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30/07/2023

Domingo, propósitos e casa

Dizem os astros que os sagitários gostam de começos mas perdem-se com facilidade nos propósitos. Deve ser verdade, deves fazer jus aos pareceres dos astrólogos, com o teu sol em Sagitário, ascendente em Caranguejo e lua em Peixes. Que raio de combinação te faz tão dual e difícil de compreender. Houve tempos em que sofrias com a sensação de não concretização. Aquelas sentenças do mau hábito de procrastinar traziam consigo a sensação de falha, de frustração. Cada vez perdes menos tempo a carpir estes julgamentos. Foram os começos e as desistências que fizeram de ti o que és. Não havia oportunidade real de prosseguir com tudo, tamanha a amplitude dos sonhos e propósitos. Quantas vidas seriam precisas para abarcar tudo e só tens uma. É essa que tens de viver e se for com muitos princípios e apenas algumas realizações, seja. É como é.


Num aparte que desta vez não vais deixar para o fim reforças a ideia já muito repisada aqui nas Comezinhas de gostares tanto de abrir os textos com repelente para iluminados, isto é, com astrologia. Uma forma de ganhar espaço vital para respirar no resto dos parágrafos.


Vem a ideia de inconsistência a propósito das muitas intenções ou promessas incumpridas aqui feitas. As Tílias ainda estão por terminar ou dar arranjo final para catálogo. Podias forçar-te a reuni-las e fechar a intenção por mais aberta ficasse para o futuro, como já tinhas determinado, mas talvez ainda não faça sentido. Em Novembro de 2022 andavas à volta de um croqui sacado de livros de História de Portugal com intenção de depois de maturar ideias escrever uma série de postais. Deixaste-o pendurado, como de costume. Hoje procuraste e viste que ainda existe. Ficaste mais descansada e acreditas que ainda se transforme numa concretização. Mais à frente. Ontem começaste um apanhado sobre Literatura, também arrancado ao que vais lendo. A ideia é extrair o simples reduzindo tudo ao mínimo dos mínimos. Um dia depois de amadurecido há-de ser útil para o despropósito das tuas escritas. Sem pressas, sem angústias de concretização. E vale uma ideia prévia para lá dos propósitos mais concretos e palpáveis aos olhos dos outros: as simples leituras já te acrescentam raras e leves penas (não sofrimentos, mas nesgas de ideias soltas) de lembrança nas conversas, nas escritas, sem o peso do corpo do pássaro inteiro e toda a substância do saber.


A promessa incumprida mais patente foi a da cronologia da Covid, mas a verdade é que não tens a menor vontade de a escrever, apesar de fazer sentido. Havia também a continuação do Espanador, porém esse faz-se a qualquer momento. Crês que tinhas a intenção de debruçar-te sobre a Europa. Um dia, quem sabe? Primeiro tens que refazer a batota da China que te envergonha. E não te apetece muito por ora.


Tudo isto virá, ou não e nada de mal sucederá, com tempo. No entremeio continuarás com as caseirices, as trivialidades do quotidiano, as moralidades e bitaites. Neste momento duas ideias assaltam os teus neurónios ainda a espreguiçar da sornice das manhãs de Domingo.


A primeira. O gosto pela casa e por tudo quanto diz respeito ao ninho. Se quisesses voltar a falar de astrologia dirias que o ascendente em Caranguejo sempre pesou muito: muito pouco na tua vida tem mais importância do que o ninho. Por mais gosto tivesses em viajar, por mais intensa fosse a sensação quase permanente da vontade de partir, o aconchego da casa sempre foi fortíssimo. Não usas muito o termo lar, que te parece refúgio de semântica. Os teus estão em casa e as portas de casa estão abertas a quem gostas. Não a concebes como contraponto de nada, como se houvesse duas vidas: uma destinada ao importante, outra aos intrusos. Conheceste várias pessoas que assim vêem a vida por frieza e cálculo, para quem na verdade ninguém é importante senão no palavreado para vender: nem os pretensos próximos nem os supostos intrusos. Não entendes nem queres entender por não fazer menor sentido. Para quem é verdadeiro a vida é só uma com tudo o de melhor e pior. A casa é só uma com todas as qualidades e defeitos.


A segunda. O cansaço de expor as comezainas levou-te há dois dias a pensar noutras trivialidades. Talvez trapos. O que vestimos é importante, não na perspectiva da moda, do que se deve ou não aparentar, mas daquilo que é e nos deixa confortáveis na nossa pele. Há três ou quatro dias num novo grupo familiar de WhatsApp mandaram uma fotografia onde ao lado de dois primos estavas tu, talvez com seis anos, de jeans, camisolinha de gola alta azul-escuro e casaco de malha canelado vermelho, com a bola de futebol debaixo do braço. Apesar de muito miúdos o teu primo M. e tu seguravam protectores o primo J. ainda mais pequenito, pronto para sair desembestado para conquistar o mundo. Reparaste na roupa de inverno que vestiam os três e no teu caso pensaste: em nada diverge da que vestes hoje em dia, qualquer uma das peças de roupa consta em tamanho adulto do teu guarda-vestidos e assim te sentes bem, eternamente à vontade e confortável se rodeada de quem gostas e com a casa onde passaste a infância e o Kubota laranja (tractor) de fundo a fazer cenário e memória. Noutra fotografia do mesmo dia estavam tu, os teus irmãos e primos, tios e pai. Um qualquer dia feliz do final dos anos 70 no terreiro de Valinhas.


Agora vais nadar.