(Terça-feira. Dia 19 de Março)
Regressei ontem de Foz Côa. As aventuras da volta tardia ficam para os postais acerca do fim-de-semana prologando. Esta manhã dei um arranjo à casa que estava limpa por a dona L ontem cá ter estado, mas não arrumada como gosto. Desfiz a mala, tratei das roupas – apenas das malhas, as outras peças ficam para amanhã para ter espaço no estendal, que hoje tem os cabides com as camisolas e casaco pendurados. Que pensarão disto os intelectualóides da praça?, e os iluminados difusores de opinião na sociedade?, habituados a tratar estes assuntos, quando reduzidos a crónicas, como excentricidades de mulheres bem-sucedidas que os relatam para enriquecer o curriculum? Aqui não há sucesso profissional a exibir, nem o estereótipo das dificuldades de conciliação da vida doméstica. É um outro mundo, o das Comezinhas e o do comum dos portugueses e portuguesas que não encaixam nos lugares-comuns - agora até tenho medo de usar este termo, tão utilizado por quem não tem consciência de tanto cair neles.
Almoçamos e tratei das caixas de medicamentos dos dois. É usual fazê-lo ao Domingo, todavia atenta a alteração da rotina, passou para hoje. Na verdade em várias ocasiões mudo os dias de a preencher por distracção ou preguiça já que nunca consegui rigor – nem sei se quero. Uso caixa de medicamentos semanal há pelo menos 17 anos. É possível que seja há vinte – a minha memória desses anos é nebulosa. Se tivesse acertado na medicação e começado a organizar a caixa uns anos antes, talvez me tivesse poupado a alguns dissabores. Ou não, sabe-se lá do que seria a vida.
Antes de espreitar os postais com o título Agenda para reorganizar ideias e prosseguir com o blogue daqui a uns dias - ou semanas, quem sabe? – conto que hoje é dia do pai. Esteve cá para tomar café levando garrafinha para água com pijama que comprámos na loja do Museu do Côa. Trouxemos uma igual para a minha mãe e uma xícara de café com colher também de loiça agarrada, como é moda nestes objectos turísticos, para dar à minha enteada R.. Rimos da gracinha do dia. O meu pai contou que anteontem o F. ligou a convidar para irem à Tasca da Badalhoca – onde se comem boas sandes de presunto. Disse que não podia, perguntando o meu irmão: não pode? Porquê? Reposta: porque está fechada. O Nuno riu alto com vontade. Rimos os três como as brincadeiras do meu pai que não fazem mal a ninguém e dispõem bem, fazendo a vida mais leve. Já anda perfeitamente sem se notar o episódio do fémur partido. Mas não em grandes distâncias que o fazem cambalear por isso pára a meio caminho e fica a fazer de conta que está a observar a paisagem ou obras ou o que seja para disfarçar. Diz que é assim que pessoas mais velhas descansam. Cá para mim parte disto é a eterna vaidade e não dar parte de fraco. É engraçado como somos diferentes. Uns desembaraçam para jamais dar imagem negativa, outros fazem triste figura sem grande embaraço. Entretanto agora quem anda aflita do joelho é a minha mãe sem possibilidade de fazer as longas caminhadas diárias a que estava habituada.
Falámos também de Palma de Maiorca, onde o Nuno e eu tencionamos passar a semana de praia do ano. O meu pai aconselhou que fossemos para o centro, mas creio que questões práticas vão-nos levar a Magaluf. Entretanto ligou a R. ao pai e esteve também a falar comigo. Queria aconselhar as promoções para a América do Sul que estarão a preços muito convidativos. Disse-lhe que este ano tencionamos fazer férias pacatas por perto e na praia para descansar. Quando muito veremos se há um programa para visitar umas aldeias bonitas da ilha, o centro histórico, a Catedral La Seu, o Palácio Real de Almudaina. Ela vai em Novembro para a Tailândia no escopo de assistir ao Festival das Lanternas. Não aderiu a nenhum pacote; fez o próprio programa. Acho muito bem, está na idade disso. E nós na idade da papinha feita.
Agora depois de jantar estreei-me à noite nesta piscina municipal. Nadei trinta e cinco minutos. Talvez volte e se apetecer faça natação de noite à semana.
E então, agora sim, vou experimentar as Agendas. Sei que na última falei no Espanador. O TPC nesta matéria é corrigir o postal sobre a China por ser a única entrada nas Comezinhas que me envergonha por não ter sido integralmente escrita com cunho pessoal e por isso a única que passei a rascunho já depois de publicada. Mas é possível que adie mais ainda esse trabalho. Preciso de uma leitura prévia e não me vejo fazê-la a curto prazo.
Falei de História de Portugal e talvez seja por aí que comece. Depois de forma ligeira por outros países europeus. Quem sabe pegar em aspectos pontuais da literatura e pintura para enriquecer as entradas muito levemente e sem pretensão, o que quer dizer não introduzir novidades para sábios de algibeira que tudo conhecem e tudo desdenham, mas trazer frescor a quem é curioso e sabendo não se envergonha de recordar ou despertar para um ou outro banal apontamento das artes.
No penúltimo e antepenúltimo postais Agenda predispus-me a escrever acerca das eleições. E cumpri: três postais publicados. Gosto da sensação de cumprir. Ficou a faltar o “carta aberta ao um futuro ex-amigo”. A impressão é de que sei o motivo por que ia escrever que vai variando ao longo dos dias e das luas, se bem que comece a estar cimentado. Afinal as principais razões para me aproximar ou afastar de alguém tem uma raiz mais sólida que se prende com boa índole ou falta dela e modo de estar na vida.
Várias agendas estão feitas por elas mesmas, sei que há assuntos recorrentes que não preciso recordar. Voltam ao cimo por si mesmos. Mas há mais.
Ficou ao dependuro aquela ideia de explicar a razão de fazer ou não sentido a astrologia, recorrendo a noções básicas de matemática, geometria astronomia. A ver vamos se leio os dois postais que escrevi para dar continuidade.
Estou a recuar no blogue pesquisando pela palavra Agenda. Continuo a encontrar várias que se explicam e resolvem a si próprias não me impondo trabalho futuro. Repetições de ideias. Ou ainda que novas, podem bem ficar como faíscas deixadas a quem lê como potenciadoras de reflexão. Ou sujeitas a crítica, tão só. Outros postais já cumpriram o seu papel como as séries Moralidades à quinta-feira e O que é esta segunda-feira. Podem regressar a qualquer momento.
Mas há também temas soltos mais objectivos em que interessa pegar para desenvolver. Um deles a ideia de fazer um postal semanal com Nuno sobre ciência e tecnologia. Podia ser uma coisa simples. A minha ideia era mais uma vez escrever entradas muito simples aproveitando os interesses do Nuno para explicar o funcionamento de realidades e fenómenos naturais e humanos que tenho dificuldade em entender ou menor predisposição para compreender.
Já recuei até à recolha para as Tílias, que é outra que apesar de ter encerrado bem podia ser mais bem aproveitada. Mas assim fica por enquanto.
Mais atrás no tempo duas entradas que ficaram por desenvolver: a passagem do tempo como revelação e a facilidade na destruição da imagem ou da reputação do comum mortal.
Verifico entretanto que em 2021 me tinha dado prazo até final de 2022 para fazer um vôo atrevido e baixinho sobre a História da Filosofia e nem sequer me lembro se fiz um postal que possa corresponder a tal. Recordo de ter feito leituras suficientes para isso, mas creio que não escrevi nada de relevante acerca dessas leituras.
Já estou em 2020 e na promessa incumprida de fazer uma cronologia do tempo da epidemia da covid - tudo quanto não me apetece. Pelo meio encontrei várias Agendas que se cumpriram, desde o BES a árvores de frutos para as tílias.
Já cheguei ao início do blogue: revi as agendas de relance e fiquei com a sensação de que escrevi muito nestes últimos anos. Começo a não ter tempo para me ler. Para isso teria de parar à séria. Agora faço-o na diagonal. Um dia – quem sabe quando não tivermos Internet acessível devido a um apagão – lerei tudo com mais atenção para ver se organizo e catalogo. Agora não me apetece. Já serviu o fim da noite de hoje para pescar temas e ideias que ficaram por desenvolver ou concretizar.
Em suma: não me posso esquecer de escrever acerca 1) China, 2) História de Portugal e de alguns países da Europa de modo abreviadíssimo, com sorte, ambição e alguma inspiração tocando temas da literatura e da pintura, 3) A razão da astrologia fazer ou não sentido, com base em conhecimentos da astronomia, tópico que repele intencionalmente presunçosos da leitura, 4) Questões práticas e simples de ciência e tecnologia com ajuda do Nuno, 5) a passagem do tempo como revelação e a facilidade na destruição da imagem ou da reputação do comum mortal, 6) História da Filosofia em vôo atrevido e baixinho.
São grandes ambições e por agora estou contente comigo mesma tão simplesmente por ter conseguido reunir as intenções que fui atirando ao ar ao logo destes últimos anos aqui nas Comezinhas. É a tal reorganização que disse precisar e daí a paragem nas publicações. Agora que já sei o que vou fazer, convém tempo para pensar como o vou fazer e quais as leituras prévias necessárias. Enfim, só dificuldades boas. Claro que o envolver da massa do bolo deste blogue continuará a ser o imprevisível, o que sair na altura seja meramente reactivo seja fruto de maior reflexão. Mas há rumo.
Haja leme. Enquanto houver tino nada está perdido.