Nos últimos anos imaginei em diferentes ocasiões um fim-de-semana de turismo rural. Como é usual entre portugueses remediados protelei condicionada por considerações de oportunidade. No meu caso o factor mais relevante: não conduzir estando dependente de transportes públicos para as deslocações. Nada como atirar para trás das costas desculpas e fazermo-nos ao caminho.
Dei início às andanças pelos caminhos-de-ferro portugueses. Não faço ideia se terei oportunidade de fazer outros, mas isso é o que menos interessa - já nos imaginei a fazer o percurso no Outono até Beja e na Primavera do próximo ano a Castelo Branco. Por agora um já está no papo. No passado fim-de-semana fiz um programa há muito adiado: a viagem de comboio Porto-Pocinho, com direito à belíssima paisagem do Alto Douro. E ficámos muito bem acomodados em Vila Nova de Foz Côa – já pertencente ao distrito da Guarda.
Há vinte anos estive quase para fazer o percurso pelo Tua. Tinha ido a Meda e ia aproveitar para passear, mas à época estava em mais uma mudança de emprego – foram muitas durante os primeiros dez anos profissionais - e recebi um telefonema para me apresentar nessa tarde numa entrevista. Regressei de requitó. O mesmo aconteceu pouco depois quando me encontrava a fazer uma semana de praia em Monte Gordo. Saí mais cedo chamada para uma entrevista de emprego.
Comecemos pelo início. Há duas semanas procurei um hotel em Foz Côa. Queria uma coisa bonita e como a comodidade do pequeno-almoço e jantar no próprio hotel pelo que ficaram de fora todas hipóteses de alojamento local no centro. Além de mais queria estar numa zona desafogada, mas que não fosse longe da pequenina cidade. Escolhi a Quinta do Alto da Fraga, junto ao Miradouro de Santa Bárbara, que fica a meio caminho entre o centro e o Museu do Côa - dista um quilómetro do primeiro e menos de dois do segundo, cada um para seu lado. Depois comprei os bilhetes de comboio. E na véspera liguei para os táxis do Pocinho para reservar a pequena viagem até Foz Côa: sete quilómetros, supus eu. Ai sete?, riposta a taxista em tom que não admite réplica. São oito ou nove. Juro que pela reacção abespinhada achei que me ia dizer vinte.
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No dia da chegada, depois de pousarmos a mala, tivemos boleia do proprietário do hotel até ao restaurante onde almoçamos e fizemos a visita pelo centro de Foz Côa, entrámos na Igreja Matriz estilo manuelino Nossa Senhora do Pranto, que divide o espaço da Praça do Município com a Câmara e o Pelourinho, e logo ali ao lado o Tribunal. Típico nas nossas terras: os símbolos e instituições tradicionais de poder juntos. Para modernizar faltam apenas um Banco e uma representação de uma grande empresa tecnológica – estão na ponta de lá da cidade.
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Voltámos a pé pela estrada até a quinta onde estávamos alojados e aproveitámos a delícia de terraço junto à piscina, sobre as muitas oliveiras e pontuais japoneiras. Um sossego sem barulho de espécie alguma que não fosse o da Natureza, a dita cuja e a humana. Ouvia-se o vento roçar no pinheiro manso, que na manhã seguinte estaria pejado de passarinhos muito pequenos a chilrear cujo nome não sei, mas fiquei na dúvida se seriam pardais muito jovens. Voltei a ter aquela sensação boa de estar no sítio onde se ouvem os carros aproximar à distância entre os sons moderados da bicharada. A temperatura óptima. O dia não estava bonito segundo o critério habitual nestas circunstâncias. Em resumo: não estava céu azul e sol dourado a brilhar. Mas como sou uma rapariga estranha, gosto bastante de dias enublados e das cores mais tristonhas. A vida não é feita só de exuberância.
Depois de descansarmos do ritmo extenuante da vida de campo, bebemos um Porto na confortável sala de estar, com a salamandra a funcionar, cortesia da casa - ao qual não podemos chamar Porto, recordou com honestidade a Filomena Abrunhosa, dona da quinta. Produção caseira, tal como o azeite servido ao jantar.
Os acepipes preparados pelo marido, o simpático belga Gunther Heynderickx, no jantar servido por ambos em serviço de loiça a imitar os antigos pratos de esmalte cor única debruada a mais escuro das cozinhas velhas e talher em aço a fazer lembrar o desenho de antigos faqueiros de prata. Das entradas constavam a fina torrada com maça laminada, brie e amêndoa, espetada de camarão, mozarela e chouriço, bolacha com húmus e decorado a um vegetal do qual me esqueci agora e a tacinha de delicioso molho verde. Seguiu-se o creme de aipo enfeitado com rodela de morcela e cogumelos picados. O prato escolhido por e-mail com uma semana de antecedência: robalo com molho de curgete e tarte de vegetais. A sobremesa: gelado caseiro de amêndoa. Tudo servido de modo compassado e agradavelmente conversado. Digamos que sem saber calhei num ponto de turismo rural requintado. A vida surpreende-nos, com a graça do Universo.
À noite um quarto romântico e confortável a que as filhas do casal dono da quinta chamam o quarto da princesa, com duas promissoras janelas, um pormenor de delicadeza que marca a diferença - singelamente decorada com duas pequenas flores, a negra base de lousa na qual assentavam os dois copos com a garrafa de água de vidro personalizada -, e o silêncio só interrompido pelos sons da noite no campo vindos de fora e os passos delicados no soalho estaladiço.
(continua no post do dia seguinte, depois do vídeo de música)