Não devia. Não devia. Não devia. Mais cedo prometi a mim que não o faria. Mas não resisto. Estou cada vez mais desbocada. Faço lembrar aquelas tias mais velhas e solitárias de outrora que apanhando alguém a jeito toca de o massacrar com todos os pormenores desinteressantes dos acontecidos do dia. É assim a vida: a cada um dá para o que dá. Podia ser pior. Olhem lá se me desse para contar pormenores escabrosos inventados ou não da vida dos outros. Seria bem pior – sou eu a justificar-me. Mas é de mim e das minhas tristezas, alegrias, incongruências e aventuras que falo. Narcisa. Que maçada.
Pois, aconselhava o bom senso que não falasse da manhã de hoje nem dos devaneios e planos mais ou menos irrealistas. A sensatez – essa virtude que prezo, porém recomendada de modo funesto por figuras cada vez mais tenebrosas da nossa praça – imporia que tivesse algum recato e cautela. Afinal até as bruxas aconselham a não divulgar os nossos projectos sob pena de saírem gorados – claro que elas invocam aqueles duques e cenas tristes das invejas para nos protegerem de tão má-sorte.
Então lá fomos a Valadares e ali perto de estação ferroviária em obras por aqueles quelhos e becos demos com a modesta casinha que íamos visitar. Chegámos 25 minutos antes da hora prevista pelo que deu para ver a envolvência enquanto ora nos abrigávamos debaixo do guarda-chuva ora desanuviávamos sob o saboroso sol de fim de Inverno em dia de vento frio. A rua calcetada em paralelo mais ampla do que parecia no Google Maps, as casas despretensiosas, mas muito desiguais e desalinhadas como é típico no norte do país. A maioria com um ar mais sólido, desafogado e caro do que a “nossa”. O Nuno chamou a atenção de cada vez que eu dizia “nossa”. Manias, quando me interesso por uma casa – e foram cerca de três nos últimos dois anos -, passam a “nossas”, até ao ponto de temer enganar-me e dizê-lo à frente dos ainda proprietários. De modo que a nossa faz parte de um conjunto de duas pequenas moradias térreas, a do vizinho com uma frente de duas janelas rente à rua, a nossa do lado interior com acesso por um corredor e portão junto à rua sem passeio naquele pequeno troço. Também típico nas ruas de Gaia, num concelho que ainda não se decidiu se é urbano ou rural, ora há passeio estreito onde só se pode mover uma pessoa, ora numa nesga de metros abre em amplitude para logo a seguir virar valeta sem vestígio de intenção de passeio. A vantagem é que o ar que se respira alegra os pulmões, numa zona ponteada de forma desordenada por moradias, prédios com pouca altura entremeados de matas.
Na ponta do corredor lá no fundo a entrada para o pequeno quintal. Sessenta metros quadrados. E imaginem o que vi logo do lado de fora e não queria acreditar: uma nespereira da altura da casa. Ó gente, é um sinal. Então ando à procura de uma casa com quintal para pôr as minhas árvores, sendo a mais velha uma nespereira e chego lá e encontro uma parenta. Só pode. Tal como gosto o terreno não estava relvado, mas coberto de erva e duas ou três árvores pequenas. O difícil vai ser decidir o poiso da Japoneira e do Oliveira. A receber-nos um muito meigo cão rafeiro de pêlo preto - enquanto estivemos do lado de fora nem sequer ladrou demonstrando querer sim companhia e mimo. Disse-nos depois a dona ser um cão de rua que adoptou.
A casa em si, muito pequenina. À moda dos lares do Interior do país entra-se e logo pontua a cozinha, isto é, uma pequena banca com lava-loiça e placa eléctrica do lado direito, frigorífico em frente do lado esquerdo, mini sala em frente, casa de banho à direita, dois minis quartos do lado esquerdo. Tudo em menos de cinquenta metros quadrados mal cuidados. Isto é, a precisar de renovação. E a surpresa da casa (todas têm uma): um alçapão à moda da minha infância. Sim, no soalho um alçapão para uma divisão de cave com respiradouro. Imaginei logo em pensamento o jeito que poderá dar tempos de guerra ou catástrofe até ser acordada pelo vendedor que me ia dizendo poder ter algum proveito como arrumo. Desde criança que não abria um alçapão. Lembrei-me da segunda quinta da minha avó e da eira de Valinhas e da minha eterna falta de jeito para descer escadas de madeira de alçapões. Também recordei do jeito que dá ser mais pequenita para entrar pelas frestas das paredes de pedra da eira para abrir a porta aos mais velhos: em criança há que compreender as vantagens de ser mais novo. Resumindo, olhar para o alçapão deu-me uma sensação dúplice: a das boas memórias da infância e a mais prosaica de quem raio vai descer lá abaixo para fazer as limpezas necessárias até porque me pareceu sentir mau cheiro vindo dali. Mas os problemas não ficam por aí. Logo de fora, aliás já era perceptível nas fotografias da Internet vi que o telhado tinha telhas desencontradas e estava abaulado. Lá dentro no canto debaixo das ditas telhas a previsível mancha de humidade. O vendedor prontificou-se: caso haja interesse mandará lá alguém ver as traves secundárias da estrutura do telhado, já que deve haver partidas.
De modo que finda a visita despedimo-nos do vendedor com um aperto na mão – a dele segura num pulso com uma pulseira de olho-de-tigre, o que me fez simpatizar logo à chegada: um homem que usa uma pulseira assim não tem vergonhas nem manias acerca do que pensam de si – e o compromisso de ligarmos para a próxima semana.
![]()
Dali seguimos a pé para a praia. Três quilómetros ora à chuva ora ao sol pelos tais passeios intermitentes. Almoçamos um prego no prato frente ao mar e apanhámos o Uber para regressar a casa. A vinda é um outro agradável episódio desta pequena novela que hoje começou e possivelmente terminara na próxima semana de forma abrupta. Ou não, quem sabe? O motorista chamado Pedro nasceu na Ribeira do Porto há 33 anos e conta de si ter sido provavelmente um dos últimos a vir ao mundo com parteira em casa. Sem rodriguinhos nem lamurias contou como foi despejado da casa que o viu nascer pelo senhorio por quem demonstrou amizade e que consigo andou ao colo quando bebé: ó Pedro, eu não queria mas dão três e quatro vezes mais de renda que tu pagas, se não igualares vou ter de te despejar. E assim foi o Pedro viver para Espinho, antes de se mudar para a terra da namorada: a Madalena. E a propósito das doses dos almoços nortenhos falou-se da diferença para o sul e contou-nos que viveu em Lisboa para lá abrir a Casa do FCP. Naturalmente fiz o cumprimento cúmplice de portista e anunciei que ia um sportinguista no carro. Ah, pacífico, até gosto do Sporting e merecem ganhar este ano. Estes são os portistas, os conterrâneos, a gente que aprecio. Talvez por isso me tenha ofendido pela forma parva e desrespeitadora como há dois ou três anos alguns sportinguistas festejaram com raiva despropositada contra os adversários, nesses dias em que conversando com vários portistas concluíamos todos pelo mérito do Sporting para ganhar a Liga. Ainda me lembro de um portista me dizer: não leves a mal, eles sofreram muitos anos, isto é um escape. É por estas e por outras não tenho a menor paciência para agressividades e maledicência clubista. Mas não foi pelos futebóis que me engracei pelo nosso condutor Pedro. Contamos-lhe o motivo da nossa ida a Valadares e depois de alguns pormenores, aconselhou: também ando à procura de casa, mas tenho um grande amigo numa imobiliária que me diz para esperar dois anos pela previsível descida dos preços. Ora, bem diz o Pedro aquilo que venho a pensar nos últimos tempos. Talvez ainda seja cedo a menos que surja uma oportunidade de investimento.
Chegada a casa continuei a devanear tentando encontrar no IKEA mini móveis para a mini casa e fiquei a congeminar. Se nos decidirmos a arranjar um monte de obras, sarilhos e alegrias das duas uma: ou não fazemos proposta para não ofender, ou como negócios são negócios fazemos uma proposta bastante abaixo do valor pedido, de modo não haver perdas no investimento.
E foi assim que tive um dia feliz. Tudo pode ficar uma vez mais em águas de bacalhau, mas vou fazendo o caminho perseguindo os meus pequenos sonhos. E caramba, a casinha modesta é feiota mas tem alçapão e jardim já com uma nespereira. Além de mais corresponde ao ideal de localização de há muitos anos: perto da linha férrea e da estação e do mar. Chama por mim.