O verbo ostentar está hoje na berlinda e traz à mioleira a imagem de três mulheres cujas juventudes decorreram por volta dos anos 30 e 40, dos anos 60 e 70 e perto da viragem do milénio. Em comum o facto de estarem longe de serem burras e de terem escolhido para cara-metade homens que respeitavam e admiravam a sua inteligência. Os três comungavam de outra particularidade: nos primeiros anos de relação estranhavam a discrição das suas mulheres fora do círculo íntimo.
No primeiro caso o marido reclamava da ausência da habitual exuberância da mulher quando nas reuniões sociais via os (e as) demais convivas exibirem muito charme e sapiência. Desencantado já em casa dizia não entender: se sabia que a sua mulher era muito mais inteligente e culta do que o comum daqueles convivas, por que razão se inibiria? No segundo caso o marido irritava-se com o desleixo e preguiça de mui bem-sucedidos colegas de profissão da mulher, que sabia desempenhar o ofício com rigor, competência e talento raros sem especial reconhecimento. No terceiro o namorado confessava-se triste com o facto do brilho e desenvoltura que observava na namorada no dia-a-dia extinguir-se em reuniões de grupos alargados de conhecidos; também não gostava da forma como a desconsideravam nalgumas reuniões com próximos.
Este traço de personalidade apesar de não ser regra é comum a algumas mulheres portuguesas. E desenganem-se os apressadinhos e apressadinhas que aqui vêem um handicap ou falta de emancipação, logo um problema de anacronismo por resolver pelas ditas. Talvez seja melhor inverter a questão e ponderar se o erro, a grosseria, não está do lado de lá, na confusão entre ostentação e valor. Uma confusão muito comum quando não há verdadeira inteligência e educação.
Em qualquer um dos três casos, outras amizades e outros amores enriqueceram a vida destas mulheres, mas algumas ocasiões puderam mostrar a pequenez e futilidade que grassa no mundo muito bem vestido para suposto jantar elegante, muito bem calçado de eloquência vã, muito retocado de maquilhagem pirosa. Muita conversa e elogios interesseiros, muitas teias de relações oportunistas, muita bajulação das famílias antigas ou figuras ascendidas à corte e ao quarto poder por factores que raro se fundam no mérito, muito fogo-de-artifício, trabalho e floreados por encomenda como depósitos de sapiência aspergida por gente cheia de si com muita vontade e facilidade em exibir-se em público e sem a menor noção do ridículo da sua vacuidade.
A terceira mulher em particular pôde constatar como algum mundo masculino é feito de chichés e pouco sabedor do mundo feminino para lá do conhecimento parco e interpretação básica de algumas mulheres, do cinema e das leituras. O tempo é ocupado com prioridades como o futebol, a pseudo-cultura das boas relações e interesses e suas fofocas, os floretes argumentativos sobre a escaldante actualidade trocados na comunicação e redes sociais, rematadas com a cereja em cima do bolo - a "erudiçãozita" chamariz. Enfim, a futilidade do efémero e da aparência - sempre com muita audiência -, e não o essencial, tomam muito tempo e disponibilidade da massa cinzenta para que alguns homens (e mulheres) possam ir além dos preconceitos e lugares-comuns como o do encanto da fragilidade feminina, apesar de encherem a boca com alegado conhecimento, perorar e julgar as mulheres rotulando-as de estúpidas ou ignorantes, sobretudo, se não obedecerem ao figurino sofrível e sedutor das bem-sucedidas alinhadinhas com os estereótipos do tempo, os chavões de facção, as excitações dos temas do momento ou se não corresponderem ao protótipo arrebatador das bem-sucedidas que simulam irreverência e coragem – em suma, se não servirem para fazer claque. Um bocejo.
Se esta fosse uma crónica daquelas revistas femininas de meados do século passado, conteria um conselho a mulheres desavisadas: fujam de homens que não respeitam nem admiram a inteligência das suas mulheres. Dão péssimos maridos ou amantes e, em regra, são ainda mais burros do que aparentam, logo, não vos ajudarão a ser mais felizes.
(Continuas impossível de aturar. Uma maçada. Assim não arranjas amigos, nem boas relações nem casamento, menina :p)
Boa semana.