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O mais importante: a tulipa de vidro trazida da Marinha Grande. Bem portuguesa. Aí está o coração. Lá dentro uma vela que nunca acendo. Tenho grandes receios do fogo dentro de casa. Procuro não acender velas e fico contente com a ideia de nem sequer ter fogão ou esquentador a gás.
O Buda, que mais parece uma Buda novinha, está na posição que mais gosto. Não aprecio a maior parte das imagens de Buda e sei bem que nas últimas décadas serviram de "decoração" a muitas casas portuguesas modestas. Também se democratizaram. Se nos anos 60 e 70 eram uma espécie de culto de um nicho de artistas e viajantes - fruto do turismo da busca pela verdade filosófica -, passaram nas últimas décadas a estar acessíveis nas lojas de qualquer bairro, sugeridas como elemento natural de "decoração" da casa portuguesa. Aderi, talvez pela mesma razão que os demais, talvez pela mesma razão por que me fascinei por Van Gogh aos 14 anos e li desenfreadamente Fernando Pessoa na mesma idade. A massificação da arte e do espírito.
A queda por Buda não nasceu do estudo do budismo - parco, muito parco - ou da adesão aos seus ensinamentos. É bem mais simples. Um pouco depois da viragem do século estive na Austrália dois meses em casa de um familiar - com quem sempre tive grande afinidade e para lá foi viver quando eu tinha nove anos -, que simpatizava (é bem mais simples assim) com a figura. Também ajudou nessa altura ter feito algumas leituras sobre religiões, mas isso interessa sempre menos do que os laços.
A figura de barro traz-me paz discreta. E concilio-a bem com a Sagrada Família. Cá em casa vivem em perfeita harmonia. É o encontro ecuménico que imagino comum a muitas casas portuguesas actuais.
E vem tudo isto apenas a propósito de ter dado com os raios de sol a baterem no Buda e na tulipa e sentir aconchego. Só por isso resolvi fotografar, mas como sou uma língua de pescada, vim para aqui dar as habituais explicações. Mas porquê?, senhores, porquê?
Acrescento que junto está uma pulseira só porque sim. Acho-a bonita apesar de só a ter usado uma ou duas vezes depois de comprada em adolescente numa feira de rua de Lagos - aqui também está o coração; devo ser como as minhocas com vários corações. Não gosto de me ver com pulseiras, muito menos assim grandes. Mas acho-a bonita pousada e quieta. Diz muito melhor com Buda de barro e a tulipa de vidro do que comigo.
Bom Domingo.