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28/07/2023

Sopro

Eis que chega a sexta-feira à noite e sucede o muito usual: acabo de jantar cheia de sono, e após desfazer-me do lixo no ecoponto e escrever estas linhas essenciais à sobrevivência da humanidade (sempre as mesmas gracinhas enjoativas; é nestes momentos que penso não ser má ideia deixar as Comezinhas em pousio temporário ou definitivo), deito-me no sofá com a televisão da sala ligada num qualquer jornal e adormeço. Lá dentro o Nuno vai ouvir o Vasquinho, que já não suporto e ele mal traga, mas continua a acompanhar o programa por gostar dos jogos de perguntas. Se tudo correr bem durmo uma ou duas horas (o desejável seria um ciclo de hora e meia) e acordo bem-disposta, pronta a aproveitar o resto da melhor noite da semana. Ou então, o cansaço sobrepõe-se e acordo no sofá já de madrugada. De uma forma ou outra, troco as horas de sono.


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O jantar: carapau para o menino – aliás, chicharro atento o tamanho -, sardinhas para a menina que tem mais olhos do que barriga e achava-se capaz de comer três das quatro sardinhas da dose. Nem com a ajuda do Ritz, que sendo gato de citadina parvalhona se nega a roer os despojos do peixe e espera que a dona lhe leve à boquinha pequenos pedaços de lombo da sardinha – nada mais do que o melhor. Quais mílharas, quais quê? Come-as tu, se gostas, diz-me ele com o olhar de Camões - um dia arranjo-lhe uma pala; brincadeira, calma, ainda não ensandeci em definitivo. As figuras tontas que fazemos com os bichanos não têm o menor cabimento, mas é assim.


 


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Os dois peixes que sobraram ficam para o almoço de amanhã. A acompanhar: sucedâneo de vinho. Mau rosé, uma vergonha, pois claro. Mas muito fresquinho, presente do Continente.


 


Antes de dormir o Nuno chamou-me porque o acesso ao Skype está prestes a bloquear. Todavia acabou por resolver sozinho. Daqui a nada começa o programa das perguntas. As pálpebras pesadas indicam que este é o momento certo de recapitular durante um pedacinho.


Antes de adormecer ainda há tempo para uma última conjectura: talvez seja altura de mudar o registo iniciado aqui nas Comezinhas a 31 de Dezembro de 2019 de mostrar a confecção de refeições ou os pratos feitos. Já cansa. Terei de arranjar outro tópico do quotidiano. Outra trivialidade. Ou não, nada é muito importante. Na vida tudo passa, nada é certo e definitivo, daí: tudo menos armar-me em carapau de corrida e perorar como se estivesse a opinar em ponto final sobre questões de vida ou morte. Desde 2007 gosto pouco de valorizar demais o que não tem valor. A vida é um sopro frágil.


Talvez acabem também os diários. Já ficou a ideia geral. Não acrescentaria muito continuar. Ou não, até porque se acabam os diários vai-se quase tudo. Logo se vê (vai dormir, que o teu mal é sono).