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05/08/2021

Portugal no seu pior

O medo de fazer mal, cometer erros e causar dano leva alguns – nos quais me incluo – a não assumir responsabilidades. Não nos acharmos preparados, ter noção das nossas reais capacidades e reconhecer os limites mostra tão só que temos respeito pelos outros e pelas consequências dos nossos actos.


Sei que não é bonito a gabarolice nem dar-me como exemplo, mas não quero saber. Há dias em que me farto do que vejo, leio e oiço. E o que é demais é erro.


Há 16 anos recusei ser Legal Advisor de uma empresa de cujos trâmites de constituição me ocupei em Angola. Há 11 pus de parte a oportunidade de representar uma empresa na minha área profissional, em Espanha. No primeiro caso por patente desconhecimento das leis portuguesas quanto mais das angolanas e também por miaúfa, no segundo por receio de não ter jogo de cintura para dirigir pessoas, ainda por cima fora do país.


Depois de 15 anos de mesmice em funções vulgares de Lineu - quase indiferenciadas -, sinto-me contente por nas últimas semanas estar a aprender e desempenhar trabalho um pouquinho diferente dentro do mesmo quadro de competências.


Para mim assistir à ambição não sustentada e ao deslumbre é quase uma ofensa. Aliás, não é quase, é mesmo uma ofensa.


Percebo que não sejamos todos feitos da mesma fibra. Que haja gente mais afoita, mais ambiciosa, com espírito empreendedor, mais afirmativa, com perfil de liderança e que se venda melhor. E pessoas mais receosas, talvez mais conformadas, mais reservadas e menos populares; admitamos até mais preguiçosas. O que não percebo é a absoluta inconsciência e inconsistência da chusma de gente que assume cargos para os quais não tem qualquer aptidão ou mérito.


No nosso país confunde-se ambição e espírito empreendedor com mera chico-espertice e é ver a quantidade de empresas que vivem de expedientes precários para sugar e viver à sombra do Estado ou entidades públicas. É ver a quantidade de falências e insolvências - e reestruturações, já agora - fraudulentas. Acho um piadão a ver gestores afirmarem que se deve ter consciência da necessidade do risco e assumir as falências com normalidade: céus, saberão em que país vivem?


Em Portugal confunde-se por vezes perfil de liderança com aptidão para desconsiderar os outros e as regras – as leis - e com a capacidade de criar e manter uma rede de influência, com conhecidos nos locais certos. Na prática corrente ser popular é bastante mais importante do que ter conhecimento real do ramo de negócio em que se trabalha. Em muitos casos, é mais importante do que ser capaz - de ser minimamente apto às funções.


Se passarmos para o plano político – que mais não faz senão reflectir e ampliar os vícios dos portugueses por força do contacto com o poder e a gestão dos recursos financeiros da nação – verificamos que absolutas nulidades - cheias de si por obra e graça do encosto partidário - como Fernando Medina e Eduardo Cabrita ocupam lugares cimeiros como a presidência da principal câmara municipal do país e o ministério da administração interna.


Estou certa que em momento algum estes espécimes fizeram um exame de consciência para perceberem o quão nulas são as suas capacidades de administração e execução do interesse público. Têm-se em grande conta. E isto é Portugal no seu pior.