
Ah e tal, não ter ideias sobre o que escrever. Nas treze horas que decorreram desde que acordei, já tive milhentas ideias de assuntos para escrever. Há alturas em que tenho a sensação que se tivesse vida para me sentar à mesa com o computador aberto numa página em branco terminaria de dizer o que quero em aproximadamente 10 ou 12 anos.
Comigo é assim: ou me calo uma dezena de anos, ou desato a escrever outros tantos. Só não faço a mais pequena ideia de quando é que isso vai acontecer. É mesmo ao sabor do vento.
Nunca tive o salutar hábito de ter um caderninho para apontar ideias. O moleskine seria chique. Não arriscaria, apesar de já ter oferecido alguns. Uma imitação também não. E bloquinhos pindéricos já tive vários. Escrevo lá tudo menos pensamentos avulsos: números de telefone, endereços de email, preços de móveis, moradas, contas, muitas contas, croquis de casas, enfim, uma salgalhada. Agora pensamentos, népias. Nada de caderninhos. Para isso em novita usava folhas A4 soltas, de preferência em branco. Daquelas que depois dobrava em quatro e metia na gaveta, até acabarem no baú de plástico dos papéis que, felizmente, foi à viola.
Quanto comecei a ter consciência que guardar as ideias ao longo do dia pode ser útil, já tinha formado de tal forma o hábito de me esquecer e me perder, que não fazia mais sentido introduzir essa técnica sensata na minha vida.
No computador sim, entre 2014 e 2019, fui deixando notas para mais tarde pegar. Mas aí tinha plano. Foi concluído. Adiante. Voltarei a usar a estratégia na Quinta ou numa qualquer outra ideia.
De resto, para as escritas do blogue basto-me com as contingências da disponibilidade de tempo e da memória. O que sobrar do que pensei passa a escrito: poderia ser melhor? Sem dúvida. Mas não reflectiria o normal fluir do pensamento. Além do que ao deixar-me sempre a dúvida sobre se aquilo que penso é melhor ou pior do que aquilo que me chego a lembrar de reduzir a escrito, espelha-me tal qual sou. É coisa pouca? Tanto melhor. Vivemos atafulhados em ideias, opiniões e perspectivas, em críticas e sugestões. Falta espaço para nos deixarmos ser o que verdadeiramente somos. Para nos revelarmos. É perigosa a exposição? Claro que sim. Tanto mais quanto mais verdadeiro se for. Mas e o sabor de rir dos nossos podres, das nossas fragilidades? Quem consegue resistir a isto, sabendo que por mais que provoque desdém ou ridículo e por mais que isso custe e doa, jamais essa dor anula o prazer de ser quem se é.
Ah, mas e os caderninhos. Talvez fizessem sentido para tomar nota de coisas que se vão aprendendo e se esquecem por não voltar a tocar no assunto. Mas pergunto-me: são mesmo esquecidos ou ficarão em banho-maria até que a mais leve referência a qualquer componente desse assunto o faça vir todo à tona. Imaginando que passaram 15 anos e temos um tal registo de uma ideia que então tivemos. Sem esse registo, apelando apenas ao esforço de memória, o material que temos no presente vai ser diferente do que seria o escrito. Mais enevoado, mais erróneo, mas talvez mais livre. Pode perder-se em fidelidade ao pensamento inicial, mas o desvanecer o tempo dar-lhe-á uma tonalidade diferente: a da corrosão do tempo na ideia. E, afinal, essa não será mais fiel ao que somos? Pára tudo para alertar para o perigo: se isto se aplicasse a factos estaríamos no plano da reinvenção de História. Mas vá, passemos para o plano da ficção: não usar cábulas pode ser uma escolha bem fértil. Usei este último adjectivo em substituição do criativo - estou a aguardar que o termo criativo se possa voltar a usar.