
(Porto, 25 de Dezembro de 2019)
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Dei por mim a pensar num lugar-comum: a vida é feita de momentos. Daí parti para a ideia-feita de que não se é feliz, está-se feliz - termo que já aqui contei não gosto de usar. A felicidade - até arrepia, só falta passar o texto a cor-de-rosa - seria então um disperso de migalhas de alegrias.
Não é que não seja verdade, também. Mas não é só isto. A aproximação da plenitude – e essa sim pode dar-se num instante concreto e intenso que se esvai, mas também se pode prolongar no tempo desvanecida, porque não sobreviveríamos a viver em êxtase – passa muito por descobrir o fio invisível que une os momentos bons e maus da vida e lhes dá sentido. Não se assustem: não vou falar de fé. Apenas na ideia de que nalguns momentos ou épocas do percurso acreditamos numa força motora que dá sentido à vida: a dor dos momentos maus atenua quando percebidos no contexto universal e os bons resplandecem.
Longe da premência dos porquês e na eterna insatisfação que mais nos define, há momentos ou épocas em que pensamos: a vida faz sentido. Esse é o contentamento.
O facto de o tempo não parar - se é que não pára, aliás, se é que há tempo tal qual o configuramos -, ou pelo menos, o facto de durarmos na sucessão de circunstâncias para além desta descoberta mágica que nos deixa mais radiosos por instantes, meses ou anos, faz com que os motivos que nos alegram se vão alterando ao longo do percurso. O que sentimos antes pode não morrer, mas transformar-se noutra coisa. A felicidade (ai, outra vez) que descobrimos antes pode não morrer enquanto houver memória, mas a natureza verga-nos à eterna insatisfação, que mais não é senão a busca do contentamento.
O que importa na vida é a busca tantas vezes inconsciente e fortuita, que ora desemboca no desencanto ora no encanto.