Pesquisar neste blogue

15/08/2021

Os equívocos virtuais

Ontem uma pessoa por quem tenho estima e há três anos “conheço“ superficialmente do mundo virtual disse que me tinha por professora de música. Fico a pensar que espécie de conclusões tiramos sobre as vidas de uns e outros nestas andanças online – sendo que não minto a ninguém sobre informações da minha vida e que, obviamente, omito alguns dados sobretudo quando conheço mal os interlocutores, tal como faria no mundo físico. A pessoa em causa não conhece as Comezinhas, caso contrário, muito possivelmente já teria percebido que estou longe de ser professora de música, mas permito-me especular sobre o sem-número de ideias erróneas que fazemos das vidas de cada um.


É verdade que no mundo físico também há ambiguidades e preconceitos – às vezes, até mais arreigados – relativos às vivências e carácter de cada um, mas o mundo online onde a cara se mantém tantas vezes tapada - algumas com máscaras de conveniência ou mesmo de intrujice – é propício ao equívoco. Mas é também fonte inesgotável de surpresa, e para quem gosta de desvendar pessoas e ideias é muito atraente. Contrariamente ao que se pensa, a atracção pode não estar na facilidade – há muito quem ache que a internet é a galinha dos ovos de ouro das relações, sejam de que natureza forem – mas antes no grau de mistério, de não dito, de não visto. De não sabido. E na forma mais ou menos verdadeira e séria com que se vai revelando o que se é. Isto pode favorecer conhecimentos de maior profundidade. Com quantas pessoas convivemos há anos ou décadas no mundo físico de quem nada sabemos sobre o que pensam de assuntos cruciais? Quantas fragilidades são escondidas na presença do mundo físico? – não só por causa dos interlocutores, como de outros factores como o espaço, o tempo e a circunstância.


Voltando ao exemplo da música. Estou quase certa que a maioria dos meus próximos desconhece que gosto tanto de música e que lhe dou o valor que dou, apesar de saber tão pouco. Mas um quase desconhecido que me vê pontualmente num espaço onde partilhar músicas é prática habitual, achou que estava ligada a esse mundo – terá percebido o interesse.


Para terminar duas ideias. A do uso das informações colhidas na internet e a do pudor versus falsidade.


Quem passou muito tempo a deambular no mundo online e conversou com dezenas ou centenas de pessoas, sabe que este é um poço sem fundo de informação. E uma fonte inesgotável de inspiração. Tenho na memória dezenas de histórias de vida, pormenores de vitórias, momentos de angústia, até trágicos. Mal comecei a usar este meio de comunicação perdi por morte duas pessoas queridas, ainda que não próximas. Vivi alegrias, próprias e alheias. Já não distingo o mundo virtual do real – prefiro nomeá-lo físico. Alegro-me e entristeço com as pessoas a quem quero bem, enfureço-me, tantas vezes sem razão, quando me irritam - apesar de neste último caso ter começado a aprender com o tempo a “desligar”. Por isso, considero que devo respeito a tudo quanto fui sabendo através das pessoas que conheci. Usar a informação assim colhida para benefício próprio e à traição é coisa de mau carácter. Por ter isto muito claro no meu espírito, quando imagino no futuro inspirar-me nas várias pessoas que conheci, penso em ter o cuidado de as respeitar, ainda que saiba que quando com elas conversei não me passava pela cabeça tudo quanto agora expus, por estar simplesmente a falar de mãos limpas, sem intenção de enganar ou usar. E não me pesa nem envergonha a ingenuidade com que fui ou sou ludibriada. Assentei há muito que o pior que podemos fazer é responder na mesma moeda.


A última questão tem a ver com a muito comum tirada do “sou aqui como sou na realidade, não tenho duas caras”. E aqui é difícil explicar que se pode ser diferente num e noutro plano, sem ser necessariamente falso. Sou no mundo online tal como sou com os próximos (quase, vá), mas muito diferente se no mundo físico estivesse entre gente desconhecida, ou gente por quem não sinto afinidade, ou tão só entre grandes grupos, sobretudo, barulhentos, ou de gente presumida, enfim, são vários factores. Somos muitos. Há numerosas pessoas mais reservadas ou menos expansivas no mundo físico quando confrontadas com factores que as inibem de se revelarem. E, francamente, não tenho muita paciência para as psicologias e para os conselhos sobre o desenvolvimento de competências sociais, muito menos para os despiques infantis do vamos ver quem é mais corajoso ou desinibido. Cada um é como cada qual e não temos todos que ter como lema veni, vidi, vici. Nem temos todos que elevar a voz para que nos oiçam, nem marcar posição de forma exuberante - quanto mais não seja por não fazer genuinamente o nosso género. Por mais que saiba que há pessoas que são sempre iguais a si próprias, muito seguras de si e da sua presença em qualquer circunstância, a ideia que todos temos que vencer a timidez ou ser extrovertidos e exibir 514 amigos reais, virtuais e imaginários leva cada vez mais gente a sentir-se injustificadamente mal consigo própria. Aceitarmo-nos como somos parece essencial e essa lição creio ter aprendido há uns anos valentes. Tal como cedo me apercebi que entre as pessoas com perfil mais introvertido ou tão só mais discreto muitas há com vastos interesses próprios e maior tendência para os aprofundarem.


Resumindo, a retirada da carga física pode ter vantagens, aproximar as pessoas e até ajudar a aprofundar relações e ideias, não obstante nada valer o calor de um abraço amigo, o volume da som das palavras de uma conversa ao vivo, o aceno de concordância, um franzir de sobrancelha em desacordo, um sorriso, a verdade de um olhar cúmplice.


Tudo tem o seu lugar.


Como sempre, os dois lados da questão.