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27/07/2023

Moralidades à quinta-feira

Habituada há muitos anos a trabalhar por objectivos já viveste os dias obcecada pelos resultados. Animada por eles, já que no grosso dos anos passados os alcançaste com empenho total. Não ganhaste especialmente por isso. Talvez também por essa razão a idade e a constatação dos absurdos e injustiças da vida fizeram-te começar a moderar e a relaxar. Nada nem ninguém paga a saúde nem devolve a falta dela por excessos de empenho. Tal como nada paga a saúde e a falta dela na vida pessoal – já bem chegam os estragos que fizeste em ti mesma sem responsabilidade alheia, não precisas ser permeável aos danos tentados ou provocados por gente de má rês. Voltando ao profissional, balanças entre o gosto pelo brio e a sensatez do merecimento. Tens de colocar o lembrete permanente de não ir além do humanamente exigível, até porque já não tens 20 anos nem a burrice associada a essa idade.


Posto isto, há erros que são erros. E sendo honesta não há como fugir da admissão deles. Se criticas e pretendes continuar a criticar quem passa a vida a desprezar e tentar menorizar os outros nunca reconhecendo as próprias falhas, convém que faças diferente. Que faças o que não vês ser feito e consideras correcto, apesar de contrário à ladainha em voga do polimento oco da auto-estima e da bazófia reinante sobretudo no mundo online.


Apesar de organizada em geral, há aspectos concretos e importantes de falta de arrumação e ordenação que te prejudicam. Se em casa a maioria das gavetas estão arrumadas, as da mesinha de cabeceira são mais depósitos caóticos de inutilidades raramente abertos do que gavetas. Se tens as gavetas dos armários, cómoda e aparadores arrumadas por que carga de água a porcaria das gavetas da mesinha de cabeceira são um caos? Faz algum sentido? Nenhum. Quanto tempo demorarias a resolver o assunto? Possivelmente nem uma hora a deitar fora o que é para deitar fora e a organizá-las. Depois seria apenas manter, tal como fazes nas outras. O mesmo se passa como os emails pessoais e profissionais e os documentos no computador pessoal. Por que razão não perdes meia hora semanal a organizar os documentos do teu computador particular, se são tão poucos? E como é possível trabalhar sem uma caixa de email organizada por pastas personalizadas? Já as catalogaste diversas vezes, mas por razões várias, que não interessa explicar, o caos regressa sempre. Isto é naturalmente prejudicial e implicaria apenas umas horas de ordenação e continuação metódica no uso diário. Aliás, é o cúmulo da estupidez, já que uma das tuas funções é assegurar o tratamento de uma caixa de email de um departamento inteiro e essa está organizada. Ou seja, cumpres por estar estabelecido, mas quando tem de partir de ti a estrutura, relaxas. Por toda a vida te organizares mentalmente assim, completamente fora do baralho. Em suma, ao menos a trabalhar tens de estabelecer regras para ti própria e não cumprir apenas o pré-determinado. Razão? Faz sentido e simplificaria a tua vida. Tão só.


Onde está a moralidade hoje? Para dentro: na admissão das falhas como alerta e incentivo a ti própria para mudar de atitude a arrumar o raio das gavetas da mesinha de cabeceira, os documentos do portátil pessoal e duas das três caixas de email profissionais. Para fora: no reparo de haver pouco quem admita erros e saberes que é essencial num tempo em que cada vez mais vinga a aparência e a bazófia de competência, substância e rigor, com críticas constantes e levianas apenas aos outros.


Porquê não largar as alfinetadas e elevares-te?, pensam. Não fazendo comparações, não julgando, preocupando-te só com a tua vida e não com a dos outros. Deixando de lado as insignificâncias narcisas e aproveitar o ires sabendo escrever para tratar assuntos relevantes. Serias tão mais aceite, tão mais amável. Era tão mais fácil dar o ar de sábia amável, tão mais fácil. Descomplicarias tanto a vida. Pena não seres essa pessoa perfeitinha que devias ser aos olhos de quem não paga os custos da perfeição, porém exige-a sempre – aos outros. Pena não teres a menor intenção de vires a ser coisa diferente do que és para agradar.


Insignificâncias, passem à frente, não percam tempo com narcisas fúteis. Leiam os inteligentes cheios de certezas acerca dos outros e plenos de substância.