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31/03/2024

Semanário

Passou uma semana atípica. Finalmente vieram pôr a nova base de chuveiro com portas de vidro. Aproveitámos para ficar longe do arranjo indo passar uns dias a casa da minha mãe. Tive direito aos mimos e atenções maternais. O que mais apreciei: o pormenor delicado de pôr na nossa cama uns mui bonitos lençóis com ramagens em suave verde e manta acolchoada da mesma cor - ele há coisas que fazem toda a diferença; valorizo muito mais estes detalhes do que os trapos que vestimos. A registar ida e vinda na Uber em carro Tesla – muito confortáveis. Ontem regressámos e hoje testámos banho na nova coqueluche da casa. Além de tudo, como de costume gosto do cheiro a novo. Entretanto na sexta-feira fomos à Abreu comprar a semana de férias do Verão em Maiorca.


Estamos assim pobrezinhos e o plano é no próximo ano e meio repor mensalmente na conta em suaves prestações o valor gasto com o passeio de fim-de-semana de há 15 dias, da obrita da casa de banho e das férias – ou seja, o processo inverso ao crédito - como se fossemos os nossos próprios banqueiros; uma forma de nos comprometermos com juízo.


Entretanto ontem a vizinha esteve cá em casa para ver o chuveiro por quer fazer igual e mostrou-me fotografias da sua sala com a parede deitada abaixo. A tal obra que também ponho a hipótese de fazer. Fiquei tentada. Talvez daqui a dois anos.


A semana foi atípica, mas as rotinas quase se mantiveram. Fui a pé trabalhar, apenas de um ponto diferente da cidade - retornei a ambientes que calcorreei vezes sem conta até há seis anos. Vim todos os dias a casa mudar a areia do Ritz, dar de comer e mimar o bichano. Por serem de confiança entreguei a chave aos homens que fizeram a obra.


Entretanto este foi o fim-de-semana de Páscoa. Falámos ao telefone com os próximos e almoçámos com os meus pais, irmãos, cunhada e sobrinhos e aproveitámos uma tarde em agradável conversa com as picardias e risota do costume. À sobremesa houve entre outros doces Pão-de-Ló que gosto de comer acompanhado de Vinho do Porto, e levei umas Cavacas que a minha mãe odeia, e a mim fazem lembrar a feira de segunda-feira depois das Páscoa – não é que goste especialmente, mas agrada-me a ideia de as ver na mesa festiva.


Durante a semana quase abstraí da actualidade e do mundo da política.


Pronto e agora que já contei tudo tintim por tintim, já tenho os níveis de dopamina reestabelecidos sentindo-me importante. Já posso ir ouvir a minha bruxa de Domingo descansada e mais logo dormir o sono dos justos. Vida árdua, não?

The Forbidden Zone

Sermãozinho de Domingo de Páscoa

Num mundo em que a maioria quer parecer melhor do que é, o desafio que sempre vale a pena é preservar o melhor não o atirando à cara de quem passa para mostrar ascendente. Nada mais deprimente do que tratar os demais com desdém ou mero paternalismo, de modo a obter ridículo ascendente fabricado artificialmente por exibição de larachas tidas entre clãs que mimetizam as elites novas e antigas como demonstrações de educação e erudição. Meras molduras despidas de substância.


Em regra, esta tendência de arrogância ilegítima herda-se como cola para manter relações privilegiadas ou decorre da ambição sem limites e tantas vezes sem escrúpulos, em grupos de gente que se procura mutuamente e com oportunismo abstraindo do resto do mundo - quando muito usado como trampolim, audiência e/ou objecto de observação e comentário preconceituoso. 


Num mundo em que o elevador social é usado à custa deste expediente, o desafio que sempre vale a pena é seguir em sentido contrário, percorrendo uma vida de encontros com gente do mais diverso género, com origens e histórias de vida muito diferentes. Ouvi-las, viver com elas, gozar a vida.


Os arrogantes existirão sempre na sua masmorra de pedantismo a contar histórias de sucesso, de superioridade e vitórias próprias e dos diferentes elementos do clã, a desdenhar de supostos ignorantes – convencidos que comandam o mundo com a sua sabedoria e influência.


Para lá desse enjoo de vida, o mundo que interessa desenrolar-se-á livre da soberba em sãs relações humanas feitas de afecto e respeito pelo próximo.


 

30/03/2024

Bom Sábado de Aleluia


Fui educada a tratar o dia de hoje como Sábado de Aleluia.

Exercício: se soubesse que teria apenas seis meses de vida

(Sábado, 23 de Março)


Se me dessem seis meses de vida, o que faria? Começo pelo preâmbulo: conjecturar a hipótese não é vivê-la, por isso haverá perda de verdade. Mas adiante.


A primeira ideia seria a de gozar a vida mais ainda. Comer pratos mais apetitosos, foder e rir mais. Passar mais tempo na praia e nadar no mar, passear na serra junto às árvores e demais vegetação. Gozar uns dias numa quinta com terra remexida, árvores, erva alta e bichos – não numa fantasia de Valinhas que trago em mim, mas é passado da meninice e nesses últimos meses só quereria futuro.


Pegaria nas poupanças e gastaria em viagens. Partiria sem demoras para a América do Sul onde passaria três semanas e outras tantas no Oriente. Daria um pulo a Angola para conhecer N’Dalatando.


Já de regresso a Portugal no Verão iria rumo a sul e numa zona pouco habitada e iluminada do Alentejo ou Algarve alugaria uma casa caiada da branco com terraço no topo para dormir ao relento – numa noite quente adormeceria a olhar as estrelas. Só ainda não decidi se sozinha se com o Nuno.


A parte difícil: os meus pais, irmãos e sobrinhos e poucos amigos. Fazê-los entender que morreria feliz, porque fui e sou essencialmente alegre e feliz, apesar das zangas, das críticas, das tristezas e dos amuos. A morte não me traz medo ao contrário da doença. Apesar de me apetecer viver muito e morrer velhinha, se morresse agora não haveria problema de maior senão a preocupação com quem fica.


Mais difícil ainda: o futuro do Nuno. A sua felicidade. Apesar dele achar excesso de zelo, dir-lhe-ia que estaria do lado de lá a tecer os cordelinhos para que se entendesse com uma mulher que o mimasse. Até tenho duas hipóteses em mente - sou uma rapariga precavida. Dir-lhe-ia que ficaria do lado de lá a tomar conta dele à distância e ai delas que não o tratassem bem. Recomendaria que contasse com a filhota R. e desse mimo a dobrar ao Ritz para não sentir a minha falta, mas sei que seria desnecessário porque o Nuno não se esqueceria.


Depois no fim de tudo vivido e tratado, se fosse possível, gostaria de poder continuar a trabalhar até ao fim e morrer numa manhã banal distraída nos meus pensamentos e planos de auricular com música nos ouvidos na caminhada em direcção a um dia comezinho de trabalho. E no momento da passagem para a outra banda agradeceria a Deus não ter tido filhos evitando assim provocar-lhes dor. Afinal tudo na vida tem um lado bom, até o próprio sofrimento.


É engraçado: pensei em tudo, tal como ao início da tarde, sem lembrar as Comezinhas para as quais corro todos os dias em constância. Confirmei assim que o blogue tem mais valor pelo registo e até a própria escrita não é o essencial na minha vida, assim como a leitura. São apêndices a que dedico muito tempo e que me dão imenso prazer, mas não vitais. Se tivesse ambição de vir a ser escritora o normal seria que dedicasse os últimos seis meses de vida a escrever um romance para a posteridade, mas não. Não seria isso que me moveria.

29/03/2024

Sábado

(23 de Março)


Passa pouco das nove e meia da noite e este foi um Sábado suave. Ao fim da manhã, depois de tratar das roupas, procurei notícias do meu sobrinho saído de uma cirurgia. Estava ainda muito combalido. Soube há poucos minutos que já se encontra melhor. Fiquei descansada. Almoçamos o resto do risotto que fiz ontem à noite, repetindo com o resto dos ingredientes da semana passada, mas de forma mais aligeirada, juntado logo a água com os vegetais de uma só vez. Assim, sendo prático, pode ser que repita.


Ao início da tarde estava combinado sair com a T. Íamos ao antigo Cinema Batalha, que está convertido num espaço aberto ao público com biblioteca, livraria, café, além de cinema propriamente dito. Iríamos matar saudades de um cinema que conhecemos bem dos anos 90. Mas uma indisposição da T. levou a adiarmos o programa para melhor oportunidade, o que me agradou pela maior vontade de uma tarde de lazeira em casa. Fiquei na madornice com o Nuno. Afinal na noite passada deitámo-nos tarde. Ele nos arquivos musicais. Eu feliz a espiolhar vidas suecas, norueguesas, alemãs, britânicas, gregas e portuguesas. As minhas primeiras investidas de leitura ligeira para o futuro Espanador. Além do prazer em planear futuras escritas, gozo com as pesquisas. Ainda que não escreva as entradas e ainda que retenha pouco devido às dificuldades de memória, o gosto de espiolhar ninguém mo tira. Já cá canta - esta expressão reporta-me à meninice e à leveza dos meus tios G. e F..


A seguir ao almoço ficámos a conversar e um dos temas foi o da suposição de termos seis meses de vida. Depois de tão extenuante entretém deitámo-nos e saboreamos a tarde de Sábado. Acordei bem-disposta já perto da hora de jantar. Comemos massa chinesa, conversei ao telefone contando o modo como a perspectiva é tudo e como cada um tem medidas diferentes de valorização dos bens materiais; em suma: sinto-me bem tendo vindo viver para uma zona da cidade menos rica, distanciando-me da amplitude casas caras e carros faustosos, e como isso marca alguma distância de pessoas que me são muito queridas, mas vivem com medidas diferentes da minha e da maioria dos amigos que fui tendo ao longo da vida.


Entretanto decidi fazer um postal no qual descreva a hipótese de me deparar com o anúncio de ter seis meses de vida.

Estupidez: blindagem ao sofrimento

(21 de Março)


Na televisão André Ventura perora. Afirma que será primeiro-ministro naquela autenticidade de oportunista não precisada de fingir para defender o que acredita. É provável que seja uma questão de tempo. As duas jornalistas que o entrevistaram sorriram muito. Será riso nervoso? Adiante. Acabou a entrevista. Agora vem três meninos comentadores de gerações diferentes mas todos fadados à nascença para serem ouvidos por grandes audiências atenta a extraordinária capacidade de análise. Um deles é considerado sobredotado. O que no espaço público português significa nascer velho e reproduzir as gerações anteriores de modo precoce. É altura de apagar a televisão e ligar a smooth fm, que os iluminados da treta tratam por música de elevador ou hotel com aquele desdém próprio de quem nada compreende e sempre recorre aos tiques soberbos de desdém em voga nas seitas que se consideram sofisticadas disfarçando a palermice e a aparência de conhecimento.


Falar de si próprio contando sonhos e planos aumenta a produção de substâncias químicas cerebrais, os hormónios que potenciam o prazer. No caso a dopamina. E é viciante, compreendendo todos os defeitos que um vício comporta. Tal qual a endorfina na prática de exercício físico, ou a oxitocina no gesto gentil, na real atenção na amizade e no amor, ou a serotonina na sensação boa de reconhecimento alheio. Não há bela sem senão. Tudo quanto nos proporciona prazer tem contra-indicações.


Vem isto a propósito da questão do excesso de exposição e do falar demais. Hoje pensei no assunto, como acontece amiúde. Pus-me a questão de falar demais nas relações próximas contanto os meus muitos devaneios, o que acarreta o rótulo de tonta ou inconsistente. Quando refiro isto ao Nuno ele riposta com o não és inconsistente, és pura - o que para ele ao contrário de mim é diferente de ser tonta, ingénua ou burra. Mas também levantei a questão nas relações com meros conhecidos ou em público. Falar ou escrever muito, expor a casa, o gosto, as minhas relações, fragilidades, fraquezas implica risco. Perigo de ser ferida. Nada que não conheça de toda a vida. Se me mostro sem defesas dou armas para que me ataquem à traição e ao longo da vida tive o desprazer de conhecer oportunistas que sempre se aproveitam de pessoas com este tipo natureza. Dizem-me que tenho muitos argumentos para feri-los também. Argumentos para reduzi-los à insignificância, mantendo-me segura, atenta a verticalidade e autenticidade. Compreendo o que dizem. Como me podem ferir se conheço os meus defeitos e fraquezas e os assumo? Deveríamos nem sequer sentir-nos ofendidos face à falta de carácter dos ofensores. Há quem diga que consegue essa indiferença face à ofensa injusta, normalmente mentem. Há aqui uma necessidade de sentir-nos redimidos. De ver reposta a justiça e isso só aconteceria com a assunção do erro por parte dos agressores. Era bom que fosse assim fácil. Para que essas correspondências se verificassem seria necessário que quem ofende tivesse capacidade de introspecção e honestidade. Ora um oportunista, um impostor raramente admite que o é, mesmo a si próprio. E isso implica que tenha uma espécie de escudo, comum aos estúpidos. Posso dizer a um canalha que é um oportunista, mas não lhe vai doer. Por não ter consciência disso. Um canalha não se reconhece como tal. Pode barafustar porque usaram uma palavra depreciativa que vem no dicionário, mas não sente na carne porque não o sente na consciência. Tal qual acontece com um estúpido. Se apelidar alguém que o seja de estúpido, pode até reagir contra com veemência ou mesmo fúria, mas na verdade não vai sofrer muito, não vai compreender. Não tem consciência. Talvez por isso haja tantos de consciência tranquila. Ao contrário das pessoas que conhecem as suas fraquezas: apesar de poderem possuir um grau mínimo de estupidez, a consciência dela é tal que ficarão magoadas se as injuriarem. Aqui reside a razão de alguns autores e pensadores concluírem pela felicidade dos estúpidos. A inconsciência dos defeitos serve de blindagem ao sofrimento.

Diário

(Terça-feira. Dia 19 de Março)


Regressei ontem de Foz Côa. As aventuras da volta tardia ficam para os postais acerca do fim-de-semana prologando. Esta manhã dei um arranjo à casa que estava limpa por a dona L ontem cá ter estado, mas não arrumada como gosto. Desfiz a mala, tratei das roupas – apenas das malhas, as outras peças ficam para amanhã para ter espaço no estendal, que hoje tem os cabides com as camisolas e casaco pendurados. Que pensarão disto os intelectualóides da praça?, e os iluminados difusores de opinião na sociedade?, habituados a tratar estes assuntos, quando reduzidos a crónicas, como excentricidades de mulheres bem-sucedidas que os relatam para enriquecer o curriculum? Aqui não há sucesso profissional a exibir, nem o estereótipo das dificuldades de conciliação da vida doméstica. É um outro mundo, o das Comezinhas e o do comum dos portugueses e portuguesas que não encaixam nos lugares-comuns - agora até tenho medo de usar este termo, tão utilizado por quem não tem consciência de tanto cair neles.


Almoçamos e tratei das caixas de medicamentos dos dois. É usual fazê-lo ao Domingo, todavia atenta a alteração da rotina, passou para hoje. Na verdade em várias ocasiões mudo os dias de a preencher por distracção ou preguiça já que nunca consegui rigor – nem sei se quero. Uso caixa de medicamentos semanal há pelo menos 17 anos. É possível que seja há vinte – a minha memória desses anos é nebulosa. Se tivesse acertado na medicação e começado a organizar a caixa uns anos antes, talvez me tivesse poupado a alguns dissabores. Ou não, sabe-se lá do que seria a vida.


Antes de espreitar os postais com o título Agenda para reorganizar ideias e prosseguir com o blogue daqui a uns dias - ou semanas, quem sabe? – conto que hoje é dia do pai. Esteve cá para tomar café levando garrafinha para água com pijama que comprámos na loja do Museu do Côa. Trouxemos uma igual para a minha mãe e uma xícara de café com colher também de loiça agarrada, como é moda nestes objectos turísticos, para dar à minha enteada R.. Rimos da gracinha do dia. O meu pai contou que anteontem o F. ligou a convidar para irem à Tasca da Badalhoca – onde se comem boas sandes de presunto. Disse que não podia, perguntando o meu irmão: não pode? Porquê? Reposta: porque está fechada. O Nuno riu alto com vontade. Rimos os três como as brincadeiras do meu pai que não fazem mal a ninguém e dispõem bem, fazendo a vida mais leve. Já anda perfeitamente sem se notar o episódio do fémur partido. Mas não em grandes distâncias que o fazem cambalear por isso pára a meio caminho e fica a fazer de conta que está a observar a paisagem ou obras ou o que seja para disfarçar. Diz que é assim que pessoas mais velhas descansam. Cá para mim parte disto é a eterna vaidade e não dar parte de fraco. É engraçado como somos diferentes. Uns desembaraçam para jamais dar imagem negativa, outros fazem triste figura sem grande embaraço. Entretanto agora quem anda aflita do joelho é a minha mãe sem possibilidade de fazer as longas caminhadas diárias a que estava habituada.


Falámos também de Palma de Maiorca, onde o Nuno e eu tencionamos passar a semana de praia do ano. O meu pai aconselhou que fossemos para o centro, mas creio que questões práticas vão-nos levar a Magaluf. Entretanto ligou a R. ao pai e esteve também a falar comigo. Queria aconselhar as promoções para a América do Sul que estarão a preços muito convidativos. Disse-lhe que este ano tencionamos fazer férias pacatas por perto e na praia para descansar. Quando muito veremos se há um programa para visitar umas aldeias bonitas da ilha, o centro histórico, a Catedral La Seu, o Palácio Real de Almudaina. Ela vai em Novembro para a Tailândia no escopo de assistir ao Festival das Lanternas. Não aderiu a nenhum pacote; fez o próprio programa. Acho muito bem, está na idade disso. E nós na idade da papinha feita.


Agora depois de jantar estreei-me à noite nesta piscina municipal. Nadei trinta e cinco minutos. Talvez volte e se apetecer faça natação de noite à semana.


E então, agora sim, vou experimentar as Agendas. Sei que na última falei no Espanador. O TPC nesta matéria é corrigir o postal sobre a China por ser a única entrada nas Comezinhas que me envergonha por não ter sido integralmente escrita com cunho pessoal e por isso a única que passei a rascunho já depois de publicada. Mas é possível que adie mais ainda esse trabalho. Preciso de uma leitura prévia e não me vejo fazê-la a curto prazo.


Falei de História de Portugal e talvez seja por aí que comece. Depois de forma ligeira por outros países europeus. Quem sabe pegar em aspectos pontuais da literatura e pintura para enriquecer as entradas muito levemente e sem pretensão, o que quer dizer não introduzir novidades para sábios de algibeira que tudo conhecem e tudo desdenham, mas trazer frescor a quem é curioso e sabendo não se envergonha de recordar ou despertar para um ou outro banal apontamento das artes.


No penúltimo e antepenúltimo postais Agenda predispus-me a escrever acerca das eleições. E cumpri: três postais publicados. Gosto da sensação de cumprir. Ficou a faltar o “carta aberta ao um futuro ex-amigo”. A impressão é de que sei o motivo por que ia escrever que vai variando ao longo dos dias e das luas, se bem que comece a estar cimentado. Afinal as principais razões para me aproximar ou afastar de alguém tem uma raiz mais sólida que se prende com boa índole ou falta dela e modo de estar na vida.


Várias agendas estão feitas por elas mesmas, sei que há assuntos recorrentes que não preciso recordar. Voltam ao cimo por si mesmos. Mas há mais.


Ficou ao dependuro aquela ideia de explicar a razão de fazer ou não sentido a astrologia, recorrendo a noções básicas de matemática, geometria astronomia. A ver vamos se leio os dois postais que escrevi para dar continuidade.


Estou a recuar no blogue pesquisando pela palavra Agenda. Continuo a encontrar várias que se explicam e resolvem a si próprias não me impondo trabalho futuro. Repetições de ideias. Ou ainda que novas, podem bem ficar como faíscas deixadas a quem lê como potenciadoras de reflexão. Ou sujeitas a crítica, tão só. Outros postais já cumpriram o seu papel como as séries Moralidades à quinta-feira e O que é esta segunda-feira. Podem regressar a qualquer momento.


Mas há também temas soltos mais objectivos em que interessa pegar para desenvolver. Um deles a ideia de fazer um postal semanal com Nuno sobre ciência e tecnologia. Podia ser uma coisa simples. A minha ideia era mais uma vez escrever entradas muito simples aproveitando os interesses do Nuno para explicar o funcionamento de realidades e fenómenos naturais e humanos que tenho dificuldade em entender ou menor predisposição para compreender.


Já recuei até à recolha para as Tílias, que é outra que apesar de ter encerrado bem podia ser mais bem aproveitada. Mas assim fica por enquanto.


Mais atrás no tempo duas entradas que ficaram por desenvolver: a passagem do tempo como revelação e a facilidade na destruição da imagem ou da reputação do comum mortal.


Verifico entretanto que em 2021 me tinha dado prazo até final de 2022 para fazer um vôo atrevido e baixinho sobre a História da Filosofia e nem sequer me lembro se fiz um postal que possa corresponder a tal. Recordo de ter feito leituras suficientes para isso, mas creio que não escrevi nada de relevante acerca dessas leituras.


Já estou em 2020 e na promessa incumprida de fazer uma cronologia do tempo da epidemia da covid - tudo quanto não me apetece. Pelo meio encontrei várias Agendas que se cumpriram, desde o BES a árvores de frutos para as tílias.


Já cheguei ao início do blogue: revi as agendas de relance e fiquei com a sensação de que escrevi muito nestes últimos anos. Começo a não ter tempo para me ler. Para isso teria de parar à séria. Agora faço-o na diagonal. Um dia – quem sabe quando não tivermos Internet acessível devido a um apagão – lerei tudo com mais atenção para ver se organizo e catalogo. Agora não me apetece. Já serviu o fim da noite de hoje para pescar temas e ideias que ficaram por desenvolver ou concretizar.


Em suma: não me posso esquecer de escrever acerca 1) China, 2) História de Portugal e de alguns países da Europa de modo abreviadíssimo, com sorte, ambição e alguma inspiração tocando temas da literatura e da pintura, 3) A razão da astrologia fazer ou não sentido, com base em conhecimentos da astronomia, tópico que repele intencionalmente presunçosos da leitura, 4) Questões práticas e simples de ciência e tecnologia com ajuda do Nuno, 5) a passagem do tempo como revelação e a facilidade na destruição da imagem ou da reputação do comum mortal, 6) História da Filosofia em vôo atrevido e baixinho.


São grandes ambições e por agora estou contente comigo mesma tão simplesmente por ter conseguido reunir as intenções que fui atirando ao ar ao logo destes últimos anos aqui nas Comezinhas. É a tal reorganização que disse precisar e daí a paragem nas publicações. Agora que já sei o que vou fazer, convém tempo para pensar como o vou fazer e quais as leituras prévias necessárias. Enfim, só dificuldades boas. Claro que o envolver da massa do bolo deste blogue continuará a ser o imprevisível, o que sair na altura seja meramente reactivo seja fruto de maior reflexão. Mas há rumo.


Haja leme. Enquanto houver tino nada está perdido.

28/03/2024

Registo: novo Governo

Saíram hoje na comunicação social os nomes dos novos ministros. Espero não vir a cair na tentação de comentar mais do que isto: o futuro Governo tem o pior e o melhor lado a lado. O pior e o melhor não distribuídos por ordem de importância: em ministérios relevantes temos o pior e o melhor.


É só isto. Boa noite. 

Passeio de fim-de-semana ao Alto Douro IV

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Na segunda-feira levantámos cedo e tínhamos pendurada na janela uma neblina ainda mais bonita do que na manhã anterior. Depois do pequeno-almoço e de mais uma conversa amena com a dona da quinta, também nascida em Angola de onde regressou ainda mais bebé, acerca da vida animal, apontamentos da vida do campo com sapos e outra bicharada tirados a balde do interior do lodo da piscina em dias grandes de limpeza e preocupações quanto aos destemperos e fundamentalismos ideológicos da actualidade, seguimos para o centro da pequena cidade.


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Demos uma volta pela parte antiga e histórica. Um casario comum onde apanhei algumas nesgas de maior beleza. Não espiolhámos tudo quanto devíamos. Bom pretexto para voltar. Seguimos para um cafezito conversado que prolongámos descontraídos aproveitando para um exercício de memória. Jogámos ao STOP, como fazemos às vezes - cheguei a jogá-lo online com grupos de desconhecidos: vícios. Afinal estávamos de férias e continuamos criançolas. Sem papel, apenas de memória começámos por países e frutos e a ideia era dizer o número máximo que nos lembrássemos. Depois subimos a fasquia para nomes de instrumentos musicais e escritores portugueses e estrangeiros. Um fiasco, mas é uma forma de puxar pela cabeça, conversar acerca dos nomes, aprender qualquer coisa com o outro e a Internet já que se nos víamos atrapalhados a consultávamos.


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Comprámos uma revista da National Geographic no quiosque local acerca dos segredos do cérebro e depois de almoçarmos pelo centro fomos a pé até à quinta onde estávamos hospedados para levantar a mala e metemo-nos no táxi. 


 


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Entretanto havíamos sabido que nessa manhã tinham rolado pedras para a linha entre o Tua e o Pinhão pelo que teríamos de fazer transbordo e parte do percurso de autocarro. Foi sabendo disso que fomos para o Pocinho, mas ignorando que lá estaríamos duas horas (fomos com adianto de uma) pelo atraso do comboio das cinco e catorze. Foi uma simpática espera numa bonita estação, onde o Nuno aproveitou para apanhar sol e eu para escrever. Quando me viu pôr o telemóvel a carregar na sala de espera, o funcionário da CP, com quem havia trocado breves palavras antes para saber a hora de partida, disponibilizou a tripla eléctrica em cima da mesa do gabinete – assim não teria de ficar de olho no carregador e telemóvel. Quando entrámos no comboio, para delícia do Nuno, o revisor já sabia o nosso nome. 


 


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O primeiro troço da viagem coincidiu com o pôr-do-sol. A meu gosto pude sentir a paisagem com outra luz. O anoitecer sobre as colinas é denso. Impõe respeito. A noite fora da cidade é majestosa. E mais uma vez as belas quedas de água. Fotografei um pouco à toa, sabendo que o telemóvel não podia captar o que via.


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O transbordo para o autocarro no Tua foi rápido e acompanhado pelo revisor. Seguimos cerca de uma hora à moda antiga por estrada de curva contra curva rente a ravinas um tanto assustadoras entre o Tua e o Pinhão, sentados no banco da frente, a ouvir tranquilamente a conversa do motorista do autocarro e do revisor da CP. Ambos com terrenos que cultivavam. O que gostei de ouvir ainda que não tenha compreendido inteiramente: o método de poda para aumentar a produção das oliveiras a que chamaram cegar as árvores e afirmaram ter visto a prática entre os vizinhos. O Nuno também aproveitou a conversa para entender como se inverte a direcção das máquinas dos comboios na estação: não percebi nada, mas parece que têm duas frentes e o próprio mecanismo faz a conversão da frente para trás. Devo estar a dizer asneiras, mas não interessa.


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Na bela Estação do Pinhão esperámos mais uma hora, e assim chegámos ao Porto às dez e meia da noite. O revisor saiu na Régua e já havia deixado indicação do nome dos passageiros ao colega que faria o resto da viagem, pelo que continuámos a não ter de mostrar o bilhete no telemóvel. Resumindo: mais informal e familiar é impossível, no fundo não chegámos a sair de casa e esse é o encanto dos portugueses.

27/03/2024

4 Non Blondes

Passeio de fim-de-semana ao Alto Douro III

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No Domingo de manhã acordámos cedo com a maravilha de vista para as colinas do vale do Côa. Abaixo, visto da janela, o jardim onde um dos gatos da casa fazia de conta ser panda no topo dos ramos da oliveira. Depois de um agradável chuveiro fomos tomar pequeno-almoço. Ao olhar para a mesa o primeiro comentário: parece que adivinharam tudo quanto gostamos. O café feito no momento em cafeteira de vidro de prensa francesa, como usei tantas vezes em novita na casa dos meus pais no tempo em que vivi em Gaia, sumo de laranja natural, pão e croissants frescos, queijo fresco e curado amanteigado, carnes frias, travessa linda de fruta, e broas de mel. Um pormenor: iogurte grego sem açúcar a que juntamos compota de figo e ameixa para adoçar. Delícia.


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20240317_121353.jpgDepois de descansar do manjar matinal, partimos a pé para o Museu do Côa. Pelo caminho campos verdes com muitas oliveiras, bordeados a muros de cerca de um metro de altura feitos de lajes de xisto mescladas de cinzento, dourado e castanho-escuro, encasteladas em bonito desenho. Muita erva verdejante e flores campestres em quantidade atenta a época do ano. Caminhando estrada fora passámos por ovelhas a balir, bois a mugir, cães de guarda acorrentados a latir e uma matilha de cães rafeiros soltos e silenciosos atrás duma cadela com cio. Alguns carros que se passavam para a outra faixa ao cruzarem connosco – íamos em contramão, salvo na lomba, como mandam as regras de segurança de peões, tal como seguíamos em fila indiana quando sentíamos a aproximação de um carro. Um dia bonito numa belíssima paisagem digna para passear de mãos dadas como namorados bem-dispostos.


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O edifício do Museu integrado na paisagem alberga além da exposição das réplicas e explicação multimédia das gravuras rupestres, uma exposição temporária de Paula Rego – sou uma mulher de sorte; oh, se sou. E foi por aí que começámos, comigo encantada. A relação com a pintora tem vindo a evoluir: quanto mais conheço mais gosto dela. Usámos a aplicação da áudio-descrição disponível no telemóvel para seguir os quadros. Estamos habituados a vê-la pelo grotesco e o insólito, isso está patente na primeira sala, com a efabulação de pessoas-animais. Parece fácil, mas é tudo menos fácil. Quando passamos para os conjuntos de litografia da sala seguinte percebemos quanto trabalho e estudo ali está, quanta técnica, quanta arte. Uma maravilha. Saí de coração cheio. Na última sala a série habitualmente denominada Aborto que gostei de conhecer e reforça a ideia desta artista-mulher nada alheada como à primeira vista poderia parecer, antes uma artista comprometida com o seu tempo e a condição humana, que não é uma abstracção ou delírio de literatos arrogantes e insensíveis, mas uma realidade palpável.


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Em seguida tentámos almoçar mas percebemos que não havíamos reservado: o restaurante do museu estava cheio. Deixámos reserva para uma hora mais tarde e fomos visitar a exposição da arte paleolítica, que não dispensa para os mais interessados a visita às próprias rochas gravadas. Ficámo-nos pela visita às salas do museu com as réplicas e a informação interactiva dos painéis expostos. Usámos uma vez mais áudio-descrição, mas não consegui ter paciência para tudo. O Nuno lá ouviu tranquilo a informação sobre a arte do paleolítico. A mim que não o distingo do neolítico não sabendo nada da pré-história é um tanto estucha. Além de mais confesso que mesmo com a áudio-descrição não consegui ver nada do que descreviam na orelha nas réplicas das rochas. Achei piada apenas a ver as amostras de pedras e à técnica de incisão: com um material mais duro riscar a superfície mais macia através de linhas, ponteados ou preenchimento. Às tantas estou a dizer asneiras, é melhor abster-me de continuar.


Vista a exposição fomos ao restaurante, escolhi cordeiro porque sou uma camela infanticida. É sabido que carne com ossos é péssima escolha em restaurantes por ter que andar a lutar com os bichos no prato, além do que se olhar bem as pequenas ovelhinhas em vida nos prados, fico com natural complexo de culpa. Esperei cinquenta minutos e vinha acompanhado de migada de batata com grelos. O restaurante que tem uma belíssima vista estava cheio de famílias a gozarem o passeio de Domingo ensolarado.


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E viemos embora a pé de novo, de mão dada pela estrada fora. Para lá não nos tínhamos cruzado com ninguém a pé, no regresso encontrámos duas mui jovens estrangeiras a falar inglês, que amáveis nos cumprimentaram com o portuguesíssimo boa tarde. Uma caminhada num dia cálido de Março, terminada a subir ao Miradouro de Santa Bárbara.


Ao relatar ao meu pai as nossas andanças de comboio e a pé em Foz Côa, comentou que éramos muito ecologistas, climáticos – aproveitou para gozar comigo de dizer que sou climática de temperamento – e estranhou que nos tivéssemos esquecido das latas de tinta para atirar ao comboio turístico em defesa do ambiente. Pensando bem, já que estivemos numa exposição de pintura, teria sido mais moderno como alvo da nossa indignação contra as alterações climáticas. Por falar nisso, creio já ter demonstrado que estava um dia lindo de anúncio de Primavera – uma das tais estações que os jornais dizem ter deixado de existir.


(continua no post do dia seguinte, depois do vídeo de música)

26/03/2024

Beth Hart

Passeio de fim-de-semana ao Alto Douro II

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Ontem acabei na descrição do jantar e noite de Sábado. Mas não havia falado da viagem de comboio entre o Porto e o Pocinho. Até à Régua uma paisagem muito do meu conhecimento sobretudo ali pelas bandas de Caíde de Rei. Senti o aconchego dos cheiros da infância. Os normais do campo e também particulares como o da fogueira de Inverno entre leiras e mata. Um cheiro característico de lenha húmida misturado com o odor a erva e mato.


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À chegada à Régua a percorrer a plataforma da estação as vendedoras com os cestos de rebuçados de mel. Odiava-os em criança quando mos traziam a Valinhas – não era muito fã de rebuçados e aqueles muito grandes e mal-amanhados para boca pequena. Gostava bastante mais dos pequeninos de café embrulhados em papel dourado e castanho, vendidos na Emilinha da Loja como chamávamos à mercearia a caminho da Escola Primária. Era o entreposto de distribuição de gás, e o marido o taxista da terra. Pais da C., colega de classe.


Em Ermesinde havia entrado uma excursão grande e barulhenta que encheu a carruagem. Ponderei descrever as conversas ouvidas a que sempre estou atenta, mas entretanto esqueci. Deveria ter retido uma em especial como se perceberá no último post desta série: um dos excursionistas recordava como anos antes ficara retido pela queda de pedras na linha. Saíram na estação do Tua, com destino ao restaurante Calça Curta, regressariam nessa mesma tarde.


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Depois da Régua a paisagem começa a embelezar e ficar mais desnudada de casario, o que sempre engrandece a Natureza. Um momento alegre: o da visão das bordas da linha pejadas de cactos. Recordei imediatamente o sonho da semana passada. Tal como a profusão de borboletas, sobretudo brancas, me avivou a memória para o sonho de há duas semanas.


Pouco depois, ainda na zona do Tua quando os restantes poucos companheiros de carruagem começaram a abrir as janelas, baixei também a minha e comecei a fotografar com entusiasmo. Quando dei por mim estava a chorar de alegria comovida pela visão da beleza, do curso rio, das ladeiras pedregosas. As quedas de água nas margens entre pedras e vegetação.


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Antes e depois o Douro Vinhateiro empresarial e sofisticado com as suas casas e quintas anunciadas com placas brancas escritas a negro no meio dos socalcos ondulados das extensas e penteadas encostas a dar um ar um quê hollywoodesco. A paisagem em declive sombreada a tons cinza nostálgico, reflectida no rio em espelho esverdeado musgo. Belíssimo.


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Logo a seguir a estação de Alegria com as janelas entaipadas e pintadinhas a fazer bonito para enganar turista – um pormenor que fará torcer o nariz aos pretensiosos por se acharem muito criteriosos e ao contrário da marabunta os únicos a topar o engodo, mas faz parte da realidade assim como a dita sem retoque, tal como os muitos castelos e muralhas reconstruídos que visitei em criança pelo país fora. Faltavam cinco estações no serpentear do rio, ora do lado direito ora do esquerdo desta bela região vinhateira do Douro.


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À chegada ao Pocinho: imperdoável, atrasámo-nos dois ou três minutos para o táxi por ter decidido tirar uma fotografia ao comboio. Ainda assim esperaram por nós.


 


(Escrito na Estação do Pocinho no dia de regresso, aproveitando o bom tempo.)


(continua no post do dia seguinte, depois do vídeo de música)

25/03/2024

J.J. Cale

Passeio de fim-de-semana ao Alto Douro I

Nos últimos anos imaginei em diferentes ocasiões um fim-de-semana de turismo rural. Como é usual entre portugueses remediados protelei condicionada por considerações de oportunidade. No meu caso o factor mais relevante: não conduzir estando dependente de transportes públicos para as deslocações. Nada como atirar para trás das costas desculpas e fazermo-nos ao caminho.


Dei início às andanças pelos caminhos-de-ferro portugueses. Não faço ideia se terei oportunidade de fazer outros, mas isso é o que menos interessa - já nos imaginei a fazer o percurso no Outono até Beja e na Primavera do próximo ano a Castelo Branco. Por agora um já está no papo. No passado fim-de-semana fiz um programa há muito adiado: a viagem de comboio Porto-Pocinho, com direito à belíssima paisagem do Alto Douro. E ficámos muito bem acomodados em Vila Nova de Foz Côa – já pertencente ao distrito da Guarda.


Há vinte anos estive quase para fazer o percurso pelo Tua. Tinha ido a Meda e ia aproveitar para passear, mas à época estava em mais uma mudança de emprego – foram muitas durante os primeiros dez anos profissionais - e recebi um telefonema para me apresentar nessa tarde numa entrevista. Regressei de requitó. O mesmo aconteceu pouco depois quando me encontrava a fazer uma semana de praia em Monte Gordo. Saí mais cedo chamada para uma entrevista de emprego.  


Comecemos pelo início. Há duas semanas procurei um hotel em Foz Côa. Queria uma coisa bonita e como a comodidade do pequeno-almoço e jantar no próprio hotel pelo que ficaram de fora todas hipóteses de alojamento local no centro. Além de mais queria estar numa zona desafogada, mas que não fosse longe da pequenina cidade. Escolhi a Quinta do Alto da Fraga, junto ao Miradouro de Santa Bárbara, que fica a meio caminho entre o centro e o Museu do Côa - dista um quilómetro do primeiro e menos de dois do segundo, cada um para seu lado. Depois comprei os bilhetes de comboio. E na véspera liguei para os táxis do Pocinho para reservar a pequena viagem até Foz Côa: sete quilómetros, supus eu. Ai sete?, riposta a taxista em tom que não admite réplica. São oito ou nove. Juro que pela reacção abespinhada achei que me ia dizer vinte.


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No dia da chegada, depois de pousarmos a mala, tivemos boleia do proprietário do hotel até ao restaurante onde almoçamos e fizemos a visita pelo centro de Foz Côa, entrámos na Igreja Matriz estilo manuelino Nossa Senhora do Pranto, que divide o espaço da Praça do Município com a Câmara e o Pelourinho, e logo ali ao lado o Tribunal. Típico nas nossas terras: os símbolos e instituições tradicionais de poder juntos. Para modernizar faltam apenas um Banco e uma representação de uma grande empresa tecnológica – estão na ponta de lá da cidade.


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Voltámos a pé pela estrada até a quinta onde estávamos alojados e aproveitámos a delícia de terraço junto à piscina, sobre as muitas oliveiras e pontuais japoneiras. Um sossego sem barulho de espécie alguma que não fosse o da Natureza, a dita cuja e a humana. Ouvia-se o vento roçar no pinheiro manso, que na manhã seguinte estaria pejado de passarinhos muito pequenos a chilrear cujo nome não sei, mas fiquei na dúvida se seriam pardais muito jovens. Voltei a ter aquela sensação boa de estar no sítio onde se ouvem os carros aproximar à distância entre os sons moderados da bicharada. A temperatura óptima. O dia não estava bonito segundo o critério habitual nestas circunstâncias. Em resumo: não estava céu azul e sol dourado a brilhar. Mas como sou uma rapariga estranha, gosto bastante de dias enublados e das cores mais tristonhas. A vida não é feita só de exuberância.


Depois de descansarmos do ritmo extenuante da vida de campo, bebemos um Porto na confortável sala de estar, com a salamandra a funcionar, cortesia da casa - ao qual não podemos chamar Porto, recordou com honestidade a Filomena Abrunhosa, dona da quinta. Produção caseira, tal como o azeite servido ao jantar.


Os acepipes preparados pelo marido, o simpático belga Gunther Heynderickx, no jantar servido por ambos em serviço de loiça a imitar os antigos pratos de esmalte cor única debruada a mais escuro das cozinhas velhas e talher em aço a fazer lembrar o desenho de antigos faqueiros de prata. Das entradas constavam a fina torrada com maça laminada, brie e amêndoa, espetada de camarão, mozarela e chouriço, bolacha com húmus e decorado a um vegetal do qual me esqueci agora e a tacinha de delicioso molho verde. Seguiu-se o creme de aipo enfeitado com rodela de morcela e cogumelos picados. O prato escolhido por e-mail com uma semana de antecedência: robalo com molho de curgete e tarte de vegetais. A sobremesa: gelado caseiro de amêndoa. Tudo servido de modo compassado e agradavelmente conversado. Digamos que sem saber calhei num ponto de turismo rural requintado. A vida surpreende-nos, com a graça do Universo.


À noite um quarto romântico e confortável  a que as filhas do casal dono da quinta chamam o quarto da princesa, com duas promissoras janelas, um pormenor de delicadeza que marca a diferença - singelamente decorada com duas pequenas flores, a negra base de lousa na qual assentavam os dois copos com a garrafa de água de vidro personalizada -, e o silêncio só interrompido pelos sons da noite no campo vindos de fora e os passos delicados no soalho estaladiço.


(continua no post do dia seguinte, depois do vídeo de música)

24/03/2024

A vida tal qual é

 


Quanto mais soezes os ataques dissimulados, mais fortes nos tornamos.


 

Adversidades e mazelas da vida

Ouvi por aí um elenco de dificuldades da vida e ponderei no meu caso: quase fazia o pleno. Enunciavam perder bens materiais ou ser assaltada, separação importante ou desgosto amoroso, enfrentar uma doença e a morte de pessoa próxima. Dir-se-á que todos passamos por estas crises de vida. Bom, convenhamos: cada um as passará na sua medida.


Felizmente não passei pela perda de tudo, como as pessoas que ficam sem casa, sem nada devido a guerra, catástrofe ou acidente. Mas digamos que tive minúsculo cheirinho: sei o que é olhar para a porta do apartamento, vê-la estroncada e encontrar a casa remexida com perda de todas as peças de joalharia. O que mais custa? Sentir o quarto, as gavetas reviradas e remexidas. A sensação de intrusão no nosso espaço e o receio nos dias seguintes de nova investida, que naturalmente não é provável, mas a emoção determina o receio. A perda dos objectos em si é o que menos pesa. Não senti especial falta e a partir daí se me apetece enfeite compro peças de bijuteria ou de aço. Não me faz falta a joelharia. É absolutamente dispensável. A única pequena tristeza: ficar sem as lembranças dadas pelas minhas avós e pela Eca. A memória. Tão só. No mesmo apartamento houve um incêndio na cozinha no qual temi uma tragédia. O que me ficou além do dano e marca definitiva de queimadura nas costas da mão direita foram os dias e semanas seguintes de desconforto com a memória e a sensação de não ter sido capaz de resolver o assunto sem a ajuda dos bombeiros. Nas Comezinhas não há heróis e heroínas, sempre pejados de presença de espírito e bafejados por inteligência e destreza mestra, mas gente de carne e osso, que passa por dificuldades e tem fraquezas. E não, não fiquem a congeminar que provoquei ainda que involuntariamente o incêndio. Tal não aconteceu. Apenas não o consegui apagar e tive de chamar os bombeiros. E também nunca fui dada a anunciar ou exibir luxos que potenciassem assaltos. Os azares tocam a todos.


Desgostos de amor tive de diferentes géneros e feitios. Dois ou três de monta - falho sempre as contas por um, já se sabe. Não há muito a dizer. É irrelevante falar no assunto em público. Quem considera que só existe um amor na vida ou o reduz ao casamento e à construção de uma família diminuirá qualquer alusão à existência de múltiplos sofrimentos por amor. Quem sabe que existem possivelmente também os viveu e não é preciso acrescentar nada para que entenda. Depois haverá uma série de cambiantes de visões do amor, tantas quantas as vidas humanas. Mas era de separação e desgosto que falava. Dói e passa como tudo na vida. Mais do que um desgosto de amor dói não ter sido mãe por não me achar capaz. E pensar que há pessoas que se divertem a menosprezar isto - é a miséria humana.


Em matéria de doença tive dose dupla: para lá de mazelas comezinhas, a fragilidade psicológica e os humores fizeram-me cair por um período num buraco muito negro e condicionaram muitíssimo a juventude, o período no qual é suposto construirmos uma vida e termos ânimo e garra para desbastar o mundo. Tive de o fazer de uma forma muito própria lutando contra adversidades que não são palpáveis à maioria das pessoas que têm maior compreensão por doenças menos estigmatizantes e inspiradoras de maior solidariedade e até admiração. É uma doença mental que me acompanha a vida toda, mas orgulho-me não só de continuar a fazer a vida normal, trabalhando sempre e conseguindo independência apesar de tardia, como sobretudo de ter recuperado o respeito dos próximos - houve momentos em que tive a impressão, apesar de todo o apoio, de não me darem crédito ou não acreditarem na capacidade de regeneração. Senti-me filha de um deus menor: a fracassada do clã. Sensação muito difícil de lidar e ultrapassar com ganas para quem se tinha e era tida por um esteio de solidez e bom senso. Além de mais o Nuno, a relação mais importante da minha vida, quase morreu e ficou cego e com problemas graves de memória num acidente de viação em que seguia ao lado do condutor, numa altura que ainda não estávamos juntos e me senti impotente por não poder estar perto. Como já referi aqui no blogue nada disto o demoveu de ser uma pessoa bem-disposta e feliz, nem a descoberta há pouco tempo de episódios de alteração de consciência – epilepsia - decorrentes das mazelas do traumatismo craniano. Tal como a bipolaridade não me impediu nem impede de sempre buscar a alegria - e conhecimento, mas essa agora não é a questão, apesar de ajudar muito por a vida passar a fazer mais sentido.


Para compensar fui beneficiada ao ter sido poupada a mortes de entes queridos, salvo os que pela idade avançada ou doença seria natural não me darem a alegria da presença mais anos. Houve perdas pontuais de familiares menos próximos, colegas e amigos virtuais com quem não tinha relação de maior intimidade. Fui por isso poupada até aos cinquenta anos a grandes sofrimentos por perda. E agora devia bater na madeira três vezes.


E é só isto. Não tenho pachorra para a auto-comiseração, mas também não acho a menor graça a ditos de superação, optimismo tonto e elogio que nivelam pela mesma bitola dificuldades reais e fantasias de sabedoria face a dificuldades de lana-caprina, expressas em citações de algibeira e frases fáceis para quem tudo está ao alcance de todos. Nem tenho paciência para julgamentos estereotipados sejam ancorados em bitaites ou em supostos conhecimentos científicos que promovem desconsiderações e condenam alguns, por vezes à traição, a vidas difíceis por puro preconceito, falta de sensibilidade ou tão só canalhice – há muito agressor dissimulado sobretudo online capaz de, contando com o descredibilizar dos visados, assediar e ofender pela calada como é próprio dos cobardes. Uns são doentes outros tão só grandes filhos da puta. Também não tolero bem desvarios de pessoas que não assumindo para si próprias fragilidades mentais não se tratam causando dano aos que os rodeiam.


Não há neste post moralidade nem lições exemplares de vida. Mas vida tal qual é. A entrada  é tristonha, mas amanhã o blogue segue mais alegre - a disposição é óptima.


Boa semana.

Seal


Passou apenas uma semana e já tinha saudades. Logo à noite já volto ao activo publicando o que fui escrevendo estes últimos dias. Entretanto deixo esta música na versão do Seal que o Nuno me pôs a ouvir de manhã. O Stand by Me deixa-me invariavelmente alegre. Faz-me recuar aos bons tempos de liceu em Gaia e a uma tarde de final de período escolar em que a cantei juntamente com três colegas de turma - um com quem nunca mais estive nem soube nada e imagino a viver da escrita de peças de teatro e poesia num país nórdico, outro que se tornou um bem-sucedido maestro e um terceiro que veio a ser meu colega da faculdade - na esquina da Confeitaria Símbolo, na Avenida da República em Gaia. Em rigor eles tocavam e cantavam e eu fechava e abria a boca baixinho para não desafinar e escondia a caixa das moedas que eles queriam pôr no chão e a mim, tonta, envergonhava. Bons tempos.


Bom Domingo.

18/03/2024

Recapitulando

Volto já


Isabel Paulos, 22.12.19

 

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*


Agora,


se dão


licença,


repouso.


 


Enfio


as penas


no casco


oco


do lenho


de carvalho,


feito


desenho animado.


 


Grata


a quem –


paciente


e generoso –­,


lê,


confesso


as mãos


vazias,


e vou


recapitular.


Criar mais


e melhor


(rogo aos céus!)


para dar.


 


Com a chave


pendurada


no arabesco


do postigo, 


e a casa


por vossa


conta,


escondo


a asa


atrás


do letreiro


volto já,


e espreito.

17/03/2024

Acordar ao Domingo

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A neblina levanta nos montes, a passarada concorre com os galos da vizinhança no papel de despertador. O sino da igreja toca e dois gatos brancos de orelhas salpicadas de cor caminham preguiçosos pelo terraço. Um dia bonito começa.

16/03/2024

Mãozeira

Palavra aprendida hoje em Vila Nova de Foz Côa: mãozeira. Regionalismo para pega ou asa da xícara de café.

A vida é bela

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Aconteceu outra vez. Chorei de comoção com a visão da beleza.

Em trânsito

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