Ouvi por aí um elenco de dificuldades da vida e ponderei no meu caso: quase fazia o pleno. Enunciavam perder bens materiais ou ser assaltada, separação importante ou desgosto amoroso, enfrentar uma doença e a morte de pessoa próxima. Dir-se-á que todos passamos por estas crises de vida. Bom, convenhamos: cada um as passará na sua medida.
Felizmente não passei pela perda de tudo, como as pessoas que ficam sem casa, sem nada devido a guerra, catástrofe ou acidente. Mas digamos que tive minúsculo cheirinho: sei o que é olhar para a porta do apartamento, vê-la estroncada e encontrar a casa remexida com perda de todas as peças de joalharia. O que mais custa? Sentir o quarto, as gavetas reviradas e remexidas. A sensação de intrusão no nosso espaço e o receio nos dias seguintes de nova investida, que naturalmente não é provável, mas a emoção determina o receio. A perda dos objectos em si é o que menos pesa. Não senti especial falta e a partir daí se me apetece enfeite compro peças de bijuteria ou de aço. Não me faz falta a joelharia. É absolutamente dispensável. A única pequena tristeza: ficar sem as lembranças dadas pelas minhas avós e pela Eca. A memória. Tão só. No mesmo apartamento houve um incêndio na cozinha no qual temi uma tragédia. O que me ficou além do dano e marca definitiva de queimadura nas costas da mão direita foram os dias e semanas seguintes de desconforto com a memória e a sensação de não ter sido capaz de resolver o assunto sem a ajuda dos bombeiros. Nas Comezinhas não há heróis e heroínas, sempre pejados de presença de espírito e bafejados por inteligência e destreza mestra, mas gente de carne e osso, que passa por dificuldades e tem fraquezas. E não, não fiquem a congeminar que provoquei ainda que involuntariamente o incêndio. Tal não aconteceu. Apenas não o consegui apagar e tive de chamar os bombeiros. E também nunca fui dada a anunciar ou exibir luxos que potenciassem assaltos. Os azares tocam a todos.
Desgostos de amor tive de diferentes géneros e feitios. Dois ou três de monta - falho sempre as contas por um, já se sabe. Não há muito a dizer. É irrelevante falar no assunto em público. Quem considera que só existe um amor na vida ou o reduz ao casamento e à construção de uma família diminuirá qualquer alusão à existência de múltiplos sofrimentos por amor. Quem sabe que existem possivelmente também os viveu e não é preciso acrescentar nada para que entenda. Depois haverá uma série de cambiantes de visões do amor, tantas quantas as vidas humanas. Mas era de separação e desgosto que falava. Dói e passa como tudo na vida. Mais do que um desgosto de amor dói não ter sido mãe por não me achar capaz. E pensar que há pessoas que se divertem a menosprezar isto - é a miséria humana.
Em matéria de doença tive dose dupla: para lá de mazelas comezinhas, a fragilidade psicológica e os humores fizeram-me cair por um período num buraco muito negro e condicionaram muitíssimo a juventude, o período no qual é suposto construirmos uma vida e termos ânimo e garra para desbastar o mundo. Tive de o fazer de uma forma muito própria lutando contra adversidades que não são palpáveis à maioria das pessoas que têm maior compreensão por doenças menos estigmatizantes e inspiradoras de maior solidariedade e até admiração. É uma doença mental que me acompanha a vida toda, mas orgulho-me não só de continuar a fazer a vida normal, trabalhando sempre e conseguindo independência apesar de tardia, como sobretudo de ter recuperado o respeito dos próximos - houve momentos em que tive a impressão, apesar de todo o apoio, de não me darem crédito ou não acreditarem na capacidade de regeneração. Senti-me filha de um deus menor: a fracassada do clã. Sensação muito difícil de lidar e ultrapassar com ganas para quem se tinha e era tida por um esteio de solidez e bom senso. Além de mais o Nuno, a relação mais importante da minha vida, quase morreu e ficou cego e com problemas graves de memória num acidente de viação em que seguia ao lado do condutor, numa altura que ainda não estávamos juntos e me senti impotente por não poder estar perto. Como já referi aqui no blogue nada disto o demoveu de ser uma pessoa bem-disposta e feliz, nem a descoberta há pouco tempo de episódios de alteração de consciência – epilepsia - decorrentes das mazelas do traumatismo craniano. Tal como a bipolaridade não me impediu nem impede de sempre buscar a alegria - e conhecimento, mas essa agora não é a questão, apesar de ajudar muito por a vida passar a fazer mais sentido.
Para compensar fui beneficiada ao ter sido poupada a mortes de entes queridos, salvo os que pela idade avançada ou doença seria natural não me darem a alegria da presença mais anos. Houve perdas pontuais de familiares menos próximos, colegas e amigos virtuais com quem não tinha relação de maior intimidade. Fui por isso poupada até aos cinquenta anos a grandes sofrimentos por perda. E agora devia bater na madeira três vezes.
E é só isto. Não tenho pachorra para a auto-comiseração, mas também não acho a menor graça a ditos de superação, optimismo tonto e elogio que nivelam pela mesma bitola dificuldades reais e fantasias de sabedoria face a dificuldades de lana-caprina, expressas em citações de algibeira e frases fáceis para quem tudo está ao alcance de todos. Nem tenho paciência para julgamentos estereotipados sejam ancorados em bitaites ou em supostos conhecimentos científicos que promovem desconsiderações e condenam alguns, por vezes à traição, a vidas difíceis por puro preconceito, falta de sensibilidade ou tão só canalhice – há muito agressor dissimulado sobretudo online capaz de, contando com o descredibilizar dos visados, assediar e ofender pela calada como é próprio dos cobardes. Uns são doentes outros tão só grandes filhos da puta. Também não tolero bem desvarios de pessoas que não assumindo para si próprias fragilidades mentais não se tratam causando dano aos que os rodeiam.
Não há neste post moralidade nem lições exemplares de vida. Mas vida tal qual é. A entrada é tristonha, mas amanhã o blogue segue mais alegre - a disposição é óptima.
Boa semana.