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31/07/2023

O post aberto ontem

Não foi um, mas vários:  



  • Crapô de 05.06.21. Sim, o excesso de argumentação faz perder o rumo do essencial.

  • Alfarrabistas de 01.07.21. Sim, as teclas de sempre, o pó à pretensão e ao fingimento. Cada um tem as suas fúrias (e vão variando ao longo da vida: umas desaparecem outras acentuam-se; nada de novo).

  • A Minha Geração de 02.01.22. Sim, este registo é bem mais agradável, se o seguisse teria mais “saída”, mas não, não seguirei o caminho mais fácil.

  • Autocarro 203 de 09.09.22. Sim, memórias são recorrentes e já houve referências aos trapos.

  •  


Sempre às ordens.

O que é esta segunda-feira?

O verbo ostentar está hoje na berlinda e traz à mioleira a imagem de três mulheres cujas juventudes decorreram por volta dos anos 30 e 40, dos anos 60 e 70 e perto da viragem do milénio. Em comum o facto de estarem longe de serem burras e de terem escolhido para cara-metade homens que respeitavam e admiravam a sua inteligência. Os três comungavam de outra particularidade: nos primeiros anos de relação estranhavam a discrição das suas mulheres fora do círculo íntimo.


No primeiro caso o marido reclamava da ausência da habitual exuberância da mulher quando nas reuniões sociais via os (e as) demais convivas exibirem muito charme e sapiência. Desencantado já em casa dizia não entender: se sabia que a sua mulher era muito mais inteligente e culta do que o comum daqueles convivas, por que razão se inibiria? No segundo caso o marido irritava-se com o desleixo e preguiça de mui bem-sucedidos colegas de profissão da mulher, que sabia desempenhar o ofício com rigor, competência e talento raros sem especial reconhecimento. No terceiro o namorado confessava-se triste com o facto do brilho e desenvoltura que observava na namorada no dia-a-dia extinguir-se em reuniões de grupos alargados de conhecidos; também não gostava da forma como a desconsideravam nalgumas reuniões com próximos.


Este traço de personalidade apesar de não ser regra é comum a algumas mulheres portuguesas. E desenganem-se os apressadinhos e apressadinhas que aqui vêem um handicap ou falta de emancipação, logo um problema de anacronismo por resolver pelas ditas. Talvez seja melhor inverter a questão e ponderar se o erro, a grosseria, não está do lado de lá, na confusão entre ostentação e valor. Uma confusão muito comum quando não há verdadeira inteligência e educação.


Em qualquer um dos três casos, outras amizades e outros amores enriqueceram a vida destas mulheres, mas algumas ocasiões puderam mostrar a pequenez e futilidade que grassa no mundo muito bem vestido para suposto jantar elegante, muito bem calçado de eloquência vã, muito retocado de maquilhagem pirosa. Muita conversa e elogios interesseiros, muitas teias de relações oportunistas, muita bajulação das famílias antigas ou figuras ascendidas à corte e ao quarto poder por factores que raro se fundam no mérito, muito fogo-de-artifício, trabalho e floreados por encomenda como depósitos de sapiência aspergida por gente cheia de si com muita vontade e facilidade em exibir-se em público e sem a menor noção do ridículo da sua vacuidade.


A terceira mulher em particular pôde constatar como algum mundo masculino é feito de chichés e pouco sabedor do mundo feminino para lá do conhecimento parco e interpretação básica de algumas mulheres, do cinema e das leituras. O tempo é ocupado com prioridades como o futebol, a pseudo-cultura das boas relações e interesses e suas fofocas, os floretes argumentativos sobre a escaldante actualidade trocados na comunicação e redes sociais, rematadas com a cereja em cima do bolo - a "erudiçãozita" chamariz. Enfim, a futilidade do efémero e da aparência - sempre com muita audiência -, e não o essencial, tomam muito tempo e disponibilidade da massa cinzenta para que alguns homens (e mulheres) possam ir além dos preconceitos e lugares-comuns como o do encanto da fragilidade feminina, apesar de encherem a boca com alegado conhecimento, perorar e julgar as mulheres rotulando-as de estúpidas ou ignorantes, sobretudo, se não obedecerem ao figurino sofrível e sedutor das bem-sucedidas alinhadinhas com os estereótipos do tempo, os chavões de facção, as excitações dos temas do momento ou se não corresponderem ao protótipo arrebatador das bem-sucedidas que simulam irreverência e coragem – em suma, se não servirem para fazer claque. Um bocejo.


Se esta fosse uma crónica daquelas revistas femininas de meados do século passado, conteria um conselho a mulheres desavisadas: fujam de homens que não respeitam nem admiram a inteligência das suas mulheres. Dão péssimos maridos ou amantes e, em regra, são ainda mais burros do que aparentam, logo, não vos ajudarão a ser mais felizes.


(Continuas impossível de aturar. Uma maçada. Assim não arranjas amigos, nem boas relações nem casamento, menina :p)


Boa semana.

30/07/2023

Castigo

Leonardo da Vinci, e não Leonardo da Vince. Cem vezes: Vinci, Vinci, Vinci, Vinci, Vinci...

Domingo, propósitos e casa

Dizem os astros que os sagitários gostam de começos mas perdem-se com facilidade nos propósitos. Deve ser verdade, deves fazer jus aos pareceres dos astrólogos, com o teu sol em Sagitário, ascendente em Caranguejo e lua em Peixes. Que raio de combinação te faz tão dual e difícil de compreender. Houve tempos em que sofrias com a sensação de não concretização. Aquelas sentenças do mau hábito de procrastinar traziam consigo a sensação de falha, de frustração. Cada vez perdes menos tempo a carpir estes julgamentos. Foram os começos e as desistências que fizeram de ti o que és. Não havia oportunidade real de prosseguir com tudo, tamanha a amplitude dos sonhos e propósitos. Quantas vidas seriam precisas para abarcar tudo e só tens uma. É essa que tens de viver e se for com muitos princípios e apenas algumas realizações, seja. É como é.


Num aparte que desta vez não vais deixar para o fim reforças a ideia já muito repisada aqui nas Comezinhas de gostares tanto de abrir os textos com repelente para iluminados, isto é, com astrologia. Uma forma de ganhar espaço vital para respirar no resto dos parágrafos.


Vem a ideia de inconsistência a propósito das muitas intenções ou promessas incumpridas aqui feitas. As Tílias ainda estão por terminar ou dar arranjo final para catálogo. Podias forçar-te a reuni-las e fechar a intenção por mais aberta ficasse para o futuro, como já tinhas determinado, mas talvez ainda não faça sentido. Em Novembro de 2022 andavas à volta de um croqui sacado de livros de História de Portugal com intenção de depois de maturar ideias escrever uma série de postais. Deixaste-o pendurado, como de costume. Hoje procuraste e viste que ainda existe. Ficaste mais descansada e acreditas que ainda se transforme numa concretização. Mais à frente. Ontem começaste um apanhado sobre Literatura, também arrancado ao que vais lendo. A ideia é extrair o simples reduzindo tudo ao mínimo dos mínimos. Um dia depois de amadurecido há-de ser útil para o despropósito das tuas escritas. Sem pressas, sem angústias de concretização. E vale uma ideia prévia para lá dos propósitos mais concretos e palpáveis aos olhos dos outros: as simples leituras já te acrescentam raras e leves penas (não sofrimentos, mas nesgas de ideias soltas) de lembrança nas conversas, nas escritas, sem o peso do corpo do pássaro inteiro e toda a substância do saber.


A promessa incumprida mais patente foi a da cronologia da Covid, mas a verdade é que não tens a menor vontade de a escrever, apesar de fazer sentido. Havia também a continuação do Espanador, porém esse faz-se a qualquer momento. Crês que tinhas a intenção de debruçar-te sobre a Europa. Um dia, quem sabe? Primeiro tens que refazer a batota da China que te envergonha. E não te apetece muito por ora.


Tudo isto virá, ou não e nada de mal sucederá, com tempo. No entremeio continuarás com as caseirices, as trivialidades do quotidiano, as moralidades e bitaites. Neste momento duas ideias assaltam os teus neurónios ainda a espreguiçar da sornice das manhãs de Domingo.


A primeira. O gosto pela casa e por tudo quanto diz respeito ao ninho. Se quisesses voltar a falar de astrologia dirias que o ascendente em Caranguejo sempre pesou muito: muito pouco na tua vida tem mais importância do que o ninho. Por mais gosto tivesses em viajar, por mais intensa fosse a sensação quase permanente da vontade de partir, o aconchego da casa sempre foi fortíssimo. Não usas muito o termo lar, que te parece refúgio de semântica. Os teus estão em casa e as portas de casa estão abertas a quem gostas. Não a concebes como contraponto de nada, como se houvesse duas vidas: uma destinada ao importante, outra aos intrusos. Conheceste várias pessoas que assim vêem a vida por frieza e cálculo, para quem na verdade ninguém é importante senão no palavreado para vender: nem os pretensos próximos nem os supostos intrusos. Não entendes nem queres entender por não fazer menor sentido. Para quem é verdadeiro a vida é só uma com tudo o de melhor e pior. A casa é só uma com todas as qualidades e defeitos.


A segunda. O cansaço de expor as comezainas levou-te há dois dias a pensar noutras trivialidades. Talvez trapos. O que vestimos é importante, não na perspectiva da moda, do que se deve ou não aparentar, mas daquilo que é e nos deixa confortáveis na nossa pele. Há três ou quatro dias num novo grupo familiar de WhatsApp mandaram uma fotografia onde ao lado de dois primos estavas tu, talvez com seis anos, de jeans, camisolinha de gola alta azul-escuro e casaco de malha canelado vermelho, com a bola de futebol debaixo do braço. Apesar de muito miúdos o teu primo M. e tu seguravam protectores o primo J. ainda mais pequenito, pronto para sair desembestado para conquistar o mundo. Reparaste na roupa de inverno que vestiam os três e no teu caso pensaste: em nada diverge da que vestes hoje em dia, qualquer uma das peças de roupa consta em tamanho adulto do teu guarda-vestidos e assim te sentes bem, eternamente à vontade e confortável se rodeada de quem gostas e com a casa onde passaste a infância e o Kubota laranja (tractor) de fundo a fazer cenário e memória. Noutra fotografia do mesmo dia estavam tu, os teus irmãos e primos, tios e pai. Um qualquer dia feliz do final dos anos 70 no terreiro de Valinhas.


Agora vais nadar.

29/07/2023

Bread

 


Para o Nuno.

28/07/2023

Sopro

Eis que chega a sexta-feira à noite e sucede o muito usual: acabo de jantar cheia de sono, e após desfazer-me do lixo no ecoponto e escrever estas linhas essenciais à sobrevivência da humanidade (sempre as mesmas gracinhas enjoativas; é nestes momentos que penso não ser má ideia deixar as Comezinhas em pousio temporário ou definitivo), deito-me no sofá com a televisão da sala ligada num qualquer jornal e adormeço. Lá dentro o Nuno vai ouvir o Vasquinho, que já não suporto e ele mal traga, mas continua a acompanhar o programa por gostar dos jogos de perguntas. Se tudo correr bem durmo uma ou duas horas (o desejável seria um ciclo de hora e meia) e acordo bem-disposta, pronta a aproveitar o resto da melhor noite da semana. Ou então, o cansaço sobrepõe-se e acordo no sofá já de madrugada. De uma forma ou outra, troco as horas de sono.


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O jantar: carapau para o menino – aliás, chicharro atento o tamanho -, sardinhas para a menina que tem mais olhos do que barriga e achava-se capaz de comer três das quatro sardinhas da dose. Nem com a ajuda do Ritz, que sendo gato de citadina parvalhona se nega a roer os despojos do peixe e espera que a dona lhe leve à boquinha pequenos pedaços de lombo da sardinha – nada mais do que o melhor. Quais mílharas, quais quê? Come-as tu, se gostas, diz-me ele com o olhar de Camões - um dia arranjo-lhe uma pala; brincadeira, calma, ainda não ensandeci em definitivo. As figuras tontas que fazemos com os bichanos não têm o menor cabimento, mas é assim.


 


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Os dois peixes que sobraram ficam para o almoço de amanhã. A acompanhar: sucedâneo de vinho. Mau rosé, uma vergonha, pois claro. Mas muito fresquinho, presente do Continente.


 


Antes de dormir o Nuno chamou-me porque o acesso ao Skype está prestes a bloquear. Todavia acabou por resolver sozinho. Daqui a nada começa o programa das perguntas. As pálpebras pesadas indicam que este é o momento certo de recapitular durante um pedacinho.


Antes de adormecer ainda há tempo para uma última conjectura: talvez seja altura de mudar o registo iniciado aqui nas Comezinhas a 31 de Dezembro de 2019 de mostrar a confecção de refeições ou os pratos feitos. Já cansa. Terei de arranjar outro tópico do quotidiano. Outra trivialidade. Ou não, nada é muito importante. Na vida tudo passa, nada é certo e definitivo, daí: tudo menos armar-me em carapau de corrida e perorar como se estivesse a opinar em ponto final sobre questões de vida ou morte. Desde 2007 gosto pouco de valorizar demais o que não tem valor. A vida é um sopro frágil.


Talvez acabem também os diários. Já ficou a ideia geral. Não acrescentaria muito continuar. Ou não, até porque se acabam os diários vai-se quase tudo. Logo se vê (vai dormir, que o teu mal é sono).

Ponto de situação

Hoje à noite e ao longo do fim-de-semana tenciono dar uma vista de olhos aos jornais além gordas. Esta semana um dos postais programados na Agenda ficou por fazer, o que não tem qualquer importância. Ao contrário do costume não tenho grandes planos para escritas e demais afazeres nem estou a pipocar particulares idiotices. No momento não sou portadora (gozem, gozem ó trogloditinhas) de grandes opiniões nem sapiências, o que me deixa sem saber como sobreviver neste mundo cão. Ah, a vida é tão difícil. Uma maçada.


Em suma, não tenho nada de relevante a dizer, mas sendo uma fala-barato consegui perder tempo a escrever estas linhas. Está-se bem. 


Bom dia. É sexta-feira.

27/07/2023

Moralidades à quinta-feira

Habituada há muitos anos a trabalhar por objectivos já viveste os dias obcecada pelos resultados. Animada por eles, já que no grosso dos anos passados os alcançaste com empenho total. Não ganhaste especialmente por isso. Talvez também por essa razão a idade e a constatação dos absurdos e injustiças da vida fizeram-te começar a moderar e a relaxar. Nada nem ninguém paga a saúde nem devolve a falta dela por excessos de empenho. Tal como nada paga a saúde e a falta dela na vida pessoal – já bem chegam os estragos que fizeste em ti mesma sem responsabilidade alheia, não precisas ser permeável aos danos tentados ou provocados por gente de má rês. Voltando ao profissional, balanças entre o gosto pelo brio e a sensatez do merecimento. Tens de colocar o lembrete permanente de não ir além do humanamente exigível, até porque já não tens 20 anos nem a burrice associada a essa idade.


Posto isto, há erros que são erros. E sendo honesta não há como fugir da admissão deles. Se criticas e pretendes continuar a criticar quem passa a vida a desprezar e tentar menorizar os outros nunca reconhecendo as próprias falhas, convém que faças diferente. Que faças o que não vês ser feito e consideras correcto, apesar de contrário à ladainha em voga do polimento oco da auto-estima e da bazófia reinante sobretudo no mundo online.


Apesar de organizada em geral, há aspectos concretos e importantes de falta de arrumação e ordenação que te prejudicam. Se em casa a maioria das gavetas estão arrumadas, as da mesinha de cabeceira são mais depósitos caóticos de inutilidades raramente abertos do que gavetas. Se tens as gavetas dos armários, cómoda e aparadores arrumadas por que carga de água a porcaria das gavetas da mesinha de cabeceira são um caos? Faz algum sentido? Nenhum. Quanto tempo demorarias a resolver o assunto? Possivelmente nem uma hora a deitar fora o que é para deitar fora e a organizá-las. Depois seria apenas manter, tal como fazes nas outras. O mesmo se passa como os emails pessoais e profissionais e os documentos no computador pessoal. Por que razão não perdes meia hora semanal a organizar os documentos do teu computador particular, se são tão poucos? E como é possível trabalhar sem uma caixa de email organizada por pastas personalizadas? Já as catalogaste diversas vezes, mas por razões várias, que não interessa explicar, o caos regressa sempre. Isto é naturalmente prejudicial e implicaria apenas umas horas de ordenação e continuação metódica no uso diário. Aliás, é o cúmulo da estupidez, já que uma das tuas funções é assegurar o tratamento de uma caixa de email de um departamento inteiro e essa está organizada. Ou seja, cumpres por estar estabelecido, mas quando tem de partir de ti a estrutura, relaxas. Por toda a vida te organizares mentalmente assim, completamente fora do baralho. Em suma, ao menos a trabalhar tens de estabelecer regras para ti própria e não cumprir apenas o pré-determinado. Razão? Faz sentido e simplificaria a tua vida. Tão só.


Onde está a moralidade hoje? Para dentro: na admissão das falhas como alerta e incentivo a ti própria para mudar de atitude a arrumar o raio das gavetas da mesinha de cabeceira, os documentos do portátil pessoal e duas das três caixas de email profissionais. Para fora: no reparo de haver pouco quem admita erros e saberes que é essencial num tempo em que cada vez mais vinga a aparência e a bazófia de competência, substância e rigor, com críticas constantes e levianas apenas aos outros.


Porquê não largar as alfinetadas e elevares-te?, pensam. Não fazendo comparações, não julgando, preocupando-te só com a tua vida e não com a dos outros. Deixando de lado as insignificâncias narcisas e aproveitar o ires sabendo escrever para tratar assuntos relevantes. Serias tão mais aceite, tão mais amável. Era tão mais fácil dar o ar de sábia amável, tão mais fácil. Descomplicarias tanto a vida. Pena não seres essa pessoa perfeitinha que devias ser aos olhos de quem não paga os custos da perfeição, porém exige-a sempre – aos outros. Pena não teres a menor intenção de vires a ser coisa diferente do que és para agradar.


Insignificâncias, passem à frente, não percam tempo com narcisas fúteis. Leiam os inteligentes cheios de certezas acerca dos outros e plenos de substância.

26/07/2023

Duas notas

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Começo do dia às 8h30 de manhã no parque de estacionamento do Arrábida Shopping às moscas. Razão: deslocação à Loja do Cidadão para pedir a emissão de passaportes.


Às 22h00 no +1 sentada à mesa do computador determinada, mas sem grande vontade, a escrever mais moralidades. Às 22h15 ainda não passou a mais leve ideia, talvez por a mioleira estar apinhada de apontamentos dispersos sobre tudo menos acerca do que havia estabelecido como tema.


O tempo urge, há dias como hoje em que até as lágrimas são cronometradas. Não há tempo para queixume, menina. Explica-te depressa e faz-te à vida, pensaste à hora de almoço e assim foi. O mundo pode ruir numa hora do dia e refazer-se logo a seguir. O tempo não pára, nunca. Nada é tão mau como parece. Nada é tão bom como parece. Ah, sentisses mais a régua e esquadro e poupar-te-ias aos dissabores de tanta ondulação. Freio na ideia, freio no sentimento, menina. Tudo passa: o mau, o bom. Nada é tão importante assim. Tudo passa.


 


Adenda. Afinal foram duas notas e meia.

Tunnel

25/07/2023

Accuradio

Hoje fui apresentada ao compositor e guitarrista de jazz Kurt Rosenwinkel, ou melhor prescindi de intermediário e parti à descoberta até o encontrar. Pelo mesmo método avistei no ano passado a contrabaixista e cantora de jazz Esperanza Spalding e a cantora também de jazz Zaz (Isabelle Geffroy).


O ponto de encontro tem sido a Accuradio, uma rádio online com centenas de canais que me foi mostrada por um amigo em 2004. Desde então tenho-a à mão, apesar de às vezes passar bastante tempo sem a “sintonizar”. Porém de cada vez que me apetece ouvir alguma referência do jazz ou conhecer um músico novo é lá que entro (atenção, o site é bem diversificado: tem todos os géneros de música catalogados e divididos por épocas ou décadas). Nos últimos anos uma das formas que utilizo na busca de gente nova ou gente que desconheço é pôr a correr a Accuradio nas últimas duas décadas do item jazz, ir deixando rolar até ouvir qualquer coisa que me prenda a atenção por gostar mais. Fixado o nome do músico parto para o YouTube e vou ouvindo (nem sequer sei usar o Spotify e por enquanto não me tem feito falta nenhuma; nunca fui de correr atrás do palpitante). Às vezes ponho aqui nas Comezinhas os vídeos e oiço-os obsessivamente. Quando gosto escuto à exaustão.


Se me fizerem perguntas sobre o trabalho dos músicos em causa, os álbuns lançados, os concertos mais marcantes, essas coisas, não saberei responder. E isso não me preocupa. Usufruo do que fazem como sei: ouvindo. Ouvindo muito, repetidamente. Desde que a meio da tarde de hoje descobri a guitarra de Kurt Rosenwinkel e, já agora o piano de Joseph Block, e os quatro outros elementos da The New Generation, já os ouvi pelo menos meia-dúzia de vezes e não me canso. É possível que daqui a um ano nem me lembre bem do nome do guitarrista. Mas alguma coisa ficará numa qualquer gaveta da memória. E sobretudo o gozo da descoberta e de os escutar saboreando bem a conquista por dias, semanas ou meses, vale tudo. É o importante.


A despropósito há dias li numas tretas lifestyle uma actualização daqueles estudos antigos que diziam que a música clássica ajuda na concentração. Estudei e li muito ao som de música erudita e o que li nessa página até faz sentido. Diz a ciência lifestyle que as peças mais conhecidas, ou melhor, a música conhecia pelo ouvinte é mais útil na concentração. Claro, quando confrontados com música nova ou com dissonâncias a mioleira agita, fica num despertar arrebitado e não naquela atitude de concentração passiva capaz de assimilar sem processar. Disto o estudo que li não falava, sou eu que sou fala-barato e faço uns acrescentos à laia de quem escarafuncha e gosta de dar bitaites. Mas resumindo, para trabalhar recorro muito às peças mais conhecidas dos compositores clássicos (nem essas sei identificar, salvo pontualmente) ou a jazz mais melódico.


Boa noite.

Kurt Rosenwinkel

24/07/2023

O que esta segunda-feira?

Já sabem que este é um espaço um tanto fora do baralho e não disfarça esse deslize. Por isso, hoje, só baralhas, partes e dás algumas cartas, deixando o jogo aberto. Tanto mais que vislumbras mal as regras. Isto é, há dias em que julgas compreender o sistema político, o qual passaste a vida a observar, umas épocas com alguma atenção, outras com nenhuma, e há muitos anos estudaste nos livros e nos anfiteatros. Outros tempos. Noutros dias sentes-te perdida por compreender que pouco tem regra, salvo a das circunstâncias, por mais que os sábios de ocasião pareçam sempre arranjar lógica – a táctica para a infinita e aparente consistência é simples: deixar o tempo passar e fazer de conta que as contradições e enganos nas avaliações não aconteceram. Mas deixas os considerandos e passas às palavras que afinal hoje é segunda-feira.


O baralho de cartas de hoje contém as palavras “inveja”, “desdém”, “cobiça”, “crítica” e “justiça”. Cinco cartas, já dá para jogar ao Burro em Pé, que será a primeira partida de cartas aprendida em criança. Numa visão nada abonatória, mas é a que te apetece hoje espelhar: na mão do português está a vontade de ter as cartas do parceiro de mesa, o desprezo pelas suas qualidades e a ambição de ganhar o jogo. Acha que vai sair vitorioso por possuir o Às de Ouros - a “justiça”: sempre entendida por si, não como bem comum, mas como reconhecimento do valor e mérito próprios face aos demais. E embirra e sente-se injustiçado por ter na sua mão o terno de espadas a que dá tão pouco valor - a crítica -, que é o juízo moral ou intelectual sobre o comportamento do conjunto de jogadores na mesa, determinante no desenrolar da partida.


Como não estás a jogar fizeste uma pequena batota e espreitaste o monte. O último a ir ao monte teve azar, levou uma série grande de cartas e ficou uma data de anos burro por não haver paus. À bica está o duque de copas - a “democracia” -, para desgosto de uns e alegria de outros, que já se vêem a virar o jogo. Chama-se alternância, existirá sempre se o jogo apesar de viciado por batota ainda contiver os quatro naipes com 13 cartas cada e não for corrompida em definitivo por naipe único – o de copas, por exemplo, todo dado aos afectos e à abolição das desigualdades, com censura de ideias dissonantes.


Mas que interessam estas considerações todas se, em geral, os portugueses, por não gostarem de regras, nem repararam que não tem o menor interesse possuir um Às ou um Terno sendo o objectivo do jogo apenas assistir ao naipe da mesa e descartar o maior número de cartas mais rápido? Que interessa apelar ao bom senso se não é comum o português conceder no carácter fortuito e injusto da Natureza e predispor-se a agir em função das regras e do bem comum?


Não chegaste a ver as cartas dos outros, nem continuaste a coscuvilhar a sequência do monte para saber o futuro, por isso este postal acaba por aqui mesmo. Pedes desculpa por ter escolhido o Burro em Pé e não o Bridge, mas convinha para ser um postal em harmonia com os conhecimentos rasos das Comezinhas.

Agenda

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Aproveitando a hora de almoço para fazer agenda. A segunda-feira é bom momento para adiantar o que vai na mioleira. Se fosse mais consistente, diria que seria o dia de planear a semana aqui no blogue, mas não, como posso chamar plano se nunca sequer desenvolvo um parágrafo mantendo-me fiel à ideia inicial. O cérebro trai-me a todo o momento, desvia-me do caminho a cada segundo. Chamam-lhe liberdade. Será, e tem custos elevados na coerência, não na vista desse lado, mas no de cá, ainda com reminiscências das ideias iniciais.


Partindo para o que interessa. Vou deixar aqui alinhavados alguns temas para me orientar. Nas Moralidades à quinta-feira voltarei a fazer um post de mea culpa, mas desta feita com o intuito positivo, de melhorar - o tópico é organização dos emails, documentos no computador e gavetas da mesinha de cabeceira. Em dia a determinar, ou melhor, a acontecer, tentarei destrinçar a inveja e desdém ou a mais suave cobiça da crítica por busca de justiça. Este tema calharia bem à segunda-feira na tal rubrica O que é esta segunda-feira?, já que apela à definição e deambulações sobre as palavras. Talvez a deixe para a próxima semana já que hoje é de todo impossível arranjar tempo. O terceiro post à bica é mais corrosivo e ao deixar-me levar pelo pensamento acerca dele - da frieza dos termos e dos comportamentos assépticos -, a mioleira encheu-se de vernáculo suficiente para arrepelar os cabelos aos mais melindráveis potenciais leitores, mas acabará por sair. Deixo uma vez mais explicação prévia: odeio o uso de vernáculo para impressionar, chocar ou vender a imagem de liberdade ou provocação, usei-o poucas vezes aqui nas Comezinhas, simplesmente não me é alheio o vocabulário de parte da minha gente, que foram ou são os meus colegas da primária, do liceu, amigos ou simples conterrâneos. Também faz parte da minha linguagem. Em certas circunstâncias é-me um pouco difícil expressar sem o uso do vernáculo por mais tenha sido educada em casa a não usá-lo. Quando autêntico é libertador e não tem verdadeiros substitutos.


Pronto, fico-me por aqui. Às tantas quando puder escrever sairá outra coisa qualquer, mas fica o registo de que foi isto que me passou na cabeça hoje. Como usual, tintim por tintim (sem associações, este é tão antigo e caricato que já nem vale, quando muito desperta um sorriso condescendente).

Ar para respirar

Cada vez gosto mais de pessoas que dizem menos do que sabem, se mostram aquém do que são para deixar espaço vital à volta. Se até aos 20 ou 30 a vontade permanente de impor a razão faz algum sentido e é desculpável, a partir dos 40 começa a ser triste sinal de falta de respeito pelos outros por ausência de inteligência e sensibilidade.


(Bem prega Frei Tomás, diz quem passa e despreza.)


Bom dia. Boa semana.

23/07/2023

Diário

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Foi um dia bom. Em casa. Acordaste antes das seis. Fizeste bastante cera no + 1. Leste pouquinho. Ligaste como usual o rádio na sala na smooth fm. Tomaste dois cafés de manhã. Tens de dosear esse apetite extra por café das últimas semanas. Escreveste um postal e ilustraste com fotografias da mesinha de cabeceira. Brincaste e tomaste conta do gato na varanda. Regaste as plantas fora de horas – já com calor; erro. Tiraste fotografias na varanda que não vais publicar porque o chão está com um ar sujo. Amanhã a dona L. vai deixá-lo bonito. Foste comprar quatro pães. Almoçaste e ficaste na treta. Falaste ao telefone. Leste ao Nuno os últimos posts e ouviste-o ao piano. Adormeceste no sofá quando estavas com ele a ouvir um vídeo do Youtube. Acordou-te hora e meia depois. Fizeste mais um cafezito e mais cera. Muita cera. Domingo é dia disso mesmo. Falaste ao telefone. Cedo reuniste os ingredientes para jantar com as galinhas. Escaldaste o polvo três vezes antes de o cozer. Ficou muito tenro na salada com molho de vinagrete. Tiraste mais fotografias para exibir no blogue. Antes de ir para a mesa puseste a cozer duas batatas para juntar ao resto da salada de polvo para o almoço de amanhã. Jantaste enquanto ouviste as notícias das eleições de Espanha. Ao café ouviste qualquer coisa sobre os incêndios da Grécia, o nosso Conselho de Estado e as greves durante a Jornada Mundial da Juventude. Assim driblaste a angústia de Domingo, véspera de dia de trabalho. Antes de fechar o estore do quarto tiraste uma fotografia à nespereira. Daqui a pouco vais ler mais um pouco e sabes que te vai dar o sono. Cedo haverá sorna boa.


A.Ingredientes 


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  c.MesaSala 


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Domingo

Gostas das madrugadas e das manhãs.


Gostas da vida.


E de mesinhas de cabeceira.


Ah, pouca-vergonha. Ah, exibicionismo. Devias aprender a disfarçar a exibição dando o ar de tratar do mundo alheio, mesmo que na verdade nunca chegasses a sair de ti e do teu umbigo nem fizesses esforço para tal. Isso sim, seria digno de apreço. Isso sim, daria ideia de préstimo. Agora isto de estares do lado de fora sem que se compreenda ainda não convence, não cola nas certezas do tempo.


Mesinha.Cabeceira


Os livros? Salvo um, estão ali há meses, crês mesmo que alguns há mais de um ano. Todos por acabar. Os que são lidos à primeira, chegam e partem para o arquivo vivo. Os que ficam são os mais custosos. Mas lá acabam por ser digeridos.


Nos últimos meses há um que vai devagarinho à medida que outros são devorados rápido. Houve um interregno de quase dois meses em que praticamente não leste livros. Acontece-te muito. Uma releitura especial tem-te de novo confirmado quanto do que idealizas foi pensado e repisado por gente que mais não fez na vida senão reflectir. Perguntas-te onde foste buscar tais pensamentos. Ah, asneira outra vez: as descobertas naïf nunca se trazem à luz do dia, deverias dar o ar de nascida a perorar lição. Quando muito deverias transformar cada nova descoberta numa exposição de perplexidade bem simulada e bem estudada para aparentares astúcia e requinte. É assim que se finge, menina. É assim que se mente, menina. É assim que se aparenta conhecimento e talento inexistente. Ah, e não te devias esquecer das gracinhas mimetizadas em grupelho de desprezo pela simplicidade ou suposta ignorância alheia. Isso sim, seria digno de apreço. Agora valeres por ti própria e expores o que se passa na cabeça do comum mortal é coisa pouca para o mundo da ilusão de valor. Ralé da ralé. Nunca aprendes, menina. O mundo é dos espertos e dos fingidos.


O Presépio? Está ali há anos. Com algum exagero cerca de 2000, dizem as más-línguas. É só uma família, outro aspecto de somenos importância. Não liguem, pormenores insignificantes. No Natal passado deste um igual à tua enteada.


O aspegic? Engana estar ali, porque é raro teres dores de cabeça, mas ficou à vista. Calhou.


A água? Sempre esquecida por te levantares para ir beber. Porém, nos dias em que lês em voz alta a garrafita ao lado sempre ajuda para aclarar a voz.


O radio-despertador é uma reminiscência dos anos 80 (ou terá sido ainda na década de 70?, foi na passagem de década). Lembras-te de encomendares o primeiro à Eca quando tinhas sete anos. Pagaste-o com notas de escudo dos presentes de aniversário e Natal. Há muito tempo não consegues ouvir rádio neles, atento o mau som (para isso há outro), mas serve-te para ver as horas. Nos últimos anos já não ajuda como antigamente para ir vendo passar as horas (e como passavam umas atrás das outras) porque adormeces rápido, cansada. Não tens insónias há anos. É uma outra vida nascida há 16 anos. Mais dois e atinges a maioridade nesta segunda vida.


O coração vermelho? Oferta da tua mãe por saber que tu achavas piada à piroseira. Mais uma vez a cumplicidade no direito ao apontamento piroso.


A caixinha? Presente do Nuno onde guardas vários pares de brincos que quase nunca usas. Só em dias especiais.


*


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Adenda. Agora com luz natural. Preciosismos. Coisas de coca-bichinhos. Insignificâncias muito maçadoras que não têm o menor interesse. A ti interessam os reflexos da luz e as sombras dos objectos nas paredes (céus, como gostavas de saber pintar; escreve menina, escreve como se pintasses ao som de boa música). Quantas horas da noite e madrugada passaste a observá-los enquanto pensavas. Tudo muito aborrecido, tudo inspirador de muitos bocejos aos sábios. Um tédio para os iluminados. Às vezes, raras, a perspectiva desencadeia ódios. Ontem lembraste-te de alguns ódios que despertaste. É a vida. Não há como evitar. Os que comungam contigo da bendita dúvida e maldita indecisão passem à frente, não se cansem com estas inutilidades; isto só complica a vida. E vós, sábios, continuai a troco de audiência e protagonismo a dar lições forjadas que não interessam nem ao menino Jesus, mas fazem muita vista. Como bobos da corte ajudais a entreter, a passar o tempo. Cada macaco no seu galho.

22/07/2023

Queria escrever qualquer coisa bonita

Se soubesse e houvesse oportunidade, sim é provocação, se soubesse e houvesse oportunidade escreveria prosa bonita, acerca de bolsas de verga que duram 30 anos. Há dias uma bloguer mostrou a forma como embelezou uma bolsinha de verga com um galão de franja. Recordei, em boa verdade a etiqueta ainda me impõe sempre lembrar, mas - perdoem-me a família e a educação as modernices na linguagem -, tenho de me fazer à vida que isto de escrever quilómetros sem recurso aos sinónimos seria um desatino de repetições que nem a música minimalista consentiria – recordei, dizia, o primeiro lanche familiar para o qual comprei uma toalha branca que resolvi adornar com um galão azul-escuro. Péssima ideia foi tê-la lavado na máquina. Tingiu, ficou cara a brincadeira e a solução seria descoser o galão para a branquear e voltar a levar à costureira. Está por isso desde então na gaveta no imaculado sossego de nódoa – sai à dona.


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Hoje foi um dia especial. Enchi-me de coragem e desfiz-me (isto é, vou desfazer-me) da tal bolsinha de verga que andava há 30 anos nas minhas carteiras, ou malas para quem gosta do género. Nos últimos tempos em franco mau estado. Talvez pela mesma razão continue a usar as sandálias das solas partidas apesar de já ter novas (são mais confortáveis as antigas) e de ao longo dos anos me ter acontecido algumas vezes dar por grandes buracos nas solas dos sapatos ou botas – lembro particularmente de um caso há 24 anos quando trabalhava no primeiro banco e da ficar um nada vexada quando descobri as solas rotas, já que a minha mesa de trabalho ficava virada de frente para muitas outras - foi o meu cartão-de-visita logo no primeiro emprego – pensando melhor era o segundo ou terceiro. Caramba, assim não se causa grande impressão profissional nem se arranja boas relações nem sequer casamento. Uma maçada. Sou tão infeliz. Hoje possivelmente nem ligaria e andaria mais uns dias com as botas, porém à época garanto que se me apercebesse teria de imediato mudado por causa da vergonha. O drama era (e é) mesmo o despiste. Não é que não houvesse cuidado e pudores, porém a distracção sempre superou essas qualidades tão virtuosas.


De maneira que hoje passei o conteúdo da bolsa de verga para uma saquinha de cortiça com fecho-éclair enfeitada com florzitas e a frase born to be authentic, comprada já há alguns meses. Fiz a mudança à frente da minha mãe que ao ler a frase soltou um: não haja dúvida que é sua. A mudança é um marco na minha existência. E mais: vou ter coragem de deitar fora a primeira sem remorsos. Grandes conquistas, grandes passos para a humanidade. Isto sim, são matérias que interessam.


Queria escrever qualquer coisa bonita, mas não saiu. Mesmo. Afinal aquela brincadeira da provocação na primeira frase foi precipitada. Irra, estendo-me sempre ao comprido nas apresentações. E mais: a beleza escapuliu-se dos dedos e fugiu para parte incerta. Ah e tal, não ligues que o belo é inimigo do bom – tanto engano no rótulo. Ah e tal, isto também não vale muito, é mera futilidade – tanto engano no catálogo.


Bem, mais tarde tento outra vez. É que hoje com toda a franqueza tive a sensação de ser capaz de escrever bonito – a coceira que esta expressão dá nos ilustres da praça. Pena não ter conseguido. Uma maçada. Quase sofreria se não me soubesse mais do que capaz de o fazer – descansem que nos próximos posts já perco esta pose pouco usual de imbecil convencida e volto ao acinte de refilona ou ao carinhoso registo de Calimero. Vou sofrer até ao fim, muito e sempre e mais, vou sofrer por ser tão incapaz, só para deixar contentes e impantes os pica-miolos de estrebaria convencidos que grosseria é estímulo. Ups, afinal já retomei neste post o estado normal. O que vale é que é fim-de-semana e este blogue passa de pouquinhos leitores para quase nenhuns. Deve ser falta de "cólidade" porque de feitio as Comezinhas são um doce.

Tiro e queda

Quem manipula e se esforça de modo dissimulado por causar sofrimento alheio acaba sempre a definhar no próprio veneno. É tiro e queda. Não vale a mais leve irritação, tarde ou cedo a vida serve-lhes a resposta em bandeja gélida. O único senão é a circunstância de uns tantos crentes nas (falsas) boas intenções dos manipuladores - que primam por prejudicar o são e o belo para favorecer a trapaça e o torpe - ficarem a ver um mundo turvado, nada revelador da realidade. É a vida. Há que crescer e aprender a reconhecer quem não presta e vive da mentira e da sacanice sob uma máscara de inocência - gente viscosa acaba sempre por se afogar na própria peçonha. A vida dá sempre o troco, nem precisamos de nos dar ao trabalho.

Sábado

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Gosto das manhãs. Gosto da vida.


Demoro eternidades a saboreá-la.


Sem pressa.

21/07/2023

Diário

Zen à custa de um dia inteiro de Chopin, Mozart, Bach ao calhas. É tiro e queda. Nem dou pelos metros de bordado de números, ficheiros, chamadas, emails, mensagens que bordo neste lençol feito vida.


A interromper o segundo almoço da semana por estas bandas: na terça com a B., hoje com a minha mãe, e uns salpicos de treta com o novo colega de gabinete. Nova história de vida, outros percursos. As chamadas habituais do Nuno e os telefonemas e mensagens dos compromissos pessoais.


Sexta-feira ao fim da tarde. Melhor momento da semana, se bem que com aquela sensação que as férias de Verão já foram. Valerá um feriadito solto em Agosto e uma sexta-feira em Setembro para desfazer um enguiço de uma vida por decisão de há duas semanas. Desfazendo esse, outros desenlaçarão. É impressionante com se desenlaça do nada (será lubrificação natural do juízo?) atilhos sem explicação.


E é assim a vida, mais fácil se encarada de frente e se os ventos não forem totalmente desfavoráveis. 


Sonho da noite passada: começo com imagem já conhecida e comum de escadas interiores com corredores e inúmeras portas. Desta vez subia lentamente escadas em caracol, quando de repente usei um mecanismo de manivela para facilitar o movimento da subida. Sensação de flutuar ao subir. Não está mal. Uma engenhocas em sonhos, verdadeira vocação perdida.

20/07/2023

Moralidades à quinta-feira

Durante o dia ocupado não arranjei motivo nenhum para pregar. O que me veio à cabeça agora? Uma nota que há uns meses tive intenção de aqui deixar e protelei. Mas, e agora? Como convertê-la em moralismo ou moralidade se já nem bem me lembro dela. Passa pela palavra sofisticação e quem lê as Comezinhas já deve estar farto do termo e do azedume com que a trato. Deveria perder um pouco de tempo a tentar explicar o que me causa repulsa na sofisticação – ou naquilo que entendo por, já que as palavras são caprichosas e cada um sente-as como sente. Imagino-a (à sofisticação) numa espécie de peanha de supérfluo e falsidade. Se tivesse cores andaria na conjugação de dourados e pretos, se tivesse textura e temperatura seria uma gélida mármore. Enfim, seria a triste lápide de quem já se passou para o lado de lá; de quem já não vive, mas faz de conta. Mesmo nos túmulos prefiro a rugosidade do granito - creio até que nestas ainda se respira.


É assim que passam por mim algumas leituras – as que tenho em mente no momento são femininas, mas calham bem nos dois géneros. Digo passam por mim, por ser isso mesmo. Nada de muito proveitoso fica, apesar de algumas serem escritas em português correcto – insípido nuns casos, com algum sal noutros, mas sempre usadas com a falta de jeito própria da leviandade seja ela mais ou menos instruída. O certo é que têm saída por vezes pelo picante da maledicência, outras por curiosidade pelo dito obscuro ou secreto, outras ainda por despertarem discussão acesa e lúdica. Atribui-se à conjugação destas características o epíteto de matérias interessantes (à moda brasileira). Têm pique. Lidar com pensamentos e sentimentos tidos por interditos - revelados no momento pelo autor(a) como se em êxtase de inteligência superior fosse explicar à turba de bárbaros o que é a civilização - é receita certa para vender e colher boa crítica. Em muitos casos estas abordagens são entendidas por manifestações de liberdade. 


Sucede que na maioria das ocasiões não há nem houve interdito algum, apenas formas de abordagem ao longo dos séculos mais ou menos escancaradas e o que vende é o espalhafato ou a crueza do estilo e não a liberdade propriamente dita.


Em contraposição carimba-se os que fogem da intriga, do obscuro e do conflito como moralistas ou puritanos, já em vias de ferrados como perigosos defensores das ditaduras, pois se atentam contra os mais nobres valores ao proporem mais reflexão, mais lucidez e, pasme-se, ao terem o topete de sugerir necessidade nalguns momentos de renúncia ao argumento em prol de consenso.


E pronto, as moralidades hoje são estas. Noutro dia mais adiante tentarei concretizar.


*


Posts anteriores desta série.


Recapitulando




Flavia Wenceslau


Te Desejo Vida


por Isabel Paulos, em 31.12.21


 

 



 


Às 8h30 estava no Centro de Saúde com o Nuno para consulta de rotina. Bem-disposta e mais conformada pela ideia de ter parte dos Sábados dos próximos meses ocupados a acompanhar questões menores de saúde.


Hoje queria retomar as Moralidades à quinta-feita, mas sou uma moralista de trazer por casa que até em moralizar tem dificuldade. Pode ser que me ocorra qualquer coisa enquanto estiver abstraída com as resmas de contas-correntes a tratar.


Esta musiquinha que recapitulo, cujo post abriram ontem, foi-me enviada pelo meu irmão T. no fim de ano de 2021 e à época embora o ambiente me fosse bastante agreste usei aqui por achar que seria mais "bonito" valorizar e passar bons sentimentos. Hoje fica aqui para quem passa e mima as Comezinhas, como forma de gratidão.

19/07/2023

Recapitulando

Abaixo recordo o post que abriram ontem. Sejam fruto de pesquisa aleatória no Google, revisitados por mim sem que fique na memória (acontece) ou aberto por mãos alheias por alguma curiosidade, aparece sempre um ou outro post antigo aberto nas estatísticas. Apesar deste blogue ser bem recente, afinal ainda nem tem quatro anos, já daria para uma nova rubrica: "O post aberto ontem".


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O cúmulo da sinceridade


por Isabel Paulos, em 24.06.21

 




Foi um dos piores insultos que troquei em criança e à época sem grande consciência: cabeça grande. À conta dele levei o maior estalo da minha vida. Pior do que as mágoas próprias, são os traumas dos outros e a minha eterna falta de tacto. E vem isto a propósito exactamente de traumas. Se quando era criança não tinha consciência de que habitualmente as cabeças nessa fase da vida são desproporcionais ao tamanho do corpo, em adolescente comecei a sentir algum incómodo com isso. De tal forma que me sentia desconfortável com uma pequena fotografia minha em criança na praia pespegada na estante da sala, na qual se notava a dita desproporção, talvez com efeito aumentado pela perspectiva da lente. O certo é que a fotografia lá estava e todos a pareciam achar engraçadinha, tirando eu: hum, cabeça grande.


Na faculdade não usei a palermice do traje nem fui praxada - bastou-me olhar fixamente por uns segundos para uns meninos que vinham com ideias, para tirarem o cavalinho da chuva. Mas no último ano a Eca deu-me a bengala e a cartola, e usei-as na Queima das Fitas. Já tinha idade para ter juízo, porém como não tinha invejava as cabeças pequeninas de várias colegas. Achava muito feminino, o arzito de fragilidade. E irritava-me a medida ampla da minha cartola, que enfiada em duas das colegas vinha-lhes até ao nariz. Comentário: ah, Isabel a tua cartola é como a dos rapazes. Não, não, é maior do que a minha, dizia um traste. Aquilo moía-me, tudo me soava a insulto.


Foi preciso passarem alguns anos, estabilidade emocional e o sempre bom tempo do Nuno para me dizer: tu és parva? Já paraste dois segundos para pensar porque tens o crânio maior?


Claro que a ilação não é tiro e queda e o assunto daria pano para mangas. Mas certo, certo é que as raparigas (e os rapazes) arranjam sempre maneira de sofrer por palermices absolutamente escusadas.

18/07/2023

A eira

Ora vamos lá tentar dizer isto em breves palavras para não ser ainda mais maçadora do que é costume. Lá atrás em 2000 no tempo do primeiro Big Brother lembro-me de admitir que vi alguns episódios – único reality show a que assisti em toda a vida. A curiosidade nem sempre mata o gato. E recordo uma discussão que à época tive com várias pessoas. Contra a absoluta recusa de qualquer exposição eu rebatia que o problema não estava na exibição propriamente dita, mas no carácter dos sujeitos e da substância do que se exibia. Isto é, já na altura defendia que me parecia natural, até aconselhável, que pessoas normais pudessem se quisessem mostrar-se nos aspectos comezinhos da vida. Normais por contraposição às ordinárias e às presumidas, por sempre me ter parecido que o espaço público estava pejado dessas duas últimas personagens. O que sempre se vendeu foi o reles ou piroso e o presunçoso, como se isso caracterizasse os portugueses. Ora, basta viver, passar pelas escolas e universidades, pelos locais de trabalho, pelas reuniões de amigos e sociais, pela vizinhança, enfim pelo nosso dia-a-dia para compreender que o melhor do tecido humano português não está espelhado no espaço público. Por ser constituído por pessoas discretas, com preocupações comuns, com ambições sensatas ou mais extravagantes mas num cunho menos fabricado para vender - gente que não tem de viver escondida por o mundo medíocre, ruidoso e ganancioso fazê-las definhar. E é tanto mais assim que quanto mais o comezinho for abafado, mais será engolido pelo ordinário e pelo pretensioso ou ganancioso. E isto é válido para as redes sociais e todos os espaços online.


Como tantos portugueses (talvez a maioria) fui educada a não me expor numa espécie de pudor que tem tanto de positivo quanto de nefasto. Todavia fugi à regra em que fui criada e as Comezinhas são manifestação disso mesmo. Se permitirmos que só o ordinário ou presunçoso apareça e vingue, deixaremos de ser nós. Deixando-nos anular por aquilo que não reconhecemos como os nossos valores. Deixando-nos vencer pelo que não tem sequer valor mas apenas aparência.


Cada vez gosto mais de ler gente relatar preocupações triviais de modo cuidado. Cada vez gosto mais de ler gente que escreve sem outra pretensão que não seja a de malhar o milho na eira - o espaço público -, dizendo o que pensa e sente de modo genuíno sem espalhafato rasca ou conselhos e lugares-comuns pirosos, mas também sem as lições elaboradas de sapo afectado, de quem trata a “pova” (opinião pública) com o nojo próprio dos burros pretensiosos. É preciso estar atenta e desviar-me das estridências muito populares e destacadas, mas ao lado deste alarido ou da agressividade vazia que se pela pelo confronto gratuito, cada vez descubro mais gente comum a mostrar num registo de pessoa de bem o que pensa e sente. Com consideração por todos quantos a merecem por não a pisarem a si ou aos demais. Prezo muito estes meus conterrâneos. E não é graxa: é tal qual me sinto esticando as pernas para ir até à eira.


Boa noite. Tenho sono.

Pós-almoço

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Este é o estado anímico do pós-almoço nos primeiros dias após regresso de férias.


O pior é ter de pensar. Nunca puxando demais pela mioleira para não cansar. E ambiciona a maioria das almas mais responsabilidades e complexidade de tarefas. Por mim, dormia uma soneca, isso sim.

Max Johnson's Heroes Trio

Podia ser ficção

A técnica do(s) impostor(es) que escreve(m) sob múltiplos pseudónimos ora masculinos ora femininos: criar uma qualquer situação que sensibilize pelo (falso) sofrimento um qualquer utilizador de espaço online. Tentar sacar informações que possa usar exactamente como fazia há duas décadas. Fazer recall dos emails enviados (ou eliminá-los meses depois) para não deixar provas. Ir gerando perfis para diversão mostrando-se doce e afável e de quando em quando atacar nos blogues apagando os próprios comentários em blogues alheios.


Nos jornais e blogues ou caixas de comentários dos ditos sob pseudónimo ou anonimato representar papel de imbecil exagerando e deturpando argumentos válidos no intuito de os esvaziar de seriedade e assim descredibilizar quem os defenda com sensatez. Fazer política deste modo rasteiro. Criar perfis femininos destemperados ou desequilibrados no intuito de diminuir as mulheres. Usar tipos de escrita diferentes para o efeito.


Criar sob pseudónimo metros de escrita melodramática e medíocre com o intuito de deixar obra marcante. Deixar a salvo a escrita identificada.


E anda o Ministério Público preocupado com o uso das receitas do orçamento dos partidos para agradar a esta clientela. É este tipo de gente que conspurca os interstícios do poder estando lá ou cá fora a tecer as vidas videirinhas. Vive em matilha, medrou nas redes de poder a trepar com artimanhas de matarruano, que nunca deixou de ser, e com o uso criminoso da tecnologia. Com palmadinhas nas costas e elogios dos amigalhaços bem sucedidos que acham piada ao género.


Toda a estratégia passa por fragilizar os alvos dos ataques, fazendo-os parecer na reacção naturalmente pouco amistosa: ridículos, ressabiados e agressivos. Odiosos aos olhos de quem passa. Ou pelo menos desfasados da realidade.


Sempre que pensas neste indivíduo com quem tiveste o azar de te cruzar há mais de duas décadas, quando criou um dos seus “bonecos”, lembras-te de Duarte Lima. Nada tem a ver com ele. Mas está ao mesmo nível de ambição e perversidade e deve achar que amedronta. Pior. Roça a psicopatia que aliás se vislumbra no olhar. Inspira, como não podia deixar de ser: asco.


E é assim. Vives a vida normal, mais feliz do que infeliz e, pretendendo manter espaço aberto online, com este empecilho preso ao tornozelo, que às vezes encanita como aqueles cães pequenos que ladram, ladram e não largam - e já te fez ser injusta com outras pessoas pela necessidade de estares sempre alerta para nova investida dissimulada. Em certas ocasiões na melhor das intenções - talvez no desejo de um ponto final menos feio no assunto - pões a hipótese do cenário não ser tão medonho. Pões a hipótese de ser doença. Puro engano. Não há desculpas que possam justificar tamanha canalhice. Convence-te disso.

17/07/2023

Recapitulando

Dos equívocos e das más intenções. Leio por aí que as pessoas começaram a odiar os factos. Erro. As pessoas começaram a odiar a permanente manipulação dos factos. Circunstância bastante diferente. Mais: cansaram-se de décadas de manipulação dos factos feita com a prepotência e aparência de conhecimento e erudição na comunicação social e espaço público e da arrogância balofa que daí decorre sempre muito bem sucedida em nichos de mercado viciados. Mais: compreenderam que quem tem intenção de valorizar o conhecimento e a qualidade não ignora nem despreza nem insulta a inteligência alheia, não trata os seus semelhantes como ignorantes, antes incentiva os seus talentos jamais usando atitudes de sobranceria ou paternalismo, colocando-se em degraus que nunca lhes pertenceram por mérito.


Umas compreenderam isto, deixaram de comer e calar e anseiam por uma realidade mais decente para o todo, outras entenderam como se joga o jogo sujo do poder e imitam-no, isto é, desbaratam opinião a torto e a direito como se fossem os mais sábios oráculos, tal como aprenderam com os intelectuais da treta.


Para os leitores habituais das Comezinhas refiro apenas que recapitulo um capítulo da Ana Paula que aqui publiquei em 2019 só por me recordar esta passagem: «Nos últimos dez ou vinte anos, ao entrar na onda de ditames contra a realidade, e do novo e empolgante conceito de história e factualidade errada, fora perdendo o controlo sobre opiniões ou princípios defendidos, e traída pelo próprio azedume e ressentimento fora engolida pelos slogans apregoados. Como previsível o mundo do moderninho consumira-se a si mesmo. Por falta adesão aos factos, o politicamente correcto entrara em autocombustão» (assim poupo-vos o trabalho de lerem o capítulo todo). É neste estágio de discussão que ainda estamos. Aguardo a passagem ao seguinte. À admissão de responsabilidades no estado caótico em que nos encontramos por parte dos mui sábios e intelectuais das certezas floreadas e manipuladas que a ela conduziram nas últimas décadas e que continuam impantes a cavalgar a onda dos interesses e da opinião sem nunca admitirem erros. Será que posso esperar sentada?


A última Mexerufada também dá uns lamirés sobre o assunto. E, claro, convém Relativizar o que os sábios dizem.


Boa semana.


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        Dois anos após as almoçaradas do Outono de 2014, os habituais convivas juntaram-se na Casa Agrícola, junto ao Mercado do Bom Sucesso, para festejarem a chegada ao governo da protagonista. Tal como previsto nas estrelas, a Ana Paula fora convidada a integrar o governo como secretária de estado da administração pública. Fez o infalível trabalho de casa. Um ano após a participação na Entrevista da TVI, no final do ano de 2015, mudou-se para Lisboa. Em rigor, e como vaticinara o Luís, fixou-se no Estoril. A mudança fez-se a pretexto do convite para integrar o grupo de reflexão sobre a modernização administrativa e a reforma do estado, para o qual foram canalizados fundos suficientes a gerar sete novos postos de trabalho no ministério das finanças e da administração pública. Sete novos postos de trabalho, bem remunerados, para se reflectir a futura reforma do Estado que, eventualmente, passaria pela sua redução. Comissão da qual, no final e como seria expectável, saiu apenas um sound bite, baseado em estudo na União Europeia, o qual atesta haver menos funcionários públicos em Portugal do que a média europeia. Razão dos dois pareceres emitidos. O primeiro no sentido de reforço de pessoal em áreas específicas dos serviços do Estado, com sinais de ruptura. E o segundo a calendarizar as medidas concretas de admissão de novos funcionários para daí a quatro anos. Sobrepunha-se o mais conhecido imperativo orçamental de todos os tempos: o almanaque eleitoral. E a pretexto de tão aturadas ponderações e conclusões, a Ana Paula viu resolvida a sua particular situação material, e encetou o trilho partidário a nível nacional. Fora presença notada no congresso da Feira Internacional de Lisboa, em Novembro de 2014. Fizera parte das listas da comissão nacional, garantindo a eleição, no ano seguinte, para a Assembleia da República, como cabeça de lista pelo círculo de Aveiro. Em tempo recorde, porque já não estamos no século XX, quando tais percursos demoravam dez ou vinte anos a ser feitos, em tempo recorde, escrevia a Margarida, a protagonista palmilhou o trilho do poder, transformando-se numa figura de relevo nacional. Chegara ao poder central, de onde tudo passa a paisagem a modelar ao gosto dos caprichos de provincianos deslumbrados. Cumpria-se a história do país dos últimos séculos.


        Na capital, rapidamente se adaptou à teia de relações que interessam a quem tem pretensões de poder. Tornou-se amiga chegada e pretensa discípula de figura maior do partido, uma mulher inteligente, arrivista e azeda, com preparação académica e percurso de vida que faria adivinhar melhor futuro. Nos últimos dez ou vinte anos, ao entrar na onda de ditames contra a realidade, e do novo e empolgante conceito de história e factualidade errada, fora perdendo o controlo sobre opiniões ou princípios defendidos, e traída pelo próprio azedume e ressentimento fora engolida pelos slogans apregoados. Como previsível o mundo do moderninho consumira-se a si mesmo. Por falta adesão aos factos, o politicamente correcto entrara em autocombustão.


        Em pouco tempo, a Ana Paula aproximou-se, percebeu as fraquezas e, estrategicamente, deixou-se ficar como figura de segunda linha, até ter a certeza de ter aprendido a arte de fazer política. Teve de estabelecer as relações necessárias, estreitar os ódios convenientes e aprimorar o discurso de demagoga. Teve de polir todas as arestas de mulher de paixões e opiniões. Aprender a defender as que rendem likes no Facebook e seguidores no Twitter. A moderninha daria lugar à ditadorazita de Espinho. Afinal, a protagonista era uma mulher do seu tempo e tarde ou cedo mostraria ao país a razão de déspota se escrever no feminino.


        A Margarida reflectiu sobre a última frase escrita e sentiu aproximar-se o final do livro. Folheou-o. Queria tranquilizar-se. Estar certa do problema não estar na ascensão ao poder por gente vinda da província, mas sim a ascensão ao poder de quem traduz cosmopolitismo pela ideia superioridade da cidade, enquanto núcleo do poder e das relações que interessam. Por espíritos provincianos, oriundos da mais recôndita aldeia do país ou de qualquer avenida lisboeta. Já nos chegava a visão estreita e pacóvia das elites das gerações anteriores, que não diferenciavam ser cosmopolita do bajular de correntes de pensamento estrangeiras e, por isso mesmo, se sentiam envergonhadas do país onde nasceram, como temos as novas gerações de deslumbrados e deseducados, a afiançarem a ideia de que ser cosmopolita, é ser moderno, urbano, abusar das novas tecnologias e defender de forma militante o apagão da história; a tal que explica o nosso estágio de civilização.


       Eterna ingénua, ansiava por velhos e novos ascendidos à nata do país cientes de não haver cosmopolismo sem o respeito por quem habita o universo, venha de onde vier. Sabedores do princípio íntimo do começo do universo. Vincava a ideia da necessidade de se ter mundo. Fazer parte do universo e respeitar-se a si e ao outro é mais difícil do que parece, dispensa a sobranceria pacóvia dos velhos privilegiados e impõe o conhecimento e compreensão dos factos da história desprezado pelas novas elites. E feita esta consideração, não sem antes rir da conclusão tirada, como qualquer outra resposta descabida na literatura, foi à pasta dos meus documentos procurar o primeiro início do livro que pretendia escrever, mas ao qual não dera continuidade, por se ter perdido a contar a vida da protagonista e outras personagens. Ainda assim decidiu, tal como tinha anunciado ao Vicente, valer-se do esboço inicial e passá-lo para o epílogo. Copiou e colou o texto. Trocou o título, apagando Ana Paula e escrevendo O Livro dos três Princípios. Simplificou, limpando as considerações inúteis sobre a evolução política dos últimos cinquenta anos, e sorriu ao ver novamente da cena triunfal da Ana Paula, a atravessar o jardim, calçada de revolução. Aí estava o terceiro princípio do livro.

16/07/2023

Jantar

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Para a semana tentarei salada de polvo ao vinagrete. Mandaram-me fotografia de uma que estava com muito bom aspecto.


Estado de espírito em noite de véspera de regresso ao trabalho. Uma ideia assalta a mente: deveria ser possível seleccionar a opção geral "marcar como lidas" todas as mensagens destes últimos quinze dias de todas as caixas de e-mail. Isso sim, seria vida boa. Mas a chata da consciência não permite.

Castigo

Exultante e não exaltante no post Mexerufada.


Não escrevo cem vezes por não ser erro, antes distracção no sentido das palavras. Ainda assim fica de novo a chamada de atenção para o uso despropositado de palavras no contexto.


(isto hoje parecem as pilhas Duracell, não posso dar mais corda nas costas.)

IPMA

Pondero vender os meus serviços de sismógrafa natural. Parece-me sensibilidade extrema: afinal senti o tremor de magnitude de 1.3 com epicentro em Vinhais.


Capturar

Relativizar o que os sábios dizem

A comunicação é essencial. Conhecer mais pontos de vista e saber ouvir é fundamental. Ser permeável ao que à partida repelimos, questionando o que temos por certo, pode dar bons frutos. Mas convém não esquecer que o que anima as afirmações dos outros está preso ao seu percurso, aos seus interesses e aspirações e tantas vezes à superficialidade da aragem do momento, isto já para não falar em má intencionalidade. Dar valor demais a tudo o que é dito por alguém por se considerar conhecedor pode ser altamente prejudicial se afoga a afirmação ou convicção própria e mérito de quem ouve. A imposição pela prepotência retórica corresponde normalmente a menos preparação e seriedade dos supostos sábios e mais valor de quem se recusa a sujeitar às redes que os suportam. O atraso do nosso país reside muito nesta pecha e na eterna incapacidade de quem tem valor em manter a independência, caindo numa de duas situações: desistindo de se manifestar, mantendo uma vida discreta e pouco ambiciosa, ou aproximando-se da cilada das redes de interesse, deixando-se conspurcar pela bazófia e aparência de mérito.


Ao escrever o parágrafo anterior não pensei na política, mas encaixa bem nesse domínio.

Mark Guiliana Jazz Quartet

Apontamento

Senti um pequeno tremor no cotovelo apoiado na mesa do computador. Ou a terra mexeu ou passou um pesado na rua e não o ouvi.

Apontamento

O que faz um bom livro? Num qualquer cerebrozito ervilha muito convencido da sua ciência: obedecer às exigências e referências mútuas e interesseiras de uma qualquer matilha.

Mexerufada

Dei por mim a pensar na crueza. Mais nova ao ouvir comentários pragmáticos sobre um qualquer autor ou livro, considerava-os rasteiros. Uma espécie de ofensa à sensibilidade. Radicava esses comentários na falta dela e no carácter básico da inteligência de quem os pronunciava. Até a (hesitei em escrever maturidade, parece-me topete) idade me deixar adivinhar na intenção de quem escreve propósitos que vão muito para além da entrega à arte. Hoje compreendo melhor quem desconfia dos epítetos de “grande obra, “obra maior”, "um dos grandes autores” e desconstrói o que lê reduzindo-o ao trivial.


De que estou a falar? Por hipótese da referência deslocada a meio de um romance a uma cidade europeia conhecida pela sua histórica ligação à arte – porque razão não nomeio a cidade se a conheço?, para manter este post no essencial, não o desviando para a afectação por menoridade, por vaidade. De sempre muito da escrita faz-se com recurso a este expediente. E agora penso se haverá corrente capaz de desfazer este apelo inelutável à mostra de erudição para engrandecer um post ou um romance. Depurar a escrita dela parecerá sempre aos distraídos empobrecer a prosa e a literatura, ou melhor, nem reconhecer à primeira a qualidade da segunda. Quem diz referência a uma cidade, diz referência a um poeta romântico, realista ou simbolista, a uma corrente literária ou arquitectónica, uma tira de BD fora dos modelos convencionais, diz a alusão a uma batalha do século XX ou à mitologia grega. Até que ponto a mostra de erudição é profícua? Não será antes uma montra de vaidade fácil, cada dia mais fácil. Ao contrário do que afirma a elite cultural que se tem afirmado pela sua pequenez e oportunismo, é cada vez mais cómodo e simplista criar um boneco, uma personagem, um pseudónimo ou mesmo uma identidade assumida de sábio ou iluminado e constuir uma carreira de sucesso no meio intelectual ou cultural. Os recursos e o acesso massificado ao mundo da sabedoria herdada assim o determinam.


E não vou alongar mais para não maçar. Acrescento apenas que como é habitual não cumpri o plano de leituras para férias. Coloco sempre a fasquia demasiado alta, ao contrário da técnica muito disseminada nas últimas décadas de tomar os objectivos mínimos por máximos e ficar quase sempre contente com o resultado floreado, exultando de orgulho pelas conquistas assim obtidas ou então forjar trabalho intenso ou estudo sofisticado nunca feito com seriedade – não é uma alusão a leituras de outros mas ao sistema de ensino português. Dos quatro livros destinados para estas duas semanas, dois foram sendo lidos e serão continuados e duas novelas foram começadas e concluídas. Com a particularidade que acontece nos últimos doze anos: a de ler alguns dos livros que me passam pelas mãos em voz alta ao Nuno. A dois é uma leitura diferente: perde-se em privacidade individual, ganha-se em intimidade a dois. O que vemos nunca é exactamente o que vê o outro, é como ler o livro duas vezes de uma vez só.  


No último ano do liceu, nas minhas eternas boas intenções não concretizadas, tive a ideia de ir para a Biblioteca Municipal do Porto ler para cegos. Como quase sempre acontecia não concretizei a intenção à época e como quase sempre mais tarde a vida mostrou-se patente por portas travessas num fio condutor que não sei onde e quando começa nem acaba mas dá sentido ao caminho. Imagine-se eu a ler para gravar naquela idade (mais tarde fi-lo muitas vezes com apontamentos da faculdade que cheguei a emprestar) lendo tão mal e sendo tão inexpressiva. Seria um descalabro. Hoje apesar da inexpressividade continuar – nunca seria capaz de ser actriz – já vou lendo melhorzinho. Lá para os 80 devo estar no ponto.


 


Adenda. Reparei na profusão de artigos indefinidos neste postal. Devia, mas desta vez não vou corrigir.

15/07/2023

País de fingidos

Pára tudo. Dramas existenciais que põem em causa a harmonia da humanidade. Acabo de ver uma casa perfeita em Gaia, perto da Praia de Salgueiros. Bom, quase perfeita. Com quase tudo quanto gosto. Defeito: o jardim é do condomínio. Não daria para plantar as minhas árvores. Vantagem: o jardim estaria sempre mais cuidado do que se fosse só meu.


Cá fora está-se bem e aí dentro? O mundo continua a rolar? Com guerra feia, politiquices, futebóis fora de época, culturóis da treta. E zangas para todos os gostos e feitios - bem sei que também alinho. Patifa me assumo.


Opinião, opinião, opinião. Zangas. Acinte, acinte, acinte. Eu é que sei, eu é que sou o rei ou a rainha da criação e os outros só vieram ao mundo para me incomodar. Agora até as meninas das sapatarias são acintosas. Lá tive de mudar de sapataria para não aturar a intelectual dos óculos redondos dourados a enquadrar face muito maquilhada e língua muito agastada com o trabalho imenso de responder a pedido recatado de certo número de calçado. Agora também pode ser assim nas lojas: atira-se um "digaaaa" maldisposto com ar de não me chateie que eu estou aqui contrariada e interrompe a conversa com a colega e eu tenho meus direitos (como diziam em Valinhas: estou na minha razão). Vai-se espalhando este mau hábito também no Norte do país onde não era usual.


Já cá fora as preocupações são como se vêem no primeiro parágrafo: sonhadoras q.b., para as quais tenho trabalhado a vida inteira sem vaipes ou manias de grandeza - ou melhor elas existem, mas são dominadas; há quem lhe chame juízo. Na última semana colocaram-me a hipótese de melhorar a vida material sem ser por via do trabalho. Isto é, investindo. Fiquei a pensar até hoje. Cheira-me esturro. A sucedâneos de pirâmide, os quais sempre rejeitei ao longo da vida - fossem financeiros, ou fazendo um paralelismo que agora ocorreu, fossem tribais (afinal a estrutura do esquema é a mesma). Fico logo a zenir com as ilegalidades,  além de começar por me desagradar a especulação. Se consultasse as bruxas, dir-me-iam que deveria largar as amarras da educação, os preconceitos e os moralismos caducos em que fui criada. Quem sabe não enriqueceria? Ainda não sei o que vou fazer. Sou um bocado caduca, jogo sempre no mais seguro, sabendo que perco oportunidades. Ainda penso como muitos antiquados que os rendimentos devem vir do trabalho e prezo a frugalidade - será por isso que há quem me vislumbre uma costela protestante que nunca tive. De qualquer modo, vou informar-me desse investimento. 


Afinal se o cariz de diário é um dos traços mestres das Comezinhas, não devo omitir estes assuntos. Bem sei que, como já aqui disse "inhantes", falar de dinheiro doméstico é tido por tema de mau gosto. Somos um país de parolos de mindinho no ar, a querer dar ar do que não somos e a não encarar o que somos. Meio país a fazer de conta que é mais pobre do que é, um quarto a pôr-se em bicos de pés nas dívidas e outro quarto a disfarçar o que tem para que não lho cobicem. A divisão não é bem assim, mas não estou para pensar muito agora que isto vai ao correr da pena. Talvez os sociólogos tão peritos, sábios e elogiados possam começar a falar verdade sobre os portugueses. Afinal se lhes conferem estatuto de senado e tempo de antena bem podiam fazer um esforço e incutir responsabilidade e verdade no país. Digo eu, que não percebo nada disto.


Podendo conter erros de análise, valha este postal para lançar isco de reflexão. Fartinha de elencos de argumentos e factos manipulados em florete disparados por eternos botões dourados em blazer azul marinho ou mangas de camisa com lenço de Arafat ao pescoço, que mais não passam de tricas e mais tricas para evitar encarar a realidade, coisa difícil neste país no qual moderação é aparência, é deixar vingar a intriga, o supérfluo, a retórica oportunista e não evoluir num sentido de encontro de vontades e respeito pelo todo, que implicará sempre aceitar a maior razão da Razão. O papão do radicalismo e dos regimes totalitários é usado com oportunismo para fazer perpectuar o status quo, chamando-lhe defesa da moderação. Tão enganados estão a engordar ainda mais o papão, ou melhor, muitos nem estarão: enganam assim por terem interesse na continuação da mediocridade da retórica fácil, na qual são reis e senhores por dominarem os floretes que usam em proveito próprio na sua vidinha corrente. Tudo muito conveniente e de aparente civilidade. País de fingidos, é o que somos.


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Lá está: partir do particular para o geral. Do micro para o macro. Tão esquisito, conversa de café é o que é. Até envolve má-criação de empregadas de sapatarias. São só bocas. Nem um facto bem escalpelizado para atirar à cara do adversário, nem um elenco de factos esmiuçados e manipulados para desacreditar o adversário. Não liguem. Continuem a ler os inteligentes. Os sérios, os estudiosos, os rigorosos. Aqui não se aprende nada.


Havia esquecido a alfinetada. Agora sim, terminei o post.