Pesquisar neste blogue

18/07/2023

A eira

Ora vamos lá tentar dizer isto em breves palavras para não ser ainda mais maçadora do que é costume. Lá atrás em 2000 no tempo do primeiro Big Brother lembro-me de admitir que vi alguns episódios – único reality show a que assisti em toda a vida. A curiosidade nem sempre mata o gato. E recordo uma discussão que à época tive com várias pessoas. Contra a absoluta recusa de qualquer exposição eu rebatia que o problema não estava na exibição propriamente dita, mas no carácter dos sujeitos e da substância do que se exibia. Isto é, já na altura defendia que me parecia natural, até aconselhável, que pessoas normais pudessem se quisessem mostrar-se nos aspectos comezinhos da vida. Normais por contraposição às ordinárias e às presumidas, por sempre me ter parecido que o espaço público estava pejado dessas duas últimas personagens. O que sempre se vendeu foi o reles ou piroso e o presunçoso, como se isso caracterizasse os portugueses. Ora, basta viver, passar pelas escolas e universidades, pelos locais de trabalho, pelas reuniões de amigos e sociais, pela vizinhança, enfim pelo nosso dia-a-dia para compreender que o melhor do tecido humano português não está espelhado no espaço público. Por ser constituído por pessoas discretas, com preocupações comuns, com ambições sensatas ou mais extravagantes mas num cunho menos fabricado para vender - gente que não tem de viver escondida por o mundo medíocre, ruidoso e ganancioso fazê-las definhar. E é tanto mais assim que quanto mais o comezinho for abafado, mais será engolido pelo ordinário e pelo pretensioso ou ganancioso. E isto é válido para as redes sociais e todos os espaços online.


Como tantos portugueses (talvez a maioria) fui educada a não me expor numa espécie de pudor que tem tanto de positivo quanto de nefasto. Todavia fugi à regra em que fui criada e as Comezinhas são manifestação disso mesmo. Se permitirmos que só o ordinário ou presunçoso apareça e vingue, deixaremos de ser nós. Deixando-nos anular por aquilo que não reconhecemos como os nossos valores. Deixando-nos vencer pelo que não tem sequer valor mas apenas aparência.


Cada vez gosto mais de ler gente relatar preocupações triviais de modo cuidado. Cada vez gosto mais de ler gente que escreve sem outra pretensão que não seja a de malhar o milho na eira - o espaço público -, dizendo o que pensa e sente de modo genuíno sem espalhafato rasca ou conselhos e lugares-comuns pirosos, mas também sem as lições elaboradas de sapo afectado, de quem trata a “pova” (opinião pública) com o nojo próprio dos burros pretensiosos. É preciso estar atenta e desviar-me das estridências muito populares e destacadas, mas ao lado deste alarido ou da agressividade vazia que se pela pelo confronto gratuito, cada vez descubro mais gente comum a mostrar num registo de pessoa de bem o que pensa e sente. Com consideração por todos quantos a merecem por não a pisarem a si ou aos demais. Prezo muito estes meus conterrâneos. E não é graxa: é tal qual me sinto esticando as pernas para ir até à eira.


Boa noite. Tenho sono.