Era uma vez uma família pobre; o pai era pobre, a mãe era pobre, os filhos eram pobres, a cozinheira era pobre, o jardineiro era pobre, o «chauffeur» era pobre. Eram todos pobres.
Tal qual Portugal, somos todos muito pobres - é o que dizem.
É desta anedota que me lembro quando vejo esboçar um panorama negro da economia do país. Por mais que os humoristas e comentadores audíveis no espaço público gozem, a vida também é feita de sensações e aquilo a que chamam “bocas” correspondem muito mais à realidade do que os “factos” manipulados com ardil e a bel-prazer.
Isto para dizer o quê? A sensação que tenho é que o país e os portugueses estão longe da pobreza que a demagogia da política em tempo de eleições impõe seja entre as hostes partidárias seja no comentário do espaço público tantas vezes afecto e interessado com oportunismo na passagem de imagens falsas ou meias-verdades para alçar elementos de cada tribo ao poder. Com isto obviamente não quero dizer que não haja pobreza, exclusão e assimetrias, nem problemas em sectores da economia portuguesa - existem e resultam sobretudo da acção e do modo de estar do próprio Estado e sector público, que consome os recursos produzidos pelo sector privado e é gerido de forma ineficiente e delapidadora. Além da ancestral má gestão do sector público um aspecto novo que contribui para a ineficiência (também em menor escala do sector privado; aqui menos por terem de sobreviver sem o encosto do dinheiro dos contribuintes) é a densificação dos procedimentos originada pelo uso da tecnologia e por imposições legais. Falo da minha já velha ideia: ao contrário do que apregoam a tecnologia, o mundo digital e Inteligência Artificial não vão atirar meio mundo para o desemprego, estão sim (não sei se se trata apenas de período de adaptação ou se é uma realidade nova que veio para ficar) a tornar menos eficiente e mais oneroso cada elemento da cadeia produtiva, obrigando à duplicação, triplicação e por aí afora das tarefas - visão que vai contra todas as verdades do nosso tempo, bem sei.
Decidi começar pelos indicadores económicos e partir depois para o conteúdo dos debates, isto é, das medidas políticas propostas pelos líderes partidários - será o segundo postal. E tentarei, sem garantir já um terceiro post, concluir pelas finanças dos portugueses - que é o mais palpável a cada um; aí a ideia seria tentar falar de salários, cabaz alimentar, impostos, essas coisas que doem. Se tudo correr como agora repentinamente me veio à cabeça, serão três postais no total.
Partindo da sensação acima descrita resolvi consultar os jornais e a Pordata para investigar os indicadores económicos do país nos últimos anos. De peito aberto para ler o que poderá contrariar as minhas intuições. O que vi vai ser apresentado de modo simples – a única forma como sei funcionar – traçando uma visão panorâmica do estado da economia nos últimos anos para os quais escolhi alguns sectores sem intenção de favorecer a minha “tese”, mas apenas porque são alguns dos que de modo evidente fazem pulsar a vida dos portugueses.
Desde 2014/2015 o volume de negócios das empresas (grandes e pme) tem aumentado de modo sustentado, com excepção do ano pior da pandemia, 2020. Realidade transversal a quase todas as actividade com poucas excepções agricultura, industria, comércio, alojamento e restauração, actividades financeiras e seguros, actividades imobiliárias, saúde e apoio social, educação.
Desde 2014 tem aumentado o número de empresas criadas, salvo o ano da pandemia. Já os números sobre a sobrevivência das empresas nos últimos anos são bastante irregulares, o que devia ser matéria de estudo.
A produção do sector automóvel nacional teve desde 2010 aumentos médios anuais de 3,7%, salvo a queda de 2020. Acerca da industria automóvel podem consultar os relatório do caderno sectorial no pdf constante desta página da Direcção Geral das Actividades Económicas. Por seu lado, o total de veículos matriculados tem vindo a aumentar desde 2013, salvo o ano da pandemia. Neste caso os dados da Pordata são até 2022, mas em 2023 houve aumento das vendas de automóveis de 26% sobre o ano anterior.
No turismo os proveitos totais com os alojamentos aumentam desde pelo menos a viragem do século, com excepção dos anos da crise financeira, 2009-2010 e da pandemia 2020-2021. Do lado das viagens, os portugueses fazem mais despesas com turismo de modo sustentado desde 2013, com excepção dos anos da pandemia.
O preço das casas aumentou sem interrupções desde 2015. A tendência do número de casas vendidas foi também de subida, salvo anos de pandemia e os dois últimos anos, como se pode perceber pelos dados Portal do INE (transacções de alojamentos familiares, mostradas por trimestre e localização geográfica) e da página Doutor Finanças. Temos um problema com os preços da habitação. Facto.
As exportações portuguesas aumentaram desde o início do século com excepção dos anos da crise de 2009-2010 e da pandemia de 2020. A balança comercial cronicamente deficitária inverteu a tendência entre 2012 e 2019, registando superavit nesses anos, voltou ao prejuízo nos anos da pandemia e ainda em 2022, para em 2023 voltar a números positivos.
Em termos de crescimento económico longe vão os anos dos Governos de Cavaco Silva, com taxas de crescimento do PIB de 5% e 6%, que nunca mais voltaram a acontecer (até 2021) apesar dos fundos europeus continuarem a jorrar, aliás, em montante superior. Desde 2015 as taxas de crescimento rondam os 2% a 3%, com a recuperação excepcional do ano pós pandemia, 2021, que se fixou em 5,74%.
A dívida pública em percentagem do PIB está a baixar desde 2017.
Podia falar dos sucessos das exportações de saúde ou das frutas e legumes ou de outros índices particulares, mas vou começar a fechar este primeiro postal sobre o país. Não é minha ideia dar um ar de um país oásis, até porque no próximo post escreverei sobre serviços públicos, mas sim chamar a atenção para a economia real do país: a que emprega os portugueses desprovidos da segurança de trabalhar para o Estado e a que o sustenta e tem sido o motor do crescimento económico.
Teria gostado muito que a Iniciativa Liberal se deixasse de balelas demagógicas de meninos com espírito de associação de estudantes de liceu correndo para as portas dos Centros de Saúde e para o sensacionalismo e falasse antes do que lhe compete: saúde das empresas e economia.