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15/07/2023

País de fingidos

Pára tudo. Dramas existenciais que põem em causa a harmonia da humanidade. Acabo de ver uma casa perfeita em Gaia, perto da Praia de Salgueiros. Bom, quase perfeita. Com quase tudo quanto gosto. Defeito: o jardim é do condomínio. Não daria para plantar as minhas árvores. Vantagem: o jardim estaria sempre mais cuidado do que se fosse só meu.


Cá fora está-se bem e aí dentro? O mundo continua a rolar? Com guerra feia, politiquices, futebóis fora de época, culturóis da treta. E zangas para todos os gostos e feitios - bem sei que também alinho. Patifa me assumo.


Opinião, opinião, opinião. Zangas. Acinte, acinte, acinte. Eu é que sei, eu é que sou o rei ou a rainha da criação e os outros só vieram ao mundo para me incomodar. Agora até as meninas das sapatarias são acintosas. Lá tive de mudar de sapataria para não aturar a intelectual dos óculos redondos dourados a enquadrar face muito maquilhada e língua muito agastada com o trabalho imenso de responder a pedido recatado de certo número de calçado. Agora também pode ser assim nas lojas: atira-se um "digaaaa" maldisposto com ar de não me chateie que eu estou aqui contrariada e interrompe a conversa com a colega e eu tenho meus direitos (como diziam em Valinhas: estou na minha razão). Vai-se espalhando este mau hábito também no Norte do país onde não era usual.


Já cá fora as preocupações são como se vêem no primeiro parágrafo: sonhadoras q.b., para as quais tenho trabalhado a vida inteira sem vaipes ou manias de grandeza - ou melhor elas existem, mas são dominadas; há quem lhe chame juízo. Na última semana colocaram-me a hipótese de melhorar a vida material sem ser por via do trabalho. Isto é, investindo. Fiquei a pensar até hoje. Cheira-me esturro. A sucedâneos de pirâmide, os quais sempre rejeitei ao longo da vida - fossem financeiros, ou fazendo um paralelismo que agora ocorreu, fossem tribais (afinal a estrutura do esquema é a mesma). Fico logo a zenir com as ilegalidades,  além de começar por me desagradar a especulação. Se consultasse as bruxas, dir-me-iam que deveria largar as amarras da educação, os preconceitos e os moralismos caducos em que fui criada. Quem sabe não enriqueceria? Ainda não sei o que vou fazer. Sou um bocado caduca, jogo sempre no mais seguro, sabendo que perco oportunidades. Ainda penso como muitos antiquados que os rendimentos devem vir do trabalho e prezo a frugalidade - será por isso que há quem me vislumbre uma costela protestante que nunca tive. De qualquer modo, vou informar-me desse investimento. 


Afinal se o cariz de diário é um dos traços mestres das Comezinhas, não devo omitir estes assuntos. Bem sei que, como já aqui disse "inhantes", falar de dinheiro doméstico é tido por tema de mau gosto. Somos um país de parolos de mindinho no ar, a querer dar ar do que não somos e a não encarar o que somos. Meio país a fazer de conta que é mais pobre do que é, um quarto a pôr-se em bicos de pés nas dívidas e outro quarto a disfarçar o que tem para que não lho cobicem. A divisão não é bem assim, mas não estou para pensar muito agora que isto vai ao correr da pena. Talvez os sociólogos tão peritos, sábios e elogiados possam começar a falar verdade sobre os portugueses. Afinal se lhes conferem estatuto de senado e tempo de antena bem podiam fazer um esforço e incutir responsabilidade e verdade no país. Digo eu, que não percebo nada disto.


Podendo conter erros de análise, valha este postal para lançar isco de reflexão. Fartinha de elencos de argumentos e factos manipulados em florete disparados por eternos botões dourados em blazer azul marinho ou mangas de camisa com lenço de Arafat ao pescoço, que mais não passam de tricas e mais tricas para evitar encarar a realidade, coisa difícil neste país no qual moderação é aparência, é deixar vingar a intriga, o supérfluo, a retórica oportunista e não evoluir num sentido de encontro de vontades e respeito pelo todo, que implicará sempre aceitar a maior razão da Razão. O papão do radicalismo e dos regimes totalitários é usado com oportunismo para fazer perpectuar o status quo, chamando-lhe defesa da moderação. Tão enganados estão a engordar ainda mais o papão, ou melhor, muitos nem estarão: enganam assim por terem interesse na continuação da mediocridade da retórica fácil, na qual são reis e senhores por dominarem os floretes que usam em proveito próprio na sua vidinha corrente. Tudo muito conveniente e de aparente civilidade. País de fingidos, é o que somos.


*


Lá está: partir do particular para o geral. Do micro para o macro. Tão esquisito, conversa de café é o que é. Até envolve má-criação de empregadas de sapatarias. São só bocas. Nem um facto bem escalpelizado para atirar à cara do adversário, nem um elenco de factos esmiuçados e manipulados para desacreditar o adversário. Não liguem. Continuem a ler os inteligentes. Os sérios, os estudiosos, os rigorosos. Aqui não se aprende nada.


Havia esquecido a alfinetada. Agora sim, terminei o post.