Soltar os dedos sem mais. Depois de provocada pela entrada do adaptador para suporte dos teclados. Confirma-se. Tem qualidade: é melhor o adaptador do que o xis. Neste momento os teclados já estão ligados aos drivers e já podem ser usados por qualquer software de música. Conseguiu voltar a pôr o piano e os teclados a tocar em simultâneo, comandando a partir do computador. Agora que está tudo apto a tocar, editar e gravar não há desculpas para não compor - achas que isto sai quando quero?, resmunga ele com a exigência. Não é? Afinal, não vejo razões a impedir - insisto. Até o último ponto final não sabia o que ia dizer a seguir, mas agora já sei. Mais ou menos, convenhamos. Falarei sobre dedicação aos nossos interesses.
Há uns anos um amigo recordava-me que a escrita era um hobby barato. Talvez a facilidade conduza a um certo facilitismo, longe da realidade de quem tem de comprar instrumentos musicais ou material de pintura ou desenho. Oiço Tamino enquanto escrevo. Ouvi-o com gosto ao longo do dia. Partilhei-o com um colega de trabalho que costuma fazer-me chegar também as suas descobertas musicais. Onde ia? Na escrita ser acessível, democrática, nada elitista do ponto de vista financeiro quando comparada com outras artes.
Esta semana li um post sobre a importância do ensino artístico num blogue dedicado a questões do ensino que vou acompanhando. Além da perspectiva da ocupação útil e válida do tempo, tem a enorme vantagem de fornecer o apelo (sim é uma palavra que deriva de uma associação a um termo estrangeiro, e qual é o problema disso senão preconceito e ideia fixa sem sentido?) ao questionamento e aperfeiçoamento das habilidades inatas ou polimento ainda que superficial, no sentido do conhecimento, das que nos são estranhas. E para lá disso permite a expressão. Num tempo em que todos têm megafones para se expressar, o aprimoramento das habilidades artísticas pode fazer a diferença na expressão nas nossas emoções e razões.
Um mundo dos interesses e da habilidade – ah, o pudor em encher a boca com as palavras arte, obra, literatura, por aí tão espalhadas na boca e nos dedos de quem não faz a mais pequena ideia do que sejam - longe dos holofotes competitivos dos catálogos de quem encara tudo como concorrência, antagonismo e busca de primazia. Um mundo recatado que desfruta das apetências naturais trabalhando-as no respeito pelo gosto próprio e não pelas ondas das modas, dos favoritos e das audiências. Um mundo íntimo que se gratifica com a acção de escrever ou tocar. E quantas almas já conheci nesta vida que vivem assim? Na reserva dos seus interesses e gozo íntimo. E quão afortunada fui ao ter conhecido esses anónimos. Um universo ciente que nada perdura senão o gosto de viver as paixões, o amor pelas palavras e acordes - e quem sabe o amor pelas ideias, o funcionamento das coisas e a explicação da vida. Um universo muito longe da competição e do sucesso barulhento que desvirtuam a alegria da acção. Um universo íntimo, que dá prazer bastando-se a si só. O lucro está na acção, no prazer retirado no momento que envolve a criação. E a dor também. Nada fica. É, tão só. E é bom, ou não. Independentemente do retorno, do eco. Vale por si.