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14/03/2024

Agenda ou mexerufada ou uma coisa assim

Está tudo bem. Muito bem mesmo. De facto ando bem-disposta e alegre, com facilidade em encontrar motivos de ânimo. Não preciso forjar sorrisos, acontecem-me. Talvez por isso tencione dentro de alguns dias afastar-me do blogue por tempo indeterminado – pode ser um dia apenas ou um mês, ou um período diferente, tudo vai depender das luas. Desta vez irei arejar por bons motivos. Poderia continuar sem grande mossa. A sensação é boa.


Apetece-me parar e ver a paisagem distanciada. Procurar recordar as várias pontas soltas que fui deixando nestes últimos anos. Em suma, voltar a fazer mais um intervalo para respirar e tomar fôlego como vem sendo hábito. Não devia contar isto por ser íntimo no sentido de estar no plano das intenções. Mas é tal qual acontece. Se conseguisse tempo suficiente fora talvez pudesse reescrever o que há a reescrever no primeiro Espanador e lançar-me no segundo Espanador, o tal europeu. Talvez as leituras de papel entrassem em melhor ritmo. E aquela ponta solta da História de Portugal? Quem sabe a possa inserir no dito Espanador. E há mais, mas fico por aqui. Teria de ler os postais sob o título Agenda para ver o que deixei ao dependuro – sempre achei esta palavra obscena; adoro.


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O que não gosto nem um pouco é da actualidade internacional. Só isso já seria razão suficiente para parar e pôr as ideias no sítio. O que está ao meu alcance? Dar banho ao Buda. Hoje sempre o enfiei no chuveiro para tirar o pó das pregas do barro. Sequei-o com uma pequena toalha e fotografei-o com ar de que sai da sauna. Ao lado o conjunto de pedras que reuni até agora – é um hobby conhecer os nomes e significados. Temo estar a exagerar na ambição, nunca fui coleccionadora à séria de nada. Gosto de passar pelas coisas ao de leve, mas as pedras tentam-me. O Nuno tem também no escritório uma caixinha com um conjunto de pedras quase igual, mais ou menos a mesma quantidade. Dividimos estes objectos pequeninos cuja beleza admiro.


O momento político nacional é efervescente e deixei de ter paciência para opiniões desonestas. É evidente que devemos coabitar e até incentivar opiniões diferentes, mas como já aqui disse várias vezes sou uma ditadora. É claro que brinco quando digo isto e acredito na liberdade de expressão: se a estupidez ou ignorância, por um lado, e a arrogância e espírito quadrado, por outro, me enervam, tolero-as com razoável desportivismo. Às tantas comungo das duas. Mas tolero mal a desonestidade. Há limites e enoja-me viver num país onde a desonestidade e a dissimulação parecem ser condição de sucesso. Onde se usa e abusa da selecção ardilosa de factos para criar narrativas mentirosas e nocivas com o ar mais angelical possível, ou arguindo créditos de competência, conhecimento e rigor para encobrir chusmas de retórica falaciosa. A inversão total da verdade. Onde se faz de conta que há lei e regra. Onde se faz de conta que há a mais pequena noção de critério e justiça. Quase já não oiço comentário político na televisão, procuro ler o menos possível nos jornais, tentando restringir-me às notícias, o que hoje é impossível. Ora se faço isso com a comunicação social e pura e simplesmente ignoro as redes sociais, por maioria de razão, devo abstrair também do mundo do comentário político nos blogues. Uma medida profiláctica. É possível que seja temporária, até pela tentação de cair nos mesmos erros e continuar a assistir ao recreio de trepadeiras sociais. Mas pelo menos por um tempo arejo, mudo de ares.


As atubras, as trufas brancas, fizeram sucesso entre colegas, surgindo trocas de ideias e receitas. A forma simples e ligeira como que as encaro, retirando o peso dos caprichos da moda, faz-me compreender o quão longe me encontro, com a graça do Universo, das grandes listas de ingredientes, das receitas com demasiadas substâncias ou nomes em voga e modos de confecção complicados, sobretudo se apresentados com o rótulo enganador de simples e rápido de preparar, dando aquele muito fabricado ar desinteressado de quem se quer valorizar à força toda. Tudo salpicado de fartos adjectivos a qualificar o resultado – não podiam faltar os auto-elogios da praxe nestas vogas gourmet do nosso tempo.


Para fechar a ideia de aprendizagem. Sempre ouvi dizer à minha avó e à minha mãe que morríamos estúpidos, no sentido de por mais aprendêssemos ficarmos sempre aquém. E sempre lhes conheci curiosidade e vontade de saber. Acrescento a esta ideia o objectivo de um balanço positivo entre nascimento e morte: para uma vida valer a pena deveremos aprender mais do que desaprender. Vem isto a propósito de um postal já antigo aqui da casa acerca de aproveitar o que nos possa servir de ensinamento até do lixo humano com que nos cruzamos. Há gente que não presta mesmo, mas ainda assim é útil. Talvez por isso nos tente. Gente que gosta da maledicência e que por isso nos dá a conhecer as intrigas palacianas que nos enjoam, mas precisámos não ignorar. Gente que delira dar o ar de inteligente e culto, por isso fuça até mais não para impressionar exibindo o conhecimento como quem atira à cara dos passantes todo o manancial estudado. É estar atento ao resultado. É usá-lo como eles fazem sempre que podem. É deixá-los fuçar nas lixeiras da vida onde adoram chafurdar por ser o mundo que têm por fascinante e com as pontas dos dedos espreitar e passar adiante. Tomar conhecimento. É tudo para quanto servem. E claro: enfiar as mãos, os dedos e a alma nas pessoas dignas, que nos merecem respeito. Mimando e apreciando o que vale a pena. Nem sempre é fácil a identificação do lixo, mas vem sempre ao cimo e vamos sempre a tempo de compreender. Morreremos estúpidos, mas um pouco menos do que éramos ao nascer.