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30/04/2020

Estados Unidos

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The Palace of Fine Arts - San Francisco, Agosto de 1998.

Louis Armstrong - Kiss Of Fire (Driving Miss Daisy) (1989)

Nespereira

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Pois, lá está. Não sabes, mas eu explico: ela vai morrer. Não a podes deixar tantos dias sem água. Tudo na vida tem que ser cuidado e tens que tratar da planta se queres que cresça. Tudo na vida dá trabalho, minha querida. Devias ter optado pela buganvília, quase não requer água, perorava a Gabriela. Enquanto a Natividade se erguia do sofá com dificuldade para fechar as cortinas da varanda da sala onde a nespereira se ressentia do sol abrasador dos últimos dias. Só a regava uma vez por semana. Dava de beber à jovem árvore companheira e ficava a hora seguinte atenta a vê-la reerguer-se folha por folha. Sete anos antes confiara dois caroços de nêspera à terra do vaso e assim despontara o milagre de duplo mastro. Toda a natureza é feita de milagre, usava pensar. Como de costume decidiu não reagir. Sabia que inspirava nos outros o tom professoral e sobranceiro. Já a rego, disse secamente. Ai, Natividade, que tom desanimado. Tens que arrebitar. Nós, as mulheres, somos fortes. Isso das pieguices é com os homens. Vai à pê que te pê, não vales um cê e estás aí com sentenças, pensou a dona da casa para consigo. Mas disse apenas: se não te importas tenho coisas para tratar, falamos noutro dia. Estás a despachar-me? Perguntou a Gabriela, indignada. É isso, rematou a Natividade, com um sorriso bem-disposto e apaziguador na voz, acompanhando-a à porta.


(Setembro de 2018)

Passear

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Vamos a Ponte de Lima?

29/04/2020

Os alucinados e os sensatos

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Foram os imbecis, tresloucados, alucinados que há quase vinte anos alertaram para os crimes cometidos na Casa Pia, contra quem dizia: não, não, credo. Que horror. Vão-se tratar. Quando muito há miúdos mentirosos de vida sebenta que a troco de dinheiro denunciam abusos sexuais que imaginam. Com certeza os juízes que julgaram e condenaram os denunciados são todos tresloucados também. Devem fazer parte da cabala contra o partido.


Foram os tresloucados que há quase vinte anos começaram a alertar para as negociatas obscuras do Banco Espírito Santo. Devem ser alucinados que defendem as teorias de Terra Plana os que chamavam a atenção para facto do banco estar envolvido em toda a trafulhice possível, nomeadamente, em negócios com o Estado. Contra todos os que bradavam: é uma cabala de invejosos e gente esquisita com conversa de café.


Foram os alucinados que chamaram a atenção para o caminho sujo de corrupção em corrupção de José Sócrates e seus apaniguados. Para o endividamento desmedido e para o descalabro do País. Mais uma vez. Não, não, as vozes sensatas só viam horríveis julgamentos em praça pública.


São os alucinados do costume que chamam a atenção para o absurdo das negociatas da EDP com o Estado e para a soberba insultuosa do seu presidente. Malucos, só podem. É apenas o mercado a funcionar dizem os sensatos.


São os loucos do costume que estão a chamar a atenção para o excesso de autoridade venha de que quadrante ideológico vier. Já os sensatos só admitem se virem autoritarismo de um lado. É uma questão de perspectiva muito selectiva.


São os doidos que chamam a atenção para o lamaçal avassalador de informação e o sensacionalismo que empola a realidade e faz tábua rasa de todas as explicações lógicas para a realidade. Mas os sensatos não vêem sensacionalismos, só vêem realidade aterradora e recusam e ridiculizam qualquer explicação razoável para os diversos fenómenos.


Os sensatos foram bafejados pela sorte. A sorte da cegueira voluntária, de se manterem muito confortáveis a boiar na calmaria do mar sereno. A sorte de nunca verem nada do que se passa à sua volta, senão passados anos. E nessa altura são bem capazes de dizer: bem me parecia, bem que desconfiava, mas não me queria misturar com essa gentalha esquisita dos alucinados.


Como alguém me dizia outro dia, não vale a pena metermo-nos em frente ao comboio em andamento, é deixá-lo abrandar e ir calma e moderadamente chamando a atenção para os absurdos. Mas com franqueza, estou um pouco farta de levar com os insultos dos sensatos da treta que cobardemente continuam a preferir não ver a realidade.


*


Comentário do Nuno: se vais por aí vais perder likes. ;)

Almoço

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Come-se muito mal nesta casa. Um fastio, não queiram saber. Esta é a meia-dose de Rojões da Churrasqueira Portuguesa do Amial, vinda de bicicleta Uber (pergunto-me sempre como atravessam a VCI). Dá para almoço e jantar de duas pessoas e ainda deve sobrar para um arranjo qualquer para outro dia.

Estados Unidos

IMG_20200419_115202.jpgA caminho de San Francisco, Agosto de 1998.

28/04/2020

Nota avulsa

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Um apontamento a propósito de anedotas e de várias reacções negativas ao humor. É desolador acabar de contar uma anedota e vir alguém enfadado e muito lesto dizer: ah, essa é conhecida, é antiga, até é assim ou assado. Ai, minha gente, será mesmo preciso dizer que todos conhecemos e refazemos as mesmas anedotas há séculos e o que conta é brincar e descontrair? E mais estranho ainda é levarmo-nos muito a sério e não consentirmos que outros se divirtam. Vejo por mim, sempre que sinto que todas graças alheias me irritam e são perfeitamente imbecis chego à conclusão que o mal é meu, que acordei para o lado errado nesse dia. E mais, reconheço a menoridade de contar anedotas e sei que a ironia a bate aos pontos, só que tudo isso são convenções e o que interessa mesmo é safarmo-nos de bem connosco e com os outros. É preciso ser muito afortunado para prescindir do humor. Eu cá preciso dele como do pão para a boca. Do meu e do dos outros.


A associação que faço ao tema é da reacção negativa às sms de votos de Feliz Natal. Só os afortunados que recebem dezenas e dezenas de mensagens dessas é que se podem dar ao luxo de as ridiculizar. Quando há milhares de pessoas que davam tudo por receber uma única sms com os votos de Feliz Natal, uma que fosse. É a fartura minha gente. A fartura faz como que não se perceba o essencial.


Boa tarde. :)

Grandes questões

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Na semana passada cancelei a assinatura digital do Correio da Manhã. A partir do início de Maio entra a Calamidade (imagino sempre um precipício quando leio a palavra) e deixo de ter acesso. Na verdade até ao fim de Maio ainda tenho acesso a todos por outras vias, mas façamos de conta que não. Já não me lembro bem quando subscrevi o CM. Julgo que foi após o Verão de 2016, mas não estou certa. Pronto, sei. Com esta revelação acabei de perder metade da mão-cheia de generosos frequentadores desta casa. Agora coloca-se outra questão: que jornal subscrever? Ando indecisa entre o Público e o Observador. No Público levam as coisas mais a sério e dão-se ao trabalho de pensar e tudo, mas são uns chatos, cada vez mais chatos e dogmáticos. No Observador há um punhado de gente com graça e uma profusão de engraçadinhos esforçados sem um pingo de piada, e uma ou outra avis rara culta e educada, mas o certo é que está cheio de questiúnculas, infantilismo e ressabiamento.


Enfim, quero aprender qualquer coisa e fico como o tolo em cima da ponte: ou aturo o tédio do Público ou a mesquinhez do Observador. E estamos nisto. Nesta encruzilhada, só para escolher os três ou quatro artigos ou crónicas que leio por dia. Uma canseira. Ele há vidas difíceis.

Ler

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Os tempos da pneumónica, de António Araújo no Malomil.

O calhau

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Na pequena aldeia perdida no universo todos acreditavam que a pedra caída do céu era amaldiçoada. Desde que irrompera da abóbada celeste, rasgando a atmosfera e enterrando-se a meia altura no solo com estrondo ensurdecedor, era tomada por todos como causa única dos problemas dos aldeões. Todos, desde os grandes dramas aos mais pequenos dissabores. A rocha não fizera mais do que existir, como todas as outras pedras ao longo dos milhões de anos do universo: existir e despegar-se do resto da matéria, o que aligeirando as coisas é criar vida. Calhou ser ali e calhou ser um calhau. Só que os aldeões não viram ali vida, mas morte. A morte das batatas. O início de toda a tragédia. O facto é que os reais estragos foram pouco além da mata fanada de pinheiros e eucaliptos, da leira de batatas e da horta do tio Venceslau. O pedregulho, a que ele chamava casa da música, por ser a coisa mais parecida que viu numa ida ao Porto com o absurdo que caíra na horta, tinha a dimensão da dita e o mais que criara, além de todo o alvoroço, fora a impossibilidade de acesso às batatas. E ao cebolinho, e à alface, ao feijão-verde, às cenouras. Enfim, uma infinidade de coisas que o mundo para lá da tabuleta que diz Lama não vê senão no supermercado, na despensa ou no frigorífico.


Mas se o problema não era de grande monta senão para o tio Venceslau que ficou sem rendimento, o caso agravou-se quando a Julinha, que distribuía o pão pelas aldeias em redor, espalhou a notícia da maldição da Lama. Dada às bruxarias, a Julinha asseverava que numa noite de nevoeiro foram avistadas almas penadas em redor da pedra e que na manhã seguinte a terra que a rodeava começou a amarelar, transformando-se em areia, como aquela que o tio Venceslau tinha visto na Foz do Douro. E que a Julinha em nova também vira nessa coisa das praias. Nas quais, apesar de não viver assim tão longe mar, há anos não botava os pés. Ainda assim estranhava que ali, logo naquela terra tão farta em água que todos queriam drenar e afastada do mar salgado secasse de forma tão repentina. De tal forma que, algumas noites depois, vira peles das cobras largadas na superfície da pedra. Elas conhecem o seu senhor, dizia a Julinha. As serpentes rendem-se sempre ao diabo.


Começando a correr o boato que a terra da Lama era seca e fora amaldiçoada desde que lá caíra o pedregulho, as aldeias vizinhas começaram a cavar um fosso nos seus limites. Um sem-número de questiúnculas sobre a propriedade dos terrenos e as marcações do território da freguesia foram levantadas, ao ponto do Casimiro abrir a cabeça com a sachola à tia Jacinta, por lhe roubar três metros de terra para fazer o fosso. E foram elevadas a grandes questões de discussão outro sem-fim de bagatelas sobre os melhores métodos de construção e financiamento da vala. Assim ficou cercada a Lama apenas unida ao resto do universo por uma ponte dissimulada por uma benemérita da aldeia contígua para que levassem gasóleo até à Lama ou de lá saísse algum aldeão doente para o hospital. Sucede que a artimanha da benemérita Ana, uma espécie de ponte levadiça feita de um reboque de tractor que se estendia até à outra margem, foi denunciada por zelosos vizinhos e logo incinerada em sinal de total repulsa pelo crime lesa-majestade de pôr em risco o resto do universo.


De imediato alguém propôs levar a questão ao tribunal da cidade. Decorria o julgamento e já a acusação contra a Ana era a de ter trazido para o lado de cá do universo a secura amarela da terra. Fotografias fizeram prova. Imagens de areia nos campos da Ana, junto ao local onde estacionara o tractor com o reboque. Vejam, ainda há marcas dos rodados. Vejam, vejam, aqui estão as marcas do ultrajante tractor, perorava o advogado das vítimas, que se tinham constituído como assistentes depois de formarem a associação dos lesados da Ana. Do outro lado, o estagiário defensor oficioso da benemérita trouxe dezenas de fotografias que provavam cabalmente que toda a terra do concelho se tinha amarelado e feito areia em data muito anterior ao engendrar da ponte encoberta e até do próprio fosso. Mas a prova foi considerada nula por não haver registo de autorização das imagens por parte dos proprietários das terras fotografadas. Ora é sabido que isto das leis é assunto muito sério e há valores intransponíveis como o direito à imagem das terras.


A dactilografar os testemunhos das longas sessões de julgamento estava a Joana que era prima da cunhada de um repórter da televisão. Ao contar-lhe a história, logo o dito achou que tinha encontrado o filão da sua vida. E tinha. No dia seguinte, o jornal do canal de televisão para que trabalhava abriu com a fronha ainda espantada da Ana acompanhada pela leitura sibilada do pivot: mulher de cinquenta e quatro anos acusada de propagar a desertificação do concelho de Ribeira da Fraga aguarda sentença. E lá estava o repórter a entrevistar toda a vizinhança da famigerada benemérita malfeitora, incluindo o primo da Julinha, que era nascido e criado na Lama, mas para aqui tinha vindo viver por casamento. O ambicioso repórter quis saber mais sobre a pedra amaldiçoada. Pediu ao primo que ligasse à Julinha e lhe passasse o telefone. E assim foi.


Sucede que a Julinha, tal como parte substancial dos aldeões da Lama, tinha ensandecido com o correr dos meses, farta do estafermo do fosso e de ninguém se dignar sequer a telefonar mesmo quando nasciam ou morriam na Lama familiares e amigos de gentes de outras aldeias. E começou então alucinada a contar ao repórter que se abrira um buraco na terra duas vezes o tamanho da casa da música do tio Venceslau e que o diabo espichava serpentes e lama de fogo como um vulcão daqueles que a gente vê na televisão. A lava principiou a alastrar poucos metros à volta da pedra, mas dia após dia ia um pouco mais além. O jornalista, que tinha deixado de tomar os antidepressivos por não assumir a doença, começou a ver fumo branco a surgir do lado das terras da Lama e com a excitação caiu redondo num sono de vários dias. Não sem antes enviar uma mensagem à namorada por whatsapp: avisa o chefe que vem aí o fim do mundo: depois de amarelar e se tornar areia, a terra vai arder. No dia seguinte o jornal da noite abria com a imagem da divertida fronha benemérita, que já estava por tudo, e o pivot a anunciar que o estado iria exigir em tribunal uma indeminização à causadora de tão grave crise ambiental.

27/04/2020

Estados Unidos

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A caminho de Las Vegas, Agosto 1998.

Vira o disco

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e toca o mesmo: a soberba.

Passear

Vila Real.pngVamos a Vila Real?

26/04/2020

Concerto Pour Une Voix-Saint Preux; Be-Neil Diamond; Only You–Yazoo por Nuno Guerreiro da Silva


 

Registo telegráfico

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(em fotografia.)

Rindo

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Anteontem enviaram por WhatsApp o vídeo que me fez soltar umas das gargalhadas mais sonoras deste fim-de-semana. Não o posso exibir, mas conto acaso não conheçam. É um alegado comunicado dos psiquiatras alemães e reza assim: como estamos a ser inundados de telefonemas queremos comunicar que em tempo de quarentena é perfeitamente normal os senhores falarem com as paredes, as flores e outros objectos…


...por favor só nos telefonem se eles responderem.

Leiam, sff

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Foto de Miguel Silva.


«Estão a decretar a sentença de morte aos maiores de setenta.», a entrevista a Maria do Rosário Gama, no Sol.


«Até ao momento em que não se pôs a hipótese do confinamento ser sem tempo limitado, as pessoas aceitavam, porque a situação é complicada, não só para quem tem 70 anos como para as outras. Mas quando a senhora presidente da Comissão Europeia veio falar, no domingo de Páscoa, que as pessoas com mais de 70 anos deveriam ficar em casa até haver uma vacina tudo mudou. Como não houve propriamente uma demarcação feita pelo primeiro-ministro, as pessoas passaram a ficar muito mais angustiadas.»

Kings of Convenience - Freedom and Its Owner


(a descoberta do dia; noruegueses.)

El Condor Pasa - Paul Simon & Garfunkel


(ainda havemos de lá ir.)

25/04/2020

Efémeras

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*


Vozes


efémeras


as que se mantém


sempre à tona,


constantes -


surdas à razão -,


do lado do poder


seja ele qual for


e a que preço for.


 


Apartadas


das vidas passageiras


as que conhecem


o sabor e as dores


da liberdade,


e o seu reverso.


Trazem-na vestida,


colada à pele,


suada e esfolada.


 


Distintas


das vidas atentas


à corda jactante


da força que estica


e volta a esticar;


e avisam –


se ainda há um pingo


de decência:


é tempo


de arrepiar caminho.


Que esse trilho


de desfaçatez


está minado,


não por quem levanta


a voz de alerta,


constante 


- e como de costume


é enxovalhado e acusado


de fascista –,


mas pelos calados,


sentidos


e fartos de ser


aldrabados.

Herberto Helder

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Os Passos em Volta.

24/04/2020

Ninharias

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*


Pela vida encontrei sempre quem me dissesse: isso não chega. Quando falava da sorte do aconchego de um edredão macio e quente, do apreço pelas boas palavras e gestos gentis, do canto dos pássaros, havia sempre quem me dissesse: isso não chega. É hora de dizer aos bons amigos que vivem sôfregos à procura de reconhecimento, de um sentido na vida ou o diabo que o valha, que um pássaro que nos segue saltitante durante duzentos ou trezentos metros, sem pedir nada em troca, vale mais do que qualquer reconhecimento ou sentido da vida. Ainda que não percebamos muito bem porquê. E isso chega.

O indizível

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Devemos denunciar o bando que por aí anda de crentes num sol a girar à volta da terra e que só afirma publicamente que é a terra a fazer a rotação por mera conveniência. O argumento usado – de que só um estúpido se comporta da mesma forma em privado e em público -, serve de mero pretexto para ajudar a despachar para a fogueira quem não se coíbe de relatar factos que por cretinice, cobardia e calculismo esta gentalha quer esconder.


Obtusos com discurso público assente num fino verniz que serve apenas para manter o estatuto social e material ou a ele trepar. Para singrar à custa do que não se pode dizer.

Passear

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Vamos a Castelo Rodrigo?

23/04/2020

A bel-prazer

 


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LES DROITS DU LECTEUR

 

 

Le droit de ne pas lire.
Le droit de sauter des pages.
Le droit de ne pas finir un livre.
Le droit de relire.
Le droit de lire n’importe quoi.
Le droit au bovarysme (maladie textuellement transmissible)
Le droit de lire n’importe où.
Le droit de grappiller.
Le droit de lire à haute voix.
Le droit de nous taire

 

 

Daniel Pennac

 

 

(recomendação do Ricardo Álvaro.)

Tílias - Brilho e Falsidade

sem nome.pngOuve o que te digo, Quinta. Presta mais atenção aos actos, gestos e impulsos dos homens do que ao discurso. Brilhantes dissertações floreadas escondem não raro verdadeiros facínoras. Dos que não olham a meios para com a maior desfaçatez e falsidade corromper e destruir tudo o que de decente há na vida. A troco de reputação, a troco de nada.

Grand Canyon

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Grand Canyon, Arizona - Estados Unidos, Agosto de 1998.


 


(fotografias de fotografias de máquina convencional.)

Blitz - Cruel, Cruel Esquizofrenético Blues

Blitz - O Romance Da Universitária Otária

Blitz - Volta Ao Mundo

Manhãs

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*


Ontem e hoje de manhã, a caminho do trabalho. Dias de excepção.

22/04/2020

Cravos & Máscaras

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Do grau de infantilismo da argumentação de Ferro Rodrigues.


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Mãe - Filho larga os cravos, faz a cama e arruma o quarto, são quatro da tarde.
Filho - Mãe deixa-me brincar mais um bocadinho, por favor. Tu não gostas de mim, não gostas, nem das flores. És má. Fascista!


*


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Filho - Pai tens que usar a máscara.
Pai - Pensas que eu sou palhaço, ou quê? Achas que isto é o Carnaval? Mandei vir isso para criadagem que nos serve. Todo o cuidado é pouco. Essa gentinha que anda nos autocarros ainda nos contagia.

Cesaria Evora - Estanhadinha

Apontamento

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Registo que ontem aproveitei o bónus do Imprensa Nacional e li a Clepsidra, de Camilo Pessanha. De enfiada. Em rigor, comecei pela introdução anteontem. O milagre - além do engenho e da precisão milimétrica -, é não dar conta (não sei se já tinha dito, mas adoro estas expressões) que passou um século. É tudo tão familiar. Nos próximos dias tenho que voltar lá. E nos próximos meses e anos, para limar umas arestas.

Política e Covid-19

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Apesar do SNS não ter colapsado - o que deu um certo élan ao Governo -, há muito trabalho a fazer.

Nestes tempos Rui Rio deveria estar a denunciar todos os erros do governo e a exercitar o juízo crítico sobre outros órgãos de soberania (que não os tribunais, o seu cavalo de batalha em tempos normais) e demais organismos públicos. Sendo um homem de números era bom que se tivesse manifestado quanto aos dados estatísticos apresentados diariamente pela DGS e mostrasse estar ciente das dificuldades dos médicos ou dos organismos regionais, nomeadamente, em actualizar os dados (já não falo da leitura dos ditos que essa é outra história a ser contada por alguma alma de boa vontade daqui a alguns meses). Era bom que percebesse e apontasse as incoerências ocorridas em mais do que um momento. Igual raciocínio para a rocambolesca recomendação das máscaras. Deveria também ter-se manifestado sobre os atrasos injustificados de testes em determinadas regiões do país, denunciados por autarcas. E tomado nota da situação arrepiante nos lares e verificasse se foi (e é) feito tudo quanto era possível para salvar as vidas dos nossos mais velhos. Esta deveria ser a prioridade das prioridades. E que constatasse que mais depressa se demonstrou preocupação com os reclusos. Em rigor, a preocupação não foi com eles. Não me parece que o governo tenha consciência - ou queira ter - das condições em que passam a viver os reclusos depois do indulto. Mas é muito bonito a senhora ministra dizer ao Ricardo Araújo Pereira que é uma exigência de um estado decente. A opinião pública fica desvanecida com tanta decência do governo. Tal como ficou quando a senhora ministra (por quem até tinha simpatia) explicou que a razão do afastamento da anterior PGR (para surpresa da própria) foi o entendimento quanto ao limite de número de mandatos; há sempre um grande argumento de substancia ou de forma a desviar-nos da perigosa caminhada no sentido do razoável e do bem comum. E para terminar deveria ter dito o que pensa (bastaria isso) sobre a celebração do 25 de Abril no momento em que milhões de Portugueses estão a ‘atrofiar’ (desculpem o termo mas aqui parece-me adequado) fechados em casa. Estou certa que RR pensa que é um absurdo. Tenho pena que não o diga.

Podia fazer tudo isto sem por em causa a unidade nacional nem o escopo do bem comum. É patético confundir oposição com deslealdade ao desígnio nacional. Mas, claro, a ideia convém muito a quem nos governa e à mentalidade dominante, que faz questão de festejar em tempo de estado de emergência uma peculiar e restrita forma de liberdade e democracia. Ao nível do bailarico, vá.

Mas como Deus escreve certo por linhas tortas, o caminho que RR está a seguir deve ser o que agrada aos portugueses. Quanto mais não seja porque a comunicação social abriu caminho depois de sensibilizada pelo elogio externo, que como se sabe é o mais alto certificado de confiança que qualquer português pode almejar.

De resto: nada de novo, nada que não esperássemos. Destes pantomineiros que se acham proprietários do condomínio de acesso reservado que é para si a dupla liberdade/democracia. Pequeninos, medíocres, mas cheios de si. Mais habituados a governar-se do que a governar. E uma comunicação social condicente.


(comentário no Delito de Opinião, com ligeiras adaptações.)

21/04/2020

Recomendações

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A acatar ordens. Muito bem mandada. Não há cognac brandy, mas arranjou-se um medronhozito algarvio dado pela sogra (da fama já não me livro ).

Sydney

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Novembro 2002.

20/04/2020

Livros - Imprensa Nacional

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Livros disponíveis gratuitamente na Imprensa Nacional. Um por semana.

Os meus mais velhos

batom.jpgNão me conheço senão cativada pelos meus mais velhos. Como trazê-los à luz respeitando a memória ao mesmo tempo que lhes tento fazer jus? Recordando alguns traços, momentos, expressões felizes ou tristes porque a humanidade é feita disso mesmo. Do erro, do defeito ou tão só da falta de jeito que inunda a alegria, a bondade e a sabedoria. Os meus mais velhos têm todos pelo menos mais cinquenta anos do que eu, pelo que todos poderiam ser meus avós. Gente que me deixou perplexa, bem-humorada, cerimoniosa, encabulada, enternecida e tanto mais.


Reuni cerca de uma dúzia, mas para as comezinhas e por enquanto fica apenas uma. A excêntrica amiga octogenária que encontrei aos quinze anos no Café Glass, junto ao Liceu. Uma amizade que hoje se diria improvável. Três vezes viúva, o que por si é grande vida. Tratava-a respeitosamente por senhora dona Carmen. Do primeiro marido não rezava a história, ou se rezava esqueci os versos da oração, o outro era embarcadiço da marinha mercante e do terceiro o mais importante a reter é que também não lhe sobreviveu. A esta prudente distância de trinta anos sobre o relato pergunto-me se terão morrido de amor ou de espanto. Tinha uma pele alva e sedosa, retocada de pó de arroz, como as senhoras do seu tempo costumavam usar, batom não muito carregado e cabelo cuidado apanhado no cocuruto. Apoiava-se na bengala até chegar à mesa perto do balcão e as primeiras palavras que me dirigiu foram mais ou menos estas: reparei que pediu lume naquela mesa ali. Sabe, não devemos depender dos outros, devemos ser independentes. É para si, este isqueiro é para si. Estendeu-me a mão com o isqueiro bic com bonecada alusiva ao último mundial de futebol - o de 86 no México. Da última vez que a vi disse-me que iria viver para o Canadá para casa do filho. Imagino-a a diluir-se na neve e como quem não quer a coisa - e para fortuna deles - a deseducar os netos, devolvendo alguma humanidade a terra de tanta virtuosidade.

Passear

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Vamos ao Caramulo?